But... I Love You
1 Capítulo 1 - Recordações
Eu não sou boa lidando com memórias. Ainda mais memórias de infância: são turvas e incompletas. E quando há sentimento envolvido... Pior ainda.
Eu era pequena quando conheci o amor pela primeira vez – na verdade, primeira e única. Conheci de um jeito ingênuo, mas que com certeza marcou a minha vida. Ainda mais por não ter sido correspondido.
Foi no primário, eu me lembro. Durante o intervalo ou antes das aulas começarem, eu sempre o via. Ele era alto, tinha olhos verdes, cabelo aloirado – sempre com gel e topete. Dava para ver logo de cara sua vaidade: ele estava sempre de óculos escuros e costumava se arrumar com frequência enquanto usava um espelhinho de bolso. Eu sequer sabia seu nome, mas passei a observá-lo todos os dias, e acabei me encantando pelo jeito dele.
Foi assim durante meses. Eu achava que aquilo não tinha o menor sentido, por isso demorei até comentar com alguém. Tentei parar de olhá-lo sempre que tinha tempo livre, mas eu acabava olhando-o involuntariamente. De tanto tentar e não conseguir, resolvi comentar com alguém sobre ele. Perguntei a opinião de uma amiga, como quem não quer nada... Lógico, não contei o que sentia. Mas talvez eu não devesse ter comentado nada; essa garota o achou lindo, assim como todas as outras com quem ela conversou sobre ele depois. Em menos de um mês o garoto se tornara um dos mais populares da escola. Era como se toda garota gostasse dele, e aquilo me irritava. Elas não sentem o que eu sinto, eu pensava. Mas o que exatamente eu sentia?
E então, em um dia comum de aula, eu descobri o nome dele. Era fim do período. O sinal havia batido e eu estava no banheiro quando uma garota alta, morena e com o cabelo vermelho escarlate me encarou. Quando tentei sair, fui barrada por ela. Era uma veterana, e parecia particularmente incomodada comigo.
– Eu não sei o seu nome – ela disse -, mas sei que você e suas amiguinhas não param de babar no Ronald. Vou avisar só uma vez, pirralha: ele não está nem aí pra vocês. Fui clara?
A emoção em finalmente descobrir o nome dele me deixou sem resposta – sem contar o medo daquele aviso tão amigável. Mas depois daquilo eu parei para pensar se ele realmente não se importava conosco. Digo, não conosco, comigo. O que ele pensava das marias-vão-com-as-outras não fazia diferença.
Intrigada com aquela questão, Thally – a garota que o tornou popular acidentalmente – e eu fomos falar com o irmão dela, que não só estava na mesma turma que Ronald como era bem próximo do tal. E foi falando com ele que meu coração, tão bobinho, se desiludiu:
– Ronald sempre foi popular, e agora é mais do que nunca. Mas ele nunca deu bola pra isso, Mel. Ele só tem olhos para Taty, a amiga de infância que nunca gostou dele. Triste, não é?
Tristíssimo, amigo.
– Mas parece que Taty está começando a sentir alguma coisinha por ele, sei lá. — O garoto completou.
Apesar de saber que o coração do menino pertencia a outra, meu coração teimoso continuou insistindo nele. Passei mais um ano esperando que algo acontecesse, que ele me notasse por milagre ou algo do tipo – embora as vezes eu achasse que ele já sabia da minha existência –, até que ele foi transferido para outra escola. Segunda decepção.
Uma história muito fofa de um amor puro e ingênuo. Uma história que deveria ter ficado na lembrança e mais em nenhum lugar.
Deveria.
*
Muito tempo passou até eu conseguir entrar na tão almejada Mr. Ly Academy, o colégio renomado da minha região. Eu estava decidida a focar nos meus estudos, mas qual foi a minha surpresa ao vê-lo ali, dentro do colégio, no primeiro dia de aula.
Ronald estava com a camiseta do uniforme e bermuda jeans. O cabelo continuara o mesmo, loiro e com um topete intocável, mas havia algo de diferente: ele estava com barba. O tempo realmente passou... Mas então porque me senti tão perdida novamente? Era como se tivéssemos voltado no tempo, pois o que eu sentia estava ali novamente, intacto.
Vê-lo ali me tirou de mim. Fiquei parada na entrada do colégio sem reação nenhuma. Os outros alunos me empurravam enquanto tentavam passar. Ronald estava conversando com seus amigos e possuía o mesmo sorriso acolhedor de sempre, além do mesmo olhar descontraído. Olhar esse que foi se desviando, desviando... Até encontrar o meu.
Tum... Tum... Tum, tum... Tum, tum... Tum, tum, tum tum tum...
Meu coração pirou. Instintivamente olhei para outro lado. Senti meu rosto corando. Não consegui sair do lugar, então tentei disfarçar mexendo na minha mochila.
Então, ouvi passos.
Era ele.
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