But... I Love You
21 Capítulo 21 - Expressão
Notas iniciais

Minha mente estava tão cansada que não ouvi o despertador. Minha mãe havia saído para ir na feira, portanto não me viu perdendo a hora. Não tive escolha, a não ser faltar. Confesso que não achei isso de todo ruim, uma vez que não queria encarar a situação que, cedo ou tarde, teria que resolver.
Porém, acordar com um SMS do Théo me surpreendeu mais ainda do que notar que havia perdido a hora. O que ele queria? Desde a noite do baile eu sequer o vi e, apesar de não tê-lo visto, sempre tive em mente a raiva que ele estava sentindo de mim. Era impossível esquecer sua expressão cheia de amargura e ressentimento após ter presenciado minha dança com Ronald. E então, inesperadamente, eu recebo um SMS dele dizendo que precisa falar comigo... Pessoalmente!
Eu, Melody Park, sou uma pessoa extremamente ansiosa. Esse SMS me intrigou tanto que eu não consegui fazer nada direito durante o dia. Por mais que eu tentasse me concentrar em outra coisa, a pontinha de curiosidade que se escondia no meu inconsciente gritava para me tirar o foco. Ainda assim, revisei algumas matérias e “assisti” a um filme de ação – péssima escolha, diga-se de passagem. Considerando as circunstâncias, era de se prever que eu não conseguiria me concentrar. Ainda mais em um filme de ação, um gênero que não me atrai nem um pouco.
Saí de casa meia hora antes do horário estipulado, comprei uns doces em um mercadinho no caminho e segui para a praça. Cheguei na fonte por volta de 17:35 e, para minha surpresa, ele já estava lá.
— Você chegou cedo. – Ele me recebeu.
— Nem tanto. – Dei um meio sorriso – Você já está aqui...
Théo corou. Vê-lo corar estava se tornando algo mais comum do que o normal.
— Te chamei aqui para conversar sobre a Taty. – Sua voz apresentava um tom forçado de formalidade – Ela apareceu ontem lá em casa.
Théo estava sentado no banco que fica no entorno da fonte. Ele estava calmo e relaxado, e contou-me essa novidade com uma naturalidade espontânea. Depois de ouvir suas palavras, senti necessidade de sentar também.
Vendo que eu não diria nada, Théo continuou:
— Ela estava com o emocional abalado. Confusa e chocada. Foi um tempinho depois das aulas acabarem... Creio que ela tenha ido direto do colégio para a minha casa.
— ... Como ela sabia o seu endereço?
— Eu contei para ela onde eu moro, na noite do baile. Mas contei de uma maneira tão superficial que só acreditei que ela tinha conseguido me encontrar quando abri a porta de casa e a vi.
Senti uma vontade repentina de me jogar na fonte para ver se, de alguma forma, eu refrescava a minha mente e processava as informações. O que diabos a Taty foi fazer na casa do Théo?
— E Thomas? – Fazendo outras perguntas, eu fugia do que mais queria saber.
— Trancado no quarto, revisando matéria. – Ele disse, com indiferença – Bom, Taty me contou que vocês conversaram. Aliás, ela me contou o que vocês conversaram. Tudo.
— E como ela reagiu a tudo o que eu contei?! – Eu praticamente cuspi as palavras no Théo. A necessidade da resposta era maior do que a minha velocidade para proferir a pergunta.
— Eu disse que ela estava abalada. Apesar disso, ela não deixou transparecer se está com raiva de você ou não. Para falar a verdade, ela sequer deixou transparecer se acreditou ou não nisso tudo.
Olhei para o chão da praça. As dúvidas continuavam.
— Não conseguimos terminar a conversa. – Eu disse – Vamos terminar quando ela estiver mais calma... Ainda preciso contar do baile para depois...
— Eu já contei.
Silêncio. Observei sua expressão séria, firme.
— O quê?! Como assim, Théo?
— Ela, inconscientemente, já sabia. Só estava procurando forças para ouvir da sua boca. Melody, ela já está sofrendo para lidar com tudo isso. Para que esperá-la se recuperar e fazê-la sofrer, tudo de novo?
— Ela quis assim! – Meu sangue, que há alguns segundos parecia ferver, foi esfriando. – Eu não tinha escolha, Théo...
Senti meus olhos lacrimejarem e voltei o olhar para o chão. Por que eu estava quase chorando? Eu não tinha esse direito, não é mesmo? Não era eu a vítima ali; era Taty.
— Como ela reagiu? – Perguntei, segurando o choro.
— Ela chorou... Mais. – Ele ficou quieto, depois acrescentou – Porém não demonstrou surpresa nenhuma.
Eu não disse mais nada. Estava perdida em meus pensamentos. Aliás, quais pensamentos? Eu não sabia o que pensar. Como eu resolveria aquela situação? Eu não sabia o que seria pior: Taty acreditar em mim, ou pensar que tudo era uma grande mentira.
— Olha, Melody... Eu realmente não sei dizer se ela acredita ou não em tudo o que você disse. – Ele respirou. – Mas eu acredito.
Minhas lágrimas congelaram, e ele continuou:
— Sabe, no começo você tinha raiva da Taty por não conhecer o lado dela nessa história toda. Sinto que o mesmo aconteceu comigo quando te vi beijando aquele cara, só sabendo a visão de Taty sobre tudo isso. – Mesmo não olhando para seu rosto, o ouvi lubrificando os lábios para continuar a falar – Você gosta dele desde pequena, Melody. Você não é a errada de tudo isso, muito menos Taty. Ao meu ver, ninguém está errado. Talvez você devesse ter contado tudo para ela desde o princípio, mas eu sei como a insegurança sobressai nessas horas. – Ele fez uma pausa – No fim... Acho que te chamei aqui para tentar consertar as coisas que eu disse na noite do baile. – Levantei o olhar até encontrar o dele – Eu realmente gosto de você, mas isso não quer dizer que você tenha que me corresponder, não é? – Ele riu, um riso nervoso que eu também já conhecia – Digo, não tem porque eu me irritar e acabar com a nossa amizade só porque você não notou o que está estampado na minha cara com letras garrafais em verde-esmeralda. – Eu sorri – Muito menos porque você gosta de outro cara. Mas naquele dia, sei lá... Eu queria muito estar ali contigo, mesmo que só dançando. Acabei descontando minhas frustrações pessoais e explodindo de um jeito ridículo. Me desculpa, Mel. Sério, cara.
Théo não desviou o olhar nem por um segundo. Ele estava firme, e esperava uma resposta. Depois de ouvir tudo, continuei a encará-lo. Ficamos nos encarando por alguns segundos, um silêncio que só não era total graças ao barulho da água que caía da fonte.
E então, aconteceu.
Acabamos perdendo o controle e caindo na risada.
— Você riu primeiro, hein? – Ele disse, tempo depois, ainda rindo.
Eu parei de rir antes dele. Assim que ele parou, acabamos nos encarando novamente.
— Você já pode falar algo, Mel. – Théo demonstrava ansiedade.
E sem entender o porquê, de súbito, eu o abracei. Senti uma necessidade gritante de fazer aquilo naquele momento. Eu não pensei, simplesmente fui. Théo, de cara, ficou desorientado; fora pego de surpresa. Mas após alguns segundos, me abraçou de volta. Ficamos um tempo assim até eu notá-lo tentando se soltar, como se o abraço tivesse acabado. Porém não o soltei. Ele percebeu e voltou a me abraçar. Ficamos assim por mais um instante.
— Ahn... Mel? Você pode me soltar agora.
Era como se meu corpo não me obedecesse. Ou, talvez, ele estivesse obedecendo ao meu inconsciente, que me dizia para não soltá-lo. Eu não queria soltá-lo. Nunca mais.
— Eu não quero perder você, Théo. – Eu estava agindo sem pensar, mas me sentia aliviada por cada palavra dita. Há quanto tempo aquilo estava preso dentro de mim? Eu nunca havia notado.
Senti seu rosto se afogando em meu cabelo enquanto ele aprofundava mais o abraço. Me senti culpada. E se ele interpretasse aquilo de maneira errônea? A última coisa que eu queria era machucá-lo novamente, mas... Eu estava com saudade.
Nossos braços foram se afrouxando e logo nos encontramos, rosto a rosto. Face to face. Estávamos próximos a ponto de sentirmos a respiração um do outro.
Eu não estava entendendo.
O que eu sentia por Theodore Silver? Nunca dediquei tempo suficiente pensando nisso para conseguir uma resposta válida. E talvez, naquele momento, no meio de tantos problemas, aquilo só piorasse tudo. Mas talvez aquilo fosse a resposta que eu estava procurando. Resolvi não hesitar. Mergulhei em seu olhar e me deixei levar.
Lembrei que quando estive com Ronald ali, naquele mesmo lugar em que estava com Théo, eu havia virado o rosto. Mesmo gostando descomunalmente de Ronald, eu não o beijei. Talvez porque ali fosse o lugar certo, mas Ronald; a pessoa errada.
— Isso não está certo. – Théo disse e se afastou.
“??????????”
Eu estava corada, não sabia onde enfiar a cara. “Não está certo”? O que o fez pensar aquilo? O que ele estava pensando de mim? Provavelmente que eu o estava iludindo, que eu estava sendo egoísta por querer beijá-lo depois de ter beijado o dono do coração da minha amiga. Théo, por favor... Não pense assim.
— Não está certo? – Consegui perguntar.
— Pois sim. – Ele respondeu, olhando para um ponto fixo atrás de mim, e não para os meus olhos. – Não está certo... Nada disso. Foi desse jeito que eu beijei a Taty ontem.
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