But... I Love You
20 Capítulo 20 - Peso
— Você precisa saber de muita coisa, mas não aqui.
A expressão de Taty só tornava as coisas mais difíceis. Ela não chegava a me condenar com o olhar, mas eu sentia que ela finalmente havia se dado conta de que algo estava errado comigo. Não, mais que isso: ela estava tentando negar para si mesma algo que talvez já tivesse conhecimento dentro de si.
Cada segundo restante de aula me torturou profundamente. Me concentrei o máximo que pude nos estudos, afastando da minha mente o que aconteceria depois que o sinal tocasse.
E, enfim, ele tocou.
Nós arrumamos nossos materiais e descemos as escadas. Juntas, mas em silêncio.
Taty olhava para o chão, extremamente quieta. Seu longo cabelo cobria o rosto, impedindo-me de vê-lo. Seus passos estavam firmes, porém forçados. Ela estava visivelmente incomodada.
Quando saímos do pátio, ela parou. Parei de supetão e a olhei.
— Vamos conversar aqui. – Ela afirmou.
— Você não prefere ir para outr...
— Aqui. – Ela interrompeu, se sentando – Nesse banco.
Nesse banco?
O banco onde estive com Ronald no dia do baile? Ela só pode estar brincando.
— Tudo bem. – Respondi, ainda me perguntando se Taty sabia de algo.
Será que Théo...?
Taty não disse nada depois de se sentar. Ela estava esperando eu começar. Respirei fundo, a olhei nos olhos e comecei:
— Eu quero ser o mais direta que puder. Mas, para isso, preciso que me garanta que me ouvirá até o final.
Ela assentiu.
— Certo... Bom, o motivo de eu querer ser direta é porque eu venho tentando dizer isso há muito tempo. Taty, você lembra quando eu não te chamava assim? Eu só conseguia te chamar pelo seu segundo nome, sabe por quê? Porque eu já te conhecia. Quer dizer, nunca havia te visto, mas seu nome era conhecido na escola onde eu estudava. Na escola onde Ronald Jackson estudava. – Vi Taty se espantar. – Taty, vou te contar uma história; a minha história: eu estava no primário quando vi, de longe, um garoto que me cativou. Eu era tão nova, nem sabia o que era ser cativada, mas fui. Aos poucos fui tentando descobrir mais sobre ele, e com o tempo eu percebi que não era só eu que o havia notado. Ronald foi conquistando uma legião de fãs, e logo descobri que ele era indiferente com aquilo, pois só tinha olhos para uma garota: Taty, alguém que ele conhecia há anos, mas que nunca havia conseguido cativar.
Nesse momento, Taty abaixou a cabeça.
— E no meio disso tudo – continuei – um boato surgiu: essa garota por quem Ronald era apaixonado estava começando a sentir algo por ele. E mesmo sabendo disso tudo, não consegui deixar o que eu sentia de lado. Na verdade, eu não entendia o que se passava: eu não sabia quem ele era e nem o porquê de querer saber. Eu só queria. Eu só sentia. Eu só... Bom, não adianta eu tentar explicar, não é? – sorri, sem graça – Isso não vai mudar o fato de que sou uma hipócrita. Enfim, continuando... Muito tempo se passou até que eu conseguisse afastar essa história da minha mente. Mas eu havia conseguido. Entrei na Mr. Ly Academy focada na minha vida como estudante... Mas tudo veio a perder quando o reencontrei logo de cara, na entrada do colégio.
Taty abriu a boca para falar, mas seja lá o que ela ia dizer, não disse.
— Você pode me interromper, se quiser.
— Eu não ia dizer nada. – Ela disse. – Aliás... Então foi por isso que você desmaiou no primeiro dia?
— ... Eu não sei. – Menti – Eu também estava nervosa por estar em um ambiente desconhecido...
— Entendo.
— Na aula, eu te conheci. Taty Jeane. “Taty”. Na hora já pensei na história de Ronald. Não seria possível, era muita coincidência se você fosse a mesma menina que dominou o coração dele no primário.
— Mas foi possível. – Taty disse, baixinho.
— Sim, foi. Eu não sabia o que fazer, ainda mais quando você me contou a outra parte da história: a sua parte. Fiquei muito confusa, mas cheguei à conclusão de que se alguém tinha que ficar com Ronald, esse alguém teria de ser você. Então decidi te ajudar. A essa altura, Ronald já havia falado comigo.
— Você quer dizer que você havia falado com Ronald, não é?
— Não, ele já havia falado comigo. Ele veio conversar comigo durante uma revisão geral que tive depois da aula. Ele se lembrara de mim.
— Impossível, você disse que só o observara de longe.
— É, eu achei que ele não sabia quem eu era. Mas, de alguma forma, ele sabia. Ele me reconheceu.
— Mentira.
Ignorei sua reação e continuei:
— Segui em frente com a promessa de resolver a história de vocês dois, e conversei com Ronald em um outro dia, depois da aula, na Fonte Lilás. Inclusive, Théo me viu conversando, e foi quando a história de ciúme dele começou. Durante aquela conversa, Ronald reafirmou que, quando você se declarou para ele, ele estava gostando de outra pessoa, e...
— E...?
Não tinha como Taty acreditar naquilo. Eu não acreditaria. O que eu estava fazendo era realmente o certo a fazer? Taty iria me achar uma mentirosa para o resto da vida.
— E, naquele dia, eu disse que a garota por quem eu havia me apaixonado se chamava Melody Park.
Eu conseguia ouvir o coração de Taty batendo sem nenhum controle. Ronald aparecera sem mais nem menos enquanto conversávamos. Isso, definitivamente, não estava nos planos.
— O que você está fazendo aqui? – Perguntei.
— Ué, você disse que ia conversar com ela. – Ele deu de ombros, como se aquela fosse uma conversa casual de amigas.
— E é o que eu estou tentando fazer.
Tudo estava dando errado. Eu já não estava conseguindo contar do jeito que eu queria, e com Ronald ali, então...
— Mas não vai fazer sozinha. Eu também estou no meio disso.
Taty estava quieta, olhando para baixo. Geralmente é o que ela faz quando está prestes a chorar.
— Eu devia ter contado isso há muito tempo. – Ele suspirou. – Mas eu estava magoado, Taty. Você estava repudiando o que sentia simplesmente porque não sabia como lidar com aquilo. Olha, eu também não sabia, mas nunca escondi, nunca desejei não sentir. Sei que éramos novos demais e...
— Eu sei que falhei nisso. – Taty finalmente disse algo – Sei que deixar a insegurança me dominar foi um erro. Mas eu era criança, Ronald. Quando eu cresci, me dei conta de que precisava contar a verdade.
— Só que foi tarde. – Ronald abaixou a cabeça – Eu estava esperando pelo dia em que você viria falar comigo. Eu realmente estava esperando por você, mas... Sabe-se lá como, eu acabei me encantando pela Melody.
Taty estava me deixando agoniada por não dizer uma só palavra. Por não esboçar uma reação relevante. Ela só estava olhando para baixo enquanto brincava com as mãos. Ela não estava chorando, nem gritando, nem parecia irritada. Incrível, mas eu preferiria que estivesse.
— Ainda assim, — eu disse – tentei manter minha promessa. Tanto eu quanto Ronald estávamos completamente confusos, mas queríamos descobrir respostas para as nossas perguntas internas antes de qualquer coisa. E eu queria muito te ver feliz, Taty. Eu queria resolver esse mal-entendido entre vocês.
— Vocês entendem muito bem o que o outro está sentindo. – Ela estava triste, e parecia estar entendendo errado, o que era de se esperar.
— Nós três entendemos, Taty. – Ronald disse.
— Eu não sei se entendo. – Ela respondeu.
— Estava tudo muito difícil, mas estávamos progredindo. – Continuei. – Até... Até... O dia do baile.
Ronald me olhou assustado. “Você vai mesmo falar disso?” Ele parecia dizer.
Taty levantou o olhar, olhando fixamente para a frente. Ela não nos encarou.
— Melody, eu... Disse que ouviria o que você diria até o final, mas não sei se consigo. – Uma primeira lágrima surgiu.
Eu não sabia o que dizer de volta.
— Talvez nós devamos concluir isso depois. – Respondi. – Eu queria muito te falar algo a sós, queria falar sobre o agora...
— Nós temos que concluir isso depois. – Ela disse, firme. – Quando eu digerir essa história toda, vou querer dar uma resposta.
Taty se levantou e foi embora.
Eu sinto muito, Taty.
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