But... I Love You

12 Capítulo 12 - Vergonha


Fui dormir tarde depois de fazer as tarefas da Mr. Ly Academy. Acordei com uma cara tão imensa quanto as minha olheiras, mas disfarcei com um pouco de corretivo e pó. Eu não sou muito de passar maquiagem, acho que fico parecendo artificial. Mas hoje passei um pouco do básico para melhorar o meu rosto, que estava precisando mesmo de uma melhorada.

Cheguei e encontrei Théo em frente ao banheiro masculino. Ultimamente ele tem ficado meio que na entrada da escola. Estranho, já que ele sempre fica com Thomas...

– Oi, Théo. – Cumprimentei.

– Oi. – Ele respondeu, mais por educação do que por vontade própria.

– Como vai?

– Bem. – Não é o que estava parecendo.

– ... Théo, eu te fiz alguma coisa?

– Como assim?

– Eu não sei... Você está agindo friamente comigo desde ontem. Se eu te fiz alguma coisa...

– Não, não. – Ele riu, sem graça. – Você não fez nada. Me desculpe se eu agi diferente, não foi minha intenção.

– Tudo bem. Passou. – Tentei parecer convincente.

– Te vi esses dias, fora da escola. – Ele mudou de assunto logo depois.

– Sério? Onde? – Acompanhei.

– Na Fonte Lilás.

– Ah, sim. Eu adoro ir lá para estudar. É um lugar calmo e aconchegante.

– Hum... – Algo o incomodava. – Em lugares quietos, eu prefiro estudar sozinho.

– ... Mas eu vou sozinha para lá...

– Não no dia em que eu a vi. – Disse, olhando para o nada.

– Théo, eu sempre... – Ronald. – Ah! Uma vez fui com um amigo até lá, precisava resolver umas coisas...

Quando eu disse isso, Théo ficou pálido. Resmungou algo que não consegui entender.

– O que disse? – Indaguei.

– Nada, esquece. – Bufou.

Permaneci quieta. O que estava acontecendo? Seria esse o motivo dele estar agindo estranho ultimamente? Ainda assim, que motivo?

– Théo, relaxa.

– Estou relaxado. Relaxadíssimo. – Retrucou. – Melody, posso te perguntar uma coisa?

– Claro, o que?

– Você está namorando?

– ... Ahn? Não, por quê?

– Por nada, Melody. – Ele parecia frustrado, e comigo.

Ele estava com... Ciúmes?

– Théo, acha que eu estou escondendo algo de você, não é? Olha, fui resolver um problema com o Ronald, nada mais que isso. Eu ainda não posso te contar, é... Segredo dele. Mas assim que as coisas se resolverem eu te conto tudo.

– Relaxa, Mel. Você não me deve satisfações.

– Sei que você está triste por eu não ter te contado. É por isso, não é?

– ... É... – Ele enrolou para falar. – Claro. É, sim.

– Não fique triste, Théo. Não vou esconder nada de você. Se algo de diferente acontecer na minha vida, você vai ser um dos primeiros a saber. Somos amigos, não somos? – Sorri.

– É, né. Somos. – Ele parecia triste, mas deu um sorrisinho. – Obrigado, Mel. Me desculpe, eu fiquei enciumado. Admito que... Achei que você estava namorando.

– ... O quê? – Ri, sem querer. – Meu Deus, Théo. Eu, hein. – Ele não riu comigo. – Espera... Por que ficou enciumado?

– ... – Théo não estava me olhando nos olhos. – Eu não sei, Mel. Eu não sei! – O sinal tocou. – Bom, vou indo para a sala, Thomas está me esperando. Até, Mel. – Ele não parecia irritado, mas saiu correndo, com pressa.

Resolvi deixar pra pensar naquilo depois. Fui para a sala e sentei no meu lugar de sempre. Já estava acostumada a sentar com os gêmeos, mas queria que Théo se acalmasse.

Taty entrou na sala e sentou-se comigo. Conversamos um pouco e começamos a estudar. Lá pra segunda aula ela começou a me contar, pela milionésima vez, a conversa que teve com Ronald.

– Taty... – A cortei. – Ronald até que é popular aqui no colégio. Ele era assim no ginasial também?

– E como era. – Ela suspirou. – Teve uma época em que ele se tornou o garoto mais cobiçado do colégio. Ele tinha uma legião de garotas apaixonadas por ele. Quer dizer... “Apaixonadas”, entre aspas.

– Por que entre aspas?

– Porque elas sequer o conheciam. Mal sabiam o nome dele, e o ficavam suspirando por todos os cantos. Nenhuma delas chegou a conviver com ele, e saiam falando por aí o que demorei anos pra conseguir falar. Nenhuma delas o amava. Sentiam algo totalmente artificial. Falso. Eram umas hipócritas.

Fiquei sem ter o que dizer. No primeiro momento, me irritei. Como ela podia falar tudo aquilo de garotas que nunca viu na vida? Mas depois de respirar fundo, percebi que ela tinha sua razão. Naquela época eu achava que nenhuma das garotas sentia o que eu sentia, mas, no fim, eu era como elas. Não o conhecia, não sabia nada sobre ele. Só porque fui a primeira a me sentir atraída, achava que era melhor que todas as outras. Mas se eu gostava dele mesmo assim, mesmo não sabendo nada sobre ele, por que as outras não podiam sentir o mesmo? Pois é. No fim, eu era como elas. E continuo sendo, já que continuo não sabendo nada sobre Ronald. Assim como ele não sabe nada sobre mim. Não tenho o direito de dizer que sinto o mesmo que Taty, já que, provavelmente, não sinto. Mas sei que sinto algo. Algo que nunca senti por ninguém enquanto vivi. Algo forte, algo que me controla, que me domina... O que é, meu Deus? O que é isso que eu estou sentindo?

– Ah sim. Verdade. – Consegui concordar.

– Pois é. Mas eu não as odeio. Ronald é tão lindo... Elas não têm tanta culpa assim...

– Taty, você não acredita em amor à primeira vista?

– Não faço ideia. – Ela respondeu, indiferente. – Nunca me apaixonei por ninguém só de bater o olho. Acho que amor é algo muito forte, algo que vai se formando dentro de nós, e aos poucos... Não sei se pode surgir assim, do nada, só de olharmos pra uma pessoa. Uma atração, talvez... Mas amor, não.

– Mesmo se o casal for predestinado?

– Ambos não sabem que estão predestinados, então isso não tem relação alguma com o assunto.

– Entendo.

– E você? Acredita em amor à primeira vista?

– ... Sim.

– Ah, é? – Taty sorriu, curiosa. – E por quê? Já se apaixonou por alguém só de vê-lo?

– ...

– Ou talvez... Ainda esteja apaixonada. – Taty estava me intimidando com o olhar. Ela sabia de algo...

– T-Taty, eu...

– É o Théo, não é? – Ela alargou o sorriso. – Eu sabia!

– Ahn? – Théo? Ufa. – Não, não, nada a ver. – Ri.

– Te conheço, Mel. Alguma coisa está rolando... Vocês dois têm... Alguma coisa.

– Olha, pra ser sincera...

– AHÁ!

– ... Ele tem agido estranho ultimamente...

– Como assim?

Contei a ela o que estava acontecendo com o Théo, ocultando tudo o que envolvia o Ronald. Sobre a Fonte Lilás, eu disse que estava estudando quando encontrei um velho amigo e que Théo provavelmente me viu no exato momento em que falei com ele. Enfim, tive que enrolar um pouco a história.

– Credo, Mel. Como você é lerda. É óbvio que ele está caidinho por você.

– What? Claro que não, menina. Somos amigos e...

– E isso não o impede de gostar de você. Acorda, Mel.

– Hunf.

– Quer saber? Vem cá. – Ela me puxou por um braço e me arrastou até o outro lado da sala, onde Théo e Thomas estavam.

– ... Oi. – Théo disse, assustado.

– Oi Thommy. – Taty olhou para Thomas, que a cumprimentou de volta.

– Er... Oi, gente. – Falei, sem graça.

– Chega de cumprimentos. Théo – ela bateu na mesa dele, se apoiando. -, você gosta ou não da Melody?

A essa hora, a sala toda já estava olhando para a gente. O professor teria brigado conosco se não estivesse tão concentrado nas suas palavras-cruzadas. O fato, é que Taty esperava por uma resposta, e o resto da sala também.

– Gosto sim, ué. – Théo respondeu com a maior caradura.

– Viu, Mel? Eu disse! – Ela olhou para mim, vitoriosa.

Um alvoroço de cochichos se espalhou pela sala, mas foi interrompido quando Théo voltou a falar:

– Nunca tive uma amiga como ela, como posso não gostar?

– Amiga? Ora, ora. Pare de brincar, Théo. Agora não é hora! Você sabe do que eu estou falando.

– ... Não sei, não. – Théo parecia super tranquilo.

– Grrrrr. – Taty rosnou de raiva.

– Jeane. – Chamei, irritada e constrangida. – Já ouviu o bastante, não acha? Agora chega, vamos para onde não deveríamos ter saído. – A puxei de volta para nossos lugares.

Sentei, virei para frente e não olhei mais para a Taty. Ela me cutucou umas cinco vezes, mas eu a ignorei. Eu não acreditava no que tinha acabado de presenciar.

Depois de um tempo, no fim da aula, o professor pediu a nossa atenção para dar um recado.

– É isso aí, turma. – Ele não parecia entusiasmado. – Vocês, que andam para lá e para cá nesse colégio, já devem ter visto pelo menos um dos cartazes misteriosos que a direção espalhou por aí. Estou com um deles aqui. Ele diz: “A Era Medieval não chegou ao fim. Aguardem.” – Ele terminou de ler e virou o cartaz para nós.

– Ei, Mel. É o mesmo cartaz que vimos dias atrás. – Taty disse por cima do meu ombro.

– É. – Respondi, seca.

– Pois é. – O professor continuou. – O fato é que esses cartazes se referem à um baile que a diretoria está organizando. Um baile de gala, no estilo medieval. O baile acontecerá daqui a duas semanas. O horário ainda será confirmado. Vocês devem providenciar seus próprios trajes e pares. Os encalhados que quiserem faltar nesse dia não receberão marcação de ausência. É isso. Agora, falando das atividades que passei para vocês na última aula, eu encontrei alguns erros em comum em várias atividades...

O professor continuou falando, mas eu não prestei mais atenção. Minhas atividades haviam sido devolvidas e estavam cem por cento corretas. Minha atenção estava voltada mesmo era para esse baile.

Esse baile... Não vai dar em coisa boa.