Buquê de Lego

1 Memória antiga


Começo esse texto com uma confissão. Gostaria de pedir perdão a minha versão do passado que sentiu muito medo de escrever. Acho que ela tinha medo de perceber o que agora foi percebido por mim. Escrever faz sentir profundamente, acredito que ela tinha medo de perceber que estava em um momento onde não estava sentindo tanto e que se isso fosse percebido talvez saísse correndo em busca do que tirasse seu fôlego. Sinto informar que ela descobriu algo pior.

Construímos nossas crenças sobre os afetos que merecemos desde crianças, o modo que nos relacionamos com o nosso meio nos faz ecoar mentalmente o que merecemos ou não. Eu nunca quis atrapalhar e percebo que esse medo de atrapalhar me fez acreditar que todo afeto que me era dado era suficiente, sendo pouco ou não, sendo fruto de falta de esforço ou não. Existia um medo de exigir mais e ser negado. Medo de perceber que não era me dado o suficiente, não havia esforço, era um afeto consequente.

A memória mais antiga que me recordo era um episódio onde meu pai, vinha me buscar para as férias na casa da minha mãe, por algum motivo eu não queria ir, chorava muito. Lembro dele falando: "Se você não parar de chorar, eu não vou te levar!". Tinha três anos, entendi a frase, porém não conseguia parar de chorar. Só lembro da sensação de querer fiar ali mais um pouco, eu estava disposta a ir, mas queria um tempo para me acalmar. Naquela época obviamente não sabia como comunicar isso, mas todas as vezes que revisito essa memória lembro do meu desejo de alguns minutos de calma para me acalmar. Infelizmente, não me foi dado, ele apenas partiu, continuei chorando, e muito! Talvez ali tenha começado esse meu credo em não querer incomodar, pois eu estava incomodando o tempo dele, o fazendo perder tempo e por isso não foi me dado afeto e fui abandonada. É uma loucura como justificamos, mesmo que inconsciente, a falha do outro em nós. Sempre eu lembro dessa memória e hoje tenho repertório emocional para entender o que aconteceu, simplesmente revisitar esse cenário e perceber que, o problema não era meu choro, eu era uma criança de três anos que mal conseguia controlar o esfíncter, o problema era que um adulto se sentiu rejeitado e reagiu da forma mais imatura possível, a solução era só esperar eu me acalmar. Falando em esfíncter, lembro que nessa fase de desfralde, todas as vezes que eu fazia coco, me escondia no nicho da estante, me pergunto se isso não era mais um momento de não querer incomodar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.