Notas iniciais
B'shert

Em iídiche: destino, escolha divina. Alma gêmea predestinada.

Harry Potter encarava a cena ao seu redor sentindo-se a pior pessoa do mundo. Tudo aquilo era sua culpa, todos os corpos estirados no chão, todas as famílias destruídas, toda dor que tomava Hogwarts e assolava o mundo bruxo era sua culpa.

Sabia que Hermione lhe daria um imenso sermão se verbalizasse seus pensamentos, tinha conhecimento de que Ron tentaria consola-lo, do seu jeito torto, mais iria. Conhecia sua família, a mesma que havia perdido entes amados na guerra que acabara de terminar, eles nunca iriam lhe dizer que era o culpado por tudo aquilo. Iriam lhe falar, como já começavam a fazer, que ele os tinha salvado, livrado o mundo bruxo de um grande mal, trazido a esperança de volta.

Mas por mais que eles tivessem razão ele não se sentia um herói, não se sentia vitorioso ou "eleito". O Potter se sentia quebrado, machucado, assustado. O garoto que cresceu em um lar abusador e se viu com a perspectiva de uma nova vida ao conhecer um gigante barbudo, agora se sentia a mesma criança assustada que chorava quase todas as noites em um quarto escondido. Não sabia por onde começar a se reconstruir, não sabia quem seria agora que tinha feito o que foi criado para fazer. Se sentia só.

— Olhar para todos com semblante de culpa não os vai trazer de volta a vida. — o comentário irônico veio acompanhando de uma voz doce, que supreenderia a todos menos à ele.

— Eu só queria que não tivessem morrido por minha culpa. — confessou em um sussurro quebrado, assim que a garota sentou ao seu lado.

— Às vezes o seu ego me faz repensar nosso relacionamento. — afirmou o escutando soltar um suspiro impaciente. — Estou falando sério. Potter. — chamou com a voz decidida o vendo encara-la com indiferença. — Essas pessoas não lutaram por você, tá, eu sei, talvez alguns. Mas a maior parte que estava aqui durante toda essa loucura lutou por um ideal, por uma esperança em meio às trevas em que estávamos vivendo. Eles lutaram por seus filhos, seus pais, seus netos, seus amores. Eles lutaram e muitos caíram no caminho, mas foi para que hoje a gente possa ter a certeza de que podemos fazer melhor, de que podemos ter um futuro melhor. — ela segurou sua mão sem tirar seus olhos dos dele. — Você o matou, você acabou com o símbolo do terror que tirou tanto de tantos. Você o venceu e deve se sentir bem, não por ter matado alguém, mas sim por ter livrado a todos desse mal.

— Esse foi um dos comentários menos Sonserina que eu já ouvi de você. — afirmou não conseguindo conter um sorriso ao escutar a risada dela.

— Mas sério, você não obrigou ninguém a te seguir, não enfeitiçou a todos e nem ameaçou. Sei que vai se sentir culpado por um bom tempo ainda, mas tenha a certeza de que eu vou estar ao seu lado lhe dizendo todos os dias e todas as horas se for necessário, de que nada disso aqui é culpa sua. — prometeu enquanto recebia um olhar esperançoso vindo dele.

Harry desviou a atenção para seus dedos que estavam entrelaçados e sentiu seu coração aquecer. Notou como ela não desviava o olhar dele nem por um segundo, nunca pensou que aquela garota irritante e preconceituosa iria mudar tanto. As brigas, discussões sobre o certo e o errado, e os encontros as escondidas os fizeram criar um laço que ele nunca pensou que pudesse existir.

Agora ali estavam os dois, de mãos dadas trocando olhares cheios de promessas. Ignorando completamente as pessoas que passavam e cochichavam. Ela sabia que iria escutar muito se quisesse ficar ao lado dele. Ela, filha de comensais, que antes vomitava certezas irreais, preconceitos escancarados, mas que criou coragem para construir seus próprios pensamentos e teve a ira dos pais quando afirmou que não iria seguir o mesmo caminho que eles. Ela, que é melhor amiga de um comensal que fugiu e de outro que renunciou o lado e se juntou à Potter. Ela, uma Sonserina ambiciosa, teimosa e orgulhosa. Logo ela, Pansy Parkinson, estava nos braços do garoto de ouro em meio aos escombros de sua escola.

A vida é realmente cheia de surpresas. E graças à ela, e ao sorriso doce, mas determinado da garota à sua frente, Harry sentiu que talvez não estivesse só ao fim de tudo.

Notas finais
Só vontade.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!