Bruxas: História de Garotas
4 Dia 04 - Sea Witch
Notas iniciais
A brisa que entra pela janela traz consigo um forte cheiro de maresia, Rebecca encara as nuvens que aparecem pelo oeste, é uma tempestade chegando. Descendo as escadas e indo até o caís, estava terminando os preparativos para a tempestade.
Isso tudo para ela era quase como um ritual pré ritual, todas as aquelas coisas mundanas, como pregar as janelas e colocar suportes no farol, tudo aquilo podia ser resolvido em uma pequena conjuração de palavras, mas tudo aquilo a acalmava.
Quando o vento ficou forte o suficiente para que ela não conseguisse ouvir muito bem, ela soube que era a hora de voltar para casa. Subindo o barranco úmido e dando leves escorregadas, ela conseguiu chegar a segurança do farol, sua casa.
— Pô Becca, cê demorou heim? – Estirada na rede da sala e rodeada de latinhas, Aaba encarava Rebecca pelo canto do olho. – Eu estava me sentido sozinha.
— Se eu tivesse alguém para me ajudar, eu voltaria antes. – Aaba deu de ombros.
— Poxa amorzinho, assim você me magoa. – O demônio podia sentir a repulsão de sua namorada. Becca sabia que ela não gostava disso, mas Becca estava cagando para as preocupações.
Rebecca tirou a capa de chuva amarela e jogou de qualquer jeito no canto e fez o mesmo com as botas azul-celeste, todos os seus movimentos eram seguidos pelos olhos afiados e reptilianos de Aaba.
Sendo ela uma bruxa muito sagaz, Rebecca logo puxou sua arma secreta anti sabotagem demoníaca, um quartzo banhado em lagrimas de um arcanjo. Ao acender a lareira, uma chama violeta se formou, Rebecca colocou um pequeno quartzo e o jogou para dentro do caldeirão, formando uma fumaça esverdeada. Aaba se inquietou onde estava e se encolheu na rede.
— Só por garantia, eu não quero brincadeirinha nenhuma essa noite. – Ela falou sem olhar para Aaba. – Faz seis luas cheias que não aparece uma tempestade como essa.
— Isso é desleal, Rebecca! – O demônio se contorceu em seu lugar, murmurando como Becca seria uma tirana baixinha e sem humor.
Rebecca colocou o elixir em uma caneca e o ingeriu, fazendo com que seu cabelo saísse do cobre e passassem ao azul, ela estava queimando como o próprio fogo e nesse estado de chamas ela subiu as escadas até o topo do farol.
Aaba se encolhia com cada trovoada e grito que cobria a noite, mesmo como um demônio antigo, ela ainda se assustava como as bruxas tinham essa capacidade de tirar poder da imoderação da natureza. Ela podia sentir Rebecca absorvendo a tempestade e o mar, mas isso não era algo nem um pouco agradável, ela também podia sentir a dor em cada ciclo.
Boa parte do desconforto se dava pelo fato da ligação emocional que elas compartilhavam, ela podia sentir, mesmo que em uma quantidade menor, tudo que passava por Becca. A estática do ar arrepiava sua pele, ela sentia vontade de voltar a sua forma primordial e derrubar a garota do topo do farol, mas ela tinha que respeitar os desejos da sua namorada e se a sua esposa/namorada quer absorver uma tempestade, te coagindo a ficar parada, você infelizmente aceita, então Aaba fez isso, ela sentou e esperou.
O corpo da bruxa emanava uma luz azul radioativo enquanto ela recebia chicotadas. A chuva cai forte como uma grande correnteza e já não conseguia mais distinguir o oceano do céu, e ela ali, como o único ponto de luz no meio de toda aquela violência caótica.
Becca já sentia a exaustão. Seu corpo sendo surrado e tanto poder irrestrito adentrando o seu ser, ela estava exausta, mas não podia desistir agora, faltava pouco.
A tempestade foi se desfazendo a medida que toda a energia adentrava o corpo da bruxa do mar, ela sentia-se mais forte, mas exaustão já havia consumido sua força física.
O sol já começava a aparecer no céu quando a bruxa caiu exausta, mas Aaba não deixou que ela se machucasse, o vapor esverdeado já havia se dissipado há algum tempo, dando liberdade para que ela andasse pelo local.
— Maldita pirralha teimosa, levando o próprio corpo a exaustão só porque acha que é imortal ou algo do tipo. – Resmungou enquanto colocava o corpo desfalecido na cama. – Eu não entendo você, realmente não entendo.
— Você nunca vai entender, você já nasceu poderosa – Murmurou Rebecca. — e eu só estou viva até hoje porque eu não deixei que me derrubassem. O mar me ergueu.
Aaba ficou em silêncio, ela nunca poderia entender os sentimentos humanos de sua esposa e isso a angustiava.
— Mas quem diria que um demônio pode ser tão sentimental. – Brincou Becca, tentando quebrar o gelo que parecia ter se instaurado no ambiente.
— Não é atoa que eu cai, eu sinto até demais, diferente dos meus irmãos engomadinhos? Anjos não sentem, criança. – Rebecca tinha um brando sorriso no rosto. – Se você beijar um cubo de gelo terá mais reações do que um anjo teve por toda a existência.
— Eu estou cansada demais para qualquer coisa.
Aaba deitou ao lado de Becca e segurou uma mecha de seu cabelo, que já voltara ao seu tom de cobre.
— Mesmo para beijos? — Indagou.
— Para isso eu nunca estou cansada. – Rebecca agarrou-se no corpo volumoso de Aada. Juntando ambas as bocas e dando um beijo voluptuoso.
— Você está ficando boa nisso. – Riu enquanto depositava um beijo na testa de Becca e a aninhava para enfim, ambas dormirem.
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