Brooke Dunst

1 Uma breve historia da realidade


Havia acabado de chegar do colégio. Estacionei o carro em frente à garagem e me contorci para pegar minha bolsa e meus livros no banco de trás, sai do carro meio apressada, os livros estavam pesados e estava um frio de matar. Winnipeg era perfeito no inverno, um frio terrível para alguns, mas me agradava muito. Nunca gostei de calor, muito menos de sol, acho que isso ajudava justificar a minha pele tão branca, minha mãe dizia que eu parecia uma boneca de porcelana, com a pele branca e as bochechas rosadas.

Ao chegar à porta eu ajeitei os livros em minha mão esquerda pra poder pegar a chave com mão direita e abrir a porta, demorou um pouco por causa do meu chaveiro que era um urso polar meio exagerado, mas era necessário, me ajudava a achar minhas chaves quando as perdia, o que era muito constante.

Mal olhei para a sala de estar e já fui subindo as escadas, aquela sala já não chamava mais minha atenção, quando eu era pequena ela me atraia tanto com aquelas cortinas e sofás brancos, a lareira com tijolinhos claros e um quadro enorme, feito em tinta óleo, que mostrava uma ampla plantação de tulipas. A casa era basicamente assim, com muito branco e cores claras, minha mãe falava que acalmava o ambiente.

Eu andava tão apressada esses dias que eu nem dava atenção se tinha alguém em casa. Pelo horário papai estava no jornal — meu pai é o editor do jornal local e quem fazia a maioria das reportagens-, mamãe estava no seu ateliê, provavelmente tramando mais uma nova coleção e James estava no colégio, onde passava tempo integral. Carlotta, a empregada, provavelmente estava na cozinha preparando o almoço.

-Cheguei Carlotta! — gritei enquanto subia as escadas. Não queria assustá-la caso eu fizesse barulho.

Entrei no meu quarto e joguei os livros sobre a cama junto com minha bolsa. Eu estava tão cansada, havia feito uma prova de física no segundo horário e as aulas tinham sido puxadas por causa da proximidade das provas finais. Nem acreditava que faltavam apenas três meses para o ano acabar e depois disso eu estaria na faculdade. Comecei a tirar a blusa social que fazia parte do uniforme do colégio Saint Súplice, apesar de ser um uniforme, mamãe sempre modificava o meu, eu não dava muita importância, mas ela dizia que toda mulher só consegue seu charme pela roupa mesmo que seja um uniforme. Minha franja estava afastada do rosto por uma tiara preta com um pequeno laço de cetim em sua lateral, eu sempre usava uma para impedir que me atrapalhasse a ler. Atrás meu cabelo caia meio ondulado e bagunçado até o meio das costas.

Fui até o closet pegar uma roupa, eu não pretendia sair à tarde então peguei uma calça e uma blusa com as mangas longas. Ao terminar de me vestir ouvi alguém abri a porta da casa.

-Brooke, querida? — ouvi minha mãe gritar no andar de baixo, provavelmente na sala. — Você já chegou meu anjo?

-Sim mamãe! — gritei indo na direção da cama. – Estou no meu quarto, daqui a pouco desço para comer.

Peguei meu celular na bolsa, colocando-o no bolso da calça e fui até o banheiro. Amarrei meu cabelo com uma fita preta, que ficava quase invisível por ele ser tão preto, e lavei meu rosto rapidamente.

Desci as escadas enquanto lia uma mensagem que havia chegado ao meu celular. Era da minha amiga Berry, dizia:

Brooke, nós vamos pro shopping hoje, a Anne quer comprar um vestido novo pra sair com o Dan. Se você quiser ir me liga que eu passo na sua casa para te buscar.

X.o.x.o

Nem pensar que eu ia pro shopping hoje, eu tinha uma pilha de livros para ler de literatura, sem contar que eu iria preencher as fichas das faculdades. E mais tarde ainda teria que ir para o estúdio de balé pra ensaiar a apresentação do final do ano.

Coloquei o celular de volta no bolso ao terminar de descer a escada. Avistei minha mãe sentada no sofá, lendo uma revista. Minha mãe não parecia ter 48 anos, pelo que eu me lembro o cabelo dela era castanho claro, mas ela já havia feito luzes com 3 tons de loiro, o que a fez ficar mais loira que qualquer pessoa que eu já conheci. Ela tinha os olhos verdes, como os meus, e sua pele era muito branca e limpa.

Ela me olhou, abrindo um largo sorriso enquanto levantava e vinha até mim. Abraçou-me e deu um beijo em meu rosto, foi ai que percebi que ela ainda estava com a revista na mão.

-O que está lendo mamãe? – Perguntei olhando para a revista. Quando olhei pra ela parecia que ela iria saltitar de alegria, então eu ri com sua empolgação, eu já sabia o que era. – A nova coleção.

Ela não disse nada, apenas me puxou para o sofá e começou a folhear a revista, mostrando todos os modelos que eu já conhecia só que ali eles estavam no corpo de garotas muito magras e altas. Depois de terminar a revista, ela olhou para mim com um olhar apreensivo.

- Então, meu anjo? O que você achou? Estão lindos, não é? – Ela abraçou a revista como se aquilo fosse uma jóia preciosa.

- Maravilhosos, mamãe, eles são perfeitos, com essas modelos então. Já marcou o desfile? – Eu sorri, ignorando a minha barriga que estava gritando por comida.

- Essa é a melhor parte. Vai ser no final do ano.

- Parabéns, mamãe. Tenho certeza que vai ser um sucesso. – Eu à abracei cuidadosamente.

Ficamos um tempo conversando sobre o desfile, até que finalmente o papai chegou. Ele abriu a porta com um olhar desconfiado, quando nos viu sentadas no sofá, abriu um largo sorriso.

- Olá minhas meninas! – Ele deixou sua pasta em um cômodo que havia ao lado da porta e veio até nós.

– Como vocês estão?

Mamãe pegou a revista e segurou na frente dele com as duas mãos, ela estava tão empolgada que parecia uma criança com o brinquedo novo. Papai sentou-se ao seu lado e começou a folhear, fazendo breves comentários: Que maravilha, Você é demais, Está tudo lindo, meu amor. Eu achava tão bonito que mesmo depois de muitos anos de casamento, mamãe e papai se tratavam como dois namorados.

- Vou me arrumar para o almoço – mamãe disse enquanto levantava e ia saltitando pela escada com a revista nas mãos.

Quando olhei para meu pai outra vez, ele olhava pra mim com aqueles olhos enormes e calmos, seu rosto mais normal. Meu pai parecia mais comigo, tirando a cor dos olhos, porque os dele eram castanhos e os meus eram verdes. Ele tinha um rosto tão meigo,com aqueles olhos grandes e a boca um pouco cheias, era alto com um corpo atlético, os cabelos muito pretos, como os meus, e tão branco quanto eu.

-E você minha garota. – Ele sorriu, o sorriso dele era tão meigo que era impossível não sorrir também. – Como foi no colégio?

Levantei os ombros e dei um suspiro.

- Física, papai, você sabe como eu sou em exatas, prefiro nem comentar. – ele ficou meio sério, mas não com uma cara de bronca, mas uma cara de preocupação.

- Brooke, tem certeza que não quer que eu lhe pague um professor particular?

- Não, papai, eu me viro.

Ele me abraçou e começou a contar de como foi o seu trabalho. Eu amava quando ele falava do jornal, eu queria ser jornalista também e ele me ajudava muito nisso. Ficamos conversando até a mamãe descer para almoçarmos.

Almoçamos juntos, depois fui para meu quarto. Papai provavelmente voltaria para o jornal e mamãe ficaria fazendo mil ligações para organizar o seu trabalho.

No meu quarto eu comecei a ler o livro de Shakespeare que a professora de inglês tinha mandado, ele não era muito grande e eu gostava bastante do autor então não tive muito problema em terminá-lo. Depois comecei a ler um do Stephen Hawking, eu odiava esses livros de física.

Quando eu terminei de ler já eram umas seis horas. Eu tinha que estar no estúdio 7h30, então fui tomar banho e me arrumar. Vesti minha meia calça, minha polaina e meu colan preto com uma calça de moletom por cima e uma blusa de frio branca larga. Peguei minha bolsa do balé e coloquei minha sapatilha de ponta junto com uma calça jeans, uma blusa e um casaco pesado, eu precisava de uma roupa mais quente por causa do horário que eu voltava.

Deixei minha bolsa no sofá e fui pra cozinha, comer alguma coisa. Carlotta tinha arrumado um lanche com frutas para mim e para meu irmão que estava no quarto dele, provavelmente tomando banho, pois ele tinha acabado de voltar do colégio.

Depois de comer eu fui até o quarto do meu irmão, dar um ‘Oi’ para ele e fui ao quarto da minha mãe avisar que eu já estava saindo para o balé. Cheguei na porta do quarto dela e vi que ela estava esparramada na cama dela, dormindo. Ela deveria estar cansada, então eu apenas lhe dei um beijo e fechei a porta.

Peguei meu carro, que estava na frente da garagem como eu havia deixado, e fui para o estúdio. Não era muito longe dali, provavelmente umas 4 quadras, geralmente eu iria andando, mas como o ensaio demorava muito e eu voltava muito tarde era perigoso voltar sozinha.

Estacionei meu carro em uma vaga mais perto da entrada, era raro achar aquele lugar livre. O colégio não tinha apenas balé, era um colégio de artes que tinha dança, pintura e musica, por isso estava sempre cheio. Peguei minha bolsa e fui para a sala de balé.

A aula acabou 8h30, mas ficamos ensaiando a coreografia da apresentação até umas 11h. Eu terminei e fui para o vestiário me trocar, tirei minha roupa do balé e vesti a roupa que eu havia guardado na bolsa. Eu estava sozinha no vestiário, as maioria das meninas não se trocavam ali, se trocavam apenas quando chegavam em casa. Eu terminei de me trocar e fui até o espelho arrumar meu cabelo.

Nunca tinha prestado atenção nas janelas que o espelho refletia. Eu estava arrumando meu cabelo, quando olhei pra elas sem querer e percebi que havia alguém lá, na janela. Virei-me rápido para ver quem era, mas quando eu olhei não havia mais ninguém.

Eu voltei meu olhar para o espelho, mas não tinha mais ninguém no reflexo também. Balancei minha cabeça pra tentar me situar, Deve ter sido só impressão minha, pensei comigo mesma. Peguei minha bolsa e fui para o carro.

Só havia dois carros no estacionamento, uma Mercedes SLK preta e um Porsche 911 vermelho, que era o meu. Fui com passos apressados até ele, eu tinha ficado bastante agoniada com aquele rosto na janela. Entrei rapidamente dentro do carro e me contorci para colocar minha bolsa no banco de traz, quando voltei meu olhar pra frente eu vi um garoto alto encostado na parede lateral do colégio.

Ele me olhava tão fixamente que me deu arrepio, eu observei ele um minuto e logo percebi que era o mesmo garoto que estava na janela. Seus olhos pareciam muito escuros.

O olhar dele era terrível e ele estava com um sorriso meio sarcástico no canto da boca.Eu fiquei meio hipnotizada por uns instantes, até que ele deu um passo em minha direção, aquilo me fez acordar. Eu liguei o carro rapidamente e arranquei dali. Enquanto eu me afastava observava o garoto pelo retrovisor, ele apenas me olhou ir, com o mesmo olhar de antes.

Coloquei o carro dentro da garagem e entrei em casa sem nem mesmo pegar minha bolsa no banco de trás. Fiquei tão apavorada com o olhar daquele garoto, que se eu fechasse meus olhos eu só conseguia vê-lo. Ele era estranho, apesar de ser bastante bonito. Será o que ele queria comigo?

Parecia que estava todo mundo da casa dormindo, quando eu entrei na cozinha pela porta da garagem a luz estava apagada, então eu fui andando até a porta que dava para a sala de jantar. Foi ai que eu escutei uma voz chamando pelo meu nome. Eu dei um grito e me virei assustada. A luz acendeu e eu vi a Carlotta olhando pra mim com uma cara de sono na porta do quarto dela, que dava pra cozinha.

- Carlotta! Meu Deus mulher, você me deu um susto. – encostei no portal da porta que estava no meu lado e coloquei as mãos no peito, tentando me acalmar.

-Desculpa senhorita Brooke, eu só vim ver se você queria alguma coisa pra comer. A senhorita quer?

- Não querida, pode ir dormir, eu estou sem fome hoje. Obrigada!

Quando eu cheguei à porta do meu quarto eu vi que a luz do quarto do meu irmão tava acesa, então decidi ir lá ver o que ele estava fazendo. Abri a porta com calma pra não acordá-lo, caso ele tivesse dormido com a luz acesa.

Olhei dentro do quarto e lá estava ele na frente do computador, devia estar jogando alguma besteira.

-Ei, James! – Sussurrei – não é hora pra jogar isso menino.

- Não mana, eu já vou dormir. – ele se virou, me olhando com cara de pidão.

- Ai, ai, ai – Falei com uma voz de bronca – Você tem aula cedo amanhã. – Foi até ele e dei-lhe um beijo na testa. – Vá já dormir, se o papai te pegar aqui você sabe a bronca que leva. Depois não diz que eu não avisei.

- Ok! Já estou indo. Me deixa só passar desta fase.

- Anda logo então. Boa noite!

- Boa noite, mana!

Fui para o meu quarto e tranquei a porta. Minha cama já estava arrumada para que eu me deitasse, com a coberta que ficava sobre ela durante o dia dobrado até o final da cama, um lençol e um edredom esticado para que eu me cobrisse ao dormir. Meus quatro travesseiros estavam postos, um sobre o outro, de dois em dois.

Carlotta deixou minha camisola de seda roxa esticada sobre o edredom. Eu a peguei e fui para o banheiro tomar um banho, eu havia suado bastante na aula. Entrei no banheiro, tranquei a porta coloquei a banheira pra encher enquanto tirava a roupa.

Entrei na banheira e fiquei pensando no garoto, eu sabia que não iria conseguir tirar ele do meu pensamento a noite inteira. Ele era tão estranho, devia ter uns 20 anos. Pra que ele tava me olhando? Ele deveria estar fazendo algo útil. Ainda bem que eu sai logo de lá, imagine se ele quisesse me fazer algum mal.

- Acho que vou começar a pedir para o meu pai me buscar no balé, eu ando voltando muito tarde, é melhor me prevenir. — sussurrei baixinho pra mim mesma.

Demorei para dormir aquela noite, os pensamentos voavam na minha mente, um pior que o outro. Quando peguei no sono eu sonhei muito com ele, coisas terríveis. Eu estava ficando louca, só podia ser.

Acordei assustada com meu celular despertando, finalmente era dia, vesti o uniforme e desci para tomar café. Na mesa estava meu pai estava lendo jornal – não sei pra que ele lia suas próprias reportagens – e tomando café, mamãe estava comendo iogurte com morango e James comia as panquecas que Carlotta estava servindo.

- Bom dia família! – Disse tentando ser animada.

Sentei ao lado da mamãe e peguei algumas torradas, enquanto Carlotta me servia suco de laranja.

-Como passou a noite filha? – Mamãe me perguntou. – Eu vi que você chegou meio tarde.

-É, o ensaio demorou um pouco pra terminar. Passei bem a noite, só tive uns sonhos ruins. – Olhei pra ela com um sorriso amarelo.

-Você tem que pensar em coisas boas filha, se dormir com a cabeça pesada você vai acabar tendo pesadelos.

- Ok mamãe, vou tentar.

Papai foi o primeiro a sair da mesa, deu um beijo em todos e saiu pra trabalhar, depois fui eu. Terminei meu café, fui pegar meu material no quarto e peguei o carro para ir ao colégio.

Quando cheguei no colégio estacionei o carro na vaga de sempre, não era nomeado nem nada, mas a maioria dos alunos tinha uma vaga onde eles sempre estacionavam. Peguei minhas coisas e percebi que minha bolsa do balé ainda estava no banco de trás. Com um longo suspiro eu sai do carro e já levei meu primeiro susto, Anne e Barry apareceram atrás de mim e uma delas colocou a mão no meu ombro. Eu virei de uma vez, assustada.

- Nossa Broo, parece que viu um fantasma. – disse Barry rindo – O que houve?

-Oi meninas! – disse aliviada, colocando minha bolsa no meu ombro. – Nem conto o que houve. – começamos a andar para a entrada do colégio.

Contei a elas o que havia acontecido no estúdio de balé, do garoto no vestiário e no estacionamento. Berry nem ligou muito, disse que era só cisma. Já Anne ficou preocupada.

- Brooke, você não acha perigoso voltar tão tarde pra casa?

- Acho, eu pensei em pedir para meu pai me buscar, só que ele acorda tão cedo, fico com pena de fazer ele ir dormir tarde.

- Ah gente! – Berry interrompeu – Isso é besteira, pelo que a Broo disse, ele deve ter só se apaixonado pela beleza dela. – ela apertou minha bochecha e começou a rir. Anne também abriu um sorriso, mas eu permaneci seria.

-Não sei não gente, eu tenho é medo dessas coisas, já pensou se ele for um psicopata?

-Psicopata? – Berry começou a rir histericamente – Até parece que ele ia deixar você vê-lo se ele quisesse te fazer algum mal.

- Nisso ela tem razão Broo. Fica calma, as vezes ele só ta afim de você e ta com medo de falar.– Ela sorriu tentando me acalmar.

- E ficar me olhando no vestiário? Não sei gente, eu to com medo.

Ficamos conversando sobre isso até a sala de inglês, que seria nossa primeira aula. Quando entramos na sala sentamos nas nossas cadeiras que eram duplas. Anne sentou do meu lado e Berry sentou sozinha na mesa da frente.

A aula começou com a professora falando sobre o livro que ela havia nos mandado ler. As outras aulas foram normais, não tocamos mais no assunto.E assim foi até o final do mês.