"Boa tarde turma." A professora disse, mesmo sabendo que ninguém ia ouvir, já que estavam todos conversando em uma altura irritante e desnecessária, muito menos iriam responder, obviamente. "Dando início a aula, quem fez a redação que eu pedi?"

A redação... eu tinha feito, mas não queria mostrar, muito menos ler na frente da turma, que eu mal conhecia, pessoas que eu não gostava, não é que eu seja metida, fresca e anti-social. Talvez eu realmente fosse um pouco de tudo isso, mas não totalmente, não é que eu não queira gostar deles, mas simplesmente não sentia vontade, não sentia vontade de tentar ser legal, nem vontade de tentar relevar as diferenças.

Eles são muito diferentes, não tem nada a ver comigo, nada pra que pelo menos consiga desenvolver um diálogo. Adoraria ser a garota que é amiga de todo mundo, que não tem vergonha de nada, e que não tem medo de viver. Mas eu não sou assim. Eu não sei como eu sou, mas definitivamente eu não era assim. Mas eu estava precisando muito dos pontos, já que eu tenho faltado boa parte das aulas, não sei se esse sacrifício vale a pena.

"Para quem não sabe, a redação é sobre vocês. Quem são vocês?" Como ela estava sendo ignorada pela maioria das pessoas da turma, ela pegou o apagador de madeira já sujo e manchado pela quantidade de tinta de piloto que ele havia limpado pela sua vida aparentemente longa de apagador-velho-de-madeira, e bateu com ele no quadro branco. Me pergunto se o salário dos professores é miserável o suficiente para não conseguir comprar um apagador novo. A turma silenciou e ela começou a andar de um lado a outro gesticulando, como todos os professores sempre fazem.

"O objetivo dessa redação, é fazer com que vocês se conheçam, e que pra que eu conheça vocês também."

Se eu não faço menor idéia de quem eu sou, imagine ela... pobre professora de redação.

"O auto-conhecimento é uma coisa importante, muita gente acha bobagem, mas se parar pra pensar; Quem nós somos? Qual a nossa história? E qual será nosso futuro? Vocês acham fácil responder essas perguntas? Pois não é. Se você não se conhece, as outras pessoas também não vão saber. Se você não souber qual é sua história, ninguém vai saber. Se você não sabe quais os planos pro seu futuro, ninguém vai saber."

Nisto nós concordavamos, o auto-conhecimento é sim muito importante, acho que a resposta para todos os seus problemas consigo mesma, acho que você só fica bem de verdade, se conseguir descobrir quem você é, porque a resposta para todas suas perguntas, está em você, sempre esteve, você só tem que procurar.

Olhei para meu caderno para ler a redação. Não havia nenhuma resposta para as perguntas da professora no meu caderno, na verdade, nem na minha mente tinha, eu não sabia a resposta, eu ainda não à encontrei e é isso que lá estava escrito.

Who I'm?
Adoraria poder dizer que eu, Louise Catherine Martinez, sou uma pessoa decidida, que sabe exatamente o que faz e que tem um porque para todas as minhas ações, mas eu simplesmente estaria mentindo se dissesse isso.
Eu, Louise, simplesmente não faço a minima ideia de quem eu sou e muito menos sei o que quero pro meu futuro.
As unicas coisas que sei sobre mim, são minhas características, físicas, graças ao espelho e algumas características emocionais, que não são as melhores diga se de passagem.
Eu rio quando tenho vontade de chorar,só para não ser julgada, eu choro quando não tem ninguém vendo, porque assim ninguém vê minha fraqueza e se aproveita dela, eu escondo minhas feridas de tudo e de todos para que ninguém possa reabri-las.
Eu me sinto perdida, mesmo quando sei exatamente onde estou. Eu me sinto presa, mesmo estando em um lugar aberto. Eu me sinto sozinha mesmo estando cercada de gente.
Me sinto como uma borboleta já pronta para voar e descobrir as belezas da vida, que não consegue se libertar, uma borboleta com asas quebradas, que não voa. Me sinto excluída mesmo tendo amigos. Me sinto uma estranha, mesmo que me olhando no espelho.
Esta sou eu, e é isto que eu sinto.

Definitivamente eu não vou ler minha redação para todas essas pessoas. É uma coisa muito pessoal para ser exposta desse jeito, é como se eu estivesse pelada pela escola, onde todas as pessoas poderiam ver minhas coisas mais íntimas, poderiam se aproveitar delas, e usa-las ao seu favor.

"Professora!" Chamei-a

"Pode falar Louise." Ela sorriu, e... meu Deus, nossa, como eu odeio esse sorriso.

Ou talvez apenas tenha inveja, porque era um sorriso verdadeiro, diferente dos meus.

"É obrigatório ler na frente de todos esses..."

Animais.

Parei de falar antes que dissesse o que estava pensando. Já tenho problemas o suficiente, não preciso de mais. "De todo mundo." Escolhi melhor as palavras.

"É, por quê? Algum problema?"

Sim, muitos!

"Não, nenhum." Respirei fundo e encostei minha cabeça na parede fechando os olhos, e acabei dormindo, assim como Jeff tinha feito, desde o início daquela aula de tortura psicológica, tudo que eu não precisava era ouvir pessoas felizes, falando de suas vidas felizes, contando sua história feliz, e compartilhando os seus planos para o seu futuro feliz.

...

O sinal tocou, me acordando do meu sono tranquilo, abri os olhos e vi todas as pessoas saindo correndo pela porta estreita da sala como touros bravos numa vaquejadas, impressionantes toda essa disposição para levantar da cadeira que elas tem, no meu caso, eu só queria estar na minha casa, na minha cama, ouvindo música, comendo nutella e assistindo Netflix, tudo ao mesmo tempo. Essa era a unica coisa que eu realmente estava disposta a fazer, e com um sorriso no rosto

Olhei para minha frente, e vi o Jeff ainda dormindo, me levantei e sentei encima da mesa do Jeff para ver suas feições enquanto dormia. Ele estava com a cabeça encostada na parede, gotículas de suor saiam da sua pele morena, sua boca estava entreaberta e quase que consegui ver baba saindo pela mesma. Ri da cara dele, ele nem se mexeu, estava começando a achar que ele estava morto. Nunca vi uma pessoa dormir desse jeito. Cutuquei o rosto dele, ele continuou dormindo, exatamente do mesmo jeito.

Acho que ele olhou nos olhos da Medusa e virou pedra, porque não é possível alguém ter sono tão pesado.

"Morreu?" Puxei um o cabelo dele. E nenhum sequer sinal de vida.

E então uma idéia maldosa se passa em minha cabeça, sorri olhando ele enquanto me decidia se realmente faria isto.

"Jeff, acorda tem uma aranha no seu cabelo!"

Ele tinha aracnofobia então eu sabia o quanto ele ficaria assustado, e que ele despertaria rapidamente se eu falasse algo relacionado a aranhas.

Ele acorda em um pulo, com os olhos arregalados e passando a mão no cabelo, bagunçando-o por completo enquanto murmurava alguma coisa que eu não era capaz de decifrar. Eu apenas o olhava, segurando o riso com todas as minhas forças.

E então ele finalmente repara em mim, e percebe que era uma brincadeira.

"Sua filha da puta!" Ele semicerra os olhos me encarando e eu não aguento, explodo em risos olhando pra ele e percebo que ele também estava se controlando pra não rir.

"Vingança!" Falei entre risos, senti lágrimas se formarem em meus olhos enquanto colocava a mão na barriga já doendo de tanto rir.

"Palhaça! Eu nunca te acordei assim para você fazer isso comigo." Ele riu um pouco.

"Tem certeza?" Sorri e arqueei a sobrancelha o olhando, ele ficou quieto por um instante e colocou uma mão no queixo provavelmente tentando se lembrar.

"Mas isso foi na quinta série!"

Eu e Jeff nos conhemos desde o primario, sempre fomos muito amigos, ele é como se fosse... um irmão que eu nunca tive. Na quinta série nós estavamos num acampamento da igreja que costumavamos frequentar nos domingos quando crianças. Eu não sabia montar minha barraca, ela era velha, parecia mais difícil de montar do que um cubo mágico --- que para mim, era impossível de montar--- já que nem os responsáveis, que estavam tomando conta de nós conseguiram montar, então eu acabei dormindo na barraca do Jeff, no dia seguinte pela manhã, o Jeff começou a gritar dizendo que o acampamento estava pegando fogo e que tinhamos que correr, eu levantei rapidamente e começei a correr, burra o suficiente pra nem reparar que não havia nada em chamas, corremos até o lago e ele me mandou pular, eu pulei e em seguida ele começou a rir de mim.

Sorri com a lembrança. "E daí? Nunca é tarde para se vingar."

"Você é uma peste Louise." Ele riu e balançou a cabeça negativamente, fazendo com que algumas mechas do seu cabelo fossem pra frente.

"Eu sei." Mandei beijo no ar. "Eu não vou assistir as outras aulas, você fica aqui ou vem comigo?"

"Vai abandonar as aulas de novo? Lou, você vai acabar repetindo de ano."

"Não me enche, eu sei o que faço da minha vida" Falo mesmo não sendo verdade, era fato que eu não fazia a menor idéia.

"Sei... Eu vou ficar, tem aula de matemática hoje."

"Eu vou esperar tocar o sinal da segunda aula e depois vou embora, odeio esse lugar." Suspirei.

"Tudo bem... vai la então, de noite a gente se fala." Sorriu.

Retribui o sorriso e fui para o estacionamento, lá era o único lugar que eu tinha certeza de que não teria ninguém para encher minha paciência.

...

O segundo sinal tocou, coloquei o livro que eu estava lendo pra passar o tempo dentro da mochila e depois fechei e a coloquei sobre o ombro direito, esperei os seguranças irem olhar de estava tudo bem dentro da escola e pulei o muro mais baixo, cheguei ao lado de fora, respirei fundo sorrindo sentindo a sensação de liberdade e saí andando sem rumo.

Passei por um prédio velho, aparentemente abandonado, sorri e começei a analisá-lo, a pintura estava despedaçando e caindo aos pedaços, as paredes estavam rachadas, o prédio estava quase desmoronando, idêntico a como eu estava por dentro.

Resolvi entar no prédio, aquele lugar por dentro era ainda pior do que por fora, lá parecia uma espécie de clinica improvisada, claramente não autorizada pelo saneamento básico, ou coisas desse tipo só considerando o que via. Não uma recepção, comum, como de clínicas ou hospitais normais, tinha uma sala quase vazia, com umas cadeiras de madeira não acolchoada, uma mesa redonda, de cozinha provavelmente, com um computador velho encima,a tela parecia uma TV da época que não haviam as telas de LCD, um gabinete no chão e um teclado na frente da tela, o chão estava imundo e a parte elétrica daquele lugar dava impressão de que ia explodir a qualquer momento.

Exatamente a como eu estava por dentro.

Peguei meu celular e começei a fotografar as coisas que eu achava interessante. Entrei num quarto, tinha uma cama com um lençol sujo de sangue forrando a cama, o cheiro estava insuportável, parecia que tinha alguma coisa se decompondo ali, e talvez realmente tivesse. No chão havia mais marcas de sangue, como se alguém tivesse sangrado naquele quarto até a morte.

Aquele lugar me dava náuseas, mas eu respirei fundo e continuei a observar

Tirei uma foto do que via e entrei mais no quarto olhando melhor oque havia ali. Tinha uma pequena mesa no canto do quarto,também suja de sangue,assim como tudo que havia sobre a mesa, encima da mesa tinha uma tesoura enferrujada, um bisturi, entre outros objetos cirúrgicos.

Com toda certeza, aquele lugar tinha sido uma espécie de clínica. Tirei outra foto e voltei a observar o local. Abri a gaveta da mesinha e vi algo que preferia nunca ter visto.

"Meu Deus!" Gritei e dei passos largos para trás.

Um feto, dentro de uma gaveta, em decomposição! Isso é horrível, esse lugar que está caindo aos pedaços, era uma clínica de aborto clandestina?

Com muito nojo olhei mais uma vez pro feto e no sangue que se alastrava pelo quarto, não parecia tão antigo e velho como todas as outras coisas que estavam daquele lugar. Parecia que tinha sido recente...

Mas quem faria um aborto naquele lugar caindo aos pedaços? Algum suicida? Porque é obvio que não iria acabar bem, a quantidade de sangue no quarto prova isto.

Com milhões de perguntas na minha mente, e com ânsia de vômito, saí daquele lugar, pretendendo nunca mais voltar, chegando ao lado de fora olhei mais uma vez para o prédio, marquei-o bem com o olhar e jurei a mim mesma a nunca mais entrar em locais abandonados como este.

Esquecendo do fato de que eu era um edifício abandonado como este.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.