Notas iniciais

Antes da perda:

Eram mais ou menos 12:45, eu já estava pronta, ou pelo menos achava que estava, me olhei no espelho e parei pra pensar se colocava alguma maquiagem ou não; decidi que não. Não tenho motivo algum para me arrumar.

Na minha boca ainda se sentia o gosto horrível de vômito, que eu havia posto pra fora pouco tempo atrás, pela janela os raios solares atingiam meu corpo fazendo-me sentir imenso calor, já que estava fazendo no mínimo 35° graus lá fora.

Não, eu não tinha bulimia, eu pelo menos achava que não tinha, provocar vômito não era uma coisa que eu costimeiramente fazia, só que as vezes era como se não fosse, a comida não quisesse ficar dentro de mim, ela precisava sair, por mais estranho que pareça é isso que acontece.

Respirei fundo umas três vezes antes de descer as escadas com a mochila nas costas, o som da buzina do carro perturbava minha mente, minha mãe simplesmente não parava de buzinar, mas eu não estava com pressa, sendo sincera, eu nem queria ir.

Fui na cozinha e enchi a minha garrafinha com água, já que a água da escola tinha gosto de ferrugem, os lideres da turma já fizeram de tudo para tentar conseguir um bebedouro decente para os alunos, mas de nada havia adiantado. Minha mãe continuava buzinando, mas eu não estava me importando com isso, enchi um copo com suco, me encostei no balcão, e bebi o suco lentamente.

Talvez eu não estivesse fazendo isso só porque não queria ir pra escola, talvez eu realmente queria provocar minha mãe, e como brinde ainda passaria menos tempo naquele lugar se continuasse alongando o atraso.

"Estou indo, já pode parar de buzinar" Revirei os olhos enquanto entrava no carro.

"Por que demorou tanto? Tem quase 20 minutos que estou buzinando, não ouviu?"

Ouvi, só que ignorei.

"Estava com fones" Dei uma desculpa que eu sabia que ela acreditaria.

"Ah, claro." Ela zombou, e eu ja sabia o que estava por vir, portando revirei os olhos e esperei que ela começasse o sermão idiota.

"Você vive com essa porcaria de fones nos ouvidos, um dia eu ainda pego esse celular e quebro na sua cara." Ela fala cuspindo com o rosto vermelho de exasperação.

Tudo bem aquilo não era bem um sermão, mas é o mais próximo que eu encontrava de um quando se tratava da minha família.

Ela continuou falando, mas eu simplesmente resolvi ignorar, não aguentava mais todas as asneiras que ela resolve falar a um bom tempo, então eu ignoro tudo. Ou quase tudo, não vou fingir que tudo que ela fala não me afeta, porque estaria mentindo, as vezes eu escuto algumas coisas soltas no ar, que me magoam muito. Mesmo assim, eu finjo que está tudo bem.

Quando finalmente aquela viagem irritante e aparentemente infinita de carro acabou, saí do carro sem sequer prestar atenção em uma palavra mais do que a Jennifer dizia, simplesmente desci do carro e fui andando em direção ao inferno ---como eu costumava chamar--- enquanto ela continuava a falar.

Coloquei os fones e entrei nos corredores largos dos quais eu não gosto, cercado de pessoas nas quais eu também não gosto, e fui andando esbarrando em algumas pessoas que estavam no meu caminho. A musica tocava em meus ouvidos, e eu continuava a andar calmamente, a musica tinha esse efeito em mim, me acalmava, me fazia pensar pelo menos por um milésimo de segundo que estava tudo bem.

Se eu quiser- SuperCombo

[...] Tava em pensando em batalhar, casar
Com meu dinheiro
E acordar só seis da manhã

Talvez assim eu consiga mostrar
Que eu também posso ser igual

Se eu quiser
Se eu quiser
Se eu quiser

Cheguei finalmente a minha sala, olhei para as pessoas que estavam conversando entre si, mas que eu não estava ouvindo graças a musica que tocava em meus ouvidos. Procurei com o olhar um lugar no fundo, felizmente achei a cadeira, na última cadeira, na última fileira, exatamente onde eu sempre gostei de ficar, quase sorri ao ver a cadeira vazia, e me sentei enquanto a musica continuava a tocar.

Água na cara e partiu pro busão
Atrasado com muita fome
Pra chegar lá

Fazer o que eu não gosto
Com pessoas que eu nunca quero interagir
Nunca[...]

Se eu olho pro lado tem sempre alguém
Esticando uma perna pra eu cair

Mas eu tenho certeza que se eu não morrer
Nada nessa vida vai me surpreender

"Louise!" Ouvi alguém gritar no meu ouvido.

Dei um pulo da cadeira e me virei de lado pra ver quem que havia me assustado.

"Mas que merda Jeff!" Bufei, não estava nos meus melhores dias para brincadeiras. Nunca estava na verdade.

"Calma, você tava com fones e não me ouviu, só tava brincando." Sorriu.

Era quase impossível não sorrir de volta, ele era um babaca de fato, mas, e daí? Eu também sou. Ele também podia ser uma pessoa muito cativante quando quer, e a sua aparência ajudava com isso, ele era alto mas nem tanto, era magro, mas nem tanto, tinha um corpo consideravelmente bonito. Sua pele morena entrava em perfeito contraste com seus olhos azuis, um pouco mais escuros que os meus, seu cabelo era o único motivo pra que ele fosse zoado na escola, era longo e castanho escuro, não era longo do tipo, até a cintura, era um pouco abaixo a altura dos ombros, mas era grande demais para meninos segundo os padrões lixos da sociedade. Mas, eu não me importo com nenhum desses padrões, quero que eles se fodam. Acho que as pessoas deveriam ser elas mesmas independente do que a sociedade impõe para nós.

"Me assustou seu babaca." Resmunguei porém sorri e ele riu.

"Você tinha que ver sua cara." Gargalhou enquanto eu revirava os olhos. "E ai? Vai sair com a gente hoje?"

Jeff e eu tinhamos um grupo de amigos. Eu era a única menina do grupo, mas, quem se importa?! Eles eram legais e tinham muito a ver comigo, então não me incomodava em estar no meio deles sendo menina, muito pelo contrário, me sentia mais confortável com eles do que com as meninas que eu conheço.

Durante um bom período de tempo me importava com oque as pessoas diziam sobre minhas amizades, inclusive a Jennifer (minha mãe) me julgava. Já disseram que eu era piriguete, já disseram que eu era lésbica, machinho entre outros nomes medíocres e ridículos que me chamavam . Me chamavam assim por causa da minha aparência, eu era magra, alta, loira, olhos azuis, pernas finas, e o modo como eu me vestia segundo eles era 'coisa de menino'.

"Não sei, se a Jennifer deixar, eu acho que vou." Suspirei.

"A Jennifer vai deixar." Ele sorriu. "Ela sempre acaba deixando se você pedir com jeito."

"Ela deixa se eu chamar ela de mãe. E eu não sei se estou disposta a isso." Revirei novamente meus olhos e coloquei os braços sobre a mesa e apoiei a cabeça sobre os braços.

"Faz um esforcinho vai." Ele implorou juntando as palmas das mãos umas nas outras e beijou minha bochecha.

Eu ri.

"Tá, eu vou ver oque posso fazer."

A professora chegou na sala e o Jeff foi para o lugar dele na minha frente, fiquei com um fone no ouvido e mexia no cabelo do Jeff enquanto a professora iniciava a aula.

Notas finais
Olá pessoas, gatos, cachorros, aliens, sei lá.
Espero que gostem de ler esta história, assim como eu estou gostando de escrever.
Beijos, até a próxima atualização.