Broken Wings
6 Capítulo 5
Notas iniciais
K.D
Incertezas na vida me cansam mentalmente, é muito mais complexo do que se possa imaginar, perder a confiança daquele que sempre fora meu rim esquerdo, é inevitavelmente amargurante em meu coração. No passado éramos garotinhos pré-adolescentes cheios de sonhos compartilhados e promessas fiéis de amizade. Queríamos ir contra o mundo e contra todos. Cobra sonhava assim como eu, em ser o lutador “reconhecido mundialmente”. Eu sonhava alto da mesma forma. Cinturões, berros de fãs, o corpo coberto pelo suor da batalha travada no ringue. Um desejo existente e muito vivo ainda em mim, a diferença evidente, e se eu ainda pretendia compartilhar essas realizações com ele.
Descia do transporte público bem no ponto próximo de casa. Música lenta, pensamentos longes, passos lentos e precisos. Rumava para casa na expectativa árdua de encontrar Bianca e lhe perguntar o que fazer, quando um certo ex amigo surge das cinzas como uma fênix, em sua vida. Abria a maçaneta chatinha, pois a chave penava em não querer abrir. Essa maldita não vê que tenho assuntos sérios a tratar. Via sim, e por isso não abria. Pressionei meus lábios um contra o outro, essa boca selvagem queria se abrir para dizer dezenas de palavras feias e de baixo calão. Deveras chato isso de ficar com uma refugiada de outro país, por isso fiz mais força no ferrolho e abri. Pronto, estou de baixo do meu teto. Joguei o peso dos livros no sofá, e deitei sobe ele com esse corpo cansado. Embarquei num sono pesado, as aulas foram horríveis e tive de lidar com várias provas para as férias. Comecei a enxergar fragmentos de coisas passadas e senti calafrios friorentos no meu corpo.
Acabei por acordar depois de meia hora de um sono pesado e maluco. Estes preságios me perseguem desde pequena. Perguntava-me se tinha algo haver com as coisas sofridas por mim.
A porta bateu-se em um baque forte. Bianca demonstrava um semblante irritado.
— Aconteceu alguma coisa? — Perguntei-a perplexa com sua cara de cão raivoso.
— O João estava se esfregando e se comendo com a Vick lá na Ribalta. Cena tão patética, quanto ele fazendo seus shows de Stand Up Comedy. — Revirei as pupilas para cima sendo obrigada a ouvir seus discursos de dor de Corno. — Sem falar que aquela garota canta mal, uma voz chinfrina e a cara com toneladas de maquiagem. Prefiro mais eu, não sou superficial, e tenho um rosto tão natural. — Fazia uma cara de enojada ao descrever maldosamente as características de sua rival.
Meu deus. Meu santo deus, poderás mesmo ter criado uma criatura de boca grande e falatória? ou você á borrou com a caneta e mandou assim mesmo?
— Oh Bi, presta atenção, você desprezava o garoto a tempos atrás, agora o jogo virou irmã querida. — Tossi seco. Nos últimos dias peguei uma gripe feia e ainda ficaram vestígios do enfermo em mim. — Resumindo minha cara atriz de estupenda hipocrisia, você perdeu aquilo que nunca deu o devido valor.
Tão chatas suas queixas com o nerd, que acabei por esquecer do conselho pendente.
Meu corpo levantou do sofá branco, num pulo exaltante. Sendo mais especifica, queria fugir das reclamações de Bianca no pé do meu ouvido. Eu sempre-a dizia sobre as coisas erradas da minha vida, agora quando se trata da dela, nem sei mesmo como aconselhá-la. Eu estava mais atordoada com a chegada dele, e agora parecia ter de aturar todas as suas investidas comigo.
Essa frustração me fez afundar a cara no travesseiro, feito de material penoso. A única forma de curar essa coisa toda seria uma sono por toda a minha eternidade.
[…]
Tomei um banho depressa, estava enrolada na toalha em frente ao espelho secando o cabelo, o horário não é tão conveniente para deixá-los úmidos, e já que uma gripe sacana ainda teimava em me deixar vulnerável. O ventinho quente no meu rosto fazia-me sentir arrepios prazerosos nos braços e nas costas, fazendo soltar alguns risos.
— Está rindo atoa Karina? — A voz do além soou num tom irônico. Virei nas pontas dos pés em busca da vista de quem seria. O rapaz surgiu como uma fantasma ou algo parecido. Fechei a porta a batendo com força na cara de quem quer que fosse.
— Desculpa, não vi direito e entrei. — Desculpou-se batendo os dedos insistentemente na madeira. — Sou eu Marcos, vim ver você velha amiga. — Sempre falava doce comigo. Isso me encantava no irmão de Cobra, pois era bem mais delicado e galanteador em relação ao irmão. Percebi minha inquietude brotar e pus uma roupa usada, saindo do banheiro em seguida.
— Oi, tudo bem? quanto tempo. — Sorri de canto tentando transparecer simpatia, o mesmo me retribuiu com outro sorriso, e se sentou na cama de Bianca sem tirar os olhos dos meus.
— Então essa e a nova Karina? Na verdade continua a mesma marrenta de sempre, só cresceu bem mais. — O comentário teve um tom de nostalgia e ao mesmo tempo elogiável aos meus ouvidos.
— Você também não mudou nada, continua a mesma bala doce de antes. — Assim que o chamávamos em nossas velhas brincadeiras. Marcos odiava socos, chutes, ou outros tipos de agressões. O conhecendo como sei, choraria se eu desse apenas um beliscão em sua pele.
Andei em passos lentos e encostei meus joelhos na beirada do colchão da cama, ficaria melhor para conversar se me aproximasse mais um pouco.
— O meu irmão te deu meu recado? — Questionou-me esperando uma reposta objetiva. — claro que não. Cobra sempre odiou nossa ligação, anseio que seja ciúmes da parte dele. Sempre foi apaixonado por você. — O vi apertar a boca com os dentes, provável pela irritação de citar sobre a rebeldia de seu irmão.
— Isso é passado — Repliquei tentando deixá-lo atento de sua frase. — Não vamos cutucar em tocas de marimbondo. — Metaforeai fugindo daquela tensão, e ele ficou de pé ameaçando chegar perto. Andava para trás querendo fugir, sabia bem quais as intenções dele, desde de sua entrada no meu quarto. Seus olhos nunca abandonavam os meus, e as vezes encaravam minha boca. Não que eu soubesse ou tivesse uma especie de experiência com homens, só de ver a sua face me encarando como uma presa em fuga, deixava exalar o perigo insistente em seu olhar.
Minhas costas foram de encontro com a comoda dali, e senti a ardência naquela região. Marcos estava perto, sentia meu cheiro, e erguia as mãos em tentativa de segurar meu rosto, eu não queria aquilo, nunca senti-me atraída físicamente, ou supri sentimento algum. Se fora acontecer, e o mesmo que colocar óleo em água, não se mistura. Em defesa o empurrei para longe de mim, e o mesmo chegou de encontro ao chão, pareceu não gostar nada de minha atitude defensiva, e cerrou os punhos irritado e mostrando um olhar cinzento, emanando ódio.
— Toca nela e eu te mato irmãozinho. — Cobra aparecera na porta do quarto ficando no vão dela. Pequenas gotas de suor caia de sua testa, ora olhava de soslaio para mim, isso evidenciava a preocupação.
Nunca entendi bem o motivo de tantas desavenças entre os dois por minha causa, Cobra sempre evitava citar ou explicar as implicâncias de ambas as partes.
— Karina, você se machucou? esse desgraçado encostou em você? — Chegou perto ficando a um milimetro do meu rosto. Pude ver o suor brilhar, e alguns pedaços das ataduras soltarem devido a sua pressa. Assenti afirmando estar bem, e vendo o seu irmão se afastar, o lutador fazia a mesma ação, até minha mão puxar seu braço de volta.
— Você vai me explicar essa sua birra toda, agora Cobra. — Intimidei-o rudemente.
Cobra me lançou um olhar feio pelo canto do olho, acabara de pegar o irmão quase me atacando, certeza eminente de que isso o irritava, mas nunca cheguei á uma conclusão correta sobre isso. Percebi rugas se formarem em sua testa depois que o questionei. Esperava palavras convincentes de sua boca, esse cansaço de anos tinha de acabar, e fazer ou me reaproximar do bronco, ou afastar-me de vez das lembranças doloridas.
— Karina, não to afim de lavar roupa suja por agora. Marcos ia fazer uma basteira, isso é evidente. Ele saiu da academia comigo me atiçando sobre a aposta de infância, e o mané conseguiu. — As palavras saiam em descontrole. Na medida em que sua boca silabava minuciosamente cada palavra, ele parecia prestes a ter uma parada cardiorespiratória. Soltei-o das palmas macias de minhas mãos, me irritava como mudava de assunto, quando o botava contra a parede.
— Chega, estou cansada dessa sua bipolaridade. Uma hora você me trata como sua melhor amiga se despedindo com beijos e tudo mais. E é só tocar no assunto do seu irmão para sua personalidade mudar, e me tratar a ponta pés. Faz apenas um dia que chegou aqui, e estamos nos dando desse jeito. Se for pra continuar assim prefiro que se afaste de uma vez. — Esbravejei gritando, estufando o peito, e ele fazia o mesmo em silencio e me fitando irado.
— Estou cansado disso tudo também Karina, não vamos nos entender se você continuar a cismar em remexer em passado. Eu vi meu irmão adentrar a porta do prédio e fiquei preocupado e vim ver se precisava de ajuda, e olha o que eu ganho — Apontou para si mesmo. — Vou embora. — Se afastou flexionando os braços. Os ombros tensos e as veias saltantes de seu pescoço, mostrava o quantos estava furioso
— Melhor você ir mesmo, estou cansada, e pelo visto, vamos treinar juntos a partir de agora. — Apontei para a porta a fora, dizendo tudo em contragosto, tentando magoa-lo. E parecia ter tido resultado. As pupilas negras perderam o brilho de costume e ficaram opacas, sem vida.
Um vazio se preencheu no meu peito na tentativa grosseira de afasta-lo. Estava insuportável não se entender de uma vez com ele, e sua chegada foi tão repentina. Ouviu-se a porta bater, e meu coração bater rápido, estourando meus tímpanos. Crucifiquei as lembranças de minha mente, essas malditas sempre acabam me atrapalhando de refazer minha vida. Eu não sei o que fazer a partir daqui, e isso está me matando a cada segundo em que vivo.
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