Broken Wings
4 Capítulo 3
K.D
Não acreditava naquela visão, era mesmo ele. Tão pouco diferente daquela época. Quando eramos pirralhos, nos dávamos tão bem, e de uma hora para outra, foi como se tornássemos, aquelas pessoas as quais só reconhecemos de vista.
Vê-lo assim tão derrepente me deixou tão sem chão. Como se a terra parasse, e sobrasse apenas nós dois ali. Poderia ficar, o abraçar, dizer que sentia sua falta, falar o quanto sua ausência me machucou. E o quão só me senti, sim, sentia-me sozinha muitas vezes. A falta de alguém com uma visão de mundo parecida com a minha, com as mesmas opiniões, e gostos. Sempre tive Bianca me aconselhando, e é bom, confortante, mas queria ouvir outra pessoa, desabafar em uma presença diferente. E nos perdemos sem rumo algum, por um simples infeliz acontecimento:
— Karina. — A voz de Cobra saia com uma dificuldade tremenda. As vezes até mesmo, pudia perceber suas mãos inquietas coçar a nuca. Essa mania permanecia ali, intaquita.— por favor, não me deixa aqui falando sozinho.
Ainda estava em estado de choque, e senti lágrimas grossas e pesadas descerem:
— O que quer que eu diga? — Inspirei o ar com força. O choro que eu tentava engolir, acabava com todo meu folego.
— Eu sei, lhe devo explicações. E quem sabe, um pedido de desculpas. — Tentou sorrir me consolando. Mas aquilo não me convenceria.
Uma dúvida entre correr e esperar sua fala, dava voltas na minha cabeça. Até que senti sua mão me puxar pra dentro do QG, não relutei muito. Os 6 anos esperando por uma explicação, fora suficientes, agora necessitava ouvir suas desculpas:
— Primeiro, me perdoa por ir embora sem me despedir. Segundo os motivos pra quela burrada foi... — a voz rouca parou. Acho que ele tentava encontrar palavras certas para falar — um simples impulso de moleque.
Tentei não perder a minha paciência, mas foi incerto. Uma desculpa tosca dessas, não ia me convencer nunca:
— Cobra. Vê se me erra, você fez aquela merda toda, estraga tudo que tínhamos de bom, e diz que foi impulso de moleque? 15 anos de idade cara, uma pessoa nessa idade, já tem maturidade suficiente, em saber o que é certo ou errado. Não me vinha com essa desculpa furada, e muito menos ache que não sofri com tudo isso. Passei noites Cobra, varias noites, sem dormir. Comer? uma dificuldade. Por sua culpa, e mesmo sentindo vontade de te matar espancado, me fez uma falta muito grande. Não é nocivo para você, e sabe o por quê? porque nunca sofreu como eu. — Arfei irritada e dei de ombros. Não conseguia ouvir suas explicações ridículas e nem queria.
Andei á porta do lugar, entretanto o fantasma do passado, segurou meu pulso, o puxando rudemente. Quem estava pensando ser para agir como o tal? faltava lhe a moral e o direito disso:
— Não terminei de falar Karina Duarte. — Seu tom autoritário me assustou, e senti meu corpo travar na hora. — me ouve. Naquele tempo, na porcaria desse tempo. Me encontrava mal. Esqueceu Karina? a época na qual meus pais morreram? — Eu não aguentei quando Cobra disse. Foi um momento sem palavras, e só nós sabemos a dor dele.
— Então Ka, eu perdi o rumo das coisas. Estava cego de tristeza, de raiva, de decepção. Por mim poderia ter morrido, sei lá o que se passava nessa cabeça. Tudo foi impulso, foi feito sem pensar duas vezes. E se pensa na chance de o canalha aqui não ter sofrido, ai que se engana. Visualizar sua decepção comigo, me machucou, na mesma intensidade da perca dos meus pais.
Senti uma questão me rondar. Se magoava tanto ver meu sofrimento, o por que não correu atrás do prejuízo? fez por onde?
Encarei seu rosto moreno com raiva, minha vontade foi de meter vários socos ali. Como podia ser tão irresponsável?
— Corta essa, você não sofreu que eu sei, se tivesse um pingo de consciência pesada, teria voltado atrás. — Cuspia cada palavras incrédula. Estava tensa de mais, minha mandíbula pesava na fala. — vou embora foi o suficiente. E sua chance de se justificar, acabou.
Escapei de suas mãos teimantes a me manter ali, e dessa vez foi pior. Ele me pegou pela cintura, e jogou meu corpo contra o balcão. Isso estava surtindo uma raiva descrecente em mim.
— Não, ainda não acabei Karina.
Derrepente suas mãos se escoraram no balcão da loja, me prendendo ao redor de seus braços.
— Mais uma coisa. — Aquilo não ia acabar bem. Estávamos perto de mais. — eu te amava muito, o suficiente para não ter te procurado mais. O velho Cobreloa, não merecia a garota exemplar ao lado dele. — Esse verso foi o suficiente para me desarmar. Juntamente da forma intensa que ele me olhava.
Então ele me amava? mas não faz sentido. Nunca fez, ninguém ama desse jeito, eu não entendia, e só consegui bater nos seus ombros, implorando por fuga. Chorei mais ainda e o senti me abraçar. Os braços eram tão fortes, e eu sou tão pequena perto dele. Isso assasiava aquele medo existente, o de me sentir solitária. Foi como do nada tudo se tornasse sem perigo para mim. Podia ser loucura, e eu estar vulnerável. Mas novamente senti a sensação de ter um amigo com quem podia contar.
Meu celular vibra no bolso. Tinha certeza de que era meu Pai preocupado comigo. Me desfiz do abraço de Cobra e vi a mensagem.
“ Karina onde se meteu? já passou do tempo do seu treino.”
Cobra me olhou curioso ao ver meu afastar repentino de seu abraço.
— Eu preciso ir cara, a gente conversa melhor depois. — Falei colocando o Smartphone no bolso.
Fui saindo pela porta, mas antes, senti seus lábios quentes no meu rosto. Foi um beijo de até logo. E isso lá no fundo me me lembrou o nosso primeiro beijo:
— Não me odeie Ka. Sinto tanto sua falta pequena. — Sussurrou no meu ouvido. E isso fez meu coração acelerar. Ele parecia o antigo cara doce e marrento ao mesmo tempo. Dei um sorriso breve sem sua percepção e sai pela porta.
Minhas pernas ficaram tão bambas, vacilantes. Parecia mas que eu estava prestes a cair no chão.
Cheguei na academia e todos me olharam estranho, por causa da minha demora, se es que alguém percebe quando não estou em um determinado lugar.
Gael cruzava os braços e estufava o peito como um macho alfa.
— Posso saber a onde a moci — Ele parou de falar quando percebeu minha visão avermelhada. — o que aconteceu minha filha? te fizeram mal?
Homens são tão bobos, imaginava se eles não tinham vergonha quando o rabinho deles fica entre as patas. Só consegui abraçar ele, e o conforto de seu abraço me deixava segura também. E com um turbilhão de coisas rondando em minha cabeça, um mal estar tomou conta. As vezes com tanto nervosismo, meu corpo se enfraquecia. Fiquei assim desde pequena, quando acabara de saber como perdi minha mãe. A sensação é temeravél, a melhor definição seria, uma assassina. Sim, pois ela morreu no meu parto. Refleti me jogando na cama, e meu consciente passou a pesar. Acho que fui um pouco injusta com Cobra. Vendo meu lado, foi inenarrável a dor sucumbindo sobre perder minha mãe. Para o meu então amigo, devia ser difícil da mesma forma.
Essa sensação me fez abrir uma gaveta e pegar velhas fotos minhas junto dele, ainda as guardava comigo. Durante todos esses anos foi o que me restou como lembranças. Dedilhei o retrato em formas circulares. Será uma nova chance de resgatar tudo que foi perdido no passado...
Fale com o autor