Broken Wing - Aprendendo A Voar
48 Capítulo 48 - Despedida
Notas iniciais
Estava com a estranha sensação de que seria surpreendida por essa visita, e no momento em que ouvi a porta se abrindo e o vi descer as escadas e ir até o portão, meu coração começou a saltar desesperadamente em meu peito, querendo sair. Talvez no fim da noite, saísse mesmo, visto que eu não fazia ideia do que esperar desse encontro. Só o fato de eu poder vê-lo de novo já seria o suficiente.
****
Sakura viu a silhueta do moreno descer as escadas e se aproximar do alto portão de barras. Estava escuro, então ela não conseguiu observar sua expressão até ele estar muito próximo, cara a cara. Eles se olharam por alguns segundos, e em silêncio, ele abriu o portão. Ela ficou pensando na escolha dele de vir até ali pessoalmente convidá-la a entrar ao invés de fazer tudo pelo interfone. Entrando pelo portão, parada na varanda, ela o esperou dizer algo.
– Não esperava te ver tão cedo. – de imediato, ela notou a voz dele estranha. Carregada com algum tipo de nervosismo. Não era a voz que ela estava esperando.
– Se não gostou, posso ir embora. – tentou provoca-lo para ver o que ele responderia, mas a resposta não veio. Ele fechou o portão e ficou de costas para ela – Sasuke? – ele se virou com a menção de seu nome – Se realmente for uma má hora, eu posso ir embora. – ela falou sério agora; talvez ele estivesse com os próprios problemas, e ela viera sem avisar previamente.
– Não, fique. – ele se aproximou, e a preocupação em seu rosto ficou mais aparente. Sakura se lembrava daquele rosto arrogante, sempre com um sorriso de lado, cínico, tentando provoca-la de alguma forma. Mas naquele momento, esse rosto estava sério, cenho levemente franzido; estava bonito de uma forma diferente.
– Você parece preocupado. – ela se lembrou da primeira ligação, quando estava aparente na voz dele que algo estava errado. Ele estava escondendo algo dela, e ela se lembrava agora, de como ele falava querendo desligar o telefone o mais rápido possível, querendo se livrar dela.
– Não é nada. – o tom dele não a convenceu. Sakura nem sempre conseguia ler seus pensamentos, mas ela sabia que aquela era uma mentira – Vai querer ficar parada aqui a noite toda ou vai entrar?
– O anfitrião precisa guiar a visita, não? – ele exibiu um sorriso, mas não foi suficiente para fazê-la se esquecer de que algo não estava certo.
Ele a guiou pelas escadas e abriu a porta da frente, deixando-a entrar na casa onde já estivera tantas vezes. O cheiro dele estava impregnado no interior, e tudo parecia organizado da mesma maneira desde a última vez que ela estivera ali. Finalmente parados no hall iluminado, de frente para o moreno, Sakura conseguiu encará-lo plenamente. Seu rosto continuava bonito, do jeito que ela se lembrava, mas havia uma sombra nele. A apreensão que ela vira no escuro ainda estava lá.
– Então... – ele começou. Era realmente bom ouvir a voz dele tão de perto – Não aguentou de saudades e veio correndo me ver depois de um dia sem falar comigo? – aí estava, seu jeito provocante, suas palavras arrogantes. Mas não estavam com o humor sarcástico usual.
– Na verdade, estava passando por aqui e decidi que te irritar só pelo telefone era chato. – ele riu. Ela gostava daquele riso.
– Eu prefiro que você me irrite pessoalmente. – a vontade de tocá-la estava presente, mas Sasuke estava bem ciente de que no andar de cima, Ino e Gaara se escondiam no quarto de hóspedes, e temia o que pudesse acontecer.
****
Dez minutos atrás
– Ito-san? – Sasuke atendeu ao porteiro, estranhando uma visita a essa hora.
– Sasuke-san, há uma mulher aqui na entrada dizendo se chamar Sakura, querendo entrar e falar com o senhor. Devo permiti-la para dentro do condomínio?
Se Sasuke já não estivesse sentado, teria caído. Sakura, aquela Sakura estava ali, querendo entrar para visita-lo? Sim, eles haviam se falado nessa madrugada, e ela de fato disse que iriam se ver de novo, ele só não esperava que fosse tão cedo. Ao mesmo tempo em que havia ficado feliz, também ficara preocupado. Sakura escolhera uma péssima hora para vir. Não que fosse culpa dela, obviamente, só acontecia de Ino e Gaara estarem ali. Ino não queria que Sakura descobrisse seu paradeiro, pois seria difícil dizerem adeus depois. Sasuke discordava, principalmente depois de a rosada ter desabafado tudo aquilo para ele no telefone. Ele acreditava que as duas precisavam conversar mais uma vez. Sakura precisava ser tranquilizada.
Ele achou que aquela seria a chance perfeita, então permitiu sua entrada no condomínio. Naquela hora, Ino e Gaara estavam lavando a louça do jantar. Sasuke insistira em ajudar, mas Ino o expulsou da cozinha dizendo que ele tinha trabalho para fazer e ela e Gaara seriam suficientes para arrumar tudo. Em todas essas semanas, Ino parecia propensa a fazer qualquer serviço que aparecesse, desde tirar todos os livros de todas as estantes e tirar o pó um por um, até desmontar objetos de madeira somente para remonta-los. O tédio estava acabando com ela, então tudo o que conseguia fazer para não ficar parada, ela fazia. Na última semana, ela inventara de reordenar todos os livros da estante da sala em ordem alfabética. Sasuke teve de concordar depois de ver a expressão de Gaara implorando-o para deixa-la, do contrário Ino iria explodir de tanto tédio e tanto tempo presa dentro da casa.
Então, na hora em que desligou o telefone, Sasuke precisava ter muito cuidado em como dar as notícias a Ino. Atravessou o corredor até a cozinha, e tossiu para se fazer presente. Ino e Gaara o olharam, surpresos.
– Te ouvi no telefone. Tem alguém vindo? Já vamos subir para não causar problemas. – Ino disse prontamente, terminando de guardar os últimos talheres.
– Na verdade, vocês poderiam ficar. – Ino e Gaara o olharam confusos, e ele achou melhor falar de uma vez – A visita é Sakura.
– O que?! – Ino elevou o tom de voz e seu rosto ficou incrédulo – Como assim?
– Também fiquei surpreso, mas ela veio até aqui e daqui a pouco vai tocar a campainha.
– Por quê? Quando isso aconteceu? Vocês combinaram antes? E por que você a deixou entrar? Você sabe que não posso mais vê-la! – seu humor havia mudado rapidamente. Ino estava perturbada, parecia não saber o que fazer.
– Eu também não sabia que ela viria hoje. Só conversamos ontem a noite, mas...
– Vocês conversaram quando? – a expressão de Ino estava se aproximando da de um assassino. Gaara pegou sua mão e pediu a ela que se acalmasse.
– Ela me ligou de novo, ontem de madrugada, vocês já estavam dormindo. Ela disse que queria me ver, eu só não esperava que ela viesse tão cedo.
– E o que ela veio fazer aqui? Duvido que ela só queira te ver. – Ino estava tentando controlar a voz, cruzando os braços, talvez para também contê-los de não voarem no pescoço do moreno.
– Não sei, é de Sakura que estamos falando. Ela não é exatamente previsível. – Ino deu um longo suspiro, levando a mão à cabeça.
– Eu e Gaara vamos nos esconder no andar de cima. Eu sei que é difícil, mas agora não é o momento ideal para um encontro, então por favor, tentem não demorar.
– Não depende só de mim, loira. E eu acho melhor você não se esconder.
– Como assim? – o olhar assassino havia voltado. Sasuke deu um passo para trás – O propósito de estarmos aqui é justamente nos esconder! Se Sakura descobrir que estou aqui, só vai fazer a despedida ficar mais difícil. E Tsunade consegue desvendar as mais escondidas verdades. Se ela já está atrás de mim, é melhor que Sakura não saiba onde estou para não ser obrigada a cooperar com a Mestra. Então não se meta nisso, Sasuke.
– Ino, acho que você vai se arrepender se deixa-la ir embora sem se mostrar.
– Não, Sasuke! Essa decisão não é sua! Eu já abandonei minha vida quando fugi da Base, não posso fraquejar agora, e se eu encontrar Sakura, tenho certeza de que irei. Sabe como foi difícil pular aqueles muros sem olhar para trás, sem passar no quarto dela e abraça-la uma última vez? – havia dor na voz de Ino – Prometa, Sasuke. Prometa que não irá contar a ela que estou aqui.
Sem alternativas, Sasuke suspirou derrotado.
– Prometo.
Ainda assim, não concordava com a opinião da loira. Na verdade, ele também estava sendo egoísta, pois se Sakura descobrisse que ele esteve escondendo Ino esse tempo todo sem contar a ela, ficaria magoada; poderia até considerar isso como mentira, e a relação melhorada deles poderia vir por água abaixo. Sakura demorara muito para aceita-lo, e agora que a confiança dela nele havia aumentado exponencialmente, ele não queria estragar tudo mentindo a ela.
Mas essa era a decisão de Ino, então tudo o que ele poderia fazer era mentir para ajudar a loira. Quando Sakura finalmente tocou a campainha e ele foi atendê-la, torceu para que ela não conseguisse ler a mentira em sua expressão. O fato de Ino estar ali, perto da amiga que sofria por ela, com Sasuke precisando esconder isso era triste. Para Sasuke, não parecia tão difícil assim. As duas já haviam passado por tanta coisa juntas, então seria somente apropriado se elas pudessem se despedir da melhor forma possível. Seria melhor para elas. Sakura nunca o perdoaria se descobrisse que ele estava mantendo Ino escondida e deixou-a ir embora sem que elas pudessem trocar um último adeus. Sasuke não queria esse peso, essa culpa. Teria ele então que viver o resto da vida ouvindo Sakura sofrer de saudades quando poderia simplesmente tê-la levado ao andar de cima?
E Sakura já suspeitava que havia algo de errado. Na verdade, Sakura sempre suspeitava de tudo, e Sasuke se sentia nu quando ela o olhava com aquele olhar esmeralda, esperando ler sua mente e descobrir todas as coisas ruins sobre ele, inclusive que sua melhor amiga estava ali e ele estava mentindo a ela sobre isso.
****
Agora, dez minutos depois da ligação do porteiro anunciando Sakura, Sasuke se sentia encurralado. Precisava respeitar a decisão de Ino, então além de ter de omitir essa informação de Sakura, não poderia deixa-la ficar ali a noite toda. Um barulhinho que ela ouvisse já seria o suficiente para estragar tudo. Não poderia contar a verdade a ela, por pedido de Ino. Mas Sasuke se conhecia muito bem, e não sabia se conseguiria manter a promessa à loira.
– Bom, vejo que nada mudou por aqui. – Sakura andava pela casa, observando os detalhes não esquecidos – Exceto que... você parece ter ficado mais bagunceiro. – ela disse divertida, observando a sala e as almofadas espalhadas pelo chão.
Sasuke a seguiu até a sala, nervosismo ameaçando dominá-lo. Aquela bagunça era de Ino. Ela gostava de deitar no chão enquanto assistia à TV, e as almofadas eram suas companheiras. Ele não sabia se havia mais das manias de Ino pela casa, mas se houvesse, poderia incitar as suspeitas de Sakura.
– Ah, eu também... estava entediado. – Sasuke bateu-se internamente. Ele sabia mentir melhor que isso, precisava fazer sua voz ficar mais natural, ou Sakura logo descobriria. Mas se fosse para ser sincero consigo mesmo, ele queria que Sakura descobrisse. Só temia que ela nunca fosse perdoá-lo depois de descobrir essa pequena mentira.
– E seu irmão? Como está a nova vida de casado?
– Sem problemas até agora. Konan vai ter um menino.
– Parabéns a eles. – Sakura sentia restrição na voz dele, como se ele estivesse escondendo algo dela. Passando pelo corredor, ela alcançou a cozinha – Tudo bem se eu pegar um copo de água?
– À vontade. – Sasuke a seguiu, observando-a fazer a simples ação. Ela parecia um pouco mais magra em comparação à última vez que a vira, mas seu corpo ainda continuava delicado, despertando velhos desejos.
Sakura terminou de beber a água e olhou-o, um fio do líquido escorrendo dos lábios até o queixo. Sasuke a observou enquanto ela tentava decifrar seu olhar.
– Problemas na empresa? – ele foi pego de surpresa pela pergunta.
– Ah, não. Meu pai continua chato como sempre, os negócios continuam iguais. Só estão mais tediosos. – tentou dizer despreocupadamente.
– Então por que está tão tenso? – Sakura resolveu encará-lo diretamente para descobrir por que diabos ele estava agindo daquele jeito, como se temesse que ela descobrisse algum segredo horrível sobre si.
– Não estou tenso.
– Está sim. – aproximando-se dele, ela tentou ler sua expressão, fixada na dela. Estar tão perto dele somente confirmava a falta que ele fazia. O fato de seu estômago queimar e de seu coração acelerar conforme se aproximava só gritavam como ela o queria, como precisava dele em sua vida. Havia acabado de aceitar seus sentimentos, não iria desistir deles agora.
– É porque você apareceu de repente. – ele tentou se justificar, dando um passo para trás conforme ela vinha em sua direção.
– Está com medo de mim, Sasuke? – o tom dela era provocante. Ela queria descobrir o que havia de errado com ele. Sasuke riu nervosamente.
– Qualquer um teria medo de você, mas felizmente já me acostumei.
– Então pare de se afastar. A não ser que... – Sakura parou de pressioná-lo, e ele parou de se afastar também, esperando nervosamente pelo término da frase dela – A não ser que você esteja me evitando por algum motivo – Ela olhava diretamente naqueles olhos negros, tentando penetrá-los apesar do quão densos eram.
– Não estou te evitando.
– Então se aproxime de mim. Não se afaste. – ela falou séria. Não veio até a casa dele para receber esse tratamento. Queria que ele viesse até ela e a abraçasse. Por que ele não estava fazendo isso?
Sasuke se aproximou hesitante, encarando-a. Ele não era muito mais alto. Os lábios dele estavam completamente acessíveis, convidando-a. Após se encararem por alguns segundos, Sasuke pensou que aquele encontro estava muito estranho.
– O que veio fazer aqui, Sakura? De verdade? – a respiração dele a alcançou, e Sakura percebeu como estava desnivelada. Ele estava nervoso. Mas por qual motivo?
– Não posso vir aqui com o único motivo de querer te ver? – ela respondeu, honesta.
– Você nunca foi tão sincera assim comigo antes. O que aconteceu? – ele também perguntava sério. Sakura engoliu em seco, segurando a vontade de envolver os braços ao redor do pescoço dele.
– Eu já disse ontem, não disse? Eu não vou mais fugir. – os olhos dela queimavam verdes com determinação, como fogovivo – E você disse que sempre estaria aqui por mim. Então por que está se afastando agora? Não me quer aqui?
Ele franziu o cenho. Sakura pensou que ele estava se torturando com alguma coisa, como se estivesse indeciso em lhe dar uma resposta. Como se estivesse escolhendo os prós e contras entre ficar calado, dizer a verdade ou dizer uma mentira.
– Eu te quero aqui. – foi o que ele finalmente disse.
– Mas não agora, não é? Você não me quer aqui agora. Por quê? Está escondendo algo de mim? – ele não conseguia mentir para aqueles olhos tão verdes. Resolveu se manter em silêncio, mesmo sabendo o quão persistente Sakura era – O que você está escondendo, Sasuke? O que está te perturbando para agir assim?
Sabendo que não conseguiria escapar das perguntas dela, ele somente se aproximou e tocou os lábios dela com os seus. Estava querendo fazer aquilo há muito tempo, e teve medo da rejeição, que nunca veio. Sakura fechou os olhos, surpresa com o movimento, enquanto sentia os imponentes lábios dele tomarem os dela. Isso não era uma resposta à sua pergunta, era somente o moreno tentando esquivar-se dela. Ela se afastou após alguns segundos, olhando-o firmemente.
– O que você está escondendo, Sasuke? – ela refez a pergunta, não tinha intenção de deixar aquilo passar. Sasuke riu nervosamente.
– Não faça isso comigo, Sakura. – ele balançou a cabeça de um lado para o outro timidamente. Sakura achou aquela imagem extremamente bonita.
– Do que está com medo? – confusa, ela não entendia. O que ele não poderia lhe contar?
– De você se afastar de novo. – ele a olhou nos olhos, tentando fazer com que ela entendesse.
– Não vou me afastar. Eu estou aqui agora, não estou? – ele sentia a gentileza na voz dela, mas a existência de duas pessoas escondidas em sua casa o deixava desconfortável, principalmente quando ele queria dizer a ela sobre essas presenças, mas não podia.
– Está.
– Então não precisa ter medo. Quem é você, por acaso? – sentiu que a pergunta era um desafio. Ele sabia que estava agindo de forma patética, indecisa. Ele nunca fora assim. Sempre que queria dizer algo, ele dizia, não tinha medo. O problema era que a revelação que queria fazer agora não dependia somente dele.
– Sakura. – decidiu fazer-lhe uma pergunta que o estava incomodando há varias semanas – Se Ino não tivesse fugido, você ainda teria vindo até aqui me ver? – ela pareceu pega de surpresa pela pergunta.
– Não sei. – respondeu sinceramente – Ino fugiu e graças a isso eu ganhei coragem para fazer o que sempre achei certo, só estava com medo de realizar.
– Se pudesse vê-la de novo, o que você faria? – ela franziu o cenho frente às perguntas, estranhando a mudança de assunto.
– Não sei. Acho que... daria-lhe uma bronca por ainda não ter saído do país, visto que tem um exército inteiro de Wings atrás dela e de Gaara. – Sasuke soltou um breve riso – Por que está me perguntando sobre Ino de repente?
– Porque percebi como isso te afetou. – ele respondeu sinceramente, mas Sakura começou a estranhar tudo aquilo.
– Eu te disse somente ontem que Ino havia fugido.
– Sim...
– Você não pareceu surpreso. – relembrando a ligação, Sakura observou-o, suspeita. Sasuke pareceu ter sido pego de surpresa pela última fala dela.
– Ficar surpreso não teria te ajudado naquele momento. – tentou disfarçar o nervosismo com uma mentira. Mas agora que Sakura já tinha suas suspeitas, nada iria pará-la. Ela cruzou os braços na frente do peito, olhando-o com severidade.
– E o que me ajudaria naquele momento? – Sasuke sentia o olhar ameaçador dela, procurando por mentiras no dele – Sasuke... – com o tom baixo, ele esperou pela bomba – O que você sabe sobre a fuga de Ino?
Ele engoliu em seco. Ino ficaria furiosa por ele estar entregando o segredo dela tão facilmente. Vendo que Sasuke não lhe respondia, Sakura, começou a ficar impaciente.
– Sasuke. – ouvir seu nome ser dito com aquele senso de perigo o excitou. Naquele momento, Sasuke só queria pegá-la e leva-la ao seu quarto, mas tinha outros problemas para lidar agora – Responda.
– Não sei nada sobre a fuga de Ino. – ele desviou o olhar do dela, dando-lhe as costas e afastando-se alguns passos – Só queria que vocês tivessem a chance de se reencontrar. – ouvi-lo falando daquele jeito só aumentou suas suspeitas.
– Por que está de costas para mim? – ela estava começando a ficar irritada com as respostas ambíguas dele. Ao mesmo tempo em que conseguira perceber facilmente algo errado, não conseguia identificar o que era ou por que o moreno estava agindo daquele jeito. Ela o viu dar de ombros, sua paciência se esgotando – Sasuke, você está me irritando. Eu não vim aqui para ser tratada com descaso.
– O que mais você viu de diferente na minha casa? Além das almofadas no chão? – novamente, ele estava tentando mudar de assunto. Ouviu-a suspirar com irritação e sorriu tristemente.
– Você está mais chato que de costume também. – com a voz ríspida, isso o lembrava da Sakura que o atormentava meses e meses atrás, a mesma por quem ele começou a se sentir atraído.
– E por que será isso? – era mais divertido do que pensava desafiá-la daquela forma. Sasuke prometera a Ino não contar à Sakura sobre ela estar ali, mas não seria culpa dele se a rosada descobrisse aquilo sozinha.
– Não sei, porque você está escondendo alguma coisa e está me fazendo de tonta com essas perguntas.
– Escondendo alguma coisa? – ele continuava desafiando-a, mas Sakura sentia que não era somente para irritá-la. Ele parecia estar querendo passar uma mensagem – Acha que estou escondendo alguma coisa de você?
– Tenho certeza. – ele voltou a encará-la, e ela captou a tristeza em seu olhar.
– Por que não procura, então? – ela levantou uma sobrancelha, confusa.
– Procurar o que?
– O que estou escondendo.
– E por que você mesmo não me fala para acabarmos com essa peça de teatro? – ela estava muito irritada, Sasuke tinha até medo de como ela iria reagir em alguns minutos.
– Porque eu fiz uma promessa. – encarando profundamente aqueles olhos escuros, Sakura conseguiu ler um desejo. O desejo de querer guia-la para algum lugar.
– Você quer me contar, mas não pode.
– Descubra, Sakura. Não gosto de quebrar minhas promessas. – exibindo um sorriso de lado, aquele que ela conhecia muito bem e sempre odiou, o desafio estava feito.
Sasuke previu que morreria essa noite. Bem, não literalmente, mas havia muitas facas na casa para Ino usar a seu favor quando Sakura a encontrasse e ela fosse culpar Sasuke por tê-la deixado. E também seria difícil segurar a ira de Sakura se ela resolvesse culpa-lo por também ter demorado tanto tempo para conta-la. Era engraçado de tão ridículo que parecia, mas Sasuke sentia que tudo aquilo iria terminar, de alguma forma, como sendo sua culpa. Enquanto Sakura retribuía seu sorriso e voltava à sala de visitas para observar detalhes passados à primeira vista, Sasuke a seguia, em silêncio.
Não sabia se essa era a coisa certa a se fazer. Talvez um reencontro entre essas duas só traria prejuízos. Mas ele aprendera há muito tempo a confiar mais em seus instintos do que na lógica. Eles sempre estavam certos quando se tratava de Sakura, então por que estariam errados agora?
– O que é isso? – ouviu a voz da rosada tirando-o de seus pensamentos, olhando para onde ela havia apontado, a estante da televisão. Havia alguns livros ali, mas a organização estava diferente.
– Ah, algumas coisas foram mudadas de lugar. – Sakura se aproximou mais da estante, um olhar confuso dominando seu rosto.
– Os livros estão em ordem alfabética? – olhou para Sasuke com uma expressão divertida. O moreno apenas deu de ombros – Não foi você quem fez isso, foi?
Sem esperar uma resposta, ela saiu da sala e atravessou o corredor rapidamente, chegando até a cozinha. Sasuke a seguiu, encontrando-a com a cara enfiada na geladeira.
– Essas sobras de guioza parecem deliciosas, você quem fez?
– Não...
Fechando a geladeira, ela o encarou, uma mistura de irritação e diversão em seu rosto.
– Quem fez então? – ele não respondeu, mas ela já esperava por isso. Ao invés disso, olhou para a geladeira de novo e notou um bilhete preso com um ímã.
O bilhete era curto, e os escritos somente mostravam uma lista comum de supermercado. Mas aquela caligrafia não era de Sasuke. Perplexa, ela o olhou, e ele lhe retribuiu o olhar. Ficaram em silêncio por vários segundos, até que os olhos dela começaram a brilhar com a umidade que ameaçava cair.
Prontamente, ela disparou até as escadas, subindo os degraus de dois a dois. Sasuke a ouviu batendo na porta do quarto de hóspedes.
Desculpe, loira. Mas eu realmente acho que será melhor assim.
****
– Seu idiota! – Sasuke esperava sentado em um dos sofás da sala, quando uma voz familiar e ameaçadoramente assassina alcançou seus ouvidos. Colocando-se em pé, pegou uma das almofadas do chão para servir como escudo, sem se importar com quão patético aquilo parecia.
– Sakura, não o mate! – pela porta aberta, Sasuke viu a figura esguia de Sakura virar o corredor e ir até ele com fogo nos olhos, e uma cabeleira loira correndo logo atrás. Ele só esperava que sua morte fosse rápida enquanto cobria o rosto com a macia almofada.
Sentiu os passos pesados pararem à sua frente, e Sakura logo arrancou a almofada de suas mãos, obrigando-o a encará-la. Fúria não era o único sentimento exibido nos olhos dela, mas era o que mais se destacava ali.
– Seu idiota! – ela repetiu, dessa vez com a voz mais controlada – Por que todo esse joguinho?
– Sakura, eu entendo sua raiva, mas...
– Não me venha com seus “mas”! – ela levantou um dedo e ele ficou em silêncio. Percebeu que os olhos dela estavam vermelhos e inchados – Por que demorou tanto tempo para me contar que minha melhor amiga estava aqui o tempo todo? Você me ouviu chorar no telefone, você sabia como eu estava me sentindo e mesmo depois de eu vir até aqui, ainda ousa me beijar para não me contar a verdade! Seu idiota! – e ela começou a lhe dar tapas e socos nos braços, cada um mais dolorido que o outro.
– Sakura, não faça isso! Fui eu quem pediu a ele para não contar nada, quem deveria estar batendo nele sou eu! – Ino entrou na sala seguida por Gaara, e Sasuke rezou para um buraco se abrir ali e engoli-lo.
De repente, os socos de Sakura pararam, e ela jogou os braços sem cerimônia ao redor do pescoço de Sasuke, apertando-o em um abraço. O moreno arregalou os olhos com a brusca mudança de atitude, e por cima do ombro da rosada, conseguia ver a expressão de Ino e Gaara, tão confusas como a dele. Sasuke ouviu Sakura soluçar próximo a seu ouvido e levou seus braços às costas dela, tentando acalmá-la e ao mesmo tempo entender sua bipolaridade. Sakura sempre fora imprevisível, mas isso ele já achava demais.
– Obrigada. – ouviu um sussurro dela logo antes de a rosada se afastar, limpando as últimas lágrimas. Em seguida, ela se virou para Ino, ficando de costas para o moreno – Precisa sair do país, Ino. Vocês dois.
– Já conversamos sobre isso, Sakura. Tsunade nunca nos encontrará aqui. Vamos espera-los ficar sem pistas e só então iremos ousar sair mundo afora.
– Ino, você não está entendendo. Tsunade já sabe de tudo: sobre o relacionamento de vocês, a fuga combinada, e inclusive que Gaara está aqui, no País do Fogo. – Ino e Gaara arregalaram os olhos com essa informação. Eles não esperavam por aquilo.
– M-mesmo assim, não acho que Tsunade pensaria que a casa de Sasuke seria um bom esconderijo para nós.
– Não subestime Tsunade, Ino, você a conhece bem. – havia súplica no tom de Sakura – Shikamaru está no comando da investigação, e ele já suspeita que você esteja escondida em algum lugar de valor sentimental para você. Não vai demorar muito até suspeitarem dessa cidade, vocês precisam sair daqui! Além disso, Tsunade já está te tratando como uma deserdada; isso significa que você é inimiga agora. Ela virá atrás de Gaara para resgatá-lo e não hesitará em te matar se você ficar no caminho!
– Pois ela pode vir com vinte ou duzentas Wings, não me importo.
– Ino! Seja sensata. Você não conseguiria contra tantas Wings, principalmente com alguém para proteger. Eu, Hinata, TenTen e Temari já prometemos fazer o possível para atrapalhar Tsunade, mas precisamos da sua ajuda também! Fujam o quanto antes, antes que Shikamaru aumente as vigias nas estações de trem e aeroportos, antes que seja tarde!
Ino levou o polegar aos lábios e começou a mordiscá-lo, preocupada com as declarações de Sakura. Tinha medo de sair, mas ficar também já estava perigoso.
– Se já estão vigiando os aeroportos, é muito arriscado sair. Gaara será facilmente reconhecido. Precisamos arriscar e ficar aqui.
– Ino, Tsunade está se aproximando cada vez mais. Não cometa o mesmo erro que eu! Eu também pensei que seria seguro depois de um tempo, mas fui capturada. Você tem que sair daqui o quanto antes se quiser que esse plano dê certo. – Sakura sabia que Ino sempre ouvia seus conselhos, pois a rosada pensava de forma mais estratégica que ela.
– Mas não posso arriscar ser vista em um lugar público!
– Eu posso ajudar. – a voz de Sasuke se fez presente no cômodo, fracamente. Com todos os olhares nele e sem as ameaças físicas de Sakura, ele se sentiu seguro a continuar – Se o problema é sair do país sem serem vistos, eu posso ajudar.
– Sasuke? – Ino disse o nome dele como se dissesse o nome de Buda.
– A Empresa Uchiha possui jatos particulares. Todos os voos são registrados, obviamente, mas pelo menos vocês passarão pela vigilância da velha peituda.
– E quem irá pilotar esses jatos? – um olhar de esperança se fez presente no rosto de Ino.
– Temos pilotos particulares, e eles são bem leais e prestativos. Se conseguirmos arrumar um bom disfarce para Gaara, não haverá motivos para se preocupar. O piloto vai atender a minha ordem sem questionar ou contar a ninguém. Não é incomum viajarmos com pessoas de fora da empresa. Para ele, será só mais um serviço normal. – um breve silêncio se fez antes de Sakura suspirar e se posicionar.
– Bom, então está decidido! Já deveriam ter feito isso há muito tempo. Quando eles podem partir? – Sakura parecia já saber o que fazer.
– O que? Calma, Sakura, quem decide isso somos eu e Gaara.
– Não há o que decidir, Ino, estamos ficando sem tempo! Não me faça chorar de novo!
Ino deu um longo suspiro e sorriu tristemente para a amiga.
– Não quero te ver chorando por mim. Assim você só me faz sentir culpada. É por isso que não deveríamos ter nos visto, Sasuke. – Ino falou a última parte olhando ao moreno, ainda confuso depois do abraço de Sakura.
– Não vou mais chorar, Ino. Eu só quero que você seja feliz. Mas para isso você precisa sair daqui o mais rápido possível! Sasuke já disse que pode ajudar, então o que está esperando?
– Agradeço a preocupação, Sakura, mas não é tão simples assim. Já coloquei Sasuke em perigo apenas por ficar aqui, não posso pedir a ele que arrisque ainda mais por mim.
– Eu estou fazendo isso porque quero ajudar, loira. De nada adianta se esconder aqui se isso aumentar as chances da velha peituda te encontrar.
– Mas Sasuke, isso ainda é arriscado demais...
– Ino – agora a voz de Gaara se fez presente. Até agora, ele só ouviu enquanto Sakura e Ino se encontravam e se abraçavam, e apenas presenciou o surto de Sakura e a proposta de Sasuke. Agora era a vez dele de falar – Já arriscamos muito com tudo isso. Não faz sentido hesitar agora.
– Eu posso garantir a segurança de vocês. – Sasuke tentou outras palavras de conforto para convencer Ino – Posso deixar vocês em qualquer lugar que quiserem, a velha peituda não vai conseguir encontrar nenhum rastro. E se precisarem de novo, é só entrar em contato.
– Ino, por favor! – Sakura suplicava à amiga. Não queria vê-la mais presa a essa vida, sofrendo, se escondendo. Queria vê-la livre, longe de Tsunade e das asas claustrofóbicas da Mestra. Ino voltou a morder o polegar, e depois de um minuto inteiro de silêncio, finalmente respondeu.
– Certo. – antes que Sakura pudesse respirar de alívio, ela continuou – Mas precisamos planejar isso com muito cuidado. Não quero fazer nada às pressas.
De repente, a loira sentiu a rosada abraça-la, assim como esta havia feito com Sasuke. Ino não demorou a retribuir o gesto, pois sabia que poderia ser a última vez.
– Sua loira teimosa. Pare de me causar preocupações e vá ser feliz. – Ino riu com essas palavras.
– A situação na Base deve estar insana, não? Desculpe por todos esses problemas. – Sakura apertou mais o abraço.
– Não se desculpe, você fez a coisa certa. Mesmo que eu nunca mais te veja, sei que você estará feliz. – elas romperam o abraço, sorrindo de modo já saudosista.
– Cuide-se e tenha juízo. Sei que não estava esperando me encontrar aqui e de alguma forma eu estraguei a sua noite – ela rapidamente olhou para Sasuke, que desviou rapidamente a atenção das duas mulheres na sala – mas fico feliz por Sasuke ter sido o responsável pelo nosso encontro.
– Eu terei mais oportunidades para importuná-lo, não se preocupe.
– Só não o agrida como fez agora há pouco. – a conversa havia ficado estranha bem rápido. Sasuke ainda não conseguia entender a relação entre essas duas.
– Eu não estava com raiva naquela hora, só queria... descarregar tudo o que estava sentindo ao te ver bem e a centímetros de mim.
– É mesmo, o que será de você sem mim? – a loira a provocou.
– Uma bagunça, porquinha. – as duas sorriram novamente, mas o sorriso logo se transformou em tristeza.
– Você precisa ir agora, não é? Ou Tsunade vai suspeitar de algo.
– Sim. Estou feliz por ter te visto uma última vez. – os olhos de Ino começaram a ficar úmidos. Gaara, atrás dela, acenou com a cabeça para Sasuke e eles saíram do cômodo, dando privacidade às duas – Sinto muito por nada disso ser justo. Todas nós merecíamos liberdade plena. Não deveríamos ter que depender de Tsunade, nem ficarmos presas a ela.
– Eu sei disso. – os olhos de Sakura continuavam vermelhos, mas ela não chorava mais. Ao invés disso, brilhavam de determinação. Ino conhecia aquele olhar – Sakura... no que você está pensando?
– Estou pensando exatamente nisso: não podemos ficar enjauladas a vida toda naquela Base, servindo uma Mestra. Cada uma de nós precisa ser a Mestra de si mesma. Por isso eu já decidi que não importa o tempo que levar, eu irei sair de lá e irei resgatar todas as meninas e mulheres dali. Precisei da sua atitude rebelde para finalmente acordar de novo, mas nunca me senti tão determinada desde a vez em que fugi.
– Está brincando com fogo, testuda. – Ino pensava que tentar desfazer completamente a Organização tão poderosa de Tsunade era loucura. E se fosse assim, então somente Sakura era louca o suficiente para aquilo – Mas independente de qualquer coisa, mesmo que esse seja nosso último contato, eu sempre desejarei pela sua felicidade, e você sabe que desejos tem poderes, não é?
– Com certeza, porquinha. Eu também desejarei pela sua.
Lágrimas caíram mais uma vez dos olhos de ambas. Minutos atrás, quando Sakura abriu a porta do quarto de hóspedes e encontrou Ino andando nervosamente pelo cômodo, tudo em que conseguiu pensar foi em quão aliviada ficou por encontrar a amiga bem. Ino ficara tão assustada que Sakura pensou até que fosse fugir naquele exato momento, com medo das consequências daquele encontro, mas a saudade fora mais forte e elas automaticamente se abraçaram. E todo aquele tempo em que Ino a estava evitando por medo, Sasuke acreditara nas duas e achou que valia a pena arriscar se encontrarem de novo. Sasuke deu a ela uma nova chance de falar com a mais querida amiga e irmã. Sasuke a havia guiado até Ino.
Mas agora esse realmente seria o último contato. Saber que Ino estava bem nessa última vez e que finalmente iria conseguir fugir em segurança já era suficiente para acalmar o coração agitado de Sakura, e Ino sabia que poderia deixar sua amiga com Hinata, TenTen, Temari e sim, Sasuke. Depois de se abraçarem uma última vez, as duas selaram rapidamente os lábios. Aquele gesto era simbólico, e representava a confiança e o amor que ambas sentiam pela outra, assim como a forte ligação que sempre as manteria próximas.
– Eu realmente preciso ir agora, ou então te levarei comigo de volta. – a rosada deu um último sorriso a Ino, que o retribuiu – Cuide-se e lembre-se dos nossos tempos juntas.
– Digo o mesmo para você, Sakurita. E... se me permite dar um último conselho chato, não abandone seu direito de ser livre. E também... não abandone Sasuke. Ele precisa de você.
Sem responder diretamente, Sakura apenas sorriu tristemente, e murmurou um último “adeus”, antes de finalmente passar por Ino e sair do cômodo, despedindo-se por completo. Alcançou o hall da casa silenciosamente, e fazendo uma breve reverência a Gaara, pediu baixo:
– Cuide de Ino, por favor. – Gaara acenou positivamente com a cabeça e retribuiu a reverência. Em seguida, Sakura olhou para o moreno, que a observava curiosamente.
Ele abriu a porta de entrada e a acompanhou até a varanda em silêncio, até estarem a centímetros do portão. Já era tarde da noite, mas a rua estava bem iluminada com as luzes artificiais e o brilho natural da lua cheia e das estrelas. Os dois encararam-se por alguns segundos, sem querer desviar o olhar. Sasuke quebrou o silêncio.
– Esse é um adeus entre vocês então? – Sakura limpou a umidade dos olhos com os dedos, acenando com a cabeça.
– Ela vai ser feliz agora. – Sasuke aproximou-se dela, até estarem com os rostos a centímetros de distância. Gentilmente levou uma das mãos até a bochecha dela, ajudando-a a secar as lágrimas. Ela encarava os escuros olhos dele, curiosa.
– E quando você poderá ser feliz, Sakura? – aquela era uma pergunta para a qual ela queria saber a resposta. Mesmo se ela fosse plenamente feliz, talvez não conseguisse saber. Talvez a felicidade não seja um estado permanente, e sim a combinação de rápidos e efêmeros acontecimentos positivos.
– Não sei.
– Algum dia você irá se despedir de mim como acabou de se despedir de Ino? – a voz dele estava estranhamente melancólica. Estava totalmente diferente do Sasuke que conhecera há mais de um ano. O moreno à sua frente agora não tinha nada do homem frio, arrogante, egoísta e sem juízo que conhecera. Será que as pessoas realmente poderiam mudar então? O quanto ela havia mudado depois de conhecê-lo?
– Não. – por algum estranho motivo, ela tinha certeza disso. Tinha certeza de que nunca iria dizer um adeus permanente a esse homem. Desde que seus caminhos haviam se cruzado, o destino sempre os aproximava de novo.
– Fico feliz então.
– Eu também. – Sasuke franziu as sobrancelhas. O que havia de tão especial nessa mulher? O quanto ela tinha influenciado sua vida, sua maneira de observar o mundo, de sentir?
– O que veio fazer aqui na minha casa hoje? – ela não lhe respondeu, só continuou presa em seus olhos cor de ônix – Se Ino não estivesse aqui... como esse encontro teria terminado? – dessa vez ela sorriu.
– Sabemos muito bem como teria terminado. – ela tinha razão. A conexão entre eles havia alcançado esse ponto misterioso, no qual não conseguiam identificar ao certo o tipo de relacionamento que tinham, mas sabiam que já não conseguiam viver sem o outro.
– Posso esperar por outra visita?
– Precisa mesmo perguntar, Sasuke? – ela não tinha dúvidas de que voltaria.
– Preciso. Você pode desaparecer para sempre amanhã mesmo. E eu não tenho como te encontrar sozinho.
– Já conversamos sobre isso antes, não? Eu sempre saberei onde te encontrar, por isso não vou te abandonar. – era estranho ser tão aberta com ele daquela forma, mas ela já havia aceitado os próprios sentimentos, e essa fora a parte mais difícil. Esteve sozinha por muito tempo, e sabia que mesmo com todo o dinheiro, fama e presença da família, Sasuke também era solitário.
A solidão de um era amenizada com a solidão do outro. Como um tipo de droga viciante da qual os dois usufruíam, e não conseguiam mais viver sem. Seria de fato isso o que as pessoas chamavam de “amor”? O conceito ainda era estranho para ambos. Eram inexperientes nisso. Tinham medo de se entregar, de confiar. Mas não conseguiam mais viver sem o outro. Por hora, aquilo parecia ser o suficiente.
– Sakura... – ele afastou a mão do rosto dela e olhou para baixo, como se tivesse se arrependido no último minuto de dizer algo. Ela não o forçou.
– Eu vou voltar. – ele levantou o rosto para voltar a encará-la.
– Espero que sim.
E não precisou de muito após isso. Os dois fizeram o mais natural que poderiam ter feito naquela situação: simplesmente aproximaram os corpos até seus lábios se conectarem pela segunda vez naquela noite. O contato foi suave e gentil. Não havia pressa, não havia agressão, não havia luxúria; havia somente o sentimento de continuarem conectados; de se abraçarem até conseguirem se lembrar do toque do outro, até seus corpos ficarem moldados como um só. As mãos dele abraçavam a cintura dela delicadamente, e as dela envolviam as bochechas e pescoço dele, percorrendo até alcançarem sua nuca e se entrelaçarem naqueles cabelos rebeldes, acariciando a pele, puxando levemente os fios, enquanto ele a abraçava cada vez mais próximo a si. Seus lábios conduziam uma delicada dança, e suas línguas coordenavam todos os passos. Não queriam se soltar, se afastar.
Queriam continuar naquele ritmo, naquele abraço, naquele beijo. Eventualmente, quiseram mais. Seus corpos se apertavam contra o outro. Sakura empurrava a cabeça do moreno contra si, seus dedos embaraçando os fios negros de tão forte que os envolvia. Com a mão dele na cintura dela, ficava fácil posicioná-la em uma posição confortável e tentadora. Aquele beijo começara para nunca ser interrompido. Estavam transmitindo toda a saudade, o desejo e o afeto através desse toque. Depois de ter ficado mais ousado, o beijo foi lentamente se acalmando, até ser reduzido a uma leve mordida de lábio por parte da rosada. Sasuke riu suavemente enquanto tinha seu lábio inferior preso nos delicados dentes de Sakura. Terminaram o beijo, mas não desfizeram o abraço.
E se beijaram mais uma vez. Não fazia mais sentido esconderem esses sentimentos do outro, não quando já estava tão claro como a luz do dia. Não, Sakura jurara a si mesma não fugir mais, nem de Sasuke, nem de sua liberdade. Iria conquistar o que queria. Iria lutar por aquilo que achava correto. E não iria mais fingir imparcialidade. Não iria mais tentar afastar aquilo que lhe fazia bem. Estava disposta a aceitar o moreno em sua vida. E não tinha mais medo de admitir aquilo.
Finalmente se afastaram, ainda se encarando. Sakura não havia esquecido como aqueles olhos escuros a atraíam, a sugavam para dentro e a deixavam presa ali, em transe. O efeito deles nunca parecia diminuir, pelo contrário, parecia um feitiço, e quanto mais ela olhava, mais forte o feitiço se tornava. E Sasuke também nunca se esquecera da delicadeza daquele rosto, da força daquele espírito, da ferocidade nas atitudes da rosada. Não, um de fato atraía o outro, como dois ímãs de polos contrários. E não havia motivos para separá-los.
– Vou te esperar voltar. – com as palavras dele, ela só acenou com a cabeça.
– Vou deixar Ino e Gaara em suas mãos. Tire-os daqui o mais rápido possível. – agora foi a vez dele acenar com a cabeça, e ela continuou – Agora é minha vez de lutar pela minha liberdade. Quando eu a tiver conseguido, voltarei para você. – ele sorriu.
– Vou estar aqui.
– Eu sei. – e como se não conseguissem evitar, beijaram-se mais uma vez, rapidamente.
O moreno abriu o portão e a rosada finalmente pode ir embora, sem olhar para trás. Havia se despedido oficialmente de Ino, e agora sabia que seria para sempre. Até chegar à Base, suas lágrimas teriam secado e seus olhos não estariam mais vermelhos. O cheiro do moreno também iria desaparecer de seu corpo. Uma vez lá, ela teria que tomar cuidado. Foi preciso um longo tempo de sofrimento para finalmente tomar coragem e tentar fazer essa loucura novamente. Da primeira vez, fugir não havia dado certo. Mas agora ela faria muito mais. Ela não iria fugir sozinha, e sim destrancaria a gaiola e deixaria todas as Wings desfrutarem livremente de suas asas. Afinal, pássaros foram feitos para voar, e ela mal via a hora de subir até o alto dos céus.
I'm running away with you
From yesterday's news
Let's leave it all behind
Help me back to my mind
Estou fugindo com você
Das notícias de ontem
Vamos deixar tudo para trás
Me ajude a voltarà minha mente
Pete Doherty ft. Wolfman – For Lovers
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