Broken Wing - Aprendendo A Voar

3 Capítulo 3 - Humilhação e Passado


Notas iniciais
Eu planejava revelar o passado da Sakura mais para frente, mas resolvi adiantar porque se encaixava no capítulo. Também tomei a liberdade de criar personagens originais, como os tios do Sasuke, que serão apresentados nesse capítulo. Eles me serão úteis mais para frente. Boa leitura :)

Então eu iria esperar os policiais procurarem sem sucesso pelo “ladrão”. Depois diria a meu “namorado” que teria que me mudar para a casa de meus parentes em uma cidade longe. Fugiria dali e ninguém nunca haveria ouvido falar de Sakura Haruno, meu nome verdadeiro, uma das Wings, ex-aprendiz de Tsunade que agora começaria a conquistar seu próprio mundo.

Só o que eu não sabia era que meus olhos verdes me trairiam mais tarde.

Estava tudo escuro. Eu sentia dor. Pensei que fosse a ressaca do baile que eu tinha ido noite passada, mas não me lembrava de ter deitado na cama e dormido, apesar de sentir minhas costas contra um colchão e minha cabeça contra um travesseiro. O escuro que eu via, percebi logo, eram meus olhos fechados. Também comecei a distinguir vozes familiares próximas a mim, sem conseguir ouvir direito. Abri lentamente os olhos e me deparei com um teto branco. Olhei para os lados, chamando a atenção daqueles que estavam ali.

– Sasuke, querido, você acordou! – minha mãe se aproximava de mim com um sorriso de alívio nos lábios. Deduzi estar em um hospital e tentei me levantar da cama, mas meus músculos e ossos reclamaram, me fazendo soltar um gemido de dor e deixando minha mãe com uma expressão preocupada no rosto.

– Não se esforce, querido, seus ferimentos ainda não sararam! – ela continuou.

Voltei a deitar, ainda com minhas costelas, abdômen e cabeça doendo. Além de minha mãe Mikoto, do lado esquerdo da cama, pude ver Madoka, esposa do meu tio Yusuke atrás dela, me olhando com preocupação. Meu próprio tio estava ao seu lado, sem uma expressão facial definida. Do lado direito, meu irmão Itachi me dava um olhar sarcástico de reprovação.

– Você sempre tem que aprontar alguma hem! – ele disse.

– Cala a boca. – não queria aturar suas provocações. Não agora. Primeiro eu queria me lembrar do que havia acontecido noite passada e o que eu estava fazendo em um quarto particular no hospital com o corpo doendo.

– Não sou eu que devo ser repreendido, idiota. – respondeu Itachi. Como assim? Acho que ele percebeu a cara de dúvida que surgiu em meu rosto, porque deu um longo suspiro antes de começar a falar de novo. – Hoje de manhã, papai foi checar as ações da empresa na conta Uchiha, como sempre faz, e qual não foi a surpresa dele e de todos nós ao perceber que estavam faltando nada menos do que 15 milhões de yens! Então nosso sócio Keitarou disse que você tinha ligado às 3 da manhã pra ele pedindo esse dinheiro porque tinha que fazer uma “viagem urgente”. – ele deu uma pausa me encarando. Era visível a irritação dele.

Mas então comecei a me lembrar. Não demorou muito para vir à minha cabeça imagens de alguém, uma mulher, a julgar pelo corpo e voz, que havia me apontado uma faca e uma arma e me obrigado a retirar milhões da conta da família.

– Merda. – falei em um sussurro.

– Sim, Sasuke, que bom que se lembrou! Pena que quando fomos à sua casa esclarecer a história, te encontramos desmaiado e algemado no corrimão da escada. Se não estivessem faltando os 15 milhões e você não estivesse sangrando pela garganta, juraria que tinha sido alguma prostituta mais “cruel”.

– Itachi! – minha mãe o interrompeu, visivelmente perturbada.

– Não acredito que deixou alguém te roubar, idiota. Nos roubar! Esse dinheiro vai fazer muita falta nos investimentos que papai estava pensando em fazer, e agora ele vai ter que...

– Itachi, acalme-se. Não foi culpa dele. – meu tio Yusuke interrompeu o sermão de meu irmão. Ele ainda me olhava com raiva, eu retribuía o mesmo olhar. – Todos sabem de nosso poder e influência, é normal que isso traga ladrões e sequestradores. E também não é a primeira vez que somos roubados.

– Eu sei disso, mas nunca nos roubaram 15 milhões de uma vez! – rebateu meu irmão. Ele não estava gritando, mas a voz dele fazia minha dor de cabeça aumentar.

– Parece que dessa vez estamos lidando com algo a mais. Não foi encontrado nada pelos policiais que os permitisse sequer começar uma investigação. E pelo estado em que Sasuke se encontra, não deve ter sido fácil lidar o ladrão ontem.

– Ladra. – falei em um impulso. Todos me olharam pasmos. Hesitei antes de continuar. – Era uma mulher de preto encapuzada.

– Uma mulher? Você...

– Chega, Itachi. Está claro que isso é demais para nós. O País inteiro do Fogo já sabe desse grande roubo, a mídia só retrata isso e jornalistas não param de nos seguir. E temos que recuperar esse dinheiro de qualquer jeito. Vamos precisar de toda a força policial e investigativa trabalhando para nós, até o demônio se for preciso, e sei que seu pai não iria querer te ver brigando com seu irmão. Tente se acalmar. Sermões vazios não irão adiantar. E você Sasuke, descanse um pouco. Tente se lembrar do que aconteceu ontem à noite. Qualquer informação é relevante.

Dizendo isso, meu tio saiu do quarto, seguido de sua esposa Madoka. Itachi também saiu do quarto, não sem antes dizer:

– Agora vamos tentar arrumar a bagunça que você fez. – como se fosse minha culpa. Idiota.

Minha mãe tentou me acalmar, dizendo que meu irmão só estava preocupado demais, como meu pai. Nada do que ela falava me atingia. Eu estava com muita raiva. Raiva do meu irmão e raiva de mim mesmo. Como eu pude deixar aquilo acontecer comigo? Deixar uma mulher me ameaçar de morte em troca do dinheiro da minha família? E conseguir, ainda por cima?

Minha mãe saiu do quarto para buscar algo para eu comer, e eu comecei a analisar minha situação física. Olhei por baixo daquela roupa horrível de hospital e lá estavam: meu peito e abdômen estavam com várias marcas roxas, enfaixados em alguns locais. Aquela vadia sabia o que fazer para machucar. Sem falar que meu ombro direito também estava enfaixado por conta do tiro de raspão que eu havia tomado. Peguei o pequeno espelho na mesa ao lado da cama e olhei meu rosto. Um dos lados do meu pescoço estava enfaixado e cheio de gazes, resultado daquela faca maldita. Agora que eu via isso, conseguia me lembrar claramente da dor dos cortes. O lado oposto da minha cabeça, já onde começava o cabelo perto da orelha também estava com um curativo. Joguei o espelho na mesinha e voltei a me deitar, quando minha mãe chegou. Ela havia trazido aquelas gelatinas de hospital. Nunca que eu ia comer um negócio daqueles.

– A enfermeira disse que você vai ser liberado logo, Sasuke. – dizia ela, com sua voz serena e calma.

Apesar de já ter acabado o horário de visita, permitiram que minha mãe continuasse lá e que meu tio voltasse mais tarde porque, bem, somos da família Uchiha. Eu sinceramente preferiria ter ficado sozinho. Queria pensar um pouco.

Eu me lembrava claramente agora de ter sido atacado por alguém completamente disfarçado, lembrando de alguns diálogos e da voz da maldita ladra. Tentava lembrar de tudo quanto era possível. Eu estava muito puto por terem feito aquilo comigo e ainda por cima por aquilo ter sido transmitido para todo o país, e até fora dele. Todos já sabiam que uma mulher misteriosa vestida de preto havia conseguido tirar 15 milhões dos Uchiha através do descendente mais novo, e ainda o tinha deixado inconsciente e no hospital. Não sei como ela havia conseguido, só sei que ela não era normal. Tinha uma grande força física, a ponto de me derrubar no chão e me imobilizar, além de me dar vários golpes que me deixaram marcas roxas. Também sabia empunhar armas e de alguma forma, tinha conseguido se infiltrar no condomínio mais seguro da cidade. Meu tio me disse depois que Matsumoto, o segurança noturno daquela noite, disse não ter notado ninguém suspeito entrar ou sair, e para entrar ela teria que ter a chave do portão principal ou precisava se identificar na portaria. Os moradores também não haviam relatado sobre ninguém estranho caminhando pelo condomínio.

Ótimo. Simplesmente ótimo. Eu não sabia o que fazer. Não conseguia mais me lembrar de nada, nem de um único detalhe físico daquela mulher. Ela estava totalmente encapuzada, só com o nariz de fora e óculos escuros. Admito, para ter feito tudo isso, era muito esperta. Sei que ela era mais baixa do que eu, tinha a voz fina e era magra, mas forte. Sinto que estou esquecendo algum detalhe importante.

Não importa, com o tempo eu me lembraria. Agora só queria sair daquele hospital. Uma estranha sensação percorria meu corpo, eu ainda estava com raiva, e me sentia frustrado. Mas também sentia uma adrenalina e uma excitação que nunca antes havia sentido. Já fazia tempo que eu estava entediado e queria algo para “esquentar” um pouco o ritmo das coisas. Essa mulher havia começado um joguinho sem nem saber onde estava se metendo. E agora eu iria encontrá-la e iria fazer com que ela pagasse por ter me feito sofrer tal humilhação. Pensando assim, deixei escapar um sorriso de lado, enquanto a enfermeira me dava alta.

****

Sakura’s POV

Eu não poderia me demorar muito naquela cidade. As notícias do roubo haviam se espalhado mais rápido e intensamente do que eu esperava. Matsumoto se sentia culpado por um ladrão, ou melhor, uma ladra ter entrado sem ele ter notado, e ele temia seu emprego como segurança do condomínio. Confesso que fiquei com pena e me senti culpada, afinal eu era a ladra que o havia enganado só para conseguir o dinheiro dos Uchiha. Eu o confortava dizendo que tudo ficaria bem.

Três semanas após o ocorrido, forjei uma carta de meus “pais” e informei a Matsumoto que eu, “infelizmente” teria que mudar para uma cidade longe, pois meu pai estava doente e precisava de mim. Sim, uma mentira atrás da outra: eu não tinha pais, o mais perto que chegou disso foi Tsunade, e agora eu não a tinha também; ninguém estava doente, eu não iria para essa cidade e nem estava mais pobre. Pelo contrário, tinha milhões escondidos embaixo de algumas tábuas do meu quarto no hotel, só esperando para eu usá-los e começar uma nova vida.

Informei no meu trabalho de garçonete que eu iria me “ausentar por um tempo” devido aos “problemas de saúde de meu pai”, assim poderia sair de Konoha sem suspeitarem que era uma fugitiva. Meu chefe, gordo, sempre passando a mão na testa devido ao suor, no entanto gente boa apesar da cara de bulldog com fome, antes de me dar a conta, me chamou em um canto afastado dos outros funcionários que trabalhavam arduamente para dar conta de atender todos os pedidos.

– Fiz algo errado, chefe? – perguntei confusa.

– Não, pelo contrário, Maya, se todos os funcionários fossem iguais a você...

– Então por que...

– Preciso de um último favor seu.

– Pode dizer. – espero que não envolva prolongar em muito tempo minha estadia em Konoha, pois os policias ainda não haviam desistido de procurar o ladrão e eu estava com receio de que Sasuke Uchiha se lembrasse de algum detalhe importante daquela noite. Além disso, Tsunade e suas subordinadas deviam estar me procurando como loucas e eu as sentia cada vez mais perto de mim, apesar de estar longe de seu esconderijo e com um nome falso. Eu não poderia ser pega. Não de novo.

– Bem, como todos já sabemos, a família Uchiha foi roubada em milhões por uma mulher misteriosa.

– E o que temos a ver com isso? – cortei-o. Algo me dizia que isso não iria acabar bem. Por que ele estava envolvendo os Uchiha nesse favor que queria pedir a mim?

– Bem, hoje de manhã o superior da família, Fugaku Uchiha, pai do jovem que foi enganado, veio falar comigo. Ele disse que quer dar a volta por cima, pois depois do roubo, o prestígio da família Uchiha caiu consideravelmente. Ele então disse que estava pensando em dar uma festa em sua casa, um baile de gala com um jantar elegante, com toda a família e convidados especiais e famosos. Com isso, ele pretende aparentar à mídia e em consequência a todas as pessoas que são “manipuladas” por ela que a família Uchiha não se afetou com o roubo, e que pelo contrário, continuam ricos, poderosos e influentes.

– E onde eu entro nisso?

– Não só você, Maya. Toda a minha frota de cozinheiros, garçonetes, bartenders...

Espera, eu sabia no que isso ia dar.

– Ooki-san, o senhor então quer dizer que nós...

– Sim, fomos especialmente contratados pelos Uchiha para ficarmos encarregados da comida, bebida e do serviço dessas aos convidados! – ele disse com um sorriso estampando todo o seu rosto. – Iremos participar da festa mais rica do ano, Maya! Tudo bem que não como convidados, somente como serviçais, mas mesmo assim! Apareceremos nas fotos que serão tiradas para os jornais, os convidados elogiarão a comida nas entrevistas sobre a festa e quem sabe, finalmente, meu talento será reconhecido e eu poderei expandir meu negócio! – ele ficou me olhando ainda muito entusiasmado, enquanto eu fazia a cara mais normal que poderia ser feita. Ele então ficou sério – Mas para isso, Maya, minha querida, precisarei do meu melhor pessoal. Você é uma excelente garçonete e até já fez bicos na cozinha quando um dos cozinheiros faltou e se saiu extremamente bem! Além disso, você é muito bela e chamará atenção com seus cabelos rosa e esses seus olhinhos de esmeralda! Todos ficarão interessados e virão falar comigo, seu chefe! Quem sabe não consigo a oportunidade que tanto sonhei? Meus talentos culinários e de chefia sendo reconhecidos! Já posso até ver as filiais que abrirei por todo o país e...

– Tá, tá, tá, Ooki-san, já entendi! Mas acontece que meu pai está mesmo muito doente e...

– Isso será bom para você também, querida! Eu sei que você não tem muito dinheiro, e como poderá ajudar seu pai se não conseguir lhe pagar os tratamentos adequados? Essa festa nos dará um pagamento altíssimo, e te beneficiará! E eu preciso de sua ajuda, Maya! Por favor!

Merda. Merda. Merda. Eu me via encurralada. Não via meios de me livrar daquilo, qualquer pessoa que se encontrasse na situação que eu fingia me encontrar aceitaria a oferta. Me vi obrigada a não recusar. Tudo bem que eu sabia que não havia como Sasuke me reconhecer no meio daquela multidão, até porque ele não tinha visto nenhum resquício de minha aparência – esperava eu, pelo menos. O problema era que como Ooki disse, a mídia iria cobrir o evento, ou seja, havia uma chance MUITO grande de Tsunade me ver em alguma foto ou notícia de TV. Eu teria que dar um jeito de ser o mais discreta possível, de não mostrar meu rosto sem ao mesmo tempo trazer suspeitas. Mas tinha outro problema. Minha voz. Eu não podia esperar que o capuz a tivesse disfarçado completamente, portanto um som em falso e o Uchiha a reconheceria. Eu tinha que evitá-lo. Tinha que bancar a garota alheia e inocente, servir os convidados, não chamar atenção e ir embora para sempre.

Apesar do nervosismo em ter que participar dessa festa, eu estava confiante. Como eu disse antes, nunca havia falhado nas missões que Tsunade me dava. Eu iria conseguir. Mesmo assim, não pude ignorar a corrente de adrenalina que começava a percorrer meu corpo e uma estranha sensação de que algo iria acontecer nessa festa.

****

Sasuke’s POV

Sinceramente, não estava com a mínima vontade de participar dessa festa que meu pai tinha resolvido planejar. Aquilo, claro, era só uma estratégia. Ele queria aumentar o prestígio que nossa família havia perdido depois do roubo e mostrar que foi como se tivéssemos perdido 15 yens, não 15 milhões deles. Os jornais e notícias da TV só falavam disso, toda a nossa família estaria reunida e também outros convidados, que assim como meu pai, eram empresários ricos e influentes.

Quando falei sobre meu desejo de não ir à festa, ele quase me esbofeteou.

– Temos que mostrar que toda a família está de volta à ativa, e principalmente você Sasuke! Já não bastasse ter se deixado roubar por uma vadia qualquer, ainda não quer se mostrar publicamente depois do roubo! Você vai a essa festa e vai mostrar a todos que não perdemos nossa força na esfera social, política e econômica, não só aqui do País do Fogo, mas também em todas as Cinco Grandes Nações. – dizendo isso, se virou para conversar com o chefe do comitê de comida, um homem gordo com cara de bulldog dono de um restaurante no maior shopping de Konoha.

Ótimo. Mas se bem que, pensando melhor, seria até bom ir a essa festa, apesar de meu desânimo. Pelo menos lá eu beberia e acabaria me dando bem no fim da noite com alguma convidada. E não sei por que, mas sentia que algo aconteceria.

Depois de eu sair do hospital e voltar para casa, há três semanas, fiquei um longo tempo parado no hall da minha casa olhando o local onde a ladra tinha me rendido. Os cacos do vaso que ela havia quebrado ainda estavam no canto da porta da cozinha, assim como a vassoura. Não sei por que ela se deu ao trabalho de varrê-los. Além de ladra, tinha algum parafuso a menos. As gotas do meu sangue já haviam sido limpas do chão. Olhando para aquele cenário, eu queria ver se conseguia lembrar algo, por menor que fosse, sobre a invasora.

Repassei cada momento em minha mente. Me lembro de, em dado momento, ter conseguido tirar a faca da mão dela e encarado seu rosto coberto pelo capuz e pelos óculos escuros... espera. Sim, ela usava óculos escuros que me impediam de ver seus olhos, mas agora me lembro que eles haviam caído de seu rosto em certo tempo. E mais, eu havia conseguido ver parte desse rosto.

Sim, agora eu me lembrava claramente. Eu tinha conseguido, mesmo que só por alguns segundos, ter um vislumbre de seus olhos. Eles mostravam impaciência, firmeza e talvez, um pouco de medo. E eram verdes. Não só verdes, eram também brilhantes. Olhos verde-claros brilhantes, médios e arregalados. Sorri para mim mesmo com essa lembrança, e resolvi mantê-la comigo. Eu já tinha decidido que iria encontrar essa ladra e fazê-la pagar pelo que havia feito, e agora eu tinha uma pista, mesmo que pequena.

****

Sakura’s POV

Eu via meus olhos verdes no reflexo do espelho, enquanto tentava me manter calma para a festa de hoje a noite. Só mais hoje. Depois você sumirá daqui e poderá fazer o que quiser com sua vida. Era só esse pensamento que me dava ânimo para continuar. Terminei com Matsumoto hoje mesmo, já que ele pensava que eu iria ver meu pai doente depois da festa. Agora só restava eu, naquele apartamento minúsculo, me encarando no espelho, desejando sorte a mim mesma.

Mas isso estava errado, desde quando eu precisava de sorte? Eu era Sakura Haruno, havia ficado a vida toda sob os cuidados de uma das maiores guerreiras e trapaceiras da história, Tsunade Senju. Eu havia aprendido a sobreviver e me virar graças a tudo o que ela me ensinou.

Aprendi a me comportar como uma dama para enganar os mais ricos e em me fazer de inocente para conquistar os mais humildes. Aprendi a maioria dos idiomas que são falados no mundo, culturas e tradições diferentes. Aprendi até os conceitos mais avançados da matemática, física e química e entendi o mundo ao meu redor. Aprendi biologia animal, vegetal, molecular e anatomia humana. Eu sabia onde ferir para matar, sabia o nome de todos os ossos e músculos do corpo, e a função de cada órgão no mesmo. Eu havia aprendido a trapacear e roubar, através de técnicas de espionagem, invasão, luta corpo-a-corpo e com armas. Havia aprendido e praticado vários conceitos de medicina. Sabia cometer assassinatos das mais diferentes formas sem deixar rastros. Também havia aprendido a satisfazer homens, seja por prazer, controle ou dinheiro.

Não que eu tivesse pedido para tudo isso acontecer. Tsunade me introduzido a esse mundo depois de me encontrar com dois anos em uma casa vazia a não ser pelos corpos sem vida de meus pais no andar de cima e de mim mesma, viva. Pelo menos era o que ela dizia. Como eu não tinha como provar o contrário, pois vagamente me lembrava disso, essa era a história que eu fazia minha. Segundo ela, minha casa estava toda bagunçada, com muitos móveis quebrados e bens materiais faltando. Deduziram que ladrões haviam invadido e meus pais tentaram reagir, acabando mortos. Os ladrões fugiram e até hoje não foram encontrados. Tsunade decidiu me acolher naquele momento, e vasculhando a casa, encontrou minha certidão de nascimento, com o nome Sakura Haruno, nascida em 28 de Março.

A partir de então, Tsunade me levou como “recruta” e logo passei a fazer parte de seus negócios. Ela terminou de me ensinar o que um bebê precisava aprender para logo fazer de mim uma Wing: esse era o nome dado às pessoas (crianças, adolescentes e jovens adultas, todas do sexo feminino) que se viam parte daquela “comunidade” da qual Tsunade era a chefe. Tsunade nos treinava de todas as maneiras que eu citei acima, senão de outras que até havia me esquecido para que pudéssemos ter um propósito de viver. Todas que estavam lá era porque não tinham outra alternativa: haviam sido abandonadas, maltratadas, estavam perdidas e algumas até procuravam por um novo estilo de vida naquele lugar. Tsunade acolhia-nos e junto com suas aprendizes mais avançadas, nos dava casa, companheiras, comida, banho, roupas limpas e quentes e nos ensinava tudo: desde a como fazer um penteado até a assassinar de maneira fria e silenciosa. Em troca de tudo isso, ela nos dava “missões”, que beneficiavam a si própria. Se cumpríssemos essas missões, teríamos direito a uma vida decente. As missões poderiam ser várias: algumas incluíam ir a alguma cidade fazer compras, em outras tínhamos que criar uma identidade falsa e roubar de um grande empresário, e em outras até tínhamos que matar quem Tsunade julgasse que iria lhe atrapalhar, pois o que ela fazia era ilegal, além de envolver dinheiro, política e por aí vai. Também tinha vezes que deveríamos agir como prostitutas, sim, literalmente: satisfazer sexualmente clientes que eram responsáveis por pagar grande parte da verba mensal que Tsunade investia em nós.

Pode pensar o que quiser, mas não odeio Tsunade por ela ter me dado essa vida. Ao contrário: se não fosse por ela, eu não teria vida nenhuma. Eu era eternamente grata a tudo que ela havia me ensinado. E também não nos tratava como recrutas ou subordinadas, e sim como pessoas, como se fizéssemos parte da mesma família. Ela era a mãe, e todas as garotas que estavam aos seus cuidados eram suas filhas. Era comum eu chamar minhas colegas de “irmãs”. Eu não passava fome nem frio, sempre pude me divertir e me vi crescer uma mulher forte e independente, como o mundo exigia de nós. Por isso éramos chamadas de Wings: wing significa “asa”, e asas são aquilo que permitem aos pássaros serem livres e poderem explorar os limites do céu. Tsunade queria que crescêssemos grandes águias (ela adorava usar essa metáfora) e soubéssemos encarar a vida de frente, prontas para qualquer desafio.

O problema é que uma vez que nos víamos sob seus cuidados, não poderíamos mais sair. Nossa liberdade como águias estava limitada à chefia de Tsunade. Posso ter parecido um tanto ingrata quando resolvi fugir e começar minha própria vida, mas eu queria ser dona de mim mesma e decidir por conta própria minhas próprias missões. Sentiria muitas saudades das minhas irmãs lá: Ino, com quem eu sempre brigava, mas nunca vivia sem; Hinata, que nunca foi de falar muito, mas sempre sorria quando me via; Ten Ten, sempre pronta a me desafiar para uma luta de espadas – e eu quase nunca ganhava; Temari, com seu jeito sério, mas que no fundo era uma criança igual a nós e por aí vai.

Sim, minhas irmãs. Eu havia contado apenas a Ino sobre meu plano de fuga, e ela foi totalmente contra. Disse que era muito arriscado fugir sozinha, principalmente porque Tsunade tinha contatos em todos os cantos do continente que poderiam facilmente me achar. E também, eu tinha uma vida estável ali, ela não entendia meu desejo por mudanças. Expliquei que era exatamente isso o que queria: instabilidade. Velocidade. Adrenalina. Independência. Vida própria. Ainda assim ela não concordou, mas me apoiou até o fim. Choramos muito na despedida, e suas últimas palavras foram: “vou rezar para que você consiga o que quer sem ser interrompida. Boa sorte. Cuidado. Se quiser voltar, já sabe onde nos encontrar.”

Sim, eu sabia, e também sabia que se por um acaso me arrependesse, as portas estariam abertas. Mas não pretendia voltar e estava preparada para as consequências da minha fuga. Sabia que Tsunade viria atrás de mim com um pelotão de subordinadas que ela havia treinado especialmente para buscas e não iria parar por um bom tempo de me procurar. Me assustava mais a ideia de ter que desistir de minha vida se fosse encontrada do que receber algum castigo por ter fugido. Não que ela fosse me torturar ou me prender em um quarto escuro por sete dias pelo meu ato de rebeldia, porque Tsunade não era cruel. Ela iria me repreender, me dar alguma tarefa extra, como limpar os banheiros e me pedir para não repetir aquele feito de novo.

Mas eu não iria ser encontrada. Não agora que tinha ido tão longe a ponto de roubar 15 milhões de uma das famílias mais ricas e influentes do continente e estava prestes a começar minha vida.

Com um aceno de cabeça, saí de meus pensamentos e me vi novamente encarando o espelho. Meus cabelos rosa e lisos estavam molhados, eu havia acabado de tomar um banho bem quente para relaxar e poder encarar a noite que tinha pela frente. Meus olhos verdes mostravam determinação e não aparentavam ser de uma ladra. A toalha branca cobria meu corpo não muito alto e devo admitir, bem moldado e considerado atraente pelos homens, resultado dos exercícios físicos que Tsunade dava às Wings. Certo, eu não era uma Afrodite, mas conseguia desviar algumas cabeças quando passava.

Resolvi começar a me arrumar, pois a festa na casa dos Uchiha era hoje e eu queria terminar aquilo o mais rápido possível. Não iria ser na casa de Sasuke, a que eu havia invadido, e sim na casa do pai dele – nem ficava nos condomínios fechados e chiques da cidade, e sim um pouco fora dela. Sua propriedade era muito grande para estar dentro de Konoha, por isso ficava em um lugar reservado e protegido por uma cuidada floresta – também parte de seus domínios – a 15 minutos da cidade. Lá moravam o chefe, Fugaku Uchiha (o pai de Sasuke), sua esposa Mikoto, o irmão de Fugaku, Yusuke e sua esposa Madoka, mais os filhos por enquanto pequenos deles. Além é claro dos empregados e cozinheiros. Mikoto não tinha o sangue Uchiha, apenas havia adotado aquele sobrenome por se casar com um, assim como a esposa de Yusuke, Madoka. No entanto, é claro que seus filhos fariam parte da descendência da família.

Eu ia relembrando esses dados na minha mente, assim como Ooki, meu chefe, havia me pedido.

Não podemos servir uma família sem saber seus nomes, não é mesmo, Maya?

A voz dele ecoava na minha mente. Por isso, tinha feito questão de aprender tudo. Tinha ainda o irmão mais velho de Sasuke, Itachi. Ele morava em uma cidade vizinha, já era velho o suficiente para comandar uma das filiais em outro lugar, tendo quase 26 anos. Mas sempre mantinha contato com Konoha e sempre estava viajando de lá para cá. Sasuke, ao que parece, seria o próximo. Bom, não sei quanto a isso, depois de eu ter roubado 15 milhões dele. Esse pensamento me fez sorrir de satisfação por dentro.

Lembrei da noite em que eu o havia colocado a meus pés e o tinha obrigado a entregar todo o ouro (quase literalmente). Lembrei também de quando ele conseguiu por um momento revidar e se colocar em cima de mim, me ameaçando com minha própria faca em sua mão esquerda, e eu vi seu rosto tão próximo do meu, tentando desviar meu olhar do seu. Se eu não estivesse de óculos escuros, podia jurar que ele podia ver tudo sobre mim. Então lembrei do momento em que ele foi tentar se defender e derrubou meus óculos no chão. Aquilo foi péssimo, mesmo que revelasse só meus olhos. Não sei se ele os viu, mas espero esperançosamente que não. Com certeza eu não era a única garota de olhos verdes no país e nem na cidade, mas mesmo que a cor da íris seja a mesma, os olhares das pessoas são diferentes, e ele poderia me reconhecer. Acho que é por isso que dizem que os olhos são a janela da alma. Eles revelam tanto sobre nós, sem nem percebermos...

Percebi que estava começando a divagar demais. Se Sasuke havia visto meus olhos, não havia nada que eu podia fazer agora. Eu só iria a essa festa estúpida, faria meu papel e depois fugiria. Agora que estava tão perto de meu objetivo, não iria relaxar.

Determinada, me troquei, colocando uma roupa simples: calça jeans e uma blusa cavada preta, com sapatilhas pretas. Sequei meu cabelo e o prendi em um rabo de cavalo. Peguei minha roupa de garçonete que eu iria usar na festa e saí em direção ao ponto de encontro com Ooki e o resto do comitê de comida. Desse ponto, um ônibus contratado pelos Uchiha iria nos buscar e nos levar até a mansão, de onde eu esperava sair sem ser reconhecida.

Suddenly I see

This is what I wanna be

Suddenly I see

Why the hell it means so much to me

De repente eu entendi

Isso é o que eu quero ser

De repente eu entendi

Por que isso significa tanto para mim

KT Tunstall – Suddenly I See

Notas finais
O que acharam do capítulo? A partir de agora as coisas vão ficar um pouco tensas para a Sakura haha
Deixe seu comentário ou crítica para eu saber se preciso melhorar em algum aspecto :)