Broken Wing - Aprendendo A Voar
29 Capítulo 29 - Complicados e Imprevisto
Notas iniciais
Adormeceram encolhidos um contra o outro na estreita cama de solteiro, nus e satisfeitos.
Narração em terceira pessoa
Acordou quando sentiu o impacto na cama, seguido por uma voz irritada.
– Puta que pariu!
Abriu os olhos lentamente, sentindo a claridade e tentando se lembrar de quem era e onde estava. Aquilo não foi difícil. Viu-se em uma estreita cama de solteiro, com uma parte do lençol cobrindo-lhe a virilha, enquanto o resto de seu corpo nu estava exposto de barriga para cima. Olhou para o lado e viu uma figura de cabelos rosados soltos e bagunçados, amaldiçoando alguém ou alguma coisa, enquanto massageava os próprios dedos do pé direito. Achou aquela cena engraçada, mas não se atreveu a rir.
– Você está bem? – Sasuke perguntou sentendo-se na cama. Ela o olhou assustada.
– Estou. Só... bati a merda do dedinho no pé da cama. E te acordei, que ótimo. – ela estava completamente vestida, mas descalça. Também parecia estar bem nervosa. Ele olhou o relógio no criado-mudo ao lado da cama.
– Por que acordou cedo? – perguntou jogando-se na cama novamente. Não queria levantar. Só queria lembrar os acontecimentos da noite anterior por um bom tempo.
– Já que você acordou, pode levantar também. – ela interrompeu aquelas deliciosas lembranças, sacudindo o colchão. As roupas dele estavam amontoadas em uma das extremidades da cama. – Não tem que trabalhar hoje? – ela dizia ofegante, sem encará-lo.
– Não. Nesse fim de semana, estou de folga. – ela percebeu um tom animado na voz dele.
– Então se troque e dê o fora. Não acredito que deixei você dormir aqui. – ela arrumava a cama apressada e furiosa.
– Acabei de dizer que estou de folga, por que está me expulsando? – ele perguntou confuso, olhando-a em um misto de diversão e curiosidade.
Ela o olhou irritada.
– Ontem a noite nunca aconteceu. – seus olhos desceram para a parte inferior dele e ela corou violentamente, visto que ele não havia se trocado. Desviou o olhar de imediato. – E eu já disse para se trocar!
– Eu discordo. – ele falou divertido, sem tocar nas roupas. – Muitas coisas aconteceram ontem a noite.
– Sasuke, não comece!
– Ah, aí está! – ele a cortou triunfante. – Você finalmente disse meu nome. – ela corou ainda mais e lhe atirou a cueca. Ele não pegou. – Deixa eu lembrar quantas vezes... – ele continuava provocando, ela deu um suspiro de raiva. – Não, não consigo lembrar, você gemia junto.
Ele foi pego de surpresa pelo relógio que ela jogou em sua direção, mas conseguiu desviar a tempo. O olhar dela estava furioso e envergonhado.
– Você é perigosa mesmo.
– Eu já disse que ontem a noite nunca aconteceu. – ela falou entre dentes. – Combinamos que seria a última vez.
– Não, nunca combinamos isso. – ele sorriu de lado e ela fechou os olhos, reprimindo os palavrões.
– Sasuke, não é uma boa hora para me deixar irritada. Vista-se e suma da minha frente.
Depois de a rosada ter acordado e visualizado o moreno nu ao seu lado naquela cama tão estreita, todas as memórias da noite anterior lhe vieram à cabeça. As palavras dele dizendo o quanto gostava dela, depois seus toques excitantes, seus beijos, seus movimentos dentro dela, e o consentimento por parte dela, e a vergonhosa lembrança de ter gemido o nome dele daquele jeito. Lutou tanto para não mencionar o nome daquele que a fez sentir o que nunca havia sentido, como se dizer seu nome fosse uma confirmação de seus sentimentos, mas no final não pode evitar. Gostava do nome dele e gostava de dizer o nome dele e não podia ignorar o que fizeram noite passada, nem o que disseram. Portanto, não faria diferença agora chama-lo pelo nome ou pelo sobrenome.
Sakura terminou de arrumar a cama e virou-se para sair do quarto, mas encontrou o moreno bem à sua frente, impedindo sua passagem. Ele a olhava com os olhos escuros determinados, empurrando-a na parede.
– Sasuke, você está pelado! – ela tentou afastar seu olhar do corpo dele. – Qual é o seu problema com a palavra “vestir”?
– Sakura...
– Não, não comece! Ontem a noite foi um erro, não haverá uma próxima vez e agora nossa relação é estritamente profissional. – ela o olhava diretamente nos olhos, determinada.
Ele mordeu o lábio inferior, gesto que ela achou excitante, mas não respondeu nada. Afastou-se dela e começou a se vestir. Ao mesmo tempo em que ela sentiu alívio, também ficou desapontada.
– Certo então. – ele respondeu vestindo a cueca – Ontem foi a última vez.
– Sim, foi a última vez. – ela estava aliviada por ele entender aquilo.
Ele terminou de se vestir e passou a mão pelos cabelos, tentando ajeitá-los. Olhou para ela com um olhar diferente. Não era superior, não era debochado, não era sensual, era apenas... triste.
– Desculpe por complicar sua vida. – ele disse por fim. Ela o olhou surpresa.
– Não foi sua culpa. – ela respondeu rapidamente. – Quer dizer, em parte foi. Se você não fosse tão insistente... – ela parou de falar quando ele começou a rir. Ela quis ficar brava, mas não conseguiu. Ele ficava tão inocente rindo daquele jeito. Depois parou e a olhou, sério de novo.
– Não vou parar de gostar de você.
– “Gostar” não é uma palavra forte. Você supera logo. – ela abriu a porta do quarto, convidando-o a sair.
Ela o acompanhou até a sala, onde ele começou a procurar por seu celular, deixado em cima da mesa na noite passada. Havia muitas ligações perdidas. Duas de seu pai, uma de seu irmão, duas de Karin, duas de Suigetsu e quinze de sua própria casa.
– Ino vai querer uma boa explicação por eu passar a noite fora sem avisar Meiko. – ele falou, dando um suspiro. A rosada finalmente se lembrou.
– Ah, droga! Me esqueci da Ino! – Sasuke a olhou, confuso. – Ela não pode saber. Diga que dormiu em qualquer lugar ontem, menos aqui. – ele soltou um riso de canto.
– Mesmo se eu não disser nada, ela vai saber, Sakura. Está com medo dela te dedurar?
– Não, ela não faria isso. – Sakura começou a andar para lá e para cá, pensativa. – Ela só vai me dar uma bronca, mas...
– Então assumo que eu vou receber uma também.
– Vai. – Sakura lembrava-se de como a loira ficava quando estava nervosa.
– Mas não me arrependo. – ele disse.
– Isso não importa agora, porque nunca aconteceu.
– Aconteceu sim. Posso te descrever em mínimos detalhes o que...
– Ah, não quero ouvir! – ela tapou os ouvidos de modo infantil e ele soltou um riso. – Ao invés disso, você devia ir embora curtir sua folga e eu devia me preparar para a missão.
– Boa sorte. – ele disse.
– Não preciso de sorte. – ela disse, não conseguindo esconder o orgulho das próprias habilidades.
– Eu sei que não.
E ele a surpreendeu com um outro beijo que ela não conseguiu recusar. De repente, sentiu vontade de despi-lo novamente e leva-lo para o quarto, mas a razão foi maior. Tudo o que fez foi aproveitar ao máximo aquele que poderia ser seu último contato íntimo com ele. Terminado o beijo, ele se afastou dela.
– Desculpe, não consegui resistir. – ela não respondeu. – Olha, eu entendo a situação. Não podemos repetir isso e você é proibida de amar. – ela revirou os olhos diante do exagero das palavras dele. – Mas enquanto eu puder te encontrar, vai estar tudo bem, não é? – ela arregalou os olhos diante daquelas palavras, ditas a ele por ela mesma há muito tempo.
– Sasuke...
– Então é isso. Enquanto eu souber que você não desistiu de mim, não tenho motivos para desistir de você. – ele teminou de dizer aquilo sorrindo, e ela se sentiu grata, e sorriu também. Grata por ele entender que não poderia forçar aquela situação de novo, e grata por perceber que por mais que seja difícil esquecê-lo, ele também não se esqueceria dela.
– Somos muito complicados.
– Muito. – ele ficou contente por vê-la sorrir. Ela abriu a porta do apartamento e ele começou a sair.
– Ah, é mesmo! – ele se virou com as súbitas palavras dela. – É bom você já ficar avisado.
– Aconteceu alguma coisa? – ele perguntou preocupado.
– Digamos que, como consequência da missão, você vai ter que pagar o tratamento médico de um casal de velhinhos. – ela falou aquilo tentando parecer inocente.
– O que? – a cara confusa dele a divertiu.
– É, depois eu te explico. Agora, anda. A Meiko deve estar preocupada.
– Sakura, o que quis dizer com o casal de velhinhos?
– Peça a Ino para te contar. Tchauzinho. – ela fechou a porta, ignorando as perguntas dele.
Depois que se viu sozinha em seu apartamento de novo, soltou um grande suspiro. Somos muito complicados. Com certeza eram. Deixou-se escorregar com as costas apoiadas na porta, sentando-se no chão. Esperava que tudo fosse terminar com a conversa de ontem, e então se veria livre do moreno para sempre. Mas sabia que não seria assim tão fácil.
Começou a se lembrar da noite anterior, de cada beijo, de cada toque, de vê-lo nu depois de tanto tempo, de dizer seu nome daquela maneira tão... diferente depois de tanto tempo. E de como ele a fazia sentir... não podia dizer que o amava, pois achava esse sentimento forte demais para ser direcionado a ele... mas podia dizer que se sentia atraída, e sentia paixão e calor toda vez que ele dizia seu nome. Sentia calafrios quando ele a analisava com aqueles olhos negros e obscuros, e com certeza sentia vontade de ficar com ele.
Mas não podiam. E a noite anterior, ela torcia (ou não) para ter sido a última vez. Suspirou longamente outra vez, levantando-se. Foi ao quarto tentar consertar o relógio que jogara nele quando ele a lembrara de... ah, não importava agora. Moreno idiota. Olhou para a cama arrumada. Quando acordou, bem cedo pela manhã, notou que dormia quase em cima dele, e a expressão dele dormindo era tão inocente que por um momento havia se esquecido do que fizeram para acabarem dormindo juntos. Levantou-se rapidamente e começou a se trocar, tentando esvaziar sua cabeça, não sem antes cobrir a parte masculina de Sasuke com uma parte do lençol, mas não prestou atenção no que fazia e acabou topando com o dedinho no pé da cama.
Parando para prestar atenção agora, o quarto estava com o cheiro dele, um perfume amadeirado misturado ao cheiro natural do Uchiha, dando a sensação de que ele continuava ali. Chega de pensar nisso, Sakura. Tinha que se preparar para a missão. Hoje a noite, os quatro suspeitos iriam se reunir. E ela e Ino iriam agir.
Só não sabia que tudo daria errado mais tarde.
****
Sasuke’s POV
Cheguei em minha casa tentando não fazer barulho, apesar de saber que aquilo provavelmente era inútil. Lógico, eu queria evitar as perguntas da Gata e as acusações da loira sobre onde eu havia me metido noite passada. Passei pelo hall e alcancei o corredor. Estava prestes a subir as escadas, quando...
– Uchiha! – ai merda. Veio uma voz aguda da sala, e logo eu vi uma cabeleira loira andando na minha direção e a expressão acusadora que ela tinha no rosto.
– Bom dia, Ino. – tentei disfarçar.
– Não me venha com “bom dia”. Para o seu quarto, já! – ela estava dando uma de mãe para cima de mim, o que eu achei estranho, mas Sakura me avisou que isso aconteceria.
– Onde está Meiko? – tentei ignorar o fato de ela estar me puxando pelo colarinho, subindo comigo até meu quarto.
– Foi brincar na casa da amiguinha.
– De novo? Bom, pelo menos ela está se divertindo com gente da idade dela. Ai! – a loira me beliscou enquanto fechava a porta do meu quarto, cruzava os braços e me encarava com os olhos azuis em fúria.
– Onde você estava? – começou o interrogatório. – Levei duas horas só para fazer Meiko dormir porque ela não parava de perguntar sobre você!
– Eu tive que resolver um problema na empresa, não se lembra de quando saí? – parte daquilo era verdade.
– E ficou a noite inteira resolvendo? – ela estava nervosa. Não sei por que, ela não tinha nada a ver com minha vida.
– É... sim. Foi bem complicado.
– Sasuke, você não me engana. – ela apontou o dedo para mim, me acusando. – Você está com a mesma roupa com que saiu ontem.
– Ah, é? Achei que não notaria.
– Onde você passou a noite? – ela voltou a cruzar os braços, me olhando perigosamente. Não respondi. – Onde você passou a noite, Sasuke? Se não me disser, eu vou adivinhar. Acho que acerto na primeira tentativa. – sorri inocentemente. – Não vai responder?
– Eu disse que tive de resolver um problema na empresa.
– Ah sim. E depois foi direto para a casa da Sakura, não é mesmo? – ela me interrompeu, doida de raiva. Eu não neguei. – Bem, eu vou tentar me acalmar e você vai me dizer o que fizeram lá. Estou esperando. – eu não sabia como agir com Ino. Tinha medo de ela me atacar.
– Nós... conversamos. – falei cauteloso.
– E o que mais?
– Bem, você não queria que conversássemos? Conversamos.
– E...? – ela estava ficando mais brava a cada momento.
– E resolvemos tudo. Pode dizer à sua mestra que não há mais nada entre mim e Sakura. – de certo modo era verdade, mas de outro modo, não era. Espero que ela acredite na parte verdadeira. Ela me olhou por um longo momento, tentando me decifrar.
– Foi só isso? Vocês conversaram e deicidiram isso?
– Conversamos e decidimos.
– E por que não veio embora depois que conversaram? – droga, ela não deixava nada escapar.
– Porque foi difícil convencer sua amiga. E eu estava cansado.
– Ah, claro, por isso ela te deixou dormir de boa vontade no apartamento de um quarto dela. Depois de decidirem terminar a relação de vocês. – certo, não havia escapatória. Era lógico que ela sabia o que havíamos feito, só estava esperando minha confissão.
– É... sim. – ela deu um suspiro e parecia prestes a chorar.
– Ai, por favor, diga que vocês não transaram. – ela me pediu suplicante. Bem, eu não podia mudar o passado, loira.
– Não transamos.
– Vocês transaram.
– Transamos.
Esperei ela voar em cima de mim em alguma posição de luta livre, esperei um sermão enorme, esperei xingamentos e me preparei para tudo isso. Mas ela simplesmente suspirou, com a expressão cansada.
– Eu sabia. Vocês não tem jeito mesmo... – fiquei sem responder. Ainda não era seguro. – Mas você disse que resolveram terminar a relação?
– Sim. – respondi rapidamente, era verdade.
– E por que transaram depois disso? – ela me perguntou inconformada. Apenas dei de ombros.
– Vocês dois são impossíveis. E totalmente imprevisíveis, Sakura vai levar uma bronca e tanto, ela vai ver o que...
– Espera, não está pensando em contar à Tsunade, não é? – aquilo traria problemas para Sakura.
– Claro que não, por que eu faria isso com minha melhor amiga? – ela respondeu irritada e eu fiquei aliviado. – Mas vocês não podem continuar com isso, será mais difícil depois...
– Eu sei, relaxa.
– Relaxar? – recuei quando ela avançou irritada. – Como eu vou relaxar sabendo que minha amiga transou com um cara por quem ela não deveria sentir nada?
– Não vai mais acontecer, loira.
– Promete? – não respondi. Ela me olhou assassina. – Sasuke, você ama a Sakura?
– Já disse que não. Eu gosto dela.
– E o que você diria sobre o fato de ela te amar?
– Acho que ela me odeia mais do que ama. Mas... Ino, ela também gosta de mim.
– Tá vendo? É isso o que nunca poderia ter acontecido! Se Tsunade descobrir...
– Tsunade não vai descobrir se você não contar. Olha, ontem não estava planejado, só... aconteceu. Sabemos que não vai acontecer de novo.
– E como a relação de vocês fica? Como vocês vão se tratar a partir de agora?
– Como duas pessoas normais. Não se preocupe, Sakura sabe o que está em jogo, e eu também sei. – ela parou de falar, claramente desconfiada de minhas palavras.
– Vocês dois são as pessoas mais complicadas do mundo. – ela disse por fim.
– Eu sei. – respondi, não conseguindo deixar de sorrir.
– Não ria! Não foi um elogio.
– Desculpe.
– Bem, então é isso. Sakura e você não existem mais. Pelo bem de vocês, nunca existiram. Sasuke, me prometa que o que aconteceu entre vocês ontem a noite não vai se repetir. Você não irá procura-la, não irá tentar se reaproximar dela ou qualquer outra coisa parecida. – não respondi. – Sasuke!
– Tá, como você é chata! – falei, derrotado. Mas nunca fui bom em cumprir promessas. – O sermão já acabou? Poderia me dar licença para tomar banho?
– Se eu notar qualquer coisa estranha estre vocês, vou interferir. Você sabe disso. – ela me deu um último aviso e saiu do quarto.
Eu sei que Ino era uma boa pessoa, se importava com Sakura e não queria bancar a bitch conosco. Sakura me disse que Wings não tinham a escolha de abandonar suas vidas de agentes multi-tarefas por um marido e um trabalho no campo. Ino só estava seguindo ordens de impedir que a amiga desertasse novamente, e entre as palavras repreensoras dela, eu notei que ela também não estava contente de me impedir a tentar qualquer coisa com Sakura. Ino era uma boa pessoa, eu gostava dela. Não do jeito que eu gostava de Sakura, mas acho que eu poderia pensar nela como uma amiga.
Eu não tinha amigas mulheres. Portanto minha relação com Ino era estranha. E minha relação com Sakura era mais estranha ainda. Eu queria ficar perto dela, mas sabia que era impossível. Ela me atraía, ela me intrigava, eu queria desvendá-la. Mas havia um limite o qual eu não poderia transpassar. Isso me deixava frustrado. E perdido. Afinal, qual era o nome correto do que sentíamos um pelo outro? Nunca iríamos ficar juntos. Ela teria clientes para satisfazer (apesar de eu odiar a ideia) e algum dia eu também poderia encontrar uma garota que me faça sentir metade das sensações que sinto quando estou com a rosada. Mas seguiríamos nossas vidas pensando um no outro. E estaríamos cientes de nossos pensamentos e dos pensamentos do outro. Isso era muito estranho. E muito complicado. Somos muito complicados. Sim, com certeza éramos.
Mas enquanto eu pudesse encontra-la, tudo estava bem.
****
O comércio no centro de Konoha estava agitado, mesmo para um sábado. E estava quente. Quase resolvi deixar minhas compras para outro dia, mas depois eu lembrei que minha próxima folga no fim de semana poderia estar bem longe. Assim, enquanto Ino ia buscar Meiko na casa de não-sei-quem e leva-la para passear em algum lugar, eu resolvi sair também para comprar algumas coisas que eu precisava para a casa e também para conseguir alguma ideia para um presente de casamento para Itachi e a noiva dele, Konan.
Sim, era um saco escolher presentes de casamento, ainda mais para o meu irmão estúpido, mas já que o meu convite veio separado do dos meus pais, eu não podia dar o mesmo presente que eles. Sendo assim, lá fui eu, pelas lojas do shopping procurando alguma coisa que fosse útil para recém-casados. Passei em frente a um sex shop, e de certa forma, lá havia muitas coisas que poderiam interessar recém-casados. Claro, assim que eu tive a doentia visão de meu irmão transando e de como eu estaria morto se lhe desse um vibrador ou coisa parecida, tratei de me afastar logo da loja. Mas seria muito engraçado dar algum brinquedinho para Itachi se divertir pelo menos um pouco na vida tão monótona dele.
Por fim, andei, andei, andei e não encontrei nada. Já passavam das 18h e eu resolvi voltar ao meu carro, pensando se deveria tentar as compras em outro lugar. Vez e outra, as lembranças de Sakura na noite passada invadiam minha mente, e agora que sentei, estava lembrando tudo de uma vez. A sensação de abraça-la, de tocá-la, de ouvi-la gemer meu nome. Mas essas lembranças foram afastadas quando meu celular tocou. Era um número desconhecido.
– Alô?
– Estamos com a menina. – uma voz rouca e abafada falava do outro lado da linha.
– O que? Quem é? – me endireitei no banco, tentando prestar atenção na conversa. Ouvi risadas ao fundo.
– Não importa quem é, Uchiha. Estamos com a menina. Isso significa algo para você? – eu pressentia problemas.
– O que quer dizer com isso? Diga quem é ou informarei a polícia. – fiz menção de ligar o carro, mas a voz rouca me cortou.
– Oh, eu não faria isso se fosse você. Principalmente porque ela está aqui conosco. – eu pressentia muitos problemas e não sabia o que fazer ou o que pensar. Poderia ser um trote? Mas quem daria um trote em mim dizendo que estão com a “menina”? A não ser que...
– De quem vocês estão falando? – elevei minha voz, tentando parecer calmo.
– Você sabe muito bem de quem estamos falando, Uchiha. Ou a menina não é importante para você? – eles não podiam estar falando dela, não podiam... Meiko estava com Ino, ela estava protegida.
– Quem está falando? Diga logo!
– Não acredita em nós? – a voz falou, debochada. – Ou alguma parte de você duvida?
– De quem vocês estão falando? Não pode ser del...
– Sim, é dela mesmo. – ouvi mais risadas ao fundo. Não, não poderia ser.
– Meiko? – disse o nome da garotinha em um sussurro, não acreditando. Não podia ser verdade, como eles poderiam tê-la se era Ino quem estava com ela? E por que eles ligariam para mim falando isso? Será que... isso significava que eles haviam descoberto?
– Sim, ela mesma. Não conseguiu cuidar dela por muito tempo, não é? – como eles haviam desoberto sobre mim e Meiko? Será que a haviam torturado até falar? E Ino, onde estava Ino? Como eles...
– Quem está falando? O que vocês fizeram com ela? – não conseguia mais manter minha voz estável. Se esses filhos da puta a pegaram...
– O que nós fizemos com ela? Não sei se sou a melhor pessoa para te dizer, Uchiha, por que não pergunta a ela?
– O que? – do fundo da linha, pude ouvir um choro de criança, que foi ficando mais próximo e mais alto. Não havia dúvidas: aquela voz era de Meiko. – Meiko? Meiko, é você? Consegue me ouvir? – eu não posso descrever o desespero que sentia naquele momento. Ainda havia algo em mim que dizia que era tudo um trote bem feito, mas depois de ouvir o choro inconfundível da Gata, fiquei realmente preocupado. O choro foi afastado bruscamente da linha, e as risadas recomeçaram. O homem voltou a falar.
– Acredita em nós agora, Uchiha?
– Seus filhos da puta! O que estão fazendo com ela? – Ino, onde você está?
– Oh, muitas coisas. – senti o sangue me subir à cabeça. – Foi assim que descobrimos como vocês se encontraram. Diga, você também não achou que ela fosse uma putinha no começo?
– Desgraçados, vocês não vão mais abusar dessa menina! – falei ligando o carro. Eu iria direto na delegacia.
– Oh, quer avisar a polícia? Tarde demais. Nosso colega Yoda mexeu os pauzinhos lá e todos pensam que a filha do Okazaki está morta. Além disso, se for à polícia, as coisas não vão ficar nada bonitinhas para o lado da putinha. – pude ouvir o choro interminável aumentar. Merda, merda, merda.
– O que vocês querem?
– Como ela é tão importante para você, porque não vem busca-la?
– Acham que eu sou idiota de entrar na toca de vocês? – eu iria contatar Sakura e Ino imediatamente. Alguma coisa não estava certa, algo havia dado muito errado.
– Bem, você quem sabe. Nós estamos nos divertindo muito aqui com ela. – o choro aumentou novamente. – E se você não vier, eventualmente vamos ficar entedidados e nos cansar dela. Aí sim ela vai estar morta de verdade.
– Seus monstros filhos da puta...
– Oh, calminha aí, Uchiha. Já estamos te dando a chance de salvá-la. – merda, eu não tinha outra alternativa. Não poderia deixar Meiko junto com eles. Não de novo. Não queria ver aquela expressão morta em seu rosto de novo, não queria vê-la sofrer de novo.
– Onde? – falei reprimindo minha raiva.
Os homens deram um endereço e desligaram rapidamente. Merda, eu nunca imaginei que eles tentariam procurar por ela depois de todos esses dias. Bati no volante com meus dois punhos amaldiçoando o mundo inteiro. Como eu deixei isso acontecer? Como Ino deixou isso acontecer?
Peguei o celular e disquei o número da loira. Que em breve seria uma loira morta se tivesse permitido que aqueles vagabundos colocassem a mão em Meiko novamente. Tocou, tocou, tocou e ninguém atendeu. Não poderia ser pior. Deixei uma rápida mensagem dizendo à loira para me ligar urgentemente. Comecei a andar com o carro até o endereço fornecido, discando repetidas vezes o número de Ino. Ninguém atendia.
Calma, Sasuke. Calma. Isso poderia ser uma armadilha. Mas e o choro que eu ouvi? Aquela voz era de Meiko, eu não tinha dúvidas. E depois que Ino saiu de casa, eu não tive mais notícias delas... onde você estava, loira? Ela não me atendia. Comecei a me desesperar ainda mais e disquei o número de Sakura. Espero que ela me atenda. Chamou, chamou, chamou, e nada de atender também. Não é possível, não podia ser verdade!
Mesmo que nenhuma das duas atendesse, eu não poderia deixar Meiko lá. Cheguei ao local marcado. Era um terreno baldio e deserto. Quase não havia casas por lá, e as que havia, eram velhas, desgastadas e abandonadas. Desci do carro, tentando encontrar algum sinal de vida. Não vi nenhum. Será que vim ao lugar errado?
– Merda. – dei meia volta, me preparando para voltar ao carro.
Mas então senti um impacto na cabeça seguido de uma dor forte. Foi muito rápido. Percebi que caí, mas antes de conseguir me levantar, veio um impacto mais forte e tudo ficou escuro.
Don't resent me
And when you're feeling empty
Keep me in your memory,
Leave out all the rest
Não fique ressentida comigo
E quando você se sentir vazia
Lembre-se de mim
E esqueça todo o resto
Linkin Park – Leave Out All the Rest
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