Broken Wing - Aprendendo A Voar

55 Capítulo 55 - Aprendendo a Voar


Notas iniciais
Agora sim, o último capítulo! Boa leitura, mais nas notas finais.

Quando a noite chegou, fizeram amor até de madrugada, incansáveis, indo dormir suados e abraçados. Sakura tinha certeza de que nunca se sentira tão feliz assim. Ela sabia que ainda havia muitas coisas para fazer, e precisaria se esforçar muito para começar a construir uma vida nova a partir de agora. Mas sabia que com TenTen, Temari, Hinata e até Ino felizes em algum lugar mundo afora, e com a promessa de voltar a encontra-las em um dia já marcado, poderia seguir em frente em busca de sua própria felicidade, sem se arrepender. E também sabia que com Sasuke ao seu lado, o mundo lá fora estava apenas aguardando sua chegada. E ela iria levantar voo nesse mundo sem medo de onde sua liberdade poderia leva-la.

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Narração em terceira pessoa

Ele ouviu o portão se abrir, e logo depois a porta da frente. Terminando de digitar a última página de um complicado relatório, saiu do escritório para cumprimenta-la. Ela vestia shorts e uma regata. Já era março, o que significava que a primavera estava bem próxima, e os dias voltavam a ficar mais longos e mais quentes. Assim que ela o viu, deu-lhe um rápido selinho e foi em direção à cozinha beber água. A viagem que acabara de fazer deixara-a cansada, mas não podia negar que estava feliz.

Sentiu os passos do moreno atrás de si, já ciente das perguntas que ele faria.

— Não, não a encontrei lá. – respondeu antes que ele pudesse perguntar – Mas recebemos um cartão. Ela está bem. – Sakura sorria e o olhava.

Havia acabado de voltar do “jardim secreto”. Esse era o nome que ela, TenTen, Hinata, Temari e Ino haviam dado a um lugarzinho encantado no interior do País do Fogo. Não parecia ser nada além de uma pequena floresta, mas aquele lugar era especial para elas. Encontraram-no por acaso depois de uma missão conjunta. Desde então, passou a ser um lugar especial para elas. Sempre iam para lá de tempos em tempos, apenas para aproveitar a natureza, descansar, sentirem-se livres de Tsunade quando ainda estavam presas à Base. E apesar de agora Tsunade não mandar mais na vida delas, o sentimento daquele lugar ficara.

Quando saíram da Base, combinaram de se encontrar daqui a quatro meses ali, naquele lugar que somente elas conheciam. Quando chegaram ao jardim secreto, a primeira coisa que viram foi uma carta colocada cuidadosamente em um dos buracos de uma árvore, protegida do vento e da chuva. A carta era de Ino.

Por algum motivo, sabia que vocês voltariam a esse lugar. Eu estou bem e feliz ao lado de Gaara. Fiquei sabendo sobre o fechamento da Organização das Wings. Parabéns pela liberdade de vocês. Aproveitem-na com cuidado. E agora que não estamos mais presas em gaiolas, com certeza iremos nos encontrar nesse extenso céu novamente. Vocês ainda não sabem como me contatar, mas eu sei como contatar vocês. Até o nosso próximo encontro.

Ino

A carta assustara-as e as deixara com esperanças. Ino estava bem e não havia se esquecido delas. Algum dia, não importa o quanto demore, elas iriam se ver novamente. Depois daquilo, passaram um dia inteiro somente conversando sobre seus sonhos. A amizade não havia enfraquecido em nada com a distância. TenTen rapidamente conquistara seu lugar na Central de Inteligência e já era vista como uma das policiais mais capazes de lá. Temari mostrou as fotos dos vários lugares que visitou, e como está pensando em exibi-las em alguma exposição de artes. Hinata timidamente disse que estava namorando Naruto e também trabalhando como professora do primário. Sakura também contou que começaria a estudar Direito em breve, e que estava trabalhando como enfermeira em um dos hospitais de Konoha na ala infantil, dando apoio às crianças doentes.

— Quem diria você trabalhando com crianças? – TenTen riu em voz alta. Por ter passado a vida toda na Base acolhendo meninas tristes que chegavam sem rumo e sem vida, Sakura havia criado uma armadura emocional contra crianças, e agora estava tentando quebrar essa armadura trabalhando junto delas.

— Você mudou, Sakura-chan. – Hinata disse em seu tom gentil.

Sakura ouviu aquelas palavras se perguntando “será mesmo que mudei?”. Ela realmente se sentia diferente em relação a muitas coisas, mas talvez esse fosse só o efeito da liberdade. Agora podia andar nas ruas sem medo de se mostrar, podia fazer o que seu coração mandasse sem pensar duas vezes, podia gostar de Sasuke sem nenhum peso na consciência. Talvez ela realmente tivesse mudado, assim como ele. E isso não parecia ser algo ruim.

Agora tinha sua própria casa, um apartamento simples em Konoha, um emprego no qual estava aprendendo a ser mais gentil e honesta, e seus estudos estavam encaminhados. Tinha algumas amigas na cidade, pessoas com quem gostava de conversar e passar o tempo livre. E tinha a ele. Por todos esses quatro meses, continuaram juntos. Não possuíam alianças, mas aquilo não fazia muito bem o estilo deles. Ainda estavam tentando se acostumar com isso o que chamavam de “relacionamento”, e aos poucos estavam se permitindo conhecer melhor um ao outro, construindo vagarosamente e estavelmente uma confiança com um forte alicerce. As coisas haviam começado errado entre eles. Sakura nunca conseguiria esquecer sobre aquela primeira noite, quando invadiu a casa dele com nada além de ganância e egoísmo e quase o matou, e tinha certeza de que ele também não. Também nunca conseguiria esquecer sobre como ele a testemunhara matar quatro pessoas sem nem mesmo piscar os olhos, e tinha certeza de que ele também não. Sasuke dizia entender os motivos de ela ter feito aquilo, e ficava irritado quando ela tentava se desculpar (de novo), dizendo que não tinha problemas em saber sobre aquilo. Afinal, ela salvara a vida dele, como ele mesmo dizia.

Sasuke a aceitava. E ela também estava aprendendo a deixa-lo fazer isso. Estava aprendendo a confiar-lhe segredos, a contar-lhe mais sobre sua infância, seus medos, suas paixões, e estava ouvindo os dele. Aos poucos, estavam construindo essa ponte de confiança e sentimentos, que ficava mais forte a cada dia.

Não significa que nunca brigavam. Pelo contrário, discussões eram frequentes quando se tratava de um moreno sarcástico e uma rosada teimosa. As discussões eram sobre assuntos bobos na maioria das vezes, mas já haviam ficado dias sem se falar depois de a rosada ter insistido no assunto “família Uchiha”. Sasuke não gostava de envolver sua família em seus assuntos pessoais. Também havia ali um problema de confiança entre eles. Ainda trabalhando na empresa, ele estava encontrando seu lugar, algo dentro dos negócios que se sentisse mais confortável em fazer. Seu pai estava começando a ter mais orgulho e confiança nele, colocando responsabilidades cada vez maiores em suas costas porque sabia que poderia contar com ele para resolvê-las. Aquilo o deixava feliz, de certa forma, mas Sasuke era o filho rebelde. Ele nunca estaria completamente confortável ali. Mas ele estava tentando.

Sakura conseguia ver isso. Dois meses atrás, em janeiro, ele por fim concordara quando ela lhe disse que iria visitar a casa da família um dia, anunciando sua volta permanente, e também concordara quando ela lhe pedira para vir junto. A família ficou no mínimo chocada. Mikoto recebeu Sakura de braços abertos, e Fugaku pediu para os dois “terem juízo”. Eles sabiam sobre o que acontecera com a Organização das Wings, assim como todos os outros clientes. Para alguns, foi uma perda muito grande, e para outros, como a família Uchiha, foi um acontecimento neutro. Mikoto ficou feliz por Sakura estar seguindo seus sonhos. Itachi, ao lado de uma Konan grávida de sete meses, não pareceu surpreso por ela estar com Sasuke, e lhe disse para guiar o irmão mais novo no caminho certo.

Sakura guardara aquelas palavras dentro de si para nunca mais esquecê-las. Guiar Sasuke no caminho certo só seria possível se ela mesma também conseguisse se guiar nesse mesmo caminho. E era o que estava tentando fazer. Em meio a brigas, beijos, lençóis e facas, estavam tentando se encontrar e seguir para um mesmo rumo. Às vezes tropeçavam, às vezes pegavam o desvio errado, às vezes precisavam dar uma pausa para continuar, às vezes andavam vários quilômetros de mãos dadas. E iam no próprio ritmo. Sakura sentia que estavam melhorando. Já conseguiam conversar sobre assuntos profundos, assuntos pessoais. Já conseguiam se entender melhor, confiar melhor.

— É só essa notícia que tem dela? – Sasuke sabia que ela estava falando de Ino. Conseguia ver como a ausência da loira a afetava.

— Sim, por enquanto. – colocou o copo de água na pia e foi na direção dele para beijá-lo.

— Por enquanto?

— Sim, Sasuke. Por enquanto. – Sasuke já aprendera a lidar com suas respostas ambíguas e enigmáticas. Sabia que esse era só o jeito dela, e aceitou seus lábios macios. Sakura gostava muito de beijá-lo – Terminou seu trabalho? – perguntou depois de se afastar.

— Finalmente sim. Temos o fim de semana livre.

— E já temos um plano?

— Não, mas podemos decidir aqui e agora. – ultimamente, sempre que podiam, faziam programas a dois. Poderia ser só um filme, um passeio pela cidade, qualquer coisa leve que os deixasse mais à vontade na presença do outro. Sakura torceu o nariz.

— Eu queria viajar. – ela disse com a voz baixa. Sasuke riu.

— Acabou de voltar de uma. Esse seu “jardim secreto” não parece ser muito perto daqui.

— Mas eu quero viajar com você. – ela voltou a olhá-lo, encarando sem medo aqueles orbes escuros. Sasuke ficou em silêncio por alguns segundos.

— E para onde você quer ir?

— Hmm... não sei. – Sasuke riu de novo – Podemos dirigir até encontrarmos uma pousada, uma cachoeira, fontes termais, um parque de diversões, um circo, uma cidade estranha... podemos fazer qualquer coisa.

— Então vá fazer suas malas. – ela sorriu e o beijou de novo.

— Te encontro aqui mais tarde. Não se atrase. E eu quero dirigir! – Sasuke suspirou antes de acenar com a cabeça, vendo-a ir embora para depois voltar. Com Sakura, era assim: o dia começava branco e terminava colorido. Sasuke já havia aprendido a lidar com sua imprevisibilidade, e também não podia reclamar quando ela aparentava estar feliz.

****

Depois de três horas, estava prontos para ir. Sakura parecia mais animada que o normal. Talvez o reencontro com as amigas e notícias de Ino a tivessem deixado mais otimista. Em pouco tempo estavam saindo de Konoha, e Sakura começou a pisar no acelerador com mais força.

— Cuidado com isso. – Sasuke aprendera da pior forma que Sakura gostava muito de dirigir. Em um dia inocente, dera o carro a ela e quase teve três ataques cardíacos simultâneos quando ela começou a apostar corrida com o vento, desviando de obstáculos invisíveis e fazendo o moreno se segurar e rezar pela vida.

— Não confia em mim, Sasuke-kun? Eu dirijo melhor do que você! – ele sabia que não valia a pena discutir.

— Só não finja que estamos em Velozes & Furiosos, Sakura. – ele disse por fim, suspirando.

— Mas então qual vai ser a graça? – olhou-o divertida, e só sorriu para tranquiliza-lo – Relaxe, vamos chegar sãos e salvos.

— Chegar aonde? Nem escolhemos o destino.

— Não se preocupe com esses detalhes. Apenas vamos chegar.

Saindo agora de Konoha, eles começavam a ver a paisagem ao redor da estrada. Passaram por poucos carros, conversando sobre coisas triviais. Sakura gostava desses momentos, pois era neles que conseguia enxergar outros lados de Sasuke. Era sempre em conversas bobas que aprendia mais sobre ele, seus gostos, manias e inseguranças. E Sasuke também parecia sentir o mesmo.

Depois de algumas horas viajando, encontraram uma simples pousada. A atendente reconheceu Sasuke Uchiha e lhe ofereceu o melhor quarto dali. Antes da noite cair, andaram pela floresta em volta do local, de fato encontrando uma pequena cachoeira. Durante a noite, conheceram um casal de turistas hospedados no mesmo lugar, e trocaram ideias interessantes. No dia seguinte, saíram cedo, e dirigiram até encontrarem outro local interessante para se passar o dia.

E assim passaram o fim de semana, até voltarem domingo à noite a noite, exaustos, mas satisfeitos. Sakura disse que dormiria na casa de Sasuke, e quando menos perceberam, já haviam caído no sono abraçados, como de costume.

Antes de dormir, no entanto, Sakura conseguiu pensar em várias coisas. Isso era comum quando estava ao lado de Sasuke, pois ele lhe fazia pensar em sua vida e em todas as coisas que haviam mudado desde então. Talvez a mais drástica delas tenha sido a revolução contra Tsunade e a não-existência mais das Wings. Sakura nunca imaginou que seu destino culminaria nisso. Desde que fora criança e chegara à base, nunca achou que a Organização de fato fosse ser derrubada um dia. Todas as coisas que aprendeu, todas as pessoas que conheceu, todo o seu caráter e personalidade com certeza haviam sido moldados com base naquele ambiente e naquela Mestra. Mas no fim, cada pessoa é única, e somente essa pessoa sabe o que realmente quer da vida. Sakura queria fugir. Ela sempre quis. Nunca gostou de ficar presa a lugares e a pessoas. Quando finalmente conseguiu, seu sonho foi curtamente vivido. Foi capturada e obrigada a viver novamente como Wing.

Mas também fora nessa época que conhecera Sasuke, um homem arrogante, sarcástico e egoísta, que só a fazia querer bater a cabeça contra a parede do tão irritante que era. Passaram por muita coisa juntos, desde felizes até miseráveis. Mesmo após ter tentado mata-lo, ele foi ao seu encontro. Mesmo após ter tentado se ver livre dele, ele a seguiu e tentou chamar sua atenção. Depois de joguinhos, muitas brigas e desentendimentos, acabaram percebendo que não era somente ódio que existia entre eles, mas havia algo chamado “atração” que os puxava para o outro não importa o quanto tentassem evitar.

Deve ter sido nesse momento que começaram a mudar. Quando começaram a conhecer suas falhas e a perceber como eram vulneráveis em relação ao outro, também começaram a mudar. Sentimentos nunca antes despertados em ambos foram como um botão querendo florescer. Sasuke percebeu isso mais rápido do que Sakura. Desajeitadamente, ainda com todo o seu cinismo, ele tentou dizer a ela que “gostava” dela. Que havia nela algo diferente de todas as outras. Que ela era única e especial. Mas Sakura se afastou no início. Tinha medo daquilo, tinha medo de sucumbir a essas estranhas sensações, de se entregar a ele, principalmente com a vida regrada que tinha como Wing. Não queria se permitir àquilo, não queria sofrer. Por isso fugiu dele. Assim como havia fugido de Tsunade, também fugiu de Sasuke. Mesmo assim, ele não parou de tentar encontra-la.

E felizmente, ele sempre conseguia. Depois de tentar se afastar dele, ela se viu ligada a ele de novo por causa de uma simples menininha que gostava de ser chamada de Gata. Pensando em Meiko Okazaki, Sakura sabia que ela estava bem e seguia forte em um dos orfanatos da região. Sasuke sempre ia visita-la, e Sakura sentia orgulho dele por aquilo. Essa singela menininha também contribuíra para esse processo de mudança. Foi como se um despertador tocasse bem alto em seus ouvidos, demandando que eles acordassem para a vida real. Jamais pensou Sasuke fosse se mostrar tão sensível a uma órfã, indo tão longe para protegê-la. Sim, o moreno havia começado a mudar antes disso, mas a Gata havia acelerado o processo. Sakura descobriu como ele poderia ser preocupado, gentil e solidário. Viu o quanto ele havia amadurecido, o quanto estava mais responsável. E temeu aquilo, porque enquanto ele parecia ter seguido em frente, ela ainda estava no mesmo lugar. Não demorou a descobrir que ele ainda a queria, mas ela continuava com medo. Com medo de dessa vez não conseguir escapar. Com medo do significado daquelas palavras, daqueles sentimentos. E então, mais uma vez, ela o rejeitou.

Só percebeu o quão importante ele era quando o pior aconteceu e ele quase morreu nas mãos de quatro criminosos. Foi quando o viu ali, sangrando, machucado, vulnerável, que percebeu que não poderia abandoná-lo. Que ele já havia se tornado muito importante para ser ignorado. Que não poderia desistir dele. Então, assassinando os quatro homens, ela o salvou, e temeu que ele fosse se afastar. Ela odiava essa parte sombria de si. A parte em que revelava sua verdadeira face, o que realmente poderia fazer com as pessoas. Ela odiava seu lado assassino, e foi obrigada a mostrar a Sasuke o quão cruel poderia ser. As cicatrizes no pescoço dele, deixadas por ela na primeira vez que se encontraram, ainda continuavam lá, finas linhas brancas atravessando a pele. Ela se sentia culpada a cada vez que as tocava, e tentava compensar isso com beijos delicados e abraços carinhosos. Sasuke não parecia mais se importar, mas ela se importava. E quando lembrava de tudo o que havia feito de errado com ele, sentia um peso no peito difícil de descarregar.

E mesmo assim, ele ainda a aceitara. Em uma cama de hospital, coberto por faixas e hematomas, ele a aceitara e a agradecera por ter salvado sua vida. E mesmo assim, ela ainda o rejeitara, e rejeitara a si mesma. Ela tentou continuar sua vida como se a presença dele não a afetasse. Como se fossem ter encontros insignificantes daqui para frente e tudo acabaria em sexo e nada mais. Queria conhece-lo, mas tinha medo de se mostrar também. Por isso fingiu que nada era muito importante. Todas as vezes que o tratou friamente, era porque tinha medo de trata-lo bem e acabar presa a ele, conectada muito fortemente, impossível de desapegar. Tentou se manter afastada, mas acabou não conseguindo. Quando percebeu, já estavam trocando presentes. Ela ainda tinha a camisa azul marinho dele, guardava-a entre suas roupas e às vezes a vestia, para o divertimento dele; e ele ainda tinha o livro favorito dela, guardado em um lugar especial em sua estante. Às vezes conversavam sobre a história: afinal, Capitu traiu Bentinho ou não? Sasuke acreditava que não, e Sakura acreditava que sim. A interpretação individual de cada um talvez dissesse muito sobre suas personalidades; Sakura tinha problemas de confiança, e portanto compartilhava da mesma paranoia que Bentinho; Sasuke, que sempre a havia aceitado apesar de todos os seus defeitos e conseguia ser mais aberto em relação a seus sentimentos, discordava de Bentinho e estava disposto a acreditar no caminho menos dolorido.

Independente de tudo isso, aqueles dois presentes se tornaram símbolos da ligação existente entre eles. Ela não poderia mais fingir que nada existia; não poderia mais fingir que ele não significava nada a ela. Eles já estavam ligados, presos um ao outro. E aquilo era assustador.

Depois, os problemas com Ino começaram. Só então percebeu que a amiga passava por uma situação parecida com a sua; ela tinha alguém a mais em sua vida. Mas diferente de seu relacionamento com Sasuke, Ino e Gaara já tinham certeza de que queriam viver juntos pelo resto da vida. Sakura viu a amiga sofrendo por ele, e viu que mesmo depois de todo o sofrimento, ela ainda escolheu ficar com ele, e havia feito desse sonho realidade quando fugiram juntos. Então... por que ela não poderia fazer o mesmo? Ela não estava mais feliz com sua vida, e cada vez mais se sentia isolada do mundo, isolada dele. Viver daquele jeito, presa, era doloroso. Qual era o problema de enfim aceitar seus sentimentos? Qual era o problema de se sentir leve, de se deixar levar pelo vento até flutuar? Não havia nenhum problema com isso. Era o que pessoas normais faziam. E as anormais também. Pois no fim, todos querem algum significado para suas vidas. Todos querem ser livres, aprender a voar e bater as asas no alto do céu. Então por que ela também não poderia fazer isso? Depois de tudo pelo que já havia passado, depois de perceber que ela e Sasuke nunca mais se separariam, qual era o problema em lutar por aquilo? A fuga de Ino a despertou mais uma vez, fazendo-a se sentir viva novamente. Não havia nenhum problema em lutar por aquilo. Não havia nada de errado em aceitar os próprios sentimentos, em tentar entende-los. Não havia nada de errado em abrir a porta da gaiola e sair voando.

Por isso ela o fez. Ela decidiu sair daquele lugar. Sua dívida com Tsunade por ter lhe salvado já havia sido paga há muito tempo. Agora ela precisava fazer seu próprio caminho. As mudanças seriam drásticas, ela sabia, e a estrada seria pedregosa. Mas ela sempre gostou de desafios. E ela já sabia que seu lugar era no céu, não na gaiola. Por isso aquela revolução aconteceu. E quando aconteceu, ela finalmente havia aceitado seus sentimentos em relação a si mesma e em relação a Sasuke. Ela já sabia o que queria, e não tinha mais medo de tentar voar. Era uma Wing, mas suas asas estavam atrofiadas. Ela precisava se libertar desse nome para poder levantar voo. E foi o que ela fez.

Não teve dúvidas de que seu primeiro destino seria a casa dele, e não teve dúvidas de que ele a aceitaria, mais uma vez. Sasuke a estava esperando, a esteve esperando por todo esse tempo. E ela finalmente retribuiria seu aperto de mão, seu abraço e seus sentimentos. Ela finalmente estava livre.

E era irônico que mesmo livre, ela estava presa a ele. E era irônico ela se sentir livre mesmo estando presa a ele. Nesse relacionamento construído à base de tentativas e erros, eles estavam fazendo progresso. Sakura nunca imaginou que mudaria tanto por causa dele. Talvez eles precisavam um do outro, afinal. Talvez eles realmente pudessem se ajudar a crescer, como estavam fazendo agora. E isso já era suficiente.

Agora ambos estavam dando as primeiras tentativas de voo. Estavam ousando aos poucos, almejando mais alto aos poucos. Sakura estava, enfim, aprendendo a voar, com Sasuke ao seu lado. Juntos, ela tinha certeza de que conseguiriam alcançar as montanhas mais altas, e atravessar as estradas mais difíceis. Com ele, ela já não tinha mais medo de abrir as asas e se jogar ao horizonte. Porque sabia que se caísse, ele estaria lá para pegá-la. A confiança entre eles estava crescendo, junto com seus desejos e sentimentos que enfim souberam aceitar.

E voar era maravilhoso. Sentir o vento da liberdade no rosto, as mãos firmes de alguém ao seu lado, era maravilhoso, e ela nunca iria desistir disso por nada. Ela nunca iria fugir novamente.

Saindo de seus pensamentos, olhando para o relógio do criado-mudo, Sakura percebeu como havia se perdido no tempo ao pensar mais uma vez em toda a sua vida. Em algumas horas, ela teria que se levantar para começar a rotina de sempre, e ele também. E aquilo era bom. Sempre gostou de adrenalina, mas essa vida estável com Sasuke era boa. Eles se aventuravam de seus próprios jeitos, e ela estava contente com o resultado de tudo isso.

Silenciosamente levantou o corpo, debruçado sobre o dele, para lhe beijar timidamente os lábios. Pensou que ele já estivesse dormindo, mas ouviu um murmúrio que dizia o contrário.

— Desculpe, te acordei? – ela disse em um sussurro.

— Sim. – ele riu brevemente – Mas tudo bem.

— Sasuke?

— Hm? – ele estava sonolento.

— Eu gosto de você também. – nenhuma resposta veio mesmo depois de vários minutos. Sakura raramente dizia que gostava dele, enquanto ele já se expressava com mais regularidade; então ouvi-la dizer aquilo trouxe uma onda de sensações.

— Eu sei, Sakura. – ela o abraçou mais forte.

— Que bom então, porque não é sempre que eu vou repetir isso. – ele riu, abraçando-a também.

— Fique aqui comigo.

— Eu não vou mais embora, Sasuke. – e beijaram-se uma última vez antes de caírem no sono.

Sim, Sakura tinha certeza daquilo, ela não iria mais embora. Porque agora ambos voariam juntos. Onde um fosse, o outro iria também. E assim, continuariam aprendendo, confiando e crescendo, até saírem da palavra “gostar” e evoluírem para a palavra “amar”. Não iria demorar muito, ambos sabiam disso. Eles estavam aprendendo a voar rápido, e a se apoiar um no outro. E aquela liberdade, aquela felicidade, era algo que nunca poderia ser substituído. E ambos tinham certeza de que nunca iria ser.

Ambos aprenderiam a se amar voando juntos, não importa o quanto o tempo passasse, e não importa para onde o vento os levasse.

When the moon fell in love with the sun

All was golden in the sky

All was glden when the day met the night

Quando a lua se apaixonou pelo sol

Tudo ficou dourado no céu

Tudo ficou dourado quando o dia encontrou a noite

Panic at the Disco –When the Day met the Night

FIM

Notas finais
Não acredito que finalizei essa história. Dediquei tanto de mim nela, fui obrigada a parar na metade, mas graças aos céus consegui voltar e terminar. Essa é a primeira história que faço, e não achei que fosse atrair tantas pessoas assim. Por isso, espero que tenham gostado desse capítulo, de verdade, e queria agradecer pela atenção e apoio de cada um que leu até o fim, por cada comentário, por cada crítica e elogio, por cada recomendação, a cada um que favoritou e não desistiu da história. Para mim, escrever essa história foi uma experiência muito boa, e espero que para vocês tenha sido uma leitura agradável também. Não excluo a possibilidade de fazer algum capítulo extra algum dia. Bom, acho que é isso. Novamente, muito obrigada a todos que percorreram todos esses capítulos e estão agora lendo essa mensagem final. Como sempre, estou aberta a críticas e comentários. Essa história terminou, mas eu não vou parar de escrever. Muito obrigada por me acompanharem até aqui! Espero que o final da história tenha sido satisfatório! Beijos de luz a todos vocês! Update (02/04/2017): a história tem uma continuação, e se chama "Liberdade para Voar". Se você gostou de Broken Wing, dê uma conferida também! https://fanfiction.com.br/historia/729430/Liberdade_para_Voar/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!