Broken Wing - Aprendendo A Voar
51 Capítulo 51 - Revolução I
Notas iniciais
Despediram-se com um breve aceno, e Shikamaru só conseguiu concordar com a Wing. O dia seguinte seria problemático, e nem ele conseguiria prever como iria acabar. E provavelmente, seria o primeiro de muitos outros assim, mas estava confiante de que teria muitas Wings ao seu lado, querendo voar para longe dali, e que depois de todas as turbulências, enfim conseguiriam.
Sakura’s POV
Acordei pressentindo que uma tempestade viria. Em todos esses dias, foram relâmpagos, trovões e nuvens escuras. Agora parece que a água finalmente cairia e levaria a todos embora, destruindo planos comuns e esperanças. Eu sei que não poderia pensar daquela forma agora, mas minha natureza pessimista não iria recuar em uma situação de desespero, pelo contrário. Eu iria fazer a maior loucura de minha vida, e a única coisa me consolando e me mantendo firme nessa decisão era saber que eu não estava sozinha.
Havia muitas pessoas me apoiando, de perto e de longe, então eu não poderia falhar com elas agora. Nem com Shikamaru, Hinata, TenTen, Temari, Meiko Okazaki, nem com Sasuke, que estava me esperando, e principalmente, nem com Ino, a principal responsável pela revolução de agora. Eu precisava honrar sua coragem e determinação. E eu faria isso.
Saindo do quarto, comecei a minha parte do plano: reunir as Wings no Grande Salão. Com as missões de pequena e média urgência canceladas devido ao resgate de Gaara, todas as Wings estavam na Base. Eu conhecia todas elas por nome e aparência, e elas me conheciam também. Reuni-las em um único lugar não seria problema; o mais difícil viria depois disso. Mas eu precisava ir com calma.
– Sakura! Vamos ajudar a reunir as garotas. – ouvi a voz animada de TenTen assim que saí do quarto. Temari e Hinata estavam ao lado dela, parecendo determinadas.
– Certo. Eu fico com a ala leste, TenTen com a oeste, Hinata com a ala sul e Temari com a norte. – falei prontamente, e depois de todas acenarem as cabeças, nos dividimos e começamos a bater nas portas de todos os quartos.
– Reunião extraordinária urgente no Grande Salão imediatamente! Repetindo, reunião extraordinária urgente no Grande Salão imediatamente! – eu batia de porta em porta várias vezes, gritando o mais alto que meus pulmões permitiam. Wings abriam a porta sonolentas e confusas.
– Esses tipos de avisos não deveriam ser comunicados pelo alto-falante? – Hime, uma Wing psicóloga de cabelos vermelhos estranhou a situação.
– O alto-falante quebrou. – eu não tinha tempo para encontrar uma desculpa melhor, e precisava fazer isso o quanto antes. Shikamaru já deveria estar com Tsunade a uma hora dessas.
Algumas Wings que já estavam a par da situação por terem conversado com Shikamaru saíam de seus quartos com olhares variados de determinação, curiosidade e medo. Foi delas que Shikamaru conseguira relatos e testemunhos, e estes serviriam de prova para esclarecer a situação às outras Wings, e com sorte, convencê-las a se libertarem dessa vida.
Depois de meia hora, eu via satisfeita o mar de mulheres caminhando mecanicamente em direção ao Grande Salão. Mulheres de todas as idades, de todas as raças e todos os tipos de determinação. Eu iria libertar todas. Segui-as também ao local onde nosso destino seria decidido.
****
– Por favor, tomem seus lugares! – chegando ao Grande Salão, eu via Kurenai liderando as Wings e pedindo-as para se sentarem nas confortáveis cadeiras. Pensei que Kurenai não ficaria do nosso lado, visto sua posição dentro da Organização, mas parece que ela também estava insatisfeita com os métodos de Tsunade.
– Onde está a Tsunade-sama? – algumas Wings mais perceptivas faziam essas perguntas, estranhando a ausência da Mestra.
– Tsunade-sama estará aqui em poucos minutos. Essa é uma reunião muito séria, portanto precisaremos de toda a participação de vocês.
Enquanto Kurenai chamava a atenção das meninas e mulheres, acenei a cabeça a ela, dando sinal de que eu iria colocar a leoa dentro da jaula. Conseguia ver minhas amigas já dentro do Salão, e até captei a pequena figura de Meiko Okazaki em meio a tantas outras. Ela estava quieta em seu canto, ao lado de menininhas da idade dela, tão confusas quanto no primeiro dia em que haviam chegado aqui. Passei rapidamente por elas, e mantendo esse ritmo, me encaminhei até a sala onde Shikamaru e Tsunade estavam.
Bati na porta, e Shikamaru a abriu de imediato.
– Ah, Sakura. Estava te esperando.
– Sakura? – ouvi a voz de Tsunade de dentro – Aconteceu algo? – eu conseguia ouvir a suspeita na voz de Tsunade. Ultimamente, ela estava bem mais paranoica.
– Na verdade, sim. – Shikamaru respondeu – Preciso que me acompanhe até o Grande Salão, Tsunade.
– Como assim? Estamos discutindo o plano para o resgate de Gaara no Sabaku. Não temos tempo para distrações, Shikamaru. Sakura, deveria estar cumprindo seu castigo agora. Deixe-nos trabalhar em paz.
– Sinto muito, Tsunade-sama, mas esse é um assunto sério que requere sua imediata e indispensável atenção. – me impus na conversa, fazendo Tsunade me olhar, suspeita.
– Está me dando ordens, Sakura? Está querendo um castigo mais severo?
– Na verdade, Tsunade, recomendo que vá com Sakura. Eu também vou. É de extrema importância. – Tsunade olhou para nós dois como se fôssemos loucos.
– O que está acontecendo? É minha impressão ou vocês dois estão tentando me encurralar? – como esperado de Tsunade, ela era perceptiva.
– Por favor, Tsunade, apenas nos acompanhe.
– Vou acabar com qualquer que seja essa palhaçada, e depois conversaremos longamente, mocinha. – a Mestra pontou o dedo para mim enquanto saía da sala e caminhava até o Grande Salão, sempre imponente.
Com Tsunade, era sempre assim. Mesmo em desvantagem, ela faria de tudo para continuar na frente, de cabeça erguida, e isso fazia dela uma mulher forte e intimidante. Ela não se acovardava quando problemas apareciam. Por isso era tão difícil lidar com ela. Seguimos Tsunade até o local de destino, e a Mestra abriu a porta para se deparar com a visão de todas as Wings virando a cabeça para olhá-la. Naquele momento, sua expressão incrivelmente mudou. Eu nunca havia visto Tsunade mais surpresa como naquele instante. Poderia jurar que sua máscara havia rachado em um dos lados. Agora só precisaríamos quebra-la um pouco mais até ela cair.
Ainda imponente, Tsunade caminhou pelo corredor dividindo o Salão, sempre sendo observada pelas Wings. De frente para todas as poltronas, Kurenai e Shizune a aguardavam, exibindo sorrisos tristes.
Eu e Shikamaru também começamos a descer o corredor. Enquanto eu me sentei em uma das poltronas da frente, Shikamaru foi até o lado de Tsunade.
– Bem, parece que vocês aprontaram uma conspiração e tanto contra mim, não? – a voz de Tsunade estava brincalhona, mas ameaçadora. Ela era esperta o suficiente para saber o que tudo aquilo significava.
– Tsunade-sama, por favor, escute o que temos a dizer.
– Escutar? Sou toda ouvidos, Kurenai! Mas antes, pensem bem no que estão fazendo. Vou dar uma chance a vocês para desbandarem todas daqui e continuarem suas vidas como sempre estiveram fazendo. Não posso perder tempo com rebeldias.
– Não é uma rebeldia, Tsunade-sama. – Kurenai falava com fogo no olhar – É uma situação que não pode mais ser adiada.
Um silêncio tenso se formou entre Mestra e Wing. Eu conseguia sentir raios laser saindo dos olhos de Tsunade, matando Kurenai queimada. Antes que isso se tornasse realidade, Shikamaru interviu.
– Não queremos começar nenhuma guerra, Tsunade.
– Não? Certamente não parece, visto que estou cercada por todos os lados. Se já não bastasse uma filha ingrata e fugitiva, agora terei que lidar com centenas de outras? Qual é o significado disso?
– Vamos ser bem diretos e objetivos aqui, Tsunade. A Organização das Wings precisa acabar.
Naquele momento, era possível cortar a tensão no cômodo com uma faca, de tão densa e visível que estava. Tsunade não mudou sua expressão, mas as Wings que ainda não sabiam sobre a situação ficaram perplexas e começaram a murmurar em conjunto. A tempestade havia começado.
Tsunade ficou vários momentos quieta, até os murmurinhos começarem a diminuir. Mas depois ela fez algo que eu nunca esperaria dela: começou a rir. Baixinho primeiro, com os lábios e olhos fechados, e depois o risinho se transformou em uma gargalhada, como se ela tivesse ouvido a piada mais engraçada do mundo. Shikamaru e Kurenai continuaram com suas expressões sérias, esperando pacientemente Tsunade parar de rir. Hinata me olhava nervosa.
– Sakura...
– Não hesite agora, Hina. – Temari respondeu no meu lugar.
Quando Tsunade finalmente parou de rir, olhou para Shikamaru com o semblante divertido.
– Estão falando sério? Fizeram esse teatro todo e perderam meu precioso tempo para me contarem essa piada?
– Não é piada, Tsunade-sama. – Kurenai se manifestou – Eu acredito que as Wings não podem mais continuar vivendo desse jeito. E não sou a única.
Agora o olhar de Tsunade se tornou frio e acusatório. Olhando para Kurenai e depois para Shikamaru, ela parecia prestes a perder a compostura.
– Vocês não tem motivos para fazer isso! Eu acolhi cada menina aqui, dei comida, banho, camas, roupas e amor, tratei-as com carinho, ensinei-as a viver! Não fiz tudo isso para receber esse tratamento ingrato. Até ontem tudo estava perfeitamente bem! Nunca recebi nenhuma reclamação das minhas meninas, sempre fiz com que se sentissem confortáveis aqui! E agora vocês vem me falar que do nada todas se viraram contra mim e querem sair daqui? É óbvio que só pode ser uma piada!
– Não foi do nada, Tsunade-sama. Os testemunhos que Shikamaru reuniu desde que voltou à Base são prova disso. – Kurenai continuava firme, apesar da imposição da Mestra.
– Testemunhos? Isso por acaso é um julgamento e eu sou a réu? Então vamos, mostrem-me essas ingratidões! – ela virou-se para Shikamaru de repente – E você, traidor, o que pretende ganhar com isso? O que está pensando ao meter o nariz onde nunca foi chamado?
– Eu entendo que esteja se sentindo injustiçada, Tsunade. Mas isso precisa ser feito para o bem destas meninas e para o seu próprio. Desde que comecei a trabalhar para sua Organização, sinto que as coisas são feitas da maneira errada aqui.
– E quem é você para dizer o que é o certo e o errado?
– Acalme-se, por favor. Ninguém está dizendo que você agiu errado ao salvar todas essas meninas, pelo contrário; creio que a maioria aqui estaria morta se não fosse pelo seu apoio. Elas estão vivas e bem hoje graças a você.
– Isso mesmo! Elas devem suas vidas a mim! Por isso não posso tolerar essas rebeldias injustificadas!
– Aí está o problema, Tsunade. Você as salvou, mas elas não devem nada a você. – outro silêncio tenso se fez. Eu conseguia ouvir uma ou outra Wing já começando a chorar atrás de mim – Você não pode tomar a vida dessas meninas para si porque acha que elas te devem um favor por tê-las resgatado.
– Eu não tomei a vida de ninguém! Todas elas são leais a mim! Eu amo todas e elas me amam! – Tsunade estava começando a se exaltar. Eu nunca havia visto minha Mestra daquele jeito.
– Acho que estou chegando próximo ao ponto que quero te provar, Tsunade. Esse seu “amor” não é saudável. Você prendeu todas essas meninas nesse lugar e as obrigou a te servir. Você não deu a elas a chance de escolha, simplesmente achou que era seu direito usá-las e passou a chamar isso de amor. Até agora elas estiveram caladas, e se ameaçavam te contrariar, você as calava, castigava. Não foi isso o que aconteceu com Sakura, quando ela fugiu? Não foi isso o que aconteceu com as três mulheres que você expulsou daqui uma vez? Não foi isso o que aconteceu com Ino também? E com outras que você obrigou a abortar, a desistir de sonhos, a sujar as mãos, a viverem com medo, tudo por causa desse seu “amor”?
– Shikamaru, não teste minha paciência. Basta somente uma ordem minha para qualquer Wing daqui te cortar em pedaços. – agora foi a vez de Shikamaru rir, mas era um riso de decepção.
– É disso que estou falando, Tsunade. – em seguida, ele se virou de frente para o auditório, de frente para todas as Wings, que até agora eram somente espectadoras assustadas – Se Tsunade mandasse alguma de vocês me matar, quantas aqui fariam isso por livre e espontânea vontade?
O silêncio tenso continuou no auditório. Olhando para trás, eu via algumas Wings balançando a cabeça de um lado para o outro, e outras tampando os ouvidos. Shikamaru voltou-se para Tsunade, que agora já estava fervendo de raiva.
– Viu o que eu quero dizer? Nenhuma delas quer matar. Mesmo que durante o treinamento, você dê a elas uma certa liberdade de escolha em suas especialidades como Wings, no fim essa liberdade acaba sendo manipulada. Tsunade, você chegou a sequestrar algumas garotas daqui. Outras, você deixou chorando por anos até se conformarem de que não poderiam mais sair daqui. De outras, você cortou o contato com pessoas de fora. E a todas, você obrigou a te servir como uma Rainha. Elas nunca reclamaram com você porque você não permitia. Você as castigava quando elas iam contra você, quando desobedeciam a menor das regras. Você perseguiu Sakura por mais de mil quilômetros somente para prendê-la de volta quando ela claramente não estava mais feliz aqui. Você fez Ino abortar o filho do homem que ela amava somente para que ela continuasse lhe servindo. Tsunade, você entende como esse mundo que você criou é distorcido?
– E o que você queria que eu fizesse? – Tsunade agora estava gritando. Antes de perceber, eu já havia levado minha mão à boca, tamanha minha surpresa com a atual situação – Eu também já sofri muito na vida! Eu conheci a fome, a solidão, o abandono, a dor! Eu entendo a dor pela qual todas essas garotas passaram porque eu também já a experimentei! Eu não queria mais ficar sozinha, então tudo o que fiz foi reuni-las sob meus cuidados! Cuidei delas, ensinei-as a sobreviver, a serem fortes, e tudo o que sempre pedi foi que me amassem de volta! Eu só queria o amor delas de volta!
Tsunade finalmente começara a quebrar. Eu até conseguia ver os pedaços de porcelana de sua máscara caindo no chão, e conseguia ouvir o barulho desses pedaços se partindo em outros ainda menores.
Então toda essa obsessão de Tsunade pelas Wings, pelas regras, era somente falta de amor? Todas aqui em algum ponto de suas vidas como Wing devem ter se perguntado sobre o passado da Mestra, como ela sabia de tantas coisas, como ela construíra seu caminho até ali, mas a verdade era que nenhuma de nós sabia. Tsunade sempre deixou seu passado guardado a sete chaves. E agora conseguíamos ter um vislumbre dele, e eu estava começando a ficar com dó da Mestra.
– Tsunade-sama... – Kurenai tentou se aproximar.
– Não, Kurenai! Não tente me consolar! O pior sentimento que vocês poderiam mostrar para comigo é dó! Eu não sou uma mulher fraca e indefesa, e eu não desisto com facilidade! – ela apontou o dedo a Shikamaru – Você não irá tomar essa Organização de mim. Isso é a minha vida, as Wings são minhas filhas e eu farei de tudo para mantê-las comigo! – e em seguida, ela se virou para o auditório – Alguma vez eu tratei vocês mal? Alguma vez lhes faltou comida no prato? Alguma vez lhes faltaram amigas, companheiras? Alguma vez lhes faltaram elogios, presentes e afeto? Não! Então agora respondam a esse detetive intrometido, esse traidor interesseiro: respondam quantas de vocês me abandonariam agora!
Temari estava prestes a se pronunciar, mas eu a segurei.
– Tema, espere pelo momento certo. Se fizer isso agora, só vai causar tumulto.
E como eu esperava, nenhuma Wing se levantou, nenhuma ergueu o braço, nenhuma falou. Tsunade exibiu um sorriso triunfante.
– Como pensei. Está vendo, Shikamaru? Nenhuma delas me abandonaria! Sakura! – assustei-me quando ela chamou meu nome – Você, que já fugiu daqui uma vez, você voltou! E hoje você me serve lealmente apesar de sua ingrata amiga ter fugido! Veja como você está feliz! Você até me ajudou a ganhar uma nova recruta, onde ela está? Meiko? Meiko Okazaki? Ah, ali em cima, te achei! Veja aquela menininha, Shikamaru! Se não fosse por mim, hoje ela estaria jogada em algum orfanato, comendo comidas frias, apanhando de adultos, passando frio e solidão! Eu a salvei, e veja como ela está feliz aqui! – olhando para o rosto de Meiko, ela estava mais assustada do que feliz, e acho que todas ali, menos Tsunade, conseguiam notar isso – Ela está feliz aqui porque este foi o único lugar que a aceitou! Sim, ouçam bem, todas vocês! – Tsunade olhava diretamente para todas as Wings – O mundo rejeitou vocês! Ninguém mais as quer, você são inexistentes perante a lei! Ninguém sente a falta de vocês, ninguém sabe que vocês existem, ninguém se importa com vocês! O mundo falhou com vocês, o mundo lhes abandonou, lhes rejeitou! Mas eu não! Eu fui a única que acolheu vocês, que deu a vocês um lugar ao qual pertencer! Eu não rejeitei vocês, eu as acolhi depois de tudo ter dado errado na vida miserável de vocês! Se vocês morrerem, o mundo nem sequer lamentará por nenhum de vocês, mas eu irei! Eu sou a única esperança de vocês, a única que pode ajuda-las! Se vocês saírem daqui agora, para onde irão? Acham que o mundo irá recebê-las de volta, de braços abertos? Acham que irão aceitar assassinas, ladras e mentirosas na sociedade? A vida de vocês é aqui, comigo! Sem mim, vocês não tem para onde ir! Nunca serão aceitas no lugar que já as abandonou uma vez! Vocês não tem para onde recorrer a não ser a mim! Se me abandonarem agora, a vida de vocês estará acabada!
Tsunade parecia uma louca gritando. Ela mexia os braços, apontava, berrava para os quatro cantos do auditório aquelas palavras cruéis. Quando terminou, só sobrou o eco de sua voz, ressoando na mente de cada Wing.
– Vocês ouviram sua Mestra. – Shikamaru retomou a fala, de forma tranquila e serena. Eu não sei como ele estava conseguindo manter a calma com uma Tsunade prestes a mata-lo ali ao lado – Agora me ouçam, por favor.
– Não! Já chega dessa palhaçada! Não irei tolerar você me difamando na frente das minhas filhas! Saia já daqui, Shikamaru, antes que eu resolva te manter aqui para sempre, enterrado no jardim dos fundos!
– Está me ameaçando de morte, Tsunade? – Shikamaru continuava calmo – Está ameaçando retirar a minha vida na frente de todas as suas filhas?
– Acha que pode me intimidar com esse papinho sentimental de quinta categoria? Minhas Wings já estão acostumadas a isso. Eu as treinei bem.
– Eu quero ouvi-lo, Tsunade-sama. – todas as Wings se viraram na direção daquela voz, surpresas, inclusive eu. Lá estava Hime, a Wing de cabelos vermelhos compridos, presos em duas marias-chiquinhas altas. A expressão dela estava séria – Eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer. – ela repetiu sua fala, e o rosto de Tsunade se contorceu de raiva.
– Hime, não se meta nisso. Quem decide o que será feito aqui sou eu!
– Desde quando a senhora nega a liberdade das suas filhas de ouvir, Tsunade-sama? – agora, a voz imponente de Kurenai se fez presente – Está com medo do que Shikamaru tem a dizer? Está tão paranoica assim?
– Kurenai, não me desafie.
– O que você pode fazer para impedir Shikamaru de falar? Se tentar mata-lo, eu mesma entrarei em seu caminho. – e então ela se colocou entre Shikamaru e Tsunade, assumindo uma posição de ataque.
Naquele momento, a ficha caiu para todas as Wings. Kurenai fora a primeira mulher ali a literalmente ameaçar ir contra Tsunade. Kurenai, a Wing que todas consideravam a mais leal, a mais admirável, a mais bela, a mais poderosa, estava ali, indo contra a Mestra. Acho que esse ato de Kurenai foi decisivo para todas ali. O medo lentamente começou a desaparecer do rosto daquelas meninas. Tsunade encarou Kurenai como se não acreditasse em seus olhos.
– O que pensa que está fazendo, Kurenai?
– Dando a essas meninas a chance de escolher, algo que infelizmente, você nunca fez, Tsunade-sama. – petrificada, Tsunade não teve escolha a não ser deixar Shikamaru continuar.
– Não se preocupe, Tsunade. Eu não vim aqui fazer de você a vilã da história, mas acredito que seja hora de acabarmos com essa sua ilusão. Quanto mais profundamente você enganar a si mesma, mais difícil será voltar à realidade. – em seguida, ele se virou para as Wings – Eu estive trabalhando para essa Organização há 10 anos, e apesar de não estar aqui todos os dias, eu conheço os métodos de Tsunade e conheço vocês o suficiente. E o que reuni ao longo de todos esses anos foi a injustiça feita a vocês. É verdade que como Tsunade falou, vocês não possuem outro lugar no mundo e que ela as salvou. Isso nunca deixará de ser verdade, e vocês provavelmente serão gratas a ela pelo resto de suas vidas. Mas... – Shikamaru fez uma pausa para ter certeza de que todas as Wings prestavam atenção exclusivamente nele – Mesmo não sendo de minha conta, mesmo que eu não tenha esse direito, precisei intervir. E não fui quem convenci Kurenai a fazer isso, foi ela quem veio até a mim pedindo ajuda. Estamos fazendo tudo isso agora para podermos conversar abertamente, algo que vocês nunca puderam fazer aqui. Não tentei fazer nada às escondidas. Reunimos todas vocês, Wings, em um lugar só, junto com sua Mestra, para que possamos entender melhor essa situação, porque eu tenho total certeza de que vocês não estão plenamente felizes aqui. Por favor, manifestem-se. Se tem alguma menina ou mulher aqui plenamente feliz com a Organização, com o que faz, que nunca se arrependeu de ter vindo aqui, por favor, manifeste-se, apoie sua Mestra.
Nenhum braço foi ao ar. Minha respiração estava pesada.
– Como imaginei. E é exatamente por isso que precisávamos dessa conversa. Imagino que Tsunade nunca tenha feito isso com vocês, mas é através dessa conversa que suas vidas serão decididas novamente, então por favor, sejam sinceras consigo mesmas e escutem o que eu tenho a dizer, para que vocês possam fazer uma decisão da qual sabem que não se arrependerão. E agora eu farei a vocês outra pergunta, e vou repetir, respondam com sinceridade. Por enquanto, preocupem-se apenas em responder a verdade, e não com as possibilidades dessa pergunta se concretizar. Ignorem os empecilhos, e respondam da forma mais honesta possível: quem aqui gostaria de passar a vida toda servindo Tsunade como Wing? Quem aqui nunca sonhou em viver em outro lugar, concretizar outro sonho? Por favor, levante a mão quem aqui tem certeza absoluta de que está feliz aqui e nunca trocaria essa vida por nada nesse mundo?
Novamente, nenhum braço se levantou. Ao meu lado, Hinata ameaçava chorar.
– Agora por favor, levantem o braço quem aqui já teve vontade de fazer algo, por menor que seja, mas não pode por causa das restrições desse lugar. Quem aqui já desejou conhecer outro lugar, viver em outro lugar, ter uma outra profissão, constituir uma família, ou ainda simplesmente quem aqui não está contente com o que faz. Quem aqui nunca desejou matar, roubar, mentir, se prostituir. Por favor, levante as mãos quem se encaixa em alguma dessas categorias.
Olhei discretamente para Temari e acenamos as cabeças juntas. Agora era a hora. Lentamente levantei o braço, seguida por Temari, TenTen e Hinata. Sentada algumas cadeiras à minha frente, eu também consegui ver Hime fazer o mesmo. Outras Wings, olhando-nos surpresas, também começaram a se manifestar. Yama, a alegre Wing das correspondências, Ever, a Wing de cabelos vermelhos radiantes, Yohana, a admirável mulher que nunca se deixava abalar pelas dificuldades, e todas as outras ali. Algumas crianças também começaram a levantar as mãos, e eu fiquei feliz quando Meiko Okazaki foi uma delas. Ao lado de Tsunade, Kurenai também levantou sua própria mão, e para minha surpresa, Shizune, sentada na primeira fileira, também. Pelo que eu conseguia contar, todas as Wings haviam levantado a mão. Aquilo ainda era pouca coisa comparado ao nosso objetivo, mas já era um sinal de que as garotas ali não estavam 100% felizes com suas vidas como servas de Tsunade.
– Suas ingratas! – Tsunade explodiu – Eu nunca neguei nada a vocês! Sempre estive aberta a qualquer problema, qualquer preocupação de vocês! Por que não dizem na minha cara o que há de errado com o meu amor, os meus cuidados?!
– Nós já chegaremos nessa parte, Tsunade-sama, mas respondendo sua pergunta: porque diferente de sua resposta, a senhora nunca esteve aberta, sinto muito. Várias e várias garotas aqui tentaram te alcançar, mas você, cega pela posse delas, pela ilusão de tê-las como filhas e como suporte a você, não conseguiu enxergar. – Kurenai falhava com a voz, mas continuava firme em suas palavras.
– Precisamente. – Shikamaru voltou a falar – Tsunade, acredito que você mesma já saiba o que fez de errado muitas vezes, mas vamos começar com o caso mais alarmante desse último ano. Já que você se diz tão aberta a ouvir suas Wings, vamos ouvi-las; todas que quiserem falar em sua defesa e contra você poderão se pronunciar. Se ao final elas realmente concordarem que aqui é o melhor lugar para todas, então irei me retirar e nunca mais irei interferir em suas vidas. Mas antes, vamos dá-las a chance de se manifestar. Então vamos ouvi-las. – e ele se virou para a plateia – Sakura, onde quer que você esteja sentada, poderia se levantar, por favor?
Eu sabia que aquilo viria. Shikamaru queria me usar de exemplo para começar a exibir às outras as falhas na conduta de Tsunade. Agora que eu estava prestes a fazer isso, me sentia estranha. Como se eu fosse tirar um enorme peso do peito, um peso que me acostumei a carregar, e agora que finalmente me veria leve, aquilo me assustou. Mas eu não iria recuar agora.
– Sim. – levantei-me e todos os olhos estavam em mim. Meiko, pude perceber de canto de olho, tinha seus olhos brilhando de antecipação.
– Você fugiu no último ano, mas está aqui agora porque Tsunade te capturou. Devo dizer que ajudei-a nesse feito. Por que não nos conta tudo o que sentiu e ainda sente sobre todo esse episódio. – respirei fundo e comecei a falar honestamente.
– Eu fugi porque não queria mais viver aqui. Sempre mostrei minha gratidão a você, Tsunade-sama, e sempre a amei por ter me ajudado. Mas eu senti que esse não era mais meu lugar, porque eu cresci, Tsunade-sama. Mas eu já sabia que uma das regras era que nunca poderíamos sair daqui. Mas o que eu verdadeiramente queria não estava aqui, estava lá fora. Eu queria voar no céu, e não dentro de uma gaiola. Eu fugi não porque não te amava, Tsunade-sama, mas porque queria minha liberdade. Quando você me achou, eu me lembro do discurso que me fez sobre como nunca somos verdadeiramente livres e sempre estaremos presas a alguém. E eu concordo com você. Mas se for para ser assim, Tsunade-sama, eu quero escolher com quem ficarei presa, eu quero escolher ao quê ou a quem entregarei minha liberdade. A senhora me criou como uma mãe, então deveria saber que uma hora, toda mãe deve deixar o filho partir para trilhar o próprio caminho. Eu nunca me esquecerei de seu apoio e seus ensinamentos, e sempre lembrarei de você como minha salvadora, mas é hora de me deixar ir, Tsunade-sama. É hora de deixar todas aqui irem. Eu não estou feliz aqui. Minha felicidade está lá fora. Por favor, compreenda isso.
Com o olhar mais determinado que consegui, tirei todas essas palavras de dentro de mim, e depois me sentei. Tsunade me olhava como se eu fosse a próxima a perder a cabeça devido a um esquema de traição.
– Você tem algo a dizer sobre isso, Tsunade?
– Rebeldia! Ingratidão! Sempre fiz de tudo para você ser feliz aqui, Sakura!
– Acho que o problema não está no que você fez ou deixou de fazer, Tsunade-sama. – Kurenai interviu – O problema está na essência da natureza humana. Mesmo que você e Sakura vivessem como uma família normal, alguma hora teria que deixa-la ir. As pessoas crescem, e quando isso acontece, elas não podem mais ficar sob as asas dos pais, elas devem voar por si mesmas. O que aconteceu com Sakura e com muitas outras aqui foi apenas natural. O problema maior foi que a senhora tentou ir contra a natureza, e oprimir esses desejos.
Antes que Tsunade pudesse responder, Shikamaru cortou-a.
– Se fosse apenas Sakura com essa reclamação, poderíamos chamar o assunto como encerrado. Mas acontece que há outras mulheres aqui que desejam se manifestar contra seus maus tratos, Tsunade.
E de repente, começou o programa do desabafo. Wings das mais variadas idades, dos mais variados tipos, começaram a se levantar e a tirar os pesos dos próprios peitos. Eu ouvi mulheres declararem que haviam desistido de amores por causa das regras da Organização, que haviam perdido amigas em missões e nunca tiveram o direito de lamentar suas mortes; ouvi de crianças dizendo que estavam com saudades de casa, surpreendentemente ouvi algumas confessando que Tsunade as tinham roubado dos pais; ouvi Wings dizendo como não gostavam de missões de assassinato e mesmo assim eram obrigadas a fazer aquilo cada vez que Tsunade mandava, ouvi Wings psicólogas dizendo que muitas ali nunca conseguiram se recuperar depois de uma dessas missões; ouvi Wings que como Ino, haviam passado por abortos e como essa fora a pior coisa que já tiveram de fazer na vida. Ouvi uma Wing dizendo como tentou e tentou e tentou falar com Tsunade a respeito de seus problemas, somente para a Mestra manda-la “ser forte” e dispensá-la como se seus problemas não fossem nada. Ouvi tantos relatos tristes e desesperados que só me perguntei por que não fizemos isso antes. Ao meu lado, Hinata já chorava. Depois do que pareceu uma eternidade e de metade das Wings ter se pronunciado, o auditório entrou em outro silêncio mortal, quebrado mais uma vez por Shikamaru.
– Eu sei que deve ser difícil ouvir isso, Tsunade, mas infelizmente, não acabou. – a expressão de Tsunade estava perdida. Ela parecia estar em transe, sem saber o que fazer, como se só agora sua ficha estivesse caindo – Várias Wings já se posicionaram e disseram o que sentiam do fundo de seus corações. Mas agora acho que você deve algumas explicações também, não?
Tsunade olhou para Shikamaru como se ele fosse louco.
– Já chega, Shikamaru. – veio sua fraca voz. Mas Shikamaru não iria parar.
– Infelizmente, não posso fazer isso, Tsunade. – ele olhou para a plateia – Por favor, Komori Kou? – ele chamou por Komori, uma das Wings responsáveis pelas comunicações. Komori, uma figura pequena, magra e com longos cabelos negros, levantou-se timidamente – Você se importaria em responder algumas perguntas?
– Não. – a voz dela parecia a de uma criança, mas seu olhar também estava determinado.
– Muito bem. É verdade então que Tsunade lhe deu algumas ordens em relação a como tratar a comunicação das Wings em relação ao mundo de fora?
– Sim, é verdade, Shikamaru-san.
– Quer nos contar melhor sobre isso?
– Tsuande-sama não quer permitir o contato de Wings com ninguém de fora da Base. Ela acha que isso enfraqueceria a mente das garotas, mas sinceramente, eu acho que ela tem medo de ser abandonada. – as Wings arregalaram os olhos frente a essa observação, mas Komori não esperou nenhuma resposta e continuou – Recentemente, ela me pediu para proibir a aprendiz Meiko Okazaki de se comunicar com um contato de Konoha. Ela me fez mentir à menininha dizendo que o tal contato não queria mais vê-la. Para mim, isso foi injusto e cruel, por isso achei que compartilhar isso nessa reunião fosse meu dever.
Eu conseguia ver os olhos de Meiko se arregalarem em seu lugar. A pobrezinha pensava que Sasuke a tinha abandonado, e silenciosamente começou a chorar. Eu sentia que cada vez mais Wings estavam sensíveis a essa causa. Depois de tantas manifestações, de tanto mostrarmos a Tsunade o quanto estávamos sofrendo ali, algo teria que mudar. Nem Meiko nem muitas outras iriam querer continuar aqui. E Komori não parou por aí, ela continuou dizendo o que pensava sobre várias outras ordens de Tsunade. E nada daquilo era mentira, nem distorcido. Tudo aquilo era a mais pura verdade, acumulada durante anos de silêncio, revolta, tristeza e aprisionamento.
E depois de Komori, outras ainda se manifestaram, sem Shikamaru precisar chama-las. Algumas ali nem tinham sido vítimas de abusos de Tsunade, mas resolveram expressar suas opiniões em relação àquilo tudo. Depois de outro longo tempo de confissões e desabafos, o silêncio voltou a se fazer presente.
– Está vendo, Tsunade? Ou ainda quer se manter cega a todos esses problemas? – Shikamaru tentou falar com a Mestra com delicadeza na voz. Tsunade nada disse; pela primeira vez, ela parecia estar encurralada, sem palavras que pudessem ir contra todo aquele mar de acusações. Vendo que ela não riria responder, Shikamaru continuou, dessa vez direcionando-se a todas as Wings – Bem, depois de tudo isso, o que sobra para vocês? Vão querer continuar presas aqui, sofrendo? Ou vão querer fazer algo para mudar a situação?
– Mas o que podemos fazer? – eu ouvi Taki, uma Wing recém-feita, se manifestar – Apesar de tudo isso, Tsunade-sama está certa. Não temos para onde ir. O mundo não nos quer. Aqui é o único lugar onde podemos viver. Se sairmos daqui, para onde iremos?
– E se eu dissesse a vocês que há outra alternativa? – era raro ver Shikamaru levantar o tom de voz em qualquer situação, então se ele começou a fazer isso agora, acredito que realmente acreditava no que estava dizendo – Todas vocês estão vivas e cresceram fortes, guerreiras, batalhadoras, graças à Tsunade. E ninguém nasce com seu lugar no mundo já conquistado. Precisamos trabalhar duro até conseguirmos chegar aonde queremos. E enquanto vocês estiverem vivas, enquanto tiverem essa força de vontade dentro de vocês, que Tsunade as ensinou, vocês podem fazer qualquer coisa, irem a qualquer lugar. Há inúmeras oportunidades de vida para todas vocês, e vocês não precisarão mais viver nas sombras, fazer tudo escondido; não precisarão mais viver sozinhas, viver trancafiadas aqui. Vocês podem ter liberdade para seguirem seus próprios sonhos. Eu sei que todas vocês tem habilidades muito avançadas em vários campos de estudo graças aos ensinamentos de Tsunade; eu sei que aqui há um grande número de psicólogas, médicas, gênias da informática, gênias da matemática, da geografia e da história, gênias da ciência, das comunicações, gênias da investigação. Vocês tem uma bagagem enorme nas costas, conhecimentos além do que uma pessoa normal jamais conseguirá adquirir; e eu sei que vocês são batalhadoras o suficiente para saírem daqui e conseguirem uma vida honesta, uma vida que sempre quiseram, uma vida livre, realizando seus sonhos e desejos a partir desses conhecimentos. Eu sei que vocês podem dominar o mundo. Estão com medo de sair daqui e não ter um lugar para ficar? E o que impede vocês de construírem com suas próprias mãos esse lugar? Eu sei que muitas aqui amam alguém em segredo, querem constituir uma família, querem sair de férias para algum lugar, querem trabalhar honestamente. Vocês ainda são novas, e a vida de vocês apenas começou. Sempre há oportunidades para qualquer coisa que vocês queiram fazer. O mundo não rejeitou vocês, ele está esperando vocês gritarem que estão aqui e conquistarem-no! E a escolha é inteiramente de vocês!
Quando Shikamaru terminou de falar, um grande tumulto começou. Wings começaram a sussurrar, depois a falar mais alto, empolgadas e preocupadas com o futuro.
– Eu concordo com você, detetive. – Hime voltou a falar – Eu concordo em tudo. Mas mesmo com toda a nossa força de vontade, não será tão fácil assim. E todos os crimes que já cometemos? A sociedade irá nos perdoar? E as crianças que estão aqui e não possuem outra família? E nossa Mestra, Tsunade? Eu sei que mesmo com todos esses erros, ela nunca teve más intenções. Vamos abandoná-la aqui sozinha depois de tudo o que ela fez por nós? Mesmo que todas nós aqui saibamos o quão dolorosa é a solidão?
– Seus crimes serão perdoados, Hime. Eu tenho parceria com a Central de Inteligência, acredito que todas aqui saibam do que se trata. – o olhar de surpresa das Wings indicava que elas sabiam – Como vocês foram obrigadas a cometer todos esses crimes, serão perdoadas desde que vivam uma vida honesta a partir de agora. Para isso, sinto dizer que serão monitoradas por um curto período de tempo pela Central, mas nada que interfira em sua liberdade de ir e vir ou de realizar seus sonhos. A sociedade irá aceita-las por quem vocês são: mulheres fortes e sinceras. Quanto às crianças, esse assunto requer uma conversa mais elaborada e com mais calma, mas a Central também se dispõe a fazer todo o possível para ajuda-las a encontrar um lar. Quanto à Mestra de vocês... – Shikamaru virou-se para Tsunade – Há algo mais que você queira dizer, Tsunade?
– Você não tem esse direito! – depois do que pareceu um longo tempo, Tsunade finalmente se pronunciou – Não tem o direito de tirar minhas filhas de mim, manipulá-las a me abandonar! Eu sei que as tratei bem, sei que elas gostam de viver aqui! Ele está enganando vocês! – ela gritava para todas nós, mas quanto mais ela falava, mais as Wings conseguiam perceber sua máscara caindo – Ele só quer abandoná-las novamente no mundo! E eu, a mãe de vocês, sempre aqui, sempre presente, vocês pretendem abandonar? Tudo o que eu fiz foi por amor!
– Ninguém duvida disso, Tsunade-sama. – Kurenai falou com o tom de voz calmo – Mas seu amor já virou obsessão. Não sei em detalhes pelo que você passou, mas tenho certeza de que já sabe qual é a sensação da solidão. É por isso que resolveu reunir todas nós, não? Você queria nos salvar para que tivéssemos uma vida decente, para que o mesmo que aconteceu com você não se repetisse conosco, estou certa disso. Mas seu medo do abandono cegou suas atitudes. Você nos amou tanto que o amor acabou virando algo sufocante. Nunca nos esqueceremos de seu apoio, mas está na hora de nos deixar ir. Não iremos abandoná-la, porque a senhora não está mais sozinha. Orgulhe-se de todas as meninas que salvou, de todas que ensinou, orgulhe-se de suas boas ações, e agora deixe essas meninas livres para que elas possam usufruir de seus ensinamentos.
– Deixá-las livres para voltar a ficar sozinha? Nunca! Elas só sairão daqui por cima do meu cadáver! – e então, a Mestra assumiu uma posição de luta, o que fez todas ali se assustarem. Isso estava nos planos como uma possibilidade, mas Shikamaru queria evitar conflitos.
– Tsunade, acalme-se. – Shikamaru tentou racionalizar.
– Não! Shikamaru, eu tentei dar-lhe uma chance para ir embora, mas você insistiu em tirar de mim tudo o que eu conquistei! As Wings são minhas, eu não as deixarei partir! Com quem você acha que está lidando? Minha Organização é poderosíssima, temos o apoio do Senhor Feudal, temos vários clientes importantes ao redor das Cinco Grandes Nações. Por que eu desistiria de tudo agora? Acha que essa sua ladainha foi suficiente para me assustar? E vocês aí! – ela se direcionou às Wings – Se não fizerem como eu ordenar, terão o pior castigo imaginável, entenderam? Eu salvei vocês, vocês me devem suas vidas! Obedeçam-me!
As Wings começaram a se entreolhar. Se ainda havia alguma com dúvidas em relação a abandonar a Organização, essa dúvida estava lentamente se dissipando. Com essa atitude de Tsunade, todas estavam conseguindo ver as rachaduras de sua personalidade, o caminho cruel que seu amor tomou. E como havíamos sido ensinadas a sermos independentes, fortes e lutarmos por nossas vidas, nenhuma de nós abaixou a cabeça naquela hora. Nenhuma de nós seguiu sua ordem.
– Tsunade, parece que as garotas já decidiram o que querem para o futuro. Você não tem o direito de interferir. – Shikamaru ainda tentava usar razão para falar com a Mestra, mas com sua máscara agora completamente partida, Tsunade não se importava mais com a razão.
– O que estão esperando? Ataquem-no! – ignorando Shikamaru, ela gritava ordens às Wings, mas ninguém ali se mexeu.
– Tsunade-sama, por favor, tenha calma. – Kurenai tentava intervir.
– Kurenai, não vire as costas para mim ou irá se arrepender!
– Tsunade, aconselho a parar com as ameaças e estou falando sério, ou serei obrigado a chamar reforços.
– Reforços? – Tsunade começou a gargalhar insanamente – Está me subestimando tanto assim para achar que eu acreditaria nessa mentira? Esse território é meu, Shikamaru! Apenas eu controlo quem entra e quem sai!
– Tsunade, abaixe sua guarda. – Kurenai nem mais se preocupava em usar o “-sama”.
Vendo que a situação estava tensa, fiz menção de me mover e me colocar na frente de Shikamaru também, mas Kurenai me impediu.
– Não, Sakura! Fique aí com as outras. Leve-as para o Auditório 2 no prédio ao lado e discuta com elas sobre como elas devem fazer suas mudanças. Eu e Shizune cuidaremos do resto. Não precisamos que ninguém mais se machuque.
– Não está ousando me desafiar, está, Kurenai? – Tsunade tinha um sorriso sinistro enquanto falava aquilo – Afinal, eu sou sua Mestra. Tudo o que você sabe fazer, eu também sei, e de olhos fechados! – Shizune se colocou ao lado de Kurenai.
– Tsunade-sama, por favor, não torne isso difícil! Não queremos brigas!
– Então não deveriam ter me desafiado! Acha que não tenho coragem de eliminar filhas rebeldes?
– Tenho certeza de que a senhora tem coragem – Kurenai focava-se na Mestra – Estava querendo usar Sakura e Meiko para atrair Ino e Gaara.
Certo, aquilo foi completamente novo para mim.
– O que?? – manifestei-me, dando passos para frente. Eu não sabia do que elas estavam falando, mas não gostei como a palavra “usar” foi dita.
– Ah, isso mesmo. Sou capaz de tudo para o que considero o bem maior.
– O que isso significa, Kurenai?
– Sakura, acompanhe as outras garotas até o Auditório 2!
– Vamos, Sakura! – eu ouvia TenTen me chamando, mas a ignorava.
– Não antes de me explicar do que isso se trata! Estava tentando usar a mim e uma criança em seus esquemas sujos? – eu sentia a raiva explodindo dentro de mim. Se Tsunade achava que estávamos lá para ela nos usar como bem entendesse, estava muito enganada.
– Sakura, vamos!
– Eu fico. – TenTen arregalou os olhos – Afinal, eu sou uma das melhores Wings aqui. Vamos proteger vocês da Mestra.
E dizendo isso, avancei para onde Kurenai e Shizune estavam, enquanto via do canto do olho Shikamaru se comunicando com alguém por um radinho barato.
– Três filhas rebeldes, não? – Tsunade realmente parecia uma leoa prestes a atacar – Vamos ver quem irá sobreviver.
– Ninguém vai morrer, Tsunade-sama – como Shizune conseguia manter a calma em uma situação dessas?
– Vão se arrepender por ter me desafiado, por quererem me abandonar! – era impressão minha ou lágrimas estavam caindo pelas bochechas de Tsunade?
Não sei realmente, porque no instante em que terminou de falar, ela avançou.
E começamos a luta.
Gloria, where are you Gloria?
Don't lose your faith to your lost naiveté
Weather the storm and don't look back on last November
When your banners were burning down
Gloria, viva la Gloria!
Send me your amnesty down to the broken hearted
Bring us the season that we always will remember
Don't let the bonfires go out
Gloria, onde você está, Gloria?
Não perca sua fé para sua perdida ingenuidade
Encare a tempestade e não olhe para novembro passado
Quando seus cartazes pegavam fogo
Gloria, viva a Gloria!
Mande-me sua anistia aos de coração partido
Traga-nos a estação da qual sempre nos lembraremos
Não deixe as fogueiras se apagarem
Green Day – Viva la Gloria!
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