Broken Wing - Aprendendo A Voar
50 Capítulo 50 - Desilusão
Notas iniciais
Naquele momento, sentiu sua liberdade muito próxima de si. E junto com essa liberdade, também sentiu Sasuke ali perto, incentivando-a a lutar por seus ideais. E só aquilo era suficiente para lhe dar a coragem e determinação necessárias. Agora ela começaria a dar os primeiros passos em direção a uma vida plena, em direção à luz no fim do túnel. E sabia que Sasuke estaria lá, esperando-a. Só aquilo já era o suficiente.
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Narração em terceira pessoa
Depois daquela conversa com Shikamaru, Sakura se sentiu revigorada e preocupada ao mesmo tempo. Revigorada porque agora ela tinha por onde começar esse plano maluco de fugir mais uma vez. Preocupada porque sentia que mesmo com os ventos a seu favor, contrariar Tsunade não seria fácil. Ela ainda possuía grande poder e a habilidade, e tinha muito mais experiência do que qualquer uma dali. Se ela sentisse que a ameaça de Shikamaru fosse perigosa, não hesitaria em eliminá-lo. E a rosada odiava admitir, mas se ela resolvesse mata-lo, nenhuma das Wings conseguiria impedi-la. Tal era a força dela.
Mas agora não poderia mais recuar, e não queria isso. Mesmo tudo tendo acontecido de forma frenética e de repente, daria todo o apoio a Shikamaru e lutaria pela sua liberdade e de todas que estavam ali.
Já haviam se passado dois dias desde sua conversa com o detetive, e Tsunade ainda não voltara de sua viagem de negócios. Sakura sentia que ela não iria demorar muito mais, e por isso precisava falar com suas amigas sobre o plano. Shikamaru pediu a ela que ainda não tornasse esse plano público às outras: isso poderia causar mal entendidos e brigas fora de hora. O próprio Shikamaru assumira a responsabilidade de alertar todas as Wings e Tsunade sobre a necessidade do término das atividades dessa Organização. Pensando nisso, Sakura não conseguia deixar de ficar nervosa. Muita coisa poderia dar errado, então ela pelo menos precisava contar isso às suas amigas mais íntimas.
Sakura ainda havia combinado com Shikamaru sobre conduzirem o plano de forma pacífica, pois apesar de todas as coisas erradas, no fundo Tsunade nunca teve más intenções. Shikamaru pareceu concordar com a rosada, dizendo que esse também era seu objetivo desde o início. Ele não gostava de ter de lidar com problemas barulhentos.
Andando por um dos pátios de treinamento das Wings aprendizes, Sakura notou muitas delas se esforçando incrivelmente. Algumas exibiam feios machucados e hematomas de tanto treinar, mas estavam determinadas a melhorar seu desempenho. Será que elas estavam felizes com a vida que levavam aqui? E se estivessem, Sakura então iria roubar a felicidade delas? Não, não podia pensar assim. Ela não forçaria as meninas a abandonarem Tsunade, mas ofereceria a elas a chance de uma nova vida, uma vida melhor. Elas mesmas iriam perceber que a rosada estava certa e seguiriam seu exemplo. Não foi isso o que Shikamaru lhe disse? Mas Shikamaru era bom com as palavras; apesar de ter preguiça de dizê-las, sua retórica era ótima, ele conseguia persuadir as pessoas de forma fácil, ele parecia saber as palavras certas a se dizer em todas as situações. Sakura não era assim. Ela tinha um jeito rude, bruto de fazer e dizer as coisas. Tinha o temperamento curto, não gostava de ser contrariada, se utilizava muito mais do sarcasmo do que gostaria, e perdia a paciência com extrema facilidade. Além disso, não era boa em dar discursos, não conseguia encontrar palavras motivadoras e positivas para conversar com aquelas meninas. Além disso, ela naturalmente não se dava bem com crianças. Elas a lembravam muito de seu solitário passado, mais uma prova de que aquele não era e nunca fora seu lugar.
Depois de ter crescido, não tivera muito contato com as Wings mais novas dali. Não queria encarar o sofrimento delas, pois elas a lembravam de seu próprio. As Wings mais novas não a viam como exemplo, pois ela se fechara a elas. E agora que teria de convencer todas ali a abandonarem essa vida, não sabia como escolheria as palavras certas.
Chegando ao fim do pátio, prestes a entrar em um dos prédios da Organização, Sakura reconheceu uma pessoa sentada em um dos bancos próximo à porta. A única criança com quem ela já tivera um contato real ali. Meiko Okazaki, a Gata. Ela estava sentada de cabeça baixa, balançando as curtas pernas que ainda não alcançavam o chão. No banco ao seu lado, estavam algumas kunais. Ver a menininha ali a fez se lembrar de Sasuke, e de como o moreno praticamente implorou à Tsunade que não a levasse para a Organização. Tsunade fizera Sakura convencer o moreno, e naquele momento essa talvez realmente tivesse parecido a melhor escolha. Viver em um orfanato ou aprender a lutar com espadas? Estava claro para a Gata qual opção parecia mais tentadora. Sentiu pena da menininha, e culpada por ter manipulado Sasuke, por tê-la trazido até ali só para agora fazê-la voltar a viver em um orfanato. Tentou se aproximar da menina, talvez na esperança de conseguir trocar algumas palavras. Mas não sabia o que dizer. Antes que pudesse pensar em algo, a pequena levantou o rosto, olhando diretamente para Sakura, assustada, mas quando viu que se tratava da rosada, seu olhar relaxou. Seus olhos verdes estavam inchados, uma clara evidência de que ela estivera chorando.
– Sakura! – ela se lembrava do nome da rosada. Sakura acenou com a cabeça, se aproximando de forma relutante.
– Está treinando com kunais hoje? – tentou parecer amigável. A Gata sabia que Sakura não gostava muito de crianças.
– Estava. – o olhar dela ainda estava triste. Ela parecia prestes a chorar novamente – Mas parei agora.
– Ino uma vez me disse que você era muito boa com as kunais. – querendo apenas puxar assunto, mesmo sem entender por que, Sakura tentou incentivar a menininha, mas aquela fora a coisa errada a se dizer.
– Ino não está mais aqui. – havia muita tristeza na voz dela – Ela fugiu e me deixou aqui sozinha. Por que ela fugiu, Sakura? – agora ela realmente estava chorando.
– Ela só percebeu que seria mais feliz em outro lugar... com outra pessoa. – Sakura tentou amenizar a situação, mas era realmente péssima nisso. – Tenho certeza de que ela sempre vai se lembrar de você.
– Mas ela foi embora!
– Ei, ei... – a rosada não sabia como acalmar a criança – Ino está bem, ela vai ser feliz agora. Você tem outras amigas aqui, não tem?
– Mas não é a mesma coisa! – Sakura sabia que a menininha confiava muito em Ino, e agora ela deveria estar se sentindo traída.
– Não precisa ficar com raiva. Ino não fez por mal.
– Não estou com raiva da tia Ino. – de fato, ela parecia muito mais triste do que brava – Mas todo mundo foi embora. Meu papai, minha mamãe, minha irmãzinha, até o Sasuke... e agora a Ino. Todo mundo foi embora e me deixou sozinha... – era evidente que ela estava tentando lutar contra as lágrimas, mas sem sucesso.
– Ei, não pensei assim... – Sakura, sua idiota bruta, nem consegue consolar a menina direito! – Eles não te abandonaram, você sempre viverá no coração ou... nos espíritos deles. E Sasuke não te abandonou. Você ainda pode ligar para ele. – ela balançou a cabeça violentamente.
– Não. Ele não quer falar comigo. – agora ela começou a chorar ainda mais. Sakura franziu a testa, confusa.
– Como assim? É óbvio que ele quer falar com você. Ele gosta muito de você. – Gata continuou balançando fortemente a cabeça de um lado para o outro.
– Não, ele não quer falar comigo, ele não gosta mais de mim. – Sakura não conseguia esconder seu olhar de confusão, o que a menininha dizia não fazia sentido.
– De onde você tirou isso? Aquele idiota quase morreu tentando te salvar. – certo, a rosada se arrependeu de ter dito aquilo de forma tão rude, mas ela estava genuinamente confusa com a declaração da Gata.
– Ele não quer mais falar comigo! Disse que não tem tempo pra falar comigo no telefone, disse que eu atrapalho ele! Ele não gosta mais de mim! – Gata disse tudo isso de uma vez, quase gritando, com mais lágrimas encharcando suas bochechas.
– Tá, tá, calma... – ela continuava chorando, e Sakura não sabia o que fazer. Isso não fazia sentido – Olha, vamos fazer assim... vai para o seu quarto descansar por enquanto, tá? Eu vou falar com o Sasuke para você. – tentou tranquilizar a menina, mas ela parecia não querer ajuda.
– Não! Não quero mais atrapalhar o Sasuke... ele quase morreu por minha culpa... por isso não deve mais gostar de mim... não quero deixar ele bravo... – ela mesma limpava o rostinho molhado. Sakura não estava gostando nada daquilo.
– Tudo bem, mas não precisa chorar. Por que não vai para o seu quarto descansar um pouquinho? Vou pedir para Shizune levar um pedaço de bolo para você, tudo bem? Assim você vai melhorar.
Gata acenou timidamente com a cabeça.
– Eu quero de baunilha.
Assim que Gata saiu do pátio e tomou o caminho dos dormitórios, Sakura andou o mais depressa que pode até a Sala de Comunicações. Tinha algo errado ali. Sabia o quanto Sasuke se preocupava com a criança, então nada do que Meiko dissera fazia sentido. Mas por que a menininha mentiria? Por isso resolveu tirar essa história a limpo com o próprio moreno. Sabia que a uma hora dessas ele deveria estar trabalhando, mas sua curiosidade venceu. Escolheu uma das cabines e discou seu número. Ninguém atendeu. Ligou de novo e novamente sem resposta. Depois de cinco minutos tentando, uma voz irritada atendeu:
– Quem quer que seja, é bom ser importante. – Sasuke parecia estar de péssimo humor.
– Sou eu e é importante. – Sakura não se intimidou pelo tom de voz do moreno, e sabia que ele a reconheceria.
– Sakura? – por algum motivo, ela achou extremamente engraçado o fato de toda a irritação da voz dele ter desaparecido quando percebeu que era ela – Não sabia que era você, estava em uma reunião e...
– Deixe as desculpas para depois. – Sakura o cortou, mas não de um jeito rude – Preciso que você me esclareça uma coisa.
– Se for sobre Ino...
– Não! – Sakura o cortou. Não queria mais tocar nesse assunto. Ino estava longe, e agora não era o momento para sentir saudades – É sobre... Meiko Okazaki.
– Aconteceu alguma coisa com ela? – de imediato, Sakura notou a preocupação na voz dele.
– Ela simplesmente disse com muita firmeza que você não gostava mais dela e que não queria mais conversar com ela. – fez-se um silêncio do outro lado da linha.
– O que? – quando Sasuke finalmente respondeu, sua voz estava um tanto confusa – Ela disse que eu disse isso?
– Sim, e ela estava chorando muito, então resolvi esclarecer essa história.
– Eu não sei de onde ela tirou isso. Na verdade, estou tentando falar com ela há dias e não estou conseguindo! – certo, tinha algo muito errado em toda essa história.
– Segundo ela, você a acha um incômodo.
– Sakura, isso é alguma brincadeira de mau gosto?
– Não. – respondeu honestamente – Estou te ligando justamente para tentar esclarecer essa história. Eu sei que você se preocupa com ela, mas ela não teria motivos para mentir.
– Tudo o que eu sei é que todos os dias tento ligar aí e pedir para conversar com ela, mas nunca consigo. Da última vez, me disseram que ela estava fora em uma viagem. – certo, isso realmente estava muito estranho.
Havia Wings especificamente designadas para receber telefonemas. Toda vez que um cliente ligava, elas contatavam Tsunade e esta escolheria permitir o término da ligação ou não. Então aquela falta de comunicação era resultado de alguém não querendo que Sasuke e Gata entrassem em contato.
– Eu ligo para você depois. – Sakura disse abruptamente. Não era com o moreno que teria que esclarecer essa história, mas com outras pessoas.
– Ei, Sakura, espere! Me explique o que aconteceu! A Gata está bem?
– Depois, Sasuke. Volte para sua reunião. – ignorando os pedidos do moreno, Sakura desligou o telefone.
Saindo da cabine, foi em direção a uma antessala próxima ao local, onde as Wings responsáveis por receber ligações ficavam. Encontrou Komori fazendo seu turno naquele horário.
– Sakura-san, como vai? – ela tinha 18 anos, era baixa e tinha os cabelos tão negros quanto os de Sasuke.
– Komori-chan, preciso que me esclareça uma coisa. – sem rodeios, Sakura explicou a situação de forma sucinta – Tsunade emitiu alguma ordem sobre Meiko Okazaki receber ligações? – Komori olhou-a de forma triste antes de responder.
– Ah, sim. Tsunade-sama ordenou às Wings responsáveis pela transferência das ligações a não permitir que ninguém de fora se comunique com Meiko Okazaki.
– E por que isso? – naquele momento, Sakura sentia uma imensa raiva.
– Tsunade-sama disse que não quer deixar Meiko apegada demais a seus conhecidos de fora.
– Por acaso ela explicou isso à menina? – Sakura cruzou os braços para impedi-los de socar a parede.
– Não, eu só sei que quando Meiko pediu à nossa Mestra para deixa-la fazer uma ligação, Tsunade-sama respondeu que o cliente não queria falar com ela. Fiquei com muito dó, ela parecia tão sozinha... mas não sei ao certo por que Tsunade fez isso.
– Obrigada, Komori-chan.
Saindo da Sala de Comunicações, Sakura foi até seu quarto, fumegante. Aquilo não estava certo. Meiko ainda era muito nova para fazer ligações por conta própria, então ela dependia de Tsunade para autorizar as ligações. E por algum motivo, Tsunade estava cortando o direito de Meiko de se comunicar com Sasuke e vice-versa. Por que ela estava fazendo aquilo? Quem essa mulher pensava que era para enganar os dois e não permitir que eles se falassem? Fora Sasuke quem salvara a garotinha, e Tsunade o prometeu de que cuidaria bem dela e que permitira a comunicação entre eles. Então por que agora ela estava contando mentiras sujas à Meiko, dizendo que o moreno não queria vê-la, mesmo sabendo todo o sofrimento pelo qual a menininha já havia passado? Para Sakura, aquilo era muito cruel.
Tsunade queria cortar as ligações de Meiko com o mundo exterior. Queria de fato prendê-la ali consigo. Claro, ela não queria suportar o pensamento de que Gata poderia um dia abandonar a Organização por conta de fatores externos (como Ino fizera), e por isso estava fazendo com que a criança se afastasse de Sasuke, pegasse raiva dele até que eles realmente parassem de se falar por completo. Assim, não haveria ninguém em seu caminho e a criança seria toda dela. Sakura não conseguia acreditar naquilo. Só agora estava ficando clara a obsessão de Tsunade por essa Organização. As meninas que ela trazia até ali realmente perdiam sua liberdade. Tsunade fazia questão de prendê-las e nunca mais deixa-las sair. Cortava todos os contatos delas com o mundo exterior, obrigando-as passivamente a servi-la. Sakura sentiu raiva. E nojo. Tsunade manipulara Meiko a vir com ela somente para depois fazê-la prisioneira, impedindo-a de conversar com uma das únicas pessoas importantes que restara em sua vida.
Talvez ela tivesse medo de Gata abandoná-la, como Sakura já havia feito e Ino recentemente fizera, junto com outras três mulheres. O medo de Tsunade de ser abandonada realmente era tão grande assim? Ela realmente temia tanto ser abandonada por suas meninas que chegava a mentir para elas, fazendo-as se sentir abandonadas e sozinhas, como se a única esperança estivesse na Mestra? Que coisa horrível de se fazer. Que coisa cruel para com Meiko. A menininha tinha o direito de se manter em contato com Sasuke, afinal fora ele quem a salvara! Ele era uma das poucas pessoas em quem ela confiava, e Tsunade estava destruindo isso por causa de seu orgulho, para impedir que o laço entre Meiko e Sasuke se fortalecesse, para eliminar a competição pelo afeto da criança.
Sakura sentiu-se tão revoltada que desistiu de voltar ao seu quarto. Ao invés disso, depois de dizer a Shizune para levar bolo de baunilha a Meiko, saiu à procura de Shikamaru. Sentiu que ele poderia dizer algo sobre isso. Depois de encontra-lo meditando em baixo de uma árvore dentro dos terrenos da Organização, explicou rapidamente a situação, e ele ficou pensativo por vários minutos.
– Hm... então as rachaduras estão mais transparentes do que eu esperava.
– Como assim? – Sakura estava com tanta raiva que não estava paciente para ouvir as divagações do detetive.
– Essa atitude de Tsunade somente mostra como ela está desesperada pelo afeto das Wings. Ela está tomando decisões polêmicas, e as garotas estão começando a perceber. Tenho certeza de que Komori não concorda com esse método de Tsunade. – de fato, a Wing parecia lamentar o fato de Tsunade ter mentido à Meiko. – E se essa Meiko Okazaki descobrir que Tsunade mentiu a ela e essa verdade se espalhar para as outras, isso não vai pegar bem para a imagem da Mestra.
– Está pensando em usar esse caso a nosso favor?
– Sim. Esse é um bom exemplo para mostrar às Wings que elas estão sendo privadas de vários direitos seus. Esse não é o único caso desse tipo aqui; estive conversando com outras Wings e várias delas me disseram sobe decisões incorretas que Tsunade tomou a respeito delas; estou juntando todos esses casos para ter argumentos na hora de expor a todas sobre o fim dessa Organização. Aparentemente, Tsunade tem tratado várias mulheres daqui com descaso. Podemos usar isso a nosso favor.
– Isso é tão revoltante! Se não fosse por Sasuke, a menininha nem estaria aqui! – Sakura desabafou. Não costumava fazer isso, principalmente com quem não tinha intimidade, mas ainda estava com muita raiva por aquela atitude de Tsunade. Shikamaru sorriu um sorriso estranho.
– Desculpe me intrometer em sua vida pessoal, mas você e Sasuke Uchiha tomaram um rumo interessante depois de se conhecerem, não? – Sakura sentiu suas bochechas corarem violentamente.
– O que está insinuando?
– Nada, nada. Mas ele é um dos motivos de você querer sair daqui, não? – ainda sentindo o rosto queimar, Sakura gaguejou antes de tentar mudar de assunto.
– E-então... tudo certo para o plano? – desviou o olhar do detetive enquanto ele respondia.
– Sim. Tsunade deve chegar daqui a dois dias. Não daremos a ela tempo de continuar a investigação de Ino. Vamos juntar todas as Wings no Grande Salão. Trarei Naruto aqui também e iremos confrontar Tsunade, expondo suas más escolhas. Já tenho casos suficientes de Wings com reclamações da Mestra e que não estão felizes aqui. E vou depender de você também, Sakura. Como já disse, eu não tenho influência suficiente para convencer todas as Wings a abandonarem essa Organização. Mas você tem. Consiga liberdade para todas vocês.
– Eu vou conseguir! – Sakura respondeu como se aquele fosse um desafio, e ela estava mais do que determinada a cumpri-lo.
Vendo algumas Wings se aproximarem de onde estavam, a rosada fez uma curta reverência a Shikamaru e se afastou do local, agora pensando consigo mesma sobre toda essa situação. Se Tsunade realmente estava tratando as Wings daquela forma, então é provável que seja mais fácil convencer as outras de que o lugar delas não era aqui, presas e dependentes da boa vontade de Tsunade. Sakura conseguia sentir sua liberdade quase palpável. Só mais dois dias e Tsunade voltaria. Esse provavelmente seria o dia mais importante de sua vida. O dia em que finalmente poderia abrir suas asas e voar.
Não percebeu que um sorriso havia se formado em seu rosto. Pensar que finalmente seria livre, e dessa vez não como fugitiva, mas de verdade. Não precisaria mais fugir, nem se preocupar em ser pega. Poderia ser feliz, viver sua vida plenamente, voar a quaisquer céus que quisesse, pousar em quaisquer árvores que quisesse pousar, cantar qualquer música que quisesse cantar. E estaria livre para vê-lo sem culpa, sem ser às escondidas, sem se preocupar com a natureza do relacionamento entre eles. Seria livre para estar com Sasuke.
Pensar nele só fez seu sorriso aumentar, e ela mordeu o lábio em antecipação. Queria vê-lo novamente. Ah é, fiquei de ligar de volta. Pensando assim, dirigiu-se novamente à Sala de Comunicações, notando que Komori continuava em seu turno. Não trocaram palavras, e a rosada foi direto a uma das cabines à prova de som, discando o número do moreno.
– Alô?
– Eu disse que ligaria. – ainda estava sorrindo, mas não tentou parar.
– Sakura! Não faça mais aquilo comigo! – ele ainda parecia de mau humor.
– Calminha, não fiz de propósito. Mas agora apodemos conversar com mais calma.
– Sim, é melhor me explicar direito o que aconteceu. O que aquela velha peituda aprontou com Meiko? Se ela não estiver bem...
– Calma, Sasuke. Meiko está bem. – certo, não era totalmente verdade, mas Sakura sabia que Sasuke surtaria se realmente soubesse a verdade, e no momento não queria aquilo – O que aconteceu foi apenas um mal entendido, desculpe por te causar preocupação.
– Sabe, Sakura... depois de tanto tempo em contato com você, consigo dizer exatamente quando você está mentindo... tipo agora. – merda, ele não iria deixar isso passar – Fale a verdade. O que aconteceu com Meiko? Por que não consigo falar com ela e por que ela acha que eu a estou rejeitando? – Sakura deu um longo suspiro, pensando no melhor jeito de lidar com um Sasuke irritado.
– Como eu disse, foi um mal entendido, mas já estamos consertando isso, logo você poderá falar com a menininha...
– Sakura. – a voz dele estava fria e sem humor nenhum. Fez um arrepio percorrer a espinha da rosada. Ela estava arriscando despertar a fúria do moreno – Pare de me fazer de idiota e me diga o que aconteceu. – é, ele estava bravo.
Sakura suspirou novamente, não querendo ter uma briga estúpida por telefone e não querendo fazê-lo se preocupar ainda mais. No fim, optou por omitir a maior parte da história.
– Não estavam deixando Meiko se comunicar com você por causa de algumas... regras daqui que não me convém te explicar agora. Mas ela está bem...
– Que regras? – o moreno a cortou rispidamente – Quem não estava deixando ela se comunicar comigo? Isso é coisa de Tsunade? Onde Meiko está?
Sakura começou a sentir uma aguda dor de cabeça invadindo-a. Ah, como havia se metido nisso? Agora Sasuke estava completamente irritado e não a deixaria em paz. E ela não poderia se dar ao luxo de distrações. Os próximos dias seriam decisivos para o resto de sua vida. Precisava se concentrar, precisava estar com a mente limpa, livre e forte.
– Sasuke! – o tom de voz quando chamou o moreno o fez se calar por um instante – Desculpe, mas vai ter que acreditar somente nessas palavras por enquanto.
– O que? Não brinque comigo, Sakura, me deixe falar com Meiko agora! – mandão como sempre.
– Não posso! Eu gostaria, mas por enquanto não será possível. – Komori ainda estava com ordens de não deixar Meiko se comunicar com ninguém de fora, e não queria obrigar a Wing a desobedecer a Mestra. Sabia que Komori não concordava com essa regra, mas não poderia arriscar obriga-la a desobedecer e ser punida, pois precisava do apoio dela para o plano de Shikamaru.
– Por que não será possível? Você está muito estranha hoje, Sakura, não gosto disso. – a rosada suspirou alto, cansadamente, para que o moreno escutasse sua impaciência do outro lado da linha.
– Não poderia confiar em mim só mais essa vez, Sasuke? – a delicadeza com a qual ela disse essas palavras despertou algo no moreno. Ele sentiu que por algum motivo, ela estava preocupada, com receio – Meiko está bem. Contente-se com isso por enquanto, tá?
– Sakura... você está bem?
– Talvez. Não sei. – do outro lado da linha, ele se confundiu com a indecisão dela.
– Não sabe?
– Estou bem, Sasuke. – no fim, ela optou por uma meia verdade. Não fazia sentido discutir com ele agora – Logo poderemos nos ver, certo?
– Sério? – a voz dele tornou-se esperançosa. Sakura sorriu, sentindo-se querida por aquela ansiedade saudável. Sasuke queria vê-la. Aquela sensação era boa.
– Sim. Em breve. Espere por mim, ok?
– Vou esperar. Mas... – ele hesitou um segundo antes de continuar – Quero que você me conte tudo.
– Tudo bem. Preciso ir agora. Até breve, Sasuke.
– Cuide-se, Sakura. E cuide de Meiko.
Antes de desligar, ela ouviu as últimas palavras dele. Desde quando ele fora tão gentil assim? Depois de finalmente admitir a si mesma seus sentimentos, tudo parecia ter ficado mais fácil em relação ao mundo. Os dias pareciam mais azuis, mesmo com o frio se aproximando; os passarinhos cantavam mais alegremente, e as borboletas em seu estômago voavam sem rumo nem direção cada vez que ela se lembrava dele. O sorriso dele, a voz, os toques, o olhar... aqueles olhos negros inundados de fúria, paixão, desconfiança e confiança, desejo, gentileza; aqueles olhos que tinham sobre ela o mesmo efeito de uma droga psicotrópica, que a viciavam, faziam-na se perder naquele mar escuro, afogavam-na e ela não tinha a quem pedir socorro. Afogar-se naqueles olhos era desesperador, e mesmo assim ela não conseguia não olhar para eles. E se um dia Sasuke viesse a ser a causa da sua morte, então ela não se importaria em morrer afogada em seu olhar embriagante.
E se ela estava tendo esse tipo de pensamento agora, então talvez não houvesse mais volta. Já estava presa a ele. Mas essa prisão era diferente da prisão de Tsunade. Das Wings, ela queria se libertar. Em Sasuke, ela queria se apoiar. O moreno também deveria sentir o mesmo por ela. Ele também deveria estar querendo fugir de algo, talvez das imposições da família, e Sakura era seu apoio. Talvez os dois estivessem tentando escapar de suas algemas e se prender um ao outro. E se isso fosse para o melhor, talvez só o tempo pudesse dizer. Por enquanto, ela só queria a liberdade para vê-lo, a liberdade para se prender a ele. Naquele momento, isso já parecia o suficiente.
****
A noite estava fria, e o outono estava cada vez mais com cara de inverno. Ao ar livre, ventos faziam árvores balançar, e pequenos animais se escondiam em buracos no chão ou pequenas cavernas. Na Base das Wings, tudo corria normalmente. Exceto no quarto de Sakura, onde havia uma movimentação de mulheres ansiosas demais para ficarem paradas, que nem conseguiam sentir o frio da noite.
– Tem certeza disso? – Temari andava de um lado para o outro, pensativa.
– Me parece uma boa forma de se lidar com isso. Se Tsunade não concordar, é só partirmos para a luta! – TenTen se manifestou, empunhando sua espada. Sakura contara a elas sobre a conversa que tivera com Shikamaru.
– Seria melhor conversarmos com outras Wings, para aumentar a conspiração. – Temari ainda andava pelo quarto.
– Shikamaru já está fazendo isso. Ele me disse que conseguiu relatos de várias das nossas como testemunhos da má conduta de Tsunade.
– Mas acham que somente isso será suficiente? – Hinata falou também – Afinal, são tantas mulheres aqui. Não sei se elas vão encarar isso de forma agradável.
– Também acho que esse plano está muito simples. Shikamaru é um gênio, ele poderia ter pensado em coisa melhor! – os olhos de Temari mostravam impaciência.
– Temos que ter cuidado ao lidar com Tsunade, e Shikamaru sabe disso. – Sakura tentou acalmá-la – Ele também sabe que não será fácil, e poderemos não ter muito progresso na primeira vez. Mas não se convence uma multidão de uma vez só.
– E se não conseguirmos na primeira vez? – Hinata soava preocupada.
– No pior dos casos, estou pronta pra lutar! – TenTen fazia movimentos com a espada.
– Acho que não chegaremos a tanto. Mas os próximos dias serão bem complicados. – Sakura se preparava mentalmente para a tempestade de consequências que viriam ao enfrentar Tsunade – É mesmo, Hina, Shikamaru me disse que um tal de Naruto vai ajudar. – Hinata arregalou os olhos e seu rosto ficou todo vermelho.
– N-naruto?!
– Hm, eu já ouvi falar, já ouvi falar! – TenTen abaixou a espada e sentou na cama ao lado de Hinata.
– Sim, é um detetive da Central de Inteligência. – Temari e TenTen pareciam surpresas – Shikamaru tem um tipo de parceria com ele, e Naruto será o responsável por oficialmente fechar a Organização das Wings. Só achei que você deveria saber, Hina, já que faz missões para ele.
– N-n-não, eu s-só a-ajudei alg-algumas v-v-vezes, não é n-nada de m-mais... – TenTen caiu no riso ao perceber a vergonha de Hinata.
– Nada de mais? Tá na cara que você gosta dele! Ele vai vir aqui, vamos destruir a vilã e depois ele vai te carregar nos braços e te levar para bem longe daqui...!
Sakura tomou a liberdade de rir com as fantasias de TenTen e o nervosismo inocente de Hinata. A amiga tímida realmente sentia algo pelo loiro; todas as vezes que ela voltava de alguma missão dada por ele, contava sobre elas de forma sonhadora e apaixonada. Temari suspirou.
– Parece que tem muitas Wings se apaixonando, não? – ela finalmente disse – Não só por pessoas, mas por outras coisas também... – ela terminou de falar olhando pela janela, encarando a lua brilhante.
– Sim! Por isso mesmo não podemos ficar aqui a vida toda! Essa revolução já deveria ter acontecido há muito tempo! Por que ninguém pensou nisso antes?
– Por causa da culpa. – Sakura respondeu TenTen, séria – Nos sentíamos culpadas em abandonar Tsunade depois de ela ter nos salvado. Mas se Tsunade realmente fosse a santa que pensávamos ser, ela não tomaria nossa liberdade em troca dessa salvação. Precisamos fazê-la entender isso. Ela não é nossa proprietária só porque salvou nossas vidas.
– Sim, mas vocês não acham um pouco cruel, fazer todas as Wings se virarem contra ela? – Temari continuava encarando a lua – Afinal, o fato é que estaríamos todas mortas se não fosse por ela.
Um breve silêncio se fez no quarto. Sakura quebrou-o.
– Mas ela não nos salvou para termos que servi-la dessa maneira. Por isso Shikamaru quer fazer as coisas de forma pacífica. Acredito que esse Naruto ajudará no intermédio da situação. O que realmente irá acontecer, só na hora saberemos.
– Eu... confio no Naruto. Acredito que ao final, conseguiremos nossa liberdade. – Hinata terminou sua frase com um sorriso, e foi o suficiente para acalmar Temari e fazer TenTen provoca-la sobre seus sentimentos.
A conversa acabou daquela forma, e Sakura foi dormir sentindo-se exausta por algo que ainda nem havia acontecido. Seria difícil, mesmo com Shikamaru e a Central de Inteligência interferindo. Mas aquilo precisava ser feito. Só assim ela poderia viver sua vida plenamente. Só assim ela poderia ver Sasuke e trilhar seu próprio caminho.
****
Dois dias depois
– Peça para Shikamaru comparecer em minha sala imediatamente! – Tsunade andava apressadamente pelos corredores da Base das Wings com Kurenai ao seu lado. Acabara de voltar de viagem e não poderia perder mais tempo.
O Senhor Feudal do País do Vento a estava pressionando cada vez mais na busca por seu filho, e Tsunade já se sentia irritada com aquilo. Sua prioridade no momento era encontrar Ino, e o plano de Shikamaru necessitava de muitas modificações, pois não estavam chegando a lugar nenhum. Tsunade queria propor novas estratégias e usar algumas iscas para atrair Ino e, consequentemente, Gaara.
Kurenai cumpriu seu dever de imediato, encontrando Shikamaru meditando debaixo de uma árvore e acompanhando-o até a sala particular da mestra. No caminho, aproveitaram para conversar.
– Tudo pronto? – ela perguntou. Sabia do plano de Shikamaru e estava disposta a ajuda-lo. Para Kurenai, uma das Wings mais experientes ali, também era hora da Mestra descansar e libertar suas filhas.
– Sim, mas não vamos fazer nada às pressas. Vou ouvir o que ela tem a me dizer primeiro. Naruto Uzumaki, da Central de Inteligência, está hospedado aqui perto e será fácil chama-lo quando chegar a hora.
Entraram na sala de Tsunade, onde ela os aguardava bebendo sakê.
– Ah, Shikamaru! Precisamos conversar urgentemente. – vendo-os, Tsunade ajeitou-se na cadeira, esperando-os sentar de frente para ela também.
– Qual seria o problema?
– Seu plano. – os olhos de Tsunade estavam afiados e descontentes – Sinto que não fizemos nenhum avanço em muito tempo. Minhas Wings não conseguem pistas sobre Ino e o garoto Sabaku, estamos andando em círculos e não posso permitir mais falhas nessa missão. Por isso, enquanto estive fora, pensei em mudar um pouco a estratégia.
– E qual seria sua ideia, Tsunade?
– Iscas. – Kurenai conseguia perceber o tom de malícia na voz da Mestra – Nesse ponto, se quisermos encontrar Ino, precisamos fazer com que ela não tenha escolha a não ser se mostrar.
– Então pretende atraí-la com alguma coisa?
– Não alguma coisa. Alguém. – Kurenai já sabia o que a Mestra pretendia, e não estava gostando daquilo – Ino é uma menina extremamente gentil e sensível à dor dos outros. Eu sei que ela e Sakura são melhores amigas e fariam tudo pela felicidade da outra, e já conspiraram juntas várias vezes contra mim, inclusive nessa fuga. Portanto, nada mais justo do que puni-las juntas.
– Tsunade-sama, a senhora não está pensando em...
– Sim, estou pensando, Kurenai. Usaremos Sakura, TenTen, Hinata, Temari e Meiko Okazaki como iscas para atrair Ino. – Shikamaru arregalou os olhos enquanto Tsunade contava aquilo como se estivesse falando da cor do céu – Se as usarmos de modo que Ino fique preocupada, ela se sentirá responsável e virá tentar salvá-las.
– Perdão, Tsunade, mas quando você diz “usar”, ao que está se referindo? – aquilo era ruim; Tsunade estava se mostrando obcecada e cada vez mais cega aos seus limites.
– Ora, de que outro modo? Vou usá-las de reféns. Se as notícias chegarem até Ino de que suas melhores amigas e uma criança por quem ela tem grande afeição estão sofrendo por causa dela, voltará no mesmo instante, não tenho dúvidas disso.
– Pretende torturar as garotas que ama como se fossem suas filhas apenas para capturar Ino?
– Não seja dramático, Shikamaru. Não irei mata-las e ensinei-as a lidar com vários tipos de tortura antes. Bem, menos Meiko, que ainda não tem idade suficiente para esse tipo de treinamento. Só deixarei claro para Ino que se ela não voltar com Gaara no Sabaku, suas queridas amigas estarão em perigo. – Tsunade continuava falando como se aquela fosse a coisa mais normal a se fazer. Kurenai tentou racionalizar.
– Tsunade-sama, com todo o respeito, penso que esse não seja o melhor método para chamar a atenção de Ino. Além disso, Meiko Okazaki não passa de uma criança, e Shizune já vem relatando mudanças em seu psicológico desde que a senhora cortou as ligações dela com Sasuke Uchiha. Não queremos traumatiza-la novamente depois de tudo pelo que ela passou...
– Silêncio, Kurenai. Eu sei muito bem pelo que ela passou, e se não fosse por mim, ela estaria abandonada em um orfanato qualquer. Cortar as ligações com Sasuke Uchiha foi o melhor a se fazer, não posso permitir que ela se envolva demais com qualquer um fora da Base. Estou pensando também em cortar a ligação de Sakura com Sasuke. Esse caso pode terminar como o de Ino e o garoto Sabaku.
– Mas Tsunade-sama, Ino não irá cooperar se a senhora ameaçar as vidas de Sakura, e...
– Achei que tinha dito para se calar, Kurenai. Não questione meus métodos. Não preciso da cooperação de Ino, ela se mostrou uma filha ingrata e agora pode ir viver bem longe. Mas Gaara no Sabaku está com ela, e recebemos a missão de resgatá-lo. E eu nunca hesitei em nada para o cumprimento dessas missões. Se eu tiver de sujar as mãos ou machucar minhas próprias filhas para isso, também não hesitarei.
Um tenso silêncio se fez na pequena sala. Tsunade estava firme em sua decisão. As rachaduras em seu semblante gentil começavam a ficar bem mais nítidas agora. Kurenai sempre respeitou a mestra e fez de tudo para ajuda-la, mas há algum tempo, sentia que não estava agindo por si mesma, e a Mestra parecia não entender isso. As últimas recrutas a chegar na Base, incluindo Meiko Okazaki, tiveram uma primeira impressão maravilhosa; mas agora muitas já estavam desanimadas, descontentes. Várias Wings experientes também já não faziam mais missões por lealdade, como antigamente, e sim para evitar punições. A situação começara a se deteriorar aos poucos, e a gota d’água foi a fuga de Ino, alertando a todas ali de que aquilo não poderia mais continuar.
– Essa é sua palavra final, Tsunade? – Shikamaru finalmente falou.
– Sim, e não venham com essas caras sonsas de dó. Devo lhe lembrar, Shikamaru, que está aqui para seguir minhas ordens, e você também, Kurenai. Não quero lidar com mais filhas ingratas, que não se esforçam para retribuir meu amor.
Kurenai abaixou a cabeça, mas Shikamaru permaneceu impassível.
– Bem, e quando poderemos nos reunir então?
– Não podemos perder mais tempo. Amanhã, logo pela manhã, discutirei tudo o que tenho em mente, e já começaremos a por o plano em prática. Podem sair, quero beber em paz agora.
Shikamaru e Kurenai deixaram a sala e caminharam um bom tempo antes de Kurenai resolver falar.
– Não costumava ser assim antes. – Shikamaru olhou-a, atento – Costumávamos gostar de fazer missões, nos aventurar em lugares longínquos, sermos recompensadas. Não sei quando tudo começou a mudar.
– Muitas vezes só percebemos quando é tarde demais. – Shikamaru não era de falar muito, por isso calou-se logo em seguida, e Kurenai continuou.
– Deveríamos ter notado mais cedo. Deveríamos ter notado que havia algo de errado quando as punições começaram, quando fazer uma missão deixou de se tornar opcional e divertido e passou a ser perigoso e estressante. Deveríamos ter notado quando a Mestra ordenou o primeiro aborto, ou quando expulsou a primeira Wing daqui. Deveríamos ter notado quando seus métodos ficaram mais cruéis, quando crianças começavam a ficar doentes de tanto treinar... quando Tsunade arrastou Sakura de volta a esse lugar como uma criminosa, quando fechou esse lugar a todos de fora, quando começou a se tornar paranoica em perder uma de suas “filhas”...
– E mesmo assim, você não a odeia por isso, odeia?
– Não consigo odiá-la. Ela me salvou. Mas não quero deixa-la se tornar um monstro. Conto com sua ajuda para isso, Shikamaru-san. – Kurenai terminou de falar com uma profunda reverência, e Shikamaru ficou sem graça ao ser tratado com tanta formalidade.
– Contaremos com a ajuda um do outro, Kurenai. Não vamos deixar Tsunade ir em frente com esse plano. Amanhã, ao invés de ter uma reunião fechada para discutirmos o resgate de Gaara no Sabaku, teremos uma grande e séria conversa com todas as meninas e mulheres daqui. Consegue levar sua Mestra até o Grande Salão?
– Pode deixar. Amanhã o dia será difícil e cansativo.
Despediram-se com um breve aceno, e Shikamaru só conseguiu concordar com a Wing. O dia seguinte seria problemático, e nem ele conseguiria prever como iria acabar. E provavelmente, seria o primeiro de muitos outros assim, mas estava confiante de que teria muitas Wings ao seu lado, querendo voar para longe dali, e que depois de todas as turbulências, enfim conseguiriam.
It's hopeless, the end will come and wash it all away
Forsaken, I live for those I lost along the way
And I can't remember how it all began to break
You suffer, I live to fight and die another day
Não há esperança, o fim virá e levará tudo embora
Abandonado, eu vivo por aqueles que perdi no caminho
E não consigo me lembrar como tudo começou a quebrar
Você sofre, eu vivo para lutar e morrer outro dia
Breaking Benjamin – Fade Away
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