Broken Wing - Aprendendo A Voar
49 Capítulo 49 - No Fim do Túnel
Notas iniciais
Da primeira vez, fugir não havia dado certo. Mas agora ela faria muito mais. Ela não iria fugir sozinha, e sim destrancaria a gaiola e deixaria todas as Wings desfrutarem livremente de suas asas. Afinal, pássaros foram feitos para voar, e ela mal via a hora de subir até o alto dos céus.
Sasuke’s POV
Os ventos do outono começam a ficar mais frios e mais fortes em outubro, aumentando a sensação de frio. Aqui no País do Fogo, essa transição do verão para o outono é feita de maneira branda. Os dias começam a ficar mais curtos e as temperaturas caem sutilmente, um grau de cada vez, de forma que não há um choque brusco da mudança climática. A transição é feita de forma sutil.
Posso dizer isso sobre o clima, mas não posso dizer isso sobre a situação na qual me encontro agora. Não há nada de sutil nela. As mudanças aconteceram de repente, sem a preocupação de alertar ninguém no caminho, de dar avisos de alerta; não, as mudanças me atingiram como um redemoinho, arrastando tudo pelo caminho. Agora só restou limpar a bagunça.
Desde que Sakura entrou em minha vida, vem sendo assim. As coisas acontecem e eu não consigo acompanha-las. Fico para trás, tropeço e caio, preciso de ajuda para seguir o caminho certo. Com todo mundo deve ser assim, não é? Eu nunca pensei que seria como todo mundo nesse quesito, simplesmente porque minha vida era tão pacata e previsível que raramente aconteciam mudanças bruscas, que conseguissem desestabilizar algum aspecto da minha rotina.
Mas quando conheci Sakura, tudo isso mudou. Acho que o mais correto seria dizer que tudo ainda está mudando. E Sakura é uma pessoa tão complexa e imprevisível que nunca consegui acompanha-la. Nunca consegui acompanhar suas mudanças de humor, nunca sabia se ela me beijaria ou tentaria me matar, nunca sabia o que o dia seguinte traria se ela estivesse nele. E sempre me repreendi por isso.
Mas agora finalmente, finalmente eu consegui alcança-la. Consegui igualar minha velocidade à sua. Agora sinto que estamos andando lado a lado, falando a mesma língua, dançando no mesmo ritmo. Um peso parece ter sido tirado do meu peito. O tédio sumiu de meus dias, e a ansiedade provocada pela rosada também. Agora só sobrou desejo: desejo de vê-la, de ficar com ela, de aguardar sua ligação, sua visita, sem medo de ser rejeitado. Sakura nunca irá abandonar sua natureza imprevisível, e não quero que ela faça isso; mas agora eu posso ficar em paz, sabendo que ela não irá me abandonar por completo. Aquele último beijo de quando ela veio me visitar dizia isso. Eu conseguia ler em seus olhos, em seus gestos. Sakura finalmente me aceitara.
Agora eu só precisava esperar. Apesar de ter me aceitado, ela ainda não estava livre para me amar (amar? Eu realmente estou usando essa palavra?). Ela me prometeu lutar por sua liberdade, mais uma vez. Se eu soubesse que ela teria esse impacto todo em minha vida, que eu acabaria querendo ficar ao lado dela, eu nunca teria me juntado à Tsunade para encontra-la quando ela fugiu. Ao invés disso, teria encontrado-a sozinho e ido com ela para onde quer que ela quisesse me levar. Parece estranho, mas só com a aparição de Sakura é que notei como meu mundo é limitado. Parece que estou vivendo dentro de uma gaiola, preso às tradições de minha família. Não, minha família não tem culpa de nada, eles também estão presos. Mas diferente deles, eu quero tentar fazer as coisas de um jeito um pouco diferente. Eu quero tentar expandir meu céu. Pelo jeito que as coisas estavam acontecendo, Sakura logo deixaria de ser uma Wing, mas isso não significa que não poderíamos voar juntos no céu.
Bem, tudo isso eu pensava enquanto dirigia em silêncio, levando Ino e Gaara até onde eles se despediriam para sempre de suas antigas vidas. A culpa de meus pensamentos era da loira e sua decisão rebelde de jogar tudo aos ares e fugir com o amor de sua vida. Desde que ela me ligou semanas atrás pedindo ajuda, tudo esteve um caos. Preocupações espreitavam o canto de nossas mentes, jogavam uma sobra de medo de que tudo daria errado. E finalmente Ino tomara coragem para iluminar essa sombra até não sobrar nada dela. Sakura a ajudou, e agora ela se sentia segura em sair do confinamento de minha casa. Segundo Sakura, Tsunade estava ficando sem pistas, mas também mais desesperada a cada momento.
Eu não entendia esse lado de Tsunade. Será que valia mesmo a pena todo esse trabalho para encontrar somente uma mulher? E que ainda por cima havia escapado por livre e espontânea vontade? Eu nunca achei muito saudável a vida que as Wings levam, e ainda me preocupo com Meiko sob os cuidados daquela velha peituda. Não importava mais terem sido Sakura e Ino a me convencerem a entrega-la nas mãos de Tsunade, pois elas mesmas estavam querendo fugir agora. E o que seria de Meiko lá sem Sakura e sem Ino? Sakura pretendia desfazer a Organização, mas o que aconteceria com todas as mulheres e meninas de lá?
– Sasuke, você está bem? Não disse uma palavra desde que entramos no carro. – Ino interrompeu meus pensamentos. Acho que ela viu minha testa franzida de preocupação pelo espelho. Ela e Gaara iam no banco de trás, encolhidos e disfarçados.
– Estou bem.
Um novo silêncio se fez, e agora eu só pensava em quando Sakura estaria livre. Ver Ino antes de a loira partir foi o certo a se fazer. Elas agora pareciam mais determinadas a lutar pelos seus objetivos. O que sairia dessa luta eu ainda não sabia, mas torcia para tudo dar certo. Enquanto Sakura lutava uma batalha da qual eu nunca poderia participar, eu a esperava roendo as unhas. Não que eu não confiasse nela, mas Tsunade não seria um obstáculo fácil de se desviar.
– Sasuke. – a voz da loira chamou minha atenção novamente. Não demoraria para chegarmos ao local de onde eles partiriam. Olhei-a pelo retrovisor, esperando sua fala – Não precisa se preocupar.
– Não estou preocupado. – ela só sorriu.
– Não é tão difícil ler suas expressões. Sei que está se perguntando sobre Sakura, mas confie nela.
– Eu confio. Não estou preocupado com ela.
– Então por que está com essa expressão de sofrimento? Se não está preocupado com ela, com quem então? – lançando olhares para ela pelo espelho, decidi responder.
– Meiko. – a expressão dela ficou preocupada também.
– Ah, sim. Desculpe, depois de eu e Sakura termos te convencido a deixa-la com Tsunade, isso acontece. Mas a situação não irá mudar: confie em Sakura. Ela saberá o que fazer.
Eu queria confiar em Ino porque ela confiava em Sakura. Mas se a rosada realmente planejava sair da Organização levando todas as Wings junto, o que aconteceria com as aprendizes mais novas, as crianças? De repente me vi preocupado com essas mulheres e meninas. Eu não costumava ser assim.
– Sasuke. – Ino me chamou novamente, com mais firmeza na voz – Confie nela.
Confiar? Confiar era uma palavra muito forte. Eu ainda estava aprendendo tudo isso de saber expressar sentimentos, me entregar a alguém, desabafar. E acho que minha confiança também estava sendo construída dessa forma, aos poucos.
– Chegamos. – a viagem havia sido curta. No centro movimentado e comercial de Konoha, ficava o prédio principal das Empresas Uchiha.
O prédio era imponente, alto, azul, espelhado, com o símbolo da família estampado na frente. No alto do prédio, os jatinhos destinados a viagens de negócios pousavam para transportar pessoas. Para esse plano não falhar, eu havia chamado o piloto em quem mais tinha confiança, Urushibara-san. Ele era quieto, obediente e gentil. Com Gaara disfarçado com uma peruca e um pouco de maquiagem, o distraído Urushibara não teria como reconhecê-lo como a pessoa mais procurada no mundo no momento.
Minha família só sabia que eu viajaria com alguns “amigos”. Não havia como esconder essas viagens de meu pai, então o que pude fazer foi inventar desculpas esfarrapadas para o motivo da viagem e fingir que Ino e Gaara eram alguns amigos. Meu pai me advertiu para não ficar usando os jatinhos para “viagens pessoais”, mas ah, se ele soubesse...
Descemos discretamente do carro. Era domingo, então não precisávamos temer nos encontrar com algum funcionário. Mesmo assim, eu estava alerta; levei-os pelo caminho mais discreto, e quando finalmente estávamos no último andar, a céu aberto, me permiti relaxar um pouco. Urushibara-san estava esperando, ajustando alguma coisa no jatinho.
– Está tudo bem mesmo, Sasuke?
– Vocês vão estar seguros. – assegurei Ino de que daria tudo certo – Urushibara-san vai deixar vocês no País da Água. Já reservei um hotel para uma semana. É menos provável reconhecerem Gaara por lá, mas tenham cuidado. Saiam de lá o mais rápido possível e vão para uma área menos habitada depois.
Eu repetia as instruções a eles, e Ino e Gaara acenavam com a cabeça, apesar de essa já ser a enésima vez que eu falava aquilo. O País da Água era uma ilha, e devido ao clima chuvoso e de nevoeiro, era uma nação mais “isolada”, tanto social quanto politicamente, por isso, se Gaara estivesse disfarçado, ele tinha menos chances de ser reconhecido; além disso, o país é composto por um conjunto de ilhas menores, bem menos habitadas do que a ilha principal. Era um bom lugar para se esconder temporariamente. Depois disso, eles provavelmente tomariam uma rota mais ao sul, para uma nação ainda mais distante do País do Fogo, onde Gaara não era tão conhecido, de preferência com uma população mais rural do que urbana, onde teriam mais paz e poderiam viver despreocupados.
Era estranho pensar que essa era a despedida oficial de Ino do mundo onde ela sempre pertencera. Mas de fato era. Guiei os dois até Urushibara-san, que nos esperava de pé em frente ao jatinho.
– Bom dia, Sasuke-san. Esses são seus amigos? – o piloto cumprimentou-os com apertos de mão.
– Sim, por favor, leve-nos ao País da Água.
– Seu pai não ficou contente em você suar o transporte da empresa para viajar com amigos, mas eu pessoalmente não me importo. Gosto de voar e de ajudar o senhor.
– Agradeço muito pela ajuda, Urushibara-san, e me desculpe por pedir algo tão egoísta. – não sei o quanto Urushibara estava sendo sincero ou puxando o saco, mas eu sentia que poderia confiar nele.
– Que nada! Podem entrar.
Eu, Ino e Gaara embarcamos depois de ouvirmos as instruções do voo. Eu iria acompanhar o casal até o destino final, para me certificar de que tudo correria bem. Finalmente sentimos o jatinho sair da terra (nesse caso, do alto do prédio) e voar na mesma direção dos ventos frios.
****
Nem vi a viagem passando. Acho que a sensação de dever era tão grande que a ficha só caiu quando eu os deixei em frente ao hotel onde havia feito a reserva. Prestes a me despedir deles, Ino me chamou a atenção de novo.
– Sasuke, muito obrigada por tudo isso. Nunca teríamos chegado até aqui sem você.
– Foi Sakura quem te convenceu. – eu já estava ficando sem graça, mas me arrependi de ter mencionado o nome de Sakura. O rosto da loira adquiriu um semblante triste, mas ela ainda sorria.
– Sim, foi a Sakura. – ela olhou ao chão por um momento antes de voltar o olhar a mim – Cuide bem dela. – surpreso por suas palavras, abri a boca para tentar encontrar uma resposta, mas não encontrei as palavras – Não precisa dizer nada. Eu sei que vocês dois vão ficar bem.
Apenas assenti com a cabeça, de alguma forma satisfeito por Ino mencionar eu e Sakura na mesma frase.
– Adeus. Cuidem-se também. – Foi a última coisa que eu disse antes de Ino e Gaara fazerem uma reverência de agradecimento e acenarem as mãos enquanto eu me afastava deles. Gaara abraçava Ino pela cintura, os dois sorrindo felizes para mim, acenando adeus.
E essa foi a última vez que os vi.
****
Sakura’s POV
– Onde vocês acham que Ino está agora? – eu ouvia Hinata falar contra a janela do meu quarto, observando a chuva caindo do lado de fora.
– Bem longe daqui. – TenTen fazia o mesmo, com um olhar sonhador – Aposto que está viajando para lugares maravilhosos, como se estivesse em uma lua-de-mel! E nós aqui, definhando nessa Base. – como sempre, ela terminou sua fala em um tom dramático.
– Não acho que esteja sendo assim tão fácil. Eles devem estar escondidos, mesmo agora. – Temari entrou na conversa, sempre realista.
Eu havia contado a elas uma parte da história sobre Ino. Eu só dissera que havia me certificado de que ela estava bem e em um lugar distante. As meninas não pediram por mais detalhes, e Temari também não perguntou sobre seu irmão. Ela sabia que os dois estavam felizes juntos.
– Mas Tsunade não conseguirá encontra-los, não é? – a voz preocupada de Hinata chamou minha atenção.
– Não. Tsunade nunca irá encontra-los. – eu estranhamente estava muito confiante sobre isso. Eu sabia que minha amiga e seu amante estavam em boas mãos com Sasuke, eu sabia que o moreno iria ajuda-los a escapar e sabia que tudo daria certo. Eu simplesmente sabia.
Tsunade estava ficando cada vez mais frustrada. Shikamaru não conseguia encontrar traços de Ino em lugar nenhum. Para eles, Ino estava mentalmente instável, e isso significava que era mais fácil ela cometer erros; mas não era isso o que estava acontecendo. Para o time de investigação, Ino simplesmente desaparecera. E Gaara, junto com ela, também não fora mais avistado. Demos muita sorte de ninguém tê-lo visto próximo à Konoha. As investigações estavam se concentrando no sudoeste do País do Fogo, entre a fronteira com o País do Vento e a Base das Wings. Tsunade acreditava na premissa de que eles haviam se encontrado no meio do caminho. Essas eram as únicas coisas que eu sabia. Depois de ter sido expulsa das reuniões, não tinha mais como saber como estavam os planos. E a inteligência de Shikamaru nunca podia ser subestimada.
Já fazia uma semana desde minha visita a Sasuke. Eu esperava que a esse ponto, Ino e Gaara já estivessem bem longe e seguros. E agora eu me via realmente sozinha aqui na Base das Wings. Eu nunca deveria ter me rendido quando Tsunade me encontrou pela primeira vez. Nunca deveria ter concordado em voltar com ela, nunca deveria ter convencido Sasuke de que aqui era o lugar certo para a menininha Meiko. Pois eu sabia que esse não era o caso. Todas as Wings só estão aqui porque não tiveram outra escolha. Todas aqui foram salvas por Tsunade, mas presas logo em seguida. Elas mereciam ser livres. Nós merecemos ser livres.
Com certeza deve haver um lugar no mundo para nós. Não precisamos mais nos confinar aqui e viver nas sombras, mentir, fingir, sermos usadas por clientes de várias formas possíveis. Deve haver um lugar no mundo que ainda possa nos aceitar. Um lugar onde possamos usar o que aprendemos aqui. Somos fortes, somos independentes, somos humanas. Sabemos cuidar de nós mesmas, e sabemos usar nossas habilidades ao máximo. Não precisamos mais depender de Tsunade. Podemos trilhar nosso próprio caminho. Por isso resolvi fugir mais uma vez. E agora eu não iria sozinha. Eu levaria todas as outras comigo. As Wings desse lugar finalmente poderiam voar com suas próprias asas.
E apesar de pensar nisso o tempo todo, apesar de ter em TenTen, Hinata e Temari três cúmplices poderosas, eu ainda não sabia como faria tudo isso. Fazer uma rebelião em segredo era bem mais complicado do que parecia. E ainda poderíamos enfrentar resistência das próprias Wings. Se houver mulheres aqui que não queiram abandonar essa vida, o que eu farei? Irei obriga-las a destruir a Organização? Não, impossível. Mas se apenas uma continuasse, Tsunade continuaria recrutando meninas e prendendo-as aqui. Então nesse momento eu estava estagnada.
Senti uma batida na porta. Temari mostrou-se relutante ao abrir: o medo de alguém ter ouvido nossa conversa era bem real.
– Sakura, você está aí? Tem uma carta para você. – respirei aliviada ao ouvir a voz de Yama, uma das Wings mensageiras.
Abri a porta e ela, sorridente, entregou-me um simples envelope branco, e logo depois se retirou. Na frente do envelope, estava meu nome escrito. Eu conhecia aquela letra. Abri o envelope e tirei de lá um único bilhete, que somente dizia:
Deu tudo certo.
Posso esperar outra visita sua?
Não estava assinado, mas foi melhor Sasuke não ter mencionado seu nome mesmo. E a primeira frase do bilhete fez outra onda de alívio passar por meu corpo. Deu tudo certo. Ino e Gaara haviam conseguido fugir. Agora eles de fato poderiam ser felizes.
– Deu tudo certo. – repeti para as meninas ao meu redor. Só isso já foi suficiente para elas entenderem.
Ino nunca mais voltaria. Gaara nunca mais voltaria.
E em breve, nenhuma de nós viveríamos mais presas.
E sim, Sasuke, você com certeza pode esperar outra visita minha.
****
Narração em terceira pessoa
Tsunade acabara de sair para uma viagem. Ela iria se encontrar com o Senhor Feudal do País do Vento para decidir detalhes muito importantes de alguma missão de urgência. Shikamaru sentiu que aquela seria sua única oportunidade de agir. Andando pela Base das Wings, deve ter se perdido duas ou três vezes. Aquele lugar era enorme, cheio de prédios, florestas, áreas para treino e claro, Wings.
No momento, Shikamaru estava interessado em somente uma delas. Essa Wing em específico era uma carta coringa, e com certeza seria uma peça chave nesse plano arriscado. Precisava que ela confiasse nele. Precisava que ela lhe ajudasse.
Finalmente encontrou-a sozinha em uma das salas do prédio principal. Aquela era uma das muitas salas onde arquivos eram guardados. Como punição por ter omitido informações de Tsunade, Sakura estava agora fazendo vários tipos de serviços, e organizar a pilha enorme de arquivos, papeis e documentos que havia ali era um deles. Shikamaru agradeceu por ela estar sozinha. Não poderia arriscar ser visto junto com ela, pois o que estava prestes a propor era arriscadíssimo.
– Com licença. – percebeu que a rosada se assustou com sua presença repentina. Ela virou o rosto com um olhar de alerta, e este só se tornou mais suspeito quando ele se aproximou – Não confia em mim porque estou tentando encontrar sua amiga, não é?
Sakura olhou para Shikamaru como se fosse uma leoa prestes a atacar. Não tinha nada contra o rapaz, sabia que ele só estava fazendo seu trabalho, mas não confiava nele por ele ser o responsável por ela ter sido encontrada quando fugiu e por estar tentando encontrar Ino agora.
– O que você quer? – soou mais ríspido do que ela pretendia. Shikamaru levantou as mãos em sinal de rendição.
– Não se preocupe, eu só vim conversar. Sei que não confia em mim, mas por favor, me ouça até o final. – era muito difícil saber se Shikamaru falava a verdade, pois sua expressão facial era a mesma em todas as situações. Sakura apenas permaneceu em silêncio, esperando-o continuar – Eu encontrei Ino.
Os olhos de Sakura se esbugalharam naquele momento, brilhando verdes no escuro cômodo. Shikamaru se arrependeu de ter começado a conversa daquela forma. Sakura parecia prestes a mata-lo. Só não o fazia porque ele também conseguira detectar confusão e surpresa em seus olhos.
– Calma, me deixe explicar até o fim. Eu não sou seu inimigo. – ainda com as mãos levantadas, ele tentava acalmá-la.
– Fala logo ou vai ver que esse espanador de pó pode se transformar em uma arma mortal. – Sakura olhava-o ameaçadoramente. Naquele momento, a rosada não acreditava como havia sido possível Shikamaru descobrir tudo aquilo tão rapidamente, e estava seriamente considerando eliminá-lo antes de ele contar a Tsunade, isso se já não havia contado. Mas então por que ele viria ali falar sobre aquilo com ela?
– Certo, isso seria problemático. – Shikamaru a olhava como se quisesse fugir dali; mas ele precisava dessa conversa – Certo. Eu encontrei Ino sozinho, nem Tsunade nem as Wings dessa missão sabem sobre isso, e não pretendo contar a elas.
– Como assim? – Sakura se aproximava com o espanador de pó, ameaçando-o com o olhar.
– No momento, Ino e Gaara se encontram no País da Água. Antes, porém, eles estavam na casa de Sasuke Uchiha. Correto?
– Shikamaru... não teste minha paciência.
– Certo, é mesmo. Como eu disse, não precisa se preocupar. Esse segredo ficará bem guardado comigo.
– Por que está me dizendo isso? Por que não espera Tsunade voltar da viagem para contar a ela?
– Já disse que não pretendo contar a ela. Por mim, Ino e Gaara no Sabaku nunca serão encontrados. – Sakura estava ouvindo direito? Shikamaru estava se rebelando contra Tsunade? Por qual motivo? E o que Sakura tinha a ver com aquilo?
O ódio desapareceu do olhar da rosada, dando lugar completo à surpresa.
– Explique-se. – ela simplesmente disse.
– Certo, tenha paciência comigo, Sakura. Primeiro vamos relembrar a vez quando você fugiu. Você se arrepende de ter voltado para cá?
– Claro! Com Ino fugindo agora, sei que meu lugar também não é aqui. Nem o meu nem o de todas as Wings.
– Acalme-se, porque eu concordo com você.
– Hã? – Sakura já havia sido pega de surpresa por muitas falas antes, a maioria de Sasuke. Mas o que estava ouvindo agora parecia muito mais estranho e improvável. Shikamaru apenas riu baixo.
– Eu concordo com você. A Organização das Wings precisa acabar.
Um longo silêncio se fez entre os dois. Shikamaru esperava a perigosa Wing se acalmar, e Sakura tentava entender as palavras jogadas em si. Shikamaru, querendo ir contra Tsunade? Contra a Organização de Tsunade? Mas por que ele faria isso se estava trabalhando ao lado dela por todos esses anos? Seria aquela uma mentira, um plano para prejudica-la de alguma forma? Mas não havia motivos para ele fazer aquilo. Shikamaru já descobrira onde Ino e Gaara estavam – e assustadoramente, ele estava certo – então não teria motivos para enganar Sakura, bastaria conversar com Tsunade. Então, aquilo não era mentira, Shikamaru realmente estava querendo fechar a Organização? Por quê? E de novo, o que Sakura tinha a ver com isso?
– Você deve estar confusa, mas tudo o que falei aqui é verdade. – a rosada permaneceu em silêncio, pensando que a melhor forma de agir era deixando-o explicar muito bem tudo isso – Veja, trabalho para Tsunade há muito tempo, desde que eu tinha 12 anos, para ser mais exato. Em todos esses anos, observei a forma como ela agia, sua conduta, as regras dessa Organização. Também observei vocês, Wings, e em como vocês encaravam todo esse trabalho. E conforme os anos iam se passando, fui percebendo que algo não estava certo. Fui acumulando todo esse desconforto com essa Organização, mas como me dava bem com Tsunade, decidi ficar no meu canto, só trabalhando mecanicamente. Tentava ignorar sempre que Tsunade fazia algo com o qual eu não concordava, e com o tempo foi ficando cada vez mais difícil fazer isso. Até que, há mais de um ano, você fugiu, Sakura. E esse foi meu gatilho.
Sakura ouvia tudo aquilo suspeita, mas receptiva. Não ousava interrompê-lo agora. Shikamaru continuou.
– Quando você fugiu, lembro que Tsunade ficou desesperada. Ela não me chamou imediatamente, esperou que você desse algum sinal de vida antes de se arriscar a te encontrar. O roubo dos Uchiha foi um sinal e tanto. Mesmo naquela época, não me surpreendi por você ter fugido. Eu já previra que seria só questão de tempo até uma das Wings se rebelar e querer seguir o próprio caminho. Mas eu achei que Tsunade não iria se importar tanto. Afinal, uma fuga significa rejeição, quebra de lealdade e confiança. Para mim, não fazia sentido Tsunade tentar te encontrar e te trazer de volta, te capturar, se você não fosse mais leal a ela, como sua fuga demonstrou. Mas Tsunade não encarou sua rejeição muito bem. Ela queria te encontrar nem que aquela fosse a última coisa que fizesse em vida. E aquilo me incomodou muito. Claro, na época eu fiz meu trabalho como de costume, querendo ver até onde isso iria terminar. Tsunade estava muito fervorosa. Queria te capturar, te prender novamente. Mas eu ainda fiz meu trabalho; no entanto, enquanto te procurávamos, eu pude pensar melhor em tudo isso. E quando finalmente te capturamos e eu vi o seu olhar quando sua Mestra venceu... eu me decidi. Sabe, eu tenho algum conhecimento em leitura de expressões faciais e corporais. E o seu olhar naquele momento dizia que você seria a pessoa mais infeliz do mundo se voltasse a viver como Wing. Depois que esse meu trabalho acabou, voltei para casa e passei um longo tempo pensando. Pensando e planejando. Vou te fazer uma pergunta agora, Sakura, e não é uma pergunta retórica, eu espero uma resposta sua: o que você sabe sobre mim?
Sakura ficou surpresa com a repentina pergunta, mas encarando o olhar expectante de Shikamaru, respondeu hesitante:
– Sei que... você é um detetive e que... trabalha para Tsunade algumas vezes. – essas eram literalmente as únicas coisas que ela sabia sobre ele.
– Como imaginei. Bem, assim como as Wings, eu também mantenho meu trabalho em segredo. Considere isso como uma aposta muito alta de minha parte, e veja se consegue confiar mais em mim se eu te revelar um pouco mais. Nem Tsunade sabe tudo o que eu vou lhe dizer agora. Eu sou um detetive particular, isso você bem sabe. Essa ocupação está na minha família por muitas gerações. Não tenho muitos clientes. Um deles você bem sabe, é sua Mestra. O outro... é a Central de Inteligência das Cinco Grandes Nações.
O queixo de Sakura caiu. A Central de Inteligência simplesmente era a instituição governamental policial mais influente e poderosa das Cinco Grandes Nações, responsável por solucionar crimes, mistérios, prender e interrogar os assassinos mais perigosos e investigar os casos mais estranhos. Em filmes de ação policial, em séries de televisão, a Central de Inteligência sempre era retratada. Sakura sabia que além da Organização de Tsunade, o Senhor Feudal do País do Vento também havia pedido a essa Central para investigar o desaparecimento de Gaara.
– Não precisa ficar tão chocada. – Shikamaru continuou – Meus trabalhos para a Central de Inteligência se resumem a casos pequenos. Eles não sabem sobre minha verdadeira capacidade, e também não sabem sobre as Wings. Bem, com exceção de uma pessoa que também trabalha lá: um policial chamado Naruto Uzumaki. Naruto é... bem, como posso descrevê-lo? Ele é um cara completamente sem noção. Faz tudo de maneira apressada, é barulhento, muitas vezes se confunde e acaba atrapalhando ao invés de ajudar... mas é um cara legal. É uma pessoa confiável, uma pessoa que rapidamente conquista as outras, que pensa mais nos outros do que em si mesmo, e que não desiste de nada. Naruto trabalha para a Central de Inteligência também, e tem um dos cargos mais altos de lá. Todos confiam nele, todos são incentivados por ele. Você já deve ter ouvido falar dele; afinal, ele também é um cliente de Tsunade. Acredito que sua amiga Hinata já fez algumas missões para ele. Ele sempre fala dela quando conversamos a sós. Enfim, Naruto é um bom companheiro meu. E como eu disse, depois de você ter sido capturada, passei um bom tempo pensando em como Tsunade conduz esse local e trata suas recrutas, e quando percebi, acabei desabafando para Naruto. Eu simplesmente disse a ele que não concordava com o modo como Tsunade fazia as coisas. Todas as meninas que resgata, que salva, ela prende. Ela não permite que vocês façam suas próprias escolhas. Isso aqui não parece uma família, como ela gosta de dizer. Parece uma prisão com celas muito bem disfarçadas. Não concorda comigo, Sakura?
Sakura acenou a cabeça timidamente. Era muita informação para ser digerida em poucos minutos. Sim, já ouvira falar do tal Naruto, sempre que Hinata fazia alguma missão para ele, voltava toda dengosa, com as bochechas vermelhas e o olhar sonhador, até TenTen provoca-la a dizer sobre o que acontecera. Pelas palavras da Wing, Sakura achava o tal Naruto um pouco idiota. Mas um idiota que fazia sua amiga sorrir. Shikamaru continuou.
– Bem, na verdade, Naruto firmou parceria com as Wings apenas para não fazer delas um poderoso inimigo. Ele não é idiota o bastante para desconsiderar o poder e influência de Tsunade. E quando eu desabafei para ele minha própria opinião sobre essa Organização, ele me propôs isso. Eu disse antes que Naruto era a única pessoa da Central de Inteligência que sabia sobre a existência de Tsunade. Bem, na verdade, ele não é o único: o Chefe da Central também sabe, apesar de ele não ter nenhuma parceria com a Organização. Foi ele quem pediu a Naruto para fazer um contrato com as Wings, tudo para que ele pudesse mantê-las sob controle e investiga-las. Naruto vem fazendo isso há alguns anos. E quando eu contei a ele tudo o que havia presenciado aqui, sobre como Tsunade chega a sequestrar garotas e as obriga a trabalhar para ela, como ela não permite que vocês sejam livres, como usa vocês em beneficio próprio, ele logo me contou sobre essa missão, e não demorou para decidirmos que isso precisava acabar. O que Tsunade está fazendo não é certo. Ela pode até ter boas intenções, ela pode até gostar de vocês como se fossem filhas dela, mas ela não tem o direito de se impor na vida de vocês. Tsunade não pode prender meninas, ensiná-las a matar, roubar, mentir e fazê-las jurar lealdade a ela. Isso é crime, e não só no sentido judicial. Isso é um crime para com os sentimentos dessas meninas. Conforme eu e Naruto conversávamos, chegamos à conclusão de que isso não poderia continuar. Desse jeito, um ano se passou, e novamente temos outra fugitiva. Corrija-me se eu estiver errado, mas Tsunade obrigou Ino a fazer um aborto, não? Qualquer um ficaria revoltado. Tsunade já passou dos limites como Mestra e mentora. Ela deveria ter sido um símbolo de amor para vocês, um símbolo de esperança, mas acabou se tornando um símbolo de imposição, de carrasco. Ela não tem o direito de sequestrar meninas e obriga-las a servir pela vida toda. O bom tratamento e o carinho que todas vocês recebem não podem justificar a falta de liberdade de escolha e expressão. Esse não é o jeito certo de fazer as coisas. As Wings não podem mais se submeter a esse tratamento. Vocês não precisam mais viver nas sombras, não precisam mais se sujeitar a isso. O que me diz então, Sakura? Eu falei, falei, falei e você só me escutou até agora, e eu sei que sua cabeça deve estar a mil. O que acha de tudo isso? Como se sente em relação a tudo o que eu falei?
Sakura observava-o perplexa. Com certeza era muita informação em pouco tempo, e ainda era difícil acreditar em tudo aquilo. Já decidira que Shikamaru não estava ali para enganá-la. Não, seu objetivo não era esse. Mas mesmo sabendo que ele não estava mentindo, estava difícil acreditar que essa fosse a verdade. Shikamaru, conspirando contra Tsunade? Até que fazia um pouco de sentido – nas poucas vezes em que as Wings trabalharam com ele, ele sempre se manteve distante, nunca correu riscos, nunca se expôs muito, sempre deixou bem claro a Tsunade que o relacionamento deles era estritamente profissional, e nem uma parceria amigável chegava a ser. Sakura sempre foi boa em ler pessoas, detectar mentiras (exceto quando se tratava de um certo moreno), por isso conseguia identificar um fundo de verdade naquilo. Descobrir que ele trabalhava para a Central de Inteligência, mesmo ocasionalmente, e que desde a fuga dela, vinha se questionando sobre os métodos de Tsunade... era um pouco estranho, mas sabia que Shikamaru sempre fora uma boa pessoa. Ele não gostava de violência, prezava os métodos menos arriscados, se importava com os subordinados, gostava de ajudar as pessoas, conseguia sentir isso nele.
– Esteve investigando a Organização todo esse tempo com o intuito de destruí-la? – a voz de Sakura era baixa, ainda suspeita.
– “Destruir” é uma palavra muito forte. Mas junto com Naruto, pretendemos interromper esse tráfico de meninas e mulheres. Eu estou te contando tudo isso porque sua ajuda seria valiosa, Sakura.
– Por que você acha isso? O que te faz pensar que eu te ajudaria? – Shikamaru olhou-a, aparentando estar confuso.
– Bem, você já fugiu daqui uma vez. E agora auxiliou sua amiga a fugir. E se minha intuição não me engana, também deve estar pensando que esse não é um bom lugar para se viver. Pela sua personalidade, arrisco dizer até que você está pensando em sabotar a Organização por conta própria. Estou errado? – ele realmente era inteligente, Sakura pensava.
– Em primeiro lugar, como descobriu sobre o paradeiro de Ino? – tentou mudar um pouco de assunto, tentou fazê-lo contar mais a ela antes de confiar plenamente nele.
– Se Ino realmente estivesse mentalmente debilitada, já teria cometido algum erro e a teríamos encontrado. Mas a falta de pistas sugeriu que ela estivesse escondida em algum lugar. Mas não em qualquer lugar; ela era sua amiga, por isso aprendeu com seu erro. Eu sabia que ela estava escondida em algum lugar onde se sentisse segura. Investiguei os últimos lugares onde ela esteve, e tudo me levou à casa de Sasuke Uchiha. Depois, foi fácil conseguir registros sobre a movimentação dos membros da família. Um voo saiu para o País da Água dias atrás. Há mais detalhes que estou deixando de fora, porque não convém ao caso, mas o fato é que encontrar Ino não foi tão difícil, principalmente depois de descobrir o relacionamento dela com Gaara no Sabaku. – outro silêncio se fez – Então, Sakura, voltando ao meu questionamento anterior, você sentiu que o sofrimento de Ino foi a gota d’água para você? Quando Ino fugiu, você também percebeu que precisava sair daqui de novo, não?
– E o que você pretende fazer quanto a isso? Se já discutiu tudo com esse tal de Naruto e está falando comigo, vocês dois devem ter bolado um plano já, não?
– Sim. – o tom natural e óbvio com que Shikamaru respondeu aumentou a confiança de Sakura naquelas palavras. Então ele realmente estava tentando ajudar? Ele também havia percebido quão errada essa Organização estava, e resolvera ajudar?
– E por que me quer junto nesse plano? Só por que também estou descontente com o modo como Tsunade faz as coisas?
– Sim. Eu não sou ninguém aqui, e muito menos Naruto. Mas você é uma Wing experiente, esteve aqui quase sua vida toda. Você é habilidosa, Wings aprendizes e Wings mais velhas e mais experientes te respeitam e reconhecem suas qualidades. Você é um exemplo aqui dentro. As pessoas gostam de seguir exemplos.
– Então quer me usar como meio de manipulação para trair Tsunade? – Sakura concordava com Shikamaru no quesito de a Organização não poder mais continuar; mas ela nunca aceitara ser usada como peão pelos outros.
– Não entenda errado, Sakura. Eu quero sua ajuda. Não pretendo fazer uma rebelião, não pretendo apontar dedos nem armas a ninguém. Meu objetivo não é prejudicar ninguém, nem vocês, Wings, nem sua Mestra. Quero que você me ajude a fazer as coisas desse jeito.
– E como seria esse seu plano?
– Na verdade, não sei se isso realmente pode ser chamado de “plano”, pois não faremos nada às escondidas. Simplesmente planejo ter uma séria conversa com todas as Wings e com Tsunade a respeito disso. E como Naruto é um detetive ligado à Central de Inteligência, ele tem a autoridade de fechar estabelecimentos ilegais, como esse. Eu bem sei que Tsunade pode se mostrar violentamente contra, e não excluo a possibilidade de ela contra-atacar. É para isso que preciso de sua ajuda. Eu sei que você está verdadeiramente infeliz com sua vida aqui. Se conseguir passar isso à Tsunade e às outras Wings, talvez elas percebam que também podem ter uma vida melhor fora daqui. Sem Tsunade ficar sem apoio, ela não poderá revidar. Não estou te pedindo para manipular ninguém, nem para fazer um teatro dramático. Tsunade já fez isso para atrair todas vocês para cá. Eu preciso que você mostre a essas mulheres que existem outras oportunidades e chances a serem conquistadas.
Sakura pensou por um longo momento. A ideia parecia tentadora. Shikamaru tivera a mesma ideia que ela há um ano atrás, e ele dispunha de um cúmplice que poderia tornar as coisas mais fáceis. E Sakura estava mesmo com dificuldades para bolar uma ideia de como libertar a si mesma e as outras dali. Shikamaru parecia ter caído do céu junto com esse tal de Naruto. Ela ainda tinha suas desconfianças, principalmente porque nunca conhecera o tal detetive (se bem que se Hinata gostava dele, Sakura pensava que não havia muito perigo), mas não era do estilo de Shikamaru fazer joguinhos e intrigas. Ele não tinha motivos para mentir a ela. Ele achava tudo problemático e gostava de resolver as coisas com o mínimo de trabalho e problemas possível. Portanto, o que ele lhe propunha agora parecia ser a verdade e uma boa forma de agir. Mas ainda havia algumas coisas nesse “plano” que incomodavam Sakura.
– Vamos supor que tudo isso dê certo. – mais relaxada, ela abaixou o espanador de pó e deixou seu tom de voz menos ameaçador – Vamos supor que vocês, ou melhor, que nós consigamos fechar a Organização das Wings... o que será de todas as mulheres que vivem aqui? E das adolescentes? Das crianças? Ninguém aqui tem outro lar a não ser esse. Quando essas portas se fecharem, para onde todas aqui irão?
– Ah, sim. Quanto a isso, creio que não teremos muito problemas. Todas as Wings adultas possuem habilidades em vários campos, não? Tenho certeza de que vocês são destemidas o bastante para conseguirem conquistar o mundo. Há muitas oportunidades de emprego e de carreira de forma honesta para todas aqui. Quanto às adolescentes e crianças, temo que não poderemos escapar dos infames orfanatos. Não há o que possamos fazer enquanto elas forem menores de idade. Mas adoções acontecem a todo momento, com crianças de todas as idades. E eu tenho certeza de que as crianças daqui são tão fortes como as adultas. Elas conseguirão viver bem, mesmo em um orfanato.
– E quanto aos crimes? Todas as Wings já quebraram a lei. Cometeram assassinatos, roubaram, enganaram... seu amigo da Central de Inteligência não quer punir todas nós?
– Tenho certeza de que você sabe sobre acordos entre policiais e criminosos. Muitos mistérios são resolvidos dessa forma. O criminoso entrega ao policial o que ele quer em troca de algum favor; redução da pena, fuga da cadeira elétrica, às vezes até a total liberdade. Se você nos ajudar a fechar a Base das Wings, nenhuma de vocês será punida, desde que vivam honestamente daqui para frente. Naruto sabe que todas vocês só cometeram crimes porque Tsunade as obrigou. Sendo assim, vocês não podem ser punidas realmente. Vocês são vítimas também.
Sakura pensou por mais um tempo. Seria essa então a oportunidade perfeita de dar um fim em tudo aquilo? De conseguir não só a sua liberdade, mas a liberdade de todas as Wings? De dar paz à Ino? De finalmente ser dona de seu próprio destino? Quando fugiu pela primeira vez, estava sozinha e sem defesas, e Tsunade a caçou com todos os cães. Agora que essa nova oportunidade surgira, poderia deixa-la passar? Claro que não.
– Shikamaru. – Sakura o encarava séria, mas com determinação – Eu quero minha liberdade. Vamos consegui-la.
Shikamaru apenas sorriu para a rosada, e eles apertaram as mãos.
– Será um prazer trabalhar com você, Sakura.
– Digo o mesmo.
Esse plano maluco precisaria ser revisado várias vezes. Seria preciso coragem para convencer todas as Wings a abandonarem suas vidas, e mais coragem ainda para começar uma vida nova. Mas Sakura estava disposta a ariscar tudo isso por uma vida plena, por uma vida fora da gaiola. Naquele momento, sentiu sua liberdade muito próxima de si. E junto com essa liberdade, também sentiu Sasuke ali perto, incentivando-a a lutar por seus ideais. E só aquilo era suficiente para lhe dar a coragem e determinação necessárias. Agora ela começaria a dar os primeiros passos em direção a uma vida plena, em direção à luz no fim do túnel. E sabia que Sasuke estaria lá, esperando-a. Só aquilo já era o suficiente.
I wanna be free, I wanna be loved,
I wanna be more than you're thinking of
Everything seems to be estranged when you're alone
Eu quero ser livre, quero ser amado
Quero ser mais do que você está pensando
Tudo parece distante quando você está sozinho
Panic at the Disco – I Wanna be Free
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