Broken Wing - Aprendendo A Voar
35 Capítulo 35 - Histórias de Vida
Notas iniciais
Eu gostaria muito de perguntar e de ouvir as respostas dela, mas algo naquilo me assustava. Eu confrontaria uma outra Sakura que nunca conheci. Assim como no dia em que ela me salvou de Yoda e sua gangue.
Sakura’s POV
Eu estava longe de Konoha mais uma vez. Depois de Meiko fazer sua precoce decisão de seguir Tsunade, tudo o que faltou foi tirá-la do orfanato, pegar as poucas coisas que ela guardava na casa de Sasuke e estávamos prontas para partir. Tsunade fez uma última visita a Sasuke no hospital, onde Meiko pode se despedir. Chegamos em uma hora movimentada no quarto do moreno: a família dele estava lá, assim como enfermeiras para relizar um check-up em seus ossos quebrados.
A família de Sasuke parecia ter parado de implicar sobre a menininha, pois todos sorriram (ou tentaram sorrir, no caso de Fugaku) a ela e a cumprimentaram, apesar de Itachi ter perguntado para mim em particular se Tsunade sabia o que estava fazendo com “aquela garotinha” e eu o tranquilizei dizendo que tudo estava sob controle. Aproveitei para lhe desejar parabéns e felicidades com o casamento.
– Oh, você soube? – ele perguntou um pouco surpreso. – Obrigado.
Não consegui me despedir de Sasuke em particular, e fiquei grata por isso. Afinal, dias atrás, ele chegou com uma conversa estranha e logo admitiu que queria saber mais sobre mim e sobre meu passado. Claro, fui tomada de surpresa, por que ele iria querer saber sobre o meu passado? Eu nunca havia contado sobre isso para ninguém.
Mas como sempre, ele conseguiu me deixar interessada nisso, e ora, se ele não sabia nada sobre mim, eu também não sabia nada sobre ele. Quer dizer, o que o fez se tornar a pessoa que ele é hoje? Quais foram os motivos de ele ter crescido arrogante, frio, metido, sarcástico e... bem, como ele era quando criança? Para falar a verdade, nunca imaginei um mini-Sasuke correndo pela mansão da família brincando de pega-pega com o irmão, e nunca imaginei um Sasuke adolescente cheio de espinhas estudando para as provas do colegial.
Depois que Sasuke começou a me perguntar sobre mim, percebi que eu também queria saber sobre ele. O que mais aqueles seu olhos negros e profundos escondiam? O que havia por trás daquele imenso mar de escuridão que sempre me puxava e me sugava para dentro de sua alma, e mesmo assim continuavam sendo impenetráveis orbes negros? É incrível como eu já havia brigado com Sasuke, rido com ele e rido dele, conversado, discutido negócios e até transado com ele, e não o conhecia realmente. Não sabia de suas raízes e nem sua cor favorita. Será que isso acontece com todos os casais? Oh meu Deus, não que fôssemos um casal, nunca seríamos, mas admito que nosso “relacionamento” já chegou um pouco perto disso. Bem pouco. Minimamente.
E então não sei o que havia dado em mim, deve ser o efeito das conversas manipuladoras daquele ser, só sei que no final, eu queria descobrir mais sobre ele. Tanto quanto ele queria descobrir sobre mim. E acabei propondo um tipo de “trato”, e nem me pergunte o que diabos eu pretendia com isso. Mas ficou combinado de nos encontrarmos algum dia e tirarmos todas essas dúvidas sobre quem éramos. Bem, já que ele queria tanto isso né... e admito que eu também queria saber mais sobre ele.
Mas agora espero que esse reencontro nosso demore um pouco para chegar. Não sei se eu estou preparada para falar tão abertamente sobre minha vida para ele. Será que ele também tinha esse receio de me contar algo sobre seu passado, algo nunca dividido por ele com ninguém? Quem sabe...
****
Sasuke’s POV
Meus últimos dias no hospital foram os mais tediantes. Primeiro porque os médicos recomendaram repouso total por causa das minhas costelas. Sim, ficar deitado em uma cama o dia inteiro com só uma televisãozinha para me entreter. Meus amigos fizeram várias visitas também, mas não podiam ficar lá o dia inteiro. Mas a pouca companhia deles já ajudou. Suigetsu aproveitou para me contar horas e horas sobre a boate da qual eu era sócio, “Into the Groove”, Karin ficou tentando bancar a enfermeira sexy pra cima de mim, Juugo trouxe vários jogos de tabuleiro para me entreter e outros amigos também vieram me oferecer companhia.
É claro que nenhum deles sabia a história toda por trás da minha internação, e iria ficar daquele jeito. Meiko agora estava em algum lugar secreto ou em uma dimensão paralela com a peituda da Tsunade e as outras Wings. Ainda não acredito que agora ela iria ser uma. Minha frustração só era maior porque junto disso, Sakura também havia ido embora.
Mas eu sabia que nosso reencontro estava próximo. De mim ela não escapa. Estava decidido a conhecê-la melhor, a descobrir mais sobre ela mesma, alguma coisa que talvez me ajude a entender aquela cabeça dura e cheia de algodão-doce que ela tinha. Não sabia quando ela viria me ver, mas ela me prometeu que viria, afinal, fora ela mesma quem sugeriu aquele “Verdade e Desafio” que, segundo ela, não era “Verdade e Desafio”, e sim só “verdade”. Sakura não sabe se divertir mesmo.
Mas isso significava que ela iria responder todas as minhas perguntas, mas eu também teria de responder todas as dela. Mas o meu passado não me assustava (com exceção de algumas memórias estranhas que tenho) então não haveria problema em contar a ela um pouco sobre mim. Mas será que ela via problemas em contar sobre si mesma para mim? Alguma memória ruim ou estranha, algo que mudou completamente o rumo de sua vida...
Sakura, o que você esconde por trás desse rosto inexpressivo e por trás dessa armadura?
Mas finalmente, estávamos na metade de junho e eu havia recebido alta. Meu nariz e tíbia já estavam bons e um pouco de fisioterapia para voltar a andar me ajudou. Meu corte no abdômen já estava cicatrizado (e a cicatriz ficou maior do que eu pensava, mas ainda assim, pouco nítida) e minhas costelas também estavam recuperadas. Mas é claro que eu não poderia me esforçar muito e teria que ter cuidado nas próximas semanas para que não dê complicações ou para que eu não force um ferimento recém-consertado.
Mas sair do hospital também significava voltar à rotina cansativa da empresa, ter reuniões maçantes, trabalhar até tarde, e nas horas de folga, sair com os amigos. Mas por algum motivo, essa rotina estava muito mais agitada e cansativa, acho que parte se deve ao casamento de Itachi. Estávamos a um mês da data, eu ainda não havia comprado um presente e minha mãe e minha tia estavam deixando todos loucos com o planejamento do casamento. Meu pai e meu tio diziam a elas para deixar para a equipe de decoração e do buffet resolverem tudo, mas não, elas insistiam em decidir os mínimos detalhes, e às vezes era eu quem tinha de leva-las ao florista ou a algum lugar que vendesse esculturas de gelo. Até levei Konan para provar o vestido de noiva, pelo amor de Deus! E a desculpa era sempre a mesma: “Seu irmão não pode ir conosco, tem que ser surpresa”.
É por isso que eu não vou me casar. Mesmo minha mãe já tendo dado muitas indiretas diretas sobre eu arranjar uma namorada e comentando sobre quantos netos dos filhos ela gostaria de ter.
E assim o fim de junho chegou sem eu me dar conta, e quando finalmente cheguei em casa naquela sexta-feira e percebi que já eram duas da manhã, notei como o tempo havia passado. Eu não tinha notícias de Meiko desde que ela se fora com Tsunade, nem de Sakura. Pensei em um modo de contatar Tsunade para falar com a Gata e saber como ela estava, mas antes de perceber deitei na cama e desmaiei.
Acordei com o telefone tocando, murmurando palavras sem sentindo e com uma leve dor de cabeça. Quem me ligaria no sábado às 8 da manhã?
– Alô? – murmurei de mau humor, voltando a deitar na cama.
– Sasuke, é você? – uma vozinha animada me chamava do outro lado da linha. Reconheci e imediatamente sentei na cama.
– Gata, é você?
– Sim, Sasuke! – finalmente uma notícia da garotinha. – Faz tempo que eu não falava com você, então resolvi te ligar.
– E como você está, Gata? – na verdade, eu queria perguntar se ela estava sendo bem tratada, se havia sido bem recebida, se não estava sendo exposta àqueles treinamentos mortais de Tsunade...
– Estou muito bem, Sasuke! Aqui é bem legal! Eu já fiz amigas, brinquei e comecei a aprender um monte de coisas!
– Ah é, que legal... – era bom saber que pelo menos ela estava divertindo.
– Sim, eu também já saí para um monte de lugares, a Tsunade-sama já me deu presentes e eu conheci todas as Wings daqui! Elas são muito bonitas e fortes, eu quero ficar como elas quando eu crescer.
– Ah, é mesmo? – esperei Meiko terminar seu monólogo empolgado, para depois dizer que eu estava com saudades dela.
– Sasuke, tem uma pessoa que quer falar com você. – franzi o cenho ao ouvir as palavras de Meiko.
– Tudo bem. – falei. Ouvi o telefone ser passado da mãozinha de Meiko para uma outra pessoa.
– Olá, Uchiha. – aquela voz era inconfundível.
– Olá. Foi sua ideia pedir à Meiko para me ligar tão cedo assim no sábado?
– Talvez. – ela respondeu inocente. – Como estão seus ferimentos?
– Estou recuperado. Já faz duas semanas que saí do hospital.
– Hum, tudo bem. – um breve silêncio se fez entre as linhas, e eu me perguntava o motivo de Sakura querer falar comigo.
– Meiko parece feliz aí. – retomei um assunto.
– Oh sim, ela está indo muito bem. É uma das mais animadas aqui. – outro silêncio.
– Então, o que você quer comigo? – perguntei.
– Oh sim, bem... é sobre o casamento de seu irmão. Acredito que você já sabe que seu pai nos contatou, não é?
Oh, era aquilo. Na verdade, eu não sabia muito bem sobre isso, já que quando minha mãe me deu essa notícia, ela falava sem parar e nós estávamos no meio do comércio lotado de pessoas gritando. Eu me lembro de algumas palavras dela sobre esse assunto, algo como “Wings”, “Sakura”, “Tsunade”, “casamento”, “mansão”, e “segurança”.
– Pode me contar a história completa? Eu estou com a cabeça muito cheia esses dias. – ouvi-a dando um suspiro.
– Seu pai contatou Tsunade perguntando se algumas de nós poderíamos estar presentes no casamento como “seguranças”.
– E por que meu pai não quer contratar seguranças normais? Sabe, aqueles caras altos, musculosos, vestidos de preto e que nunca sorriem. Sem ofensas.
– Bem, não sei ao certo, mas parece que seu pai, ao mesmo tempo que quer ter alguma proteção na festa, também não quer passar uma imagem muito “séria” à mídia e resolveu chamar os nossos serviços, já que somos discretas, graciosas e belas.
– Ah... isso parece estranho, mas continue. – ouvi-a dando outro suspiro. Por que ela suspirava tanto?
– Bem, como eu não consegui contatar seu pai hoje de manhã, nem seu tio e nem seu irmão...
– Meu pai e meu tio estão viajando e meu irmão deve estar fazendo qualquer coisa que não me interessa. Ligar para mim foi sua última opção então?
– Não mude de assunto. Bem, como você é o único disponível – tentei ignorar a palavra “único” – vou falar com você mesmo e deixo com você passar o recado a seu pai. Pegue caneta e papel, Uchiha.
Resmunguei alto e obedeci, enquanto anotava o que Sakura falava rápido demais. Acho que ela estava fazendo isso de propósito. Anotei preços, os nomes das Wings disponíveis nessa data, os tipos de missão de “segurança” que elas faziam e outros detalhes. Apesar de tudo, contratar uma Wing também era um serviço burocrático. Ela terminou de falar e fez menção de desligar o telefone, mas eu a impedi.
– Espere. – eu disse de repente.
– O que foi? Alguma dúvida no que eu te disse?
– Não, não é sobre o casamento.
– Oh. – ela pareceu se lembrar de nossa última conversa. – Ainda quer fazer aquilo?
– Quero. E você até criou um trato. Não pode voltar atrás agora. – ela suspirou outra vez.
– Certo, vamos acabar logo com isso. Ainda não sei por que está tão interessado em saber sobre mim.
– Quais dias você está livre?
– Não terei muitos dias livres a partir de agora. E não pode ser algo que vá me atrapalhar e ninguém aqui da base pode saber que eu estou fazendo isso, entendeu? – ela falou a última parte em um tom ameaçador.
O pensamento de me encontrar às escondidas com Sakura, mesmo que seja só para jogar “Verdade e Desafio” me deixava excitado.
– Tudo bem, Sakura. Qualquer dia, noite, algum espaço entre alguma... “missão” sua. – eu ficava desconfortável em falar com Sakura sobre sua parte Wing.
– Bem, deixa eu pensar... ah sim. Nessa próxima sexta-feira, eu irei a uma cidade vizinha de Konoha renovar o contrato de um cliente. Depois que eu acabar, posso passar no seu território e a gente acaba logo com isso. – no meu território? Por que ela sempre tinha que parecer tão antipática?
– Certo, Sakura. Te espero na sexta.
– Tenha cuidado, Uchiha. – desligamos ao mesmo tempo e voltei a dormir.
****
Sakura’s POV
A semana havia sido agitada. Negócios com o Senhor Feudal, a menstruação de Ino estava atrasada, o que a deixou preocupada, negócios com os Uchiha sobre o casamento de Itachi, e agora eu havia insanamente concordado em ir até a casa do moreno mais irritante da face da Terra só para responder as perguntas medonhas dele sobre meu passado.
Isso era tão problemático em tantos sentidos, que eu nem sabia por onde começar. Claro, eu havia concordado com o Uchiha em fazer isso, só não sei o motivo que me levou a concordar com isso. Seria o fato de eu também querer saber mais sobre ele? Ou seria o fato de que eu finalmente confiava em alguém o suficiente para contar sobre meu passado? Mas eu confiava em Sasuke o suficiente para revelar a ele o que guardei comigo por todos esses 21 anos?
Liguei para ele a tarde, avisando que eu deveria chegar em Konoha somente no final da tarde. Ele me disse que estaria na casa dele e que iria anunciar minha chegada ao porteiro do condomínio. Foi só quando eu entrei naquele território cheio de casas enormes e de pessoas ricas e poderosas foi que comecei a me assustar. Minha vida não tinha nada de glamour e nada de riqueza perto da do Uchiha. Eram só memórias estranhas, embaçadas, ruins... eu não sabia se eu queria revelar tanto sobre mim para ele.
“Mas ele vai revelar o mesmo para mim”, eu pensava, e eu tinha curiosidade em descobrir sobre Sasuke. Mas a vida dele seria tão mais normal que a minha, e eu estava insegura quanto a isso. E se alguma coisa que eu contasse a ele o fizesse me olhar com desconfiança, repulsa? E se ele não gostasse de quem eu havia sido e no que eu havia me tornado? E se...
Bem, não adiantava voltar atrás agora. Abandonei meus pensamentos de insegurança e me foquei em tocar o interfone do sobrado à minha frente. Ele atendeu e eu entrei, fechando o portão, caminhando até a porta. Entrei e ele me cumprimentou apressadamente, enquanto terminava de passar alguns faxes para alguém e ao mesmo tempo, me oferecia algo para comer e beber, o que eu recusei, é claro.
Enquanto eu o observava passando os faxes, não pude deixar de notar como ele estava bonito. Usava uma calça jeans velha e desbotada modelo largo, com uma camiseta azul marinho sem estampa. Ele estava descalço, com os cabelos um pouco desarrumados e um olhar negro carregado de alguma coisa que eu não consegui identificar. Não era um visual elegante e nem aparentava ser de alguém cuja família era a Uchiha, mas caía bem nele. Era despreocupado, simples, arrojado e o deixava lindo. Um homem normal. E lindo. Chega, Sakura. Concentre-se.
Esperei-o terminar de passar os faxes e comecei a me sentir desconfortável por estar na casa dele, sozinha com ele, em uma sexta-feira a noite. Ótimo, Sakura. De tantos dias ocupados, você foi escolher justo a sexta-feira? Resolvi puxar algum assunto.
– Então, parece que já está tudo certo para o casamento de Itachi.
– É mesmo. Você vai vir?
– Não, vou estar de folga nesse dia. – ele me olhou, surpreso. Ele esperava que eu fosse vir?
– Então quem vem?
– Outras Wings. Elas podem tomar conta da festa tão bem quanto qualquer outra de nós.
– Mas eu pensei que você viria.
– Por quê? – perguntei confusa.
– Porque seria mais divertido. – revirei os olhos, ignorando a parte criança de Sasuke, enquanto ele se aproximava de mim.
– Quer ir lá pra cima?
– Lá em cima, tipo no seu quarto?
– Onde mais quer fazer isso? – eu não ia fazer aquilo no quarto dele. Não mesmo.
– Ora, na sala está ótimo.
– A sala está bagunçada. – ele me pegou pela mão e subiu as escadas, me puxando.
– Uchiha, se isso for algum planinho seu para...
– Relaxa. – ele respondeu sorrindo de canto. Parei no corredor do segundo andar e ele foi obrigado a parar também.
– Aqui está ótimo.
– Sakura, esse é o corredor. – ele disse levantando uma sobrancelha. – Quer jogar “Verdade e Desafio” em um corredor? – dei um tapa em seu ombro.
– Não vamos jogar “Verdade e Desafio”, idiota.
– Tá, que seja.
– E não vou ao seu quarto. Não pense que pode me atrair tão facilmente. – ele ficou me encarando de frente, com o olhar confuso, e finalmente ergueu as mãos em sinal de rendição.
– Certo, que seja aqui no chão duro do corredor.
– Ora, não seja por isso. – desci e peguei duas almofadas do sofá da sala, entregando uma para ele e sentando-me na outra. Ele me olhou divertido e fez o mesmo.
Ficamos sentados de pernas cruzadas como índios, um de frente para o outro.
Ele me olhou profundamente, como se tentasse descobrir alguma coisa sobre mim sem precisar perguntar nada. Estava arrependida de ter concordado com isso. Mas eu não poderia fugir agora. Estava prestes a contar sobre o meu passado para Sasuke no corredor da casa dele, sentada em uma almofada. E ele estava prestes a fazer o mesmo. Coisa boa não poderia sair dali.
Narração em terceira pessoa
Olhavam-se e olhavam-se. Sasuke via Sakura a sua frente, com seu cabelo cor-de-rosa comprido preso em uma longa trança lateral, caindo-lhe por seu ombro direito até um pouco abaixo de seus seios, cobertos por uma blusa cavada cinza com algumas estampas em vermelho e um short jeans escuro que ia até a metade da coxa. O par de all star da rosada, junto com suas meias brancas, estava jogado perto da escada.
– Bem, vamos começar então. – ela falou em um tom apressado. Sasuke sabia que aquilo deveria exercer um certo tipo de pressão nela, mas ela havia concordado com aquilo, não é?
– Certo, como isso vai funcionar?
– Bem, para isso ser justo para ambos os lados, pensei em algo como para cada pergunta feita, há duas respostas. Uma minha e outra sua. – ela terminou de falar revirando os olhos, como se quisesse fugir daquilo. – Então basicamente, a pergunta que você faz você também responde. E vice-versa para mim.
– Esperta. – Sasuke deixou um sorriso de canto escapar. – Certo, assim vai ser mais divertido. Agora sobre a natureza das perguntas... será vale-tudo. – Sakura o olhou desconfiada. – Vale qualquer pergunta, sobre qualquer época da vida; qualquer assunto pessoal, de negócios, envolvendo ou não terceiras pessoas... e é claro, a resposta tem que ser 100% verdadeira. – a rosada deu um longo suspiro, e o moreno encarou aquilo como um sim. – Bem, então... as damas primeiro.
Sakura não sabia o que perguntar a Sasuke. Havia muitas coisas que queria saber sobre ele, mas no momento, não lhe vinha nada à cabeça, e o que lhe vinha eram perguntas que ela mesma não queria responder. Estava começando a se arrepender de sua dupla estratégia, originalmente pensou naquilo para o Uchiha não lhe fazer alguma pergunta que ele mesmo não quisesse responder. Pensou em fazer perguntas leves e banais, quem sabe assim ele também não fosse tentado a lhe perguntar coisas muito pessoais? Tomou fôlego e começou a falar.
– Qual é sua cor favorita? – Sasuke ergueu uma sobrancelha e a olhou decepcionado.
– Sério, Sakura? Não conseguiu pensar em mais nada?
– Cale a boca e responda. – ele revirou os olhos e suspirou.
– Tanto faz, não tenho uma cor favorita. Provavelmente preto. Você?
– Vermelho-sangue. – Sasuke sorriu brevemente.
– Bem, minha vez... você conheceu seus pais? – ele perguntou de um jeito sério, e em seus olhos havia curiosidade e simpatia.
– Conheci, mas não lembro muita coisa deles. – ela não havia se abalado tanto pela pergunta, afinal seus pais eram uma parte quase inexistente de sua vida. – Essa pergunta não vale para você, já conhece seus pais.
– E se eles fossem pais adotivos? – Sasuke sugeriu com um tom de divertimento. Sakura revirou os olhos.
– É, quem sabe...
– Só estou dizendo, Sakura, para não apressar a resposta antes de ouvi-la. Pode ter mais coisa lá do que você julga. – ela foi fisgada por seu olhar negro enquanto ele dizia aquilo. E era verdade, ela mesma havia admitido que não sabia nada sobre ele, não o conhecia nem um pouco. Ela não sabia os segredos por trás dos olhos dele. – Sua vez. – a voz dele a tirou daqueles pensamentos e ela tentou pensar rapidamente em uma pergunta.
– Costumava brigar muito com seu irmão?
– Ah, sim. Muito. Ainda brigo. Mas as coisas eram mais “selvagens” quando éramos pequenos.
– Como assim? – ela perguntou, curiosa.
– Bem, uma vez, Itachi e eu estávamos brincando de ser super heróis, eu devia ter uns 6 anos. Mas aí nós começamos a brigar porque só um de nós podia voar, e a briga acabou quando eu joguei o secador de cabelo da minha mãe nele, mas errei e acertei a janela. Meus pais chegaram, viram aquela cena e nós dois apanhamos de cinta. – Sakura estava rindo daquela confissão, e imaginava um pequeno Sasuke brigando com seu irmão mais velho. O moreno a olhava, divertido. – Não ria, fiquei dolorido uma semana depois da surra. E é sua vez de responder.
– Não tenho irmãos.
– Ouvi dizer que vocês Wings chamam umas às outras de “irmãs”.
– Certo, você venceu. Não costuma haver muitas brigas entre mim e elas. Na maioria das vezes é com Ino, mas não é nada demais. Brigamos no almoço e no fim da tarde estamos rindo de novo. Sua vez de perguntar.
– Há quanto tempo você está com Tsunade?
– Sasuke, essa pergunta não vale para você. – ela respondeu, indignada.
– Eu respondo uma adaptação dessa pergunta.
– Ah é, e qual seria?
– Responda, Sakura. – a rosada bufou e respondeu de mau gosto.
– Há 19 anos. – Sasuke fez a rápida conta na cabeça.
– Está com ela desde seus dois anos?
– A pergunta foi respondida. Agora, há quanto tempo você... mora sozinho? – ela perguntou, derrotada.
– Há 3 anos. Sua vez.
– Qual era sua matéria favorita na escola?
– Matemática.
– Mentira.
– Claro que não, por que eu mentiria sobre isso? Eu não posso gostar de matemática?
– Pode, mas é... estranho você gostar de matemática. – Sasuke soltou um riso.
– Você não me conhece o bastante, Haruno. E você?
– Eu gostava de história, Uchiha. Sua vez de perguntar.
– Qual foi seu conto de fadas favorito na infância? – ela levantou uma sobrancelha, imitando-o no começo.
– Sério, Sasuke? Não conseguiu pensar em mais nada? Bem, deixa eu ver... Peter Pan. O seu?
– O Rei Leão. Sua vez.
– Já chegou a fazer faculdade?
– Sim, mas desisti logo no primeiro semestre.
– Por quê? Qual curso você fazia? – Sakura se viu intrigada por aquela resposta. Realmente, havia muito mais em Sasuke que ela desconhecia.
– Sua vez.
– Sasuke!
– Uma pergunta por vez, Haruno. E agora é você quem responde.
– É óbvio que não fiz faculdade. Só me infiltrei em uma para completar uma missão. – Sasuke a olhou com interesse. – Sua vez de perguntar.
– Com quantos anos deu seu brimeiro beijo e com quem foi? – a rosada deu um suspiro. Ela não esperava que ele perguntasse sobre sua vida amorosa/sexual tão cedo.
– Com 12 anos. Quem foi não importa.
– Por quê? Foi algum menininho que você encontrou enquanto estava em uma missão?
– Não, idiota. Foi com a Ino.
– O que?! – Sasuke achou aquela resposta muito divertida e nada comum, e começou a rir. – Você e Ino? E por que não continuaram o romance? Você tinha dúvidas sobre ser lésbica na época?
– Ei, são perguntas demais! Acalma a periquita, Uchiha.
– Pelo visto você foi quem precisou acalmá-la. – ela levantou-se da almofada e começou a lhe dar socos no braço, enquanto ele se protegia, ainda rindo. – Calminha, Sakura, foi brincadeira. Eu só não esperava isso. – ela voltou a se sentar. – Mas sério, por que com Ino?
– Não me lembro dos motivos, mas foi por brincadeira. – ele continuava rindo, e quando Sakura ameaçou espanca-lo de novo, Sasuke fez um esforço para parar.
– Certo, o meu foi aos 11 anos. Ela se chamava Anne. Sua vez.
– Diga algo que você odeia fazer, mas é obrigado quando precisa. – Sasuke pensou por um momento.
– Participar de algumas reuniões da empresa. São um pé no saco. Você?
– Consolar algumas novas recrutas que chegam na base e não param de chorar. Não foi o caso de Meiko, não se preocupe. Sua vez.
– Como foi sua infância com Tsunade? – Sakura pensou por um momento.
– Essa é uma pergunta bem vaga.
– Faça o seu melhor. – a rosada deu um longo suspiro.
– Foi... não sei, diferente. Eu não saía da base, não era muito ativa nem conversava muito com as outras pessoas. Era sempre eu quem tinha que recepcionar novas recrutas, e eu odiava isso, porque aquelas crianças pareciam tão tristes e tão sozinhas para mim... – Sasuke ouvia a tudo aquilo com atenção. – Eu treinava desde cedo, aprendia o que me ensinavam e nunca questionava. Ino foi a única amiga que fiz nessa época, eu não gostava de me enturmar e ouvir sobre a vida das outras. Acho que minha infância foi um pouco vazia. – Sasuke ficou em silêncio depois daquela declaração. Talvez Sakura tinha tanta dificuldade em assumir seus sentimentos por causa dessa época. Será que a tristeza sentida por ela quando criança não poderia tê-la deixado sozinha, distante e insegura em relação a si mesma? – E a sua? – o moreno ouviu a repentina voz e se recuperou de seus pensamentos.
– Ah, foi normal. Eu gostava de correr, me sujar, brigar com meu irmão... dei trabalho para minha mãe, ela ficava louca quando me via em cima de uma árvore, pendurado em algum galho. – um silêncio estabeleceu-se ali. Sakura sorriu por dentro ao imaginar Sasuke como uma criança feliz e saudável, correndo por aí e gostando de se sujar. – Sua vez de perguntar.
– Ah. Bem... qual é o pior defeito que você vê em si mesmo e qual você vê em mim? – ela tentou se concentrar novamente, apesar de ter ficado com receio de perguntar aquilo.
– Hum, essa é interessante. Em mim mesmo, acho que eu diria... minha arrogância.
– Uau, o arrogante admitindo sua arrogância? Isso sim é sinal de humildade.
– Pois é, uma humilde contradição. E o defeito que eu vejo em você é... – ele pareceu pensar longamente. – Sua teimosia. – Sakura deu um riso de lado. – E você, qual é pior defeito que vê em si mesma e em mim?
– Em você, tenho que concordar ser a arrogância. E em mim... meu nervosismo. Fico muito estressada, e às vezes por pouca coisa. Já me rendeu várias brigas com as meninas da base.
– É, você pode ter razão nisso também. Minha vez, e eu farei a pergunta contrária à sua. – ela olhou-o curiosa. – Qual é a melhor qualidade que você vê em mim e em si mesma?
– Está me pedindo para te elogiar, Uchiha? – Sasuke sorriu.
– Bem, todos nós temos pontos negativos e positivos. Eu não posso ter só pontos negativos para você, Haruno. Responda. – ele a encarou sorrindo, desafiando-a. Ela retribuiu o olhar.
– Certo... sua melhor qualidade é... você é responsável. – ela admitiu. – Apesar de ser arrogante, metido, egoísta e todas as coisas más do planeta...
– Ei!
– ... você é responsável no que faz, Uchiha. Seja no trabalho ou quando você resolveu cuidar de Meiko ou enfim... parabéns por agir como um adulto nessas horas. – Sakura curvou-se dramaticamente em uma reverência, ao qual o moreno riu. – E continuando, a melhor qualidade em mim mesma... ah sim: minha habilidade com o arco e flecha. Posso acertar qualquer ponto de qualquer alvo a qualquer distância. – ela terminou de dizer aquilo orgulhosa de si mesma.
– Não duvido. – Sasuke riu. – Agora minha vez de responder essa... a melhor qualidade que acho em mim seria meu jeito de persuasão. Sou bom em convencer as pessoas a fazerem o que eu quero.
– Nisso odeio admitir concordância. Você é perigoso com essa sua língua. – Sakura calou-se imediatamente pelo duplo sentido de sua frase, e Sasuke começou a rir, fazendo-a ficar vermelha de vergonha e de raiva. – Continue respondendo, idiota.
– Ah sim – Sasuke se recuperou do riso, mas não esquecendo a fala da rosada – A maior qualidade sua é... sua força. Você é muito forte, Haruno, tanto fisicamente como emocionalmente. Também me curvo em sua direção. – ele imitou o gesto feito por ela. – Sua vez, Sakura.
Sakura juntou as mãos, pensando em uma pergunta.
– Qual foi o seu maior medo de infância?
– Hmm... eu tinha medo do Freddy Krueger. Uma noite, quando eu era pequeno, vi meu irmão assistindo o filme e fiquei com medo de dormir depois pensando que ele iria me matar no sonho.
– Coitadinho de você... – Sakura debochou.
– Pois é, fiquei com tantas olheiras nessa época que minha mãe achou que fosse alguma doença. Mas e o seu maior medo de criança?
– Ir a uma missão em nome de Tsuande e ser morta nela.
– Seu medo de criança era morrer em uma missão?
– Sim. Hoje eu rio disso.
– O natural não seria ter medo disso até hoje?
– Não. Esse foi um medo só de infância.
– Certo, então como é a minha vez de perguntar... qual é o seu maior medo hoje?
– Você não perde uma, heim, Sasuke?
– Nunca, Sakura. – o moreno riu e Sakura bufou irritada.
– Tenho medo de... perder uma amiga. E você? – Sasuke não ficou satisfeito com a resposta dela, mas foi obrigado a aceitar.
– Tenho medo de me tornar como o meu pai. – aquelas palavras penetraram no ouvido de Sakura, mas ela soube que o mais atingido nisso era o moreno. Bem, fazia um pouco de sentido. Ele nasceu em uma família rica de grandes empresários, é óbvio que esperavam muito dele, queriam vê-lo herdar o negócio da família... mas será que ele queria tudo aquilo? Será que ele realmente temia ficar como o pai, alguém viciado em negócios, sempre de mau humor, quase sem tempo e paciência para a família? Não imaginava que Sasuke temia ficar como ele um dia. – Sua vez de perguntar.
Sakura piscou algumas vezes, até perceber que teria de bolar uma pergunta.
– Bem... qual é o nome do seu melhor amigo?
– Hum, não sou bom em escolher um melhor amigo. E você?
– Eu concordo com você. Eu diria que é Ino, mas ainda há outras meninas de quem sou muito próxima.
– Certo, minha vez. Não me chame de pervertido, mas... como foi quando você perdeu a virgindade? – ele a olhava curioso e ao mesmo tempo malicioso.
– Sasuke, essa é uma pergunta muito pessoal. Não vou responder.
– “Vale qualquer pergunta, sobre qualquer época da vida; qualquer assunto pessoal, de negócios, envolvendo ou não terceiras pessoas”, foi o que eu disse no começo e você concordou, Haruno. Responda.
– Mas Sasuke, eu não quero falar para você sobre como perdi minha virgindade! – Sakura corava e olhava suplicante e brava. Não acreditava na ousadia daquele Uchiha.
– Qual é o problema? Vou ter que te contar sobre a minha também.
– Não quero saber isso sobre você!
– Responda a pergunta ou eu vou adivinhar a resposta sozinho. Minha imaginação é fértil, sabe... – Sakura o olhou com raiva. Aquele moreno realmente sabia persuadir alguém. Não queria ele pensando em coisas estranhas e pervertidas a respeito dela, então só deu a ele o olhar mais mortal que conseguiu e contou, derrotada.
– Certo. Eu vou contar. – Sasuke sorriu de lado. – Pervertido.
– Sakura...
– Fica quieto, idiota. Deixa eu ver... eu tinha 17 anos, foi com um contato de Tsunade.
– Um cliente? – Sasuke a olhava e ele parecia indigando. – Aquela velha te entregou virgem a um cliente só para satisfazê-lo?
– Não, Sasuke! Fica quieto e me deixa terminar, foi você quem pediu isso. – ele se calou, irritado. – Não era bem um cliente... era um contato de Tsunade, nos conhecemos quando ele foi fazer uma visita à base. Na verdade, é meio complicado de contar. – Sakura olhava para todos os lados, nervosa, suas mãos mexiam em gestos involuntários. Sasuke achou aquilo estranho e problemático. – Entenda, Sasuke, nós, Wings, não... somos como outras garotas quando perdem a virgindade e é tudo novo para elas. Nós já somos... “treinadas” antes.
– O que? – Sasuke não sabia se estava mais surpreso ou indignado.
– Bem, nós somos treinadas a como... satisfazer um homem, e quando Tsunade sentia que estávamos prontas, ela levava alguns de seus contatos para nos conhecer, e éramos obrigadas a passar bastante tempo com ele, até que... acontecesse.
– Como aquela velha da Tsunade pode fazer isso com as garotas lá? Isso é crime!
– Não, Sasuke, acalme-se. Fica calmo, que coisa, se eu não me revoltei por causa disso, você também não vai! – Sakura olhava-o firme. – É por isso que eu não queria contar. Tsunade só faz isso para nós ganharmos experiência...
– Experiência? Só se for em traumas, porque...
– Fica quieto, criatura! – o grito de Sakura pareceu ter silenciado o moreno, que respirava pesadamente e a olhava com raiva. – Bem, satisfazer clientes sexualmente é uma de nossas missões, você sabe disso. – a voz de Sakura estava embargada e ressentida. – E não poderíamos chegar a um cliente virgens e despreparadas. Então Tsunade faz esse teatrinho para nos ajudar com a dor e a timidez das primeiras vezes e para treinarmos o que aprendemos. É isso.
Sasuke não conseguia aceitar aquilo. Nunca foi um grande defensor das mulheres ou qualquer coisa parecida, mas até ele percebeu que aquilo era errado, doentio, um crime.
– E como foi sua primeira vez com esse tão “honrado” contato? – havia raiva em sua voz.
– Foi normal, não vou descrever em mínimos detalhes. Ele me tratou bem. Fim da história. Sua vez. – Sakura estava incomodada com aquele olhar negro. Não queria trazer problemas a si ou à Tsunade, não havia necessidade de fazer escândalo.
– Ela faz todas as queridas filhas dela fazerem isso? Meiko vai ter que passar por isso um dia? Ela vai ser “treinada” e depois vai conhecer algum carinha que parece bacana só pra ele poder...
– Não, Sasuke. Ouça o que eu digo. Se Meiko não estiver pronta para aquilo ou se ela realmente não quiser, Tsunade não irá obriga-la. Meiko está segura lá e sempre será bem tratada, não se preocupe com isso. Sua vez de responder. Como perdeu a virgindade? – a rosada só queria fazê-lo parar de pensar no assunto, entretê-lo na conversa de novo.
Mas Sasuke parecia não se importar mais com isso. Seus olhos escuros demonstravam raiva e desconfiança. Sakura deu um longo suspiro, levantou-se da almofada e seguiu até a cozinha. Sasuke não se mexeu. Ela voltou minutos depois com dois copos de água e um pacote fechado de ursinhos de gomas, o qual ela abriu e o ofereceu, mas ele não pegou.
– Se você não comer, eu como sozinha. E eu estou com fome. – ela pegava uma mão cheia e colocava na boca como uma criança. Sasuke finalmente se rendeu e pegou um pouco dos doces, soltando um leve sorriso de lado.
– Pronto – Sakura continuou depois de o moreno ter comido e bebido um pouco de água – Agora conte-me sobre sua vergonhosa experiência de ter brochado na primeira vez.
– Vai sonhando. – parecia que ela havia feito o moreno esquecer o assunto anterior. Isso era bom. – Eu estava no segundo ano do ensino médio. Ela era morena e tinha olhos azuis. O nome dela era Naruko. Era a menina mais linda de toda a escola, e eu sabia que ela já tinha transado com o capitão do time de futebol. Haveria um baile de inverno e eu tomei coragem e a chamei para ir. Depois de algumas horas dançando, ela me disse que estava entediada e queria ir em outro lugar. Saímos do salão do baile e ela me levou a uma sala de aula vazia e...
– Não acredito. Transou com a garota em uma sala de aula às pressas?
– Bem, a adrenalina de sermos pegos ajudou no clima. Ela era safada.
– Sasuke! – Sakura não sabia o que pensar sobre aquilo. O moreno à sua frente não tinha jeito. – É óbvio que essa garota sabia o que ia acontecer, ela pelo menos teve a decência de levar camisinha?
– Não, mas ela me disse que tivemos sorte.
– Sorte? Você é um pervertido mesmo. – a rosada lhe deu um tapa no braço. Sasuke parou de rir e a olhou sério.
– Vou confiar em você quando diz que Meiko será bem tratada em todos os aspectos, Sakura. Mas se eu descobrir que alguma coisa aconteceu a ela ou que ela foi forçada a fazer qualquer coisa...
– Eu já disse, Sasuke. Não se preocupe com Meiko. Ela está feliz. – os olhos verdes de Sakura mostravam sinceridade. Sasuke apenas suspirou.
– Certo, sua vez de perguntar. – Sakura percebia que ele ainda não havia voltado ao normal, então pensou em algo divertido para perguntar.
– Se você pudesse ter super poderes, qual seria? – Sasuke a olhou confuso e ao mesmo tempo divertido.
– Sério mesmo?
– Seríssimo. – ela sorriu e ele retribuiu o sorriso.
– Meu super poder provavelmente seria o de ler mentes. Mas eu também me contentaria com uma visão a laser ou ficar invisível.
– Você estava certo, Uchiha. Sua imaginação é mesmo fértil.
– E qual seria o seu super poder, Haruno?
– Meu super poder seria o de regeneração. Assim eu não ficaria ferida em uma batalha contra os vilões.
– E depois eu tenho a imaginação fértil? Tudo bem. – Sasuke ria levemente. O pacote de ursinhos de goma estava quase no fim. – Minha vez. Diga dois livros que você leu: um que você odiou e outro que você gostou.
– Certo. Eu não gostei de “50 Tons de Cinza”.
– É aquela hitória pornô sadomasoquista?
– Sim. – antes que Sasuke a interrompesse para mencionar algo sugestivo, ela continuou. – E um que li e gostei muito foi “Dom Casmurro”. E você?
– Li um livro no colegial chamado “A Cidade e as Serras”. É um porre. E há um tempo, li “Capitães da Areia”. É muito bom. Sua vez.
– O que você fez em um dos melhores dias de sua vida? – Sasuke pareceu pensar por um longo tempo, como se quisesse escolher o momento mais especial dentre tantos outros.
– No dia em que eu desisti da faculdade, uns amigos resolveram viajar para lugar nenhum. Arrumamos uma caminhonete velha e um fusca amarelo. Quinze pessoas loucas, gritando, desviando da estrada principal, indo parar no meio de um campo verde com uma fazenda no horizonte. Invadimos a fazenda e roubamos feno. Alguém pegou um isqueiro e fizemos uma pequena fogueira com a palha. Sentamos ao redor dela, eu me lembro de ter pegado o violão, e tocamos e cantamos até o outro dia.
Sasuke ficava estranhamente bonito e atraente contando aquilo. Ele sorria, como se voltasse a viver aquele dia, como se quisesse voltar a viver aquele dia. Seus orbes tinham um tom escuro saudosista e outro tom mais escuro ainda de tristeza. Sakura não entendeu aquilo, mas percebeu que aquela lembrança era muito importante para ele. E nunca pensou em Sasuke daquela maneira. Como alguém que montava em um carro velho, ia até o meio do nada e vivesse despreocupado, cantando e falando bobagens com os amigos. Será que ele não fazia mais isso?
– Não sabia que você tocava violão. – de todos os fatos que lhe interessara naquela história, resolveu mencionar aquele.
– Ainda toco. Só não tanto como antes. Eu lembro que naquele dia, quando a noite chegou, ficou frio, e quase todo o nosso feno já havia queimado. Então invadimos a fazenda de novo e roubamos mais. Mas o dono nos pegou e correu atrás de nós com uma espingarda. – Sakura divertia-se observando Sasuke relembrar aquilo, era como se fosse um outro Sasuke. – No final, o dono desistiu e conseguimos fazer outra fogueira. Cantamos mais um pouco e dois casais se formaram naquela noite. Um deles, com direito a sexo e tudo.
– Como assim? Transaram ali, a céu aberto, na frente de todo mundo?
– Mais ou menos. Tiraram um cobertor não sei de onde e eles ficaram lá embaixo. Mas foi divertido. Bem, foi a segunda e última vez que fizemos aquilo e foi meu último dia de verdadeira liberdade.
Sakura não havia processado bem as palavras dele.
– Quer dizer que você não é livre agora? – Sasuke desviou o olhar.
– Ainda não é sua vez de perguntar, Haruno. Responda o que você fez em um dos melhores dias de sua vida.
– O meu não chega nem perto do seu. – era verdade, Sakura não tinha uma história tão interessante para contar como Sasuke.
– Teste-me. – foi o que ele simplesmente disse. Sakura deu um pequeno suspiro e começou.
– Um dia, eu, Ino, Ten Ten, Hinata e Temari recebemos uma...
– Ei, espera. Quem são Ten não sei das quantas e o resto desses nomes?
– Ah, desculpe. São outras Wings. Enfim, eu e elas recebemos uma missão estranha. Nós devíamos ter uns 16 anos. Ia haver um casamento no norte do País do Fogo, de algum cara muito importante, tipo seu pai. Ia ser uma festa enorme, com todos os tipos de pessoas ricas, jornalistas, fotógrafos, e afins. Eu e as meninas recebemos a missão de cuidar dos preparativos da festa; ver se tudo estava no lugar, impedir qualquer pessoa de chegar perto das mesas, das câmeras, dos quartos dos noivos e claro, da cozinha, onde havia todas as comidas e doces, e havia muitos doces lá.
“Pelo menos uns cinco bolos redondos de três andares cada, de largura enorme mesmo para um bolo. E havia também os docinhos menores, sorvete, uma taça gigantesca de ponche, e claro, a comida do jantar. Eu e as meninas entramos na cozinha e nos deparamos com todas aquelas comidas e doces e começamos a zombar do casamento. Que eles teriam que ter convidado todo o País do Fogo para aquela quantidade de refeição, como o leitão parecia mal assado, como as cores das toalhas de mesa eram cafonas e não combinavam... não sei, mas no final estávamos rindo muito e se eu não me engano, Ten Ten se empolgou e disse algo como: “Nem esse bolo é tão gostoso como parece” e de repente, ela havia metido a mão no bolo e enfiado na boca.”
“Nossa primeira reação foi o medo, é claro, nossa amiga havia exagerado, e não tínhamos como recolocar o bolo comido de volta. Mas depois que Ten Ten percebeu o que fez, ela começou a rir mais ainda, e ela não parava. E todas nós a seguimos, e quando percebemos, já havíamos destruído todos os bolos, comido os docinhos, derrubado sorvete nas carnes. Era uma guerra de comida, e até o ponche caiu no chão da cozinha. Lembro de ter escorregado e levado algum prato junto comigo, mas eu não conseguia parar de rir. No final, outros funcionários ouviram o barulho e nos pegaram daquele jeito, com toda a comida arruinada. Os noivos tiveram de remarcar o casamento, Tsunade pagou uma indenização enorme e nos castigou por um mês. Apesar de parecermos arrependidas por fora, lá no fundo nós ríamos de tudo o que aconteceu. Até hoje nós lembramos disso em conversas e nenhuma de nós se arrepende pelos danos causados.”
Sakura terminou de contar aquela história com uma empolgação diferente. Sasuke nunca a vira tão animada ao lhe contar algo, principalmente sobre sua vida pessoal. Ela parecia tão inocente nesses relatos, e conseguiu imaginar com toda a clareza uma Sakura mais jovem, mas de cabelos igualmente rosas, com sua amiga Ino e outras que ele não conhecia, se lambuzando e agindo como crianças em meio a doces e bolos. O pensamento daquilo o deixou excitado, vê-la feliz, suja de glacê e agindo como uma louca. E ele via o sorriso bobo na cara dela ao lhe contar aquilo e sorria bobamente também, sem entender.
– Foi uma história interessante. – ele disse por fim.
– Não foi sentimental como a sua.
– Não, mas a cena deve ter sido engraçada. Você, Ino e um bando de loucas destruindo a festa alheia.
– Bem, foi divertido, não posso negar. – eles riram juntos ante a última frase da rosada e entraram em mais um silêncio. – Sua vez de perguntar. – a rosada continuou.
Sasuke não sabia mais o que perguntar. Sentia que só saber sobre o dia quando a rosada havia rido como uma criança era suficiente. Como se não precisasse saber mais nada dela. Como se aquilo bastasse. Sentia-se mais próximo a ela por ela ter-lhe contado aquelas histórias. Tentou pensar em alguma pergunta a altura, mas tudo o que conseguiu foi:
– Qual é o seu estilo de música favorito? – ela pareceu gostar da pergunta. Endireitou as costas e respondeu.
– Indie e os vários tipos de rock, desde o alternativo até o punk rock. – Sasuke arqueou uma sobrancelha. – Por que essa cara? Não posso ter cabelo rosa e gostar de um bom solo de guitarra?
– Não disse nada, Sakura.
– E você, qual é a sua música, Uchiha?
– Basicamente, o mesmo. Grunge, rock, blues. Qualquer coisa para ficar meio doido. – Sakura riu perante aquela afirmação.
Entraram em silêncio novamente. Os ursinhos de goma haviam acabado. Sakura havia conhecido um outro lado de Sasuke nessa noite, e o mesmo valia para o moreno. Entrou na casa dele nervosa, mas acabara se divertindo, sentindo-se bem ao contar sobre aspectos de sua vida a ele que nunca confidenciara a ninguém. E sentia que ele havia feito o mesmo com ela. Haviam descoberto mais sobre cada um em uma noite do que em um ano. E havia valido a pena.
– Mais perguntas? – ele falou depois do divertido silêncio. – É sua vez.
– Não consigo pensar em mais nada. – ela falou, derrotada. Sasuke a encarou.
– Não é minha vez, mas eu tenho uma última pergunta. – o tom sério dele a deixou curiosa e desconfiada.
– Então faça.
– Antes me prometa que você não vai ficar brava ou me bater ou sair fugindo de casa. – Sakura estranhou ainda mais aquilo. O que ele queria lhe perguntar?
– Tá, prometo. Pergunte.
Sasuke esfregou calmamente as mãos e a olhou profundamente.
– O que você realmente sente em relação a mim, Sakura?
Tell me your secrets, and ask me your questions
Oh let's go back to the start
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start
Conte-me seus segredos, faça-me suas perguntas
Oh, vamos voltar ao começo
Ninguém disse que seria fácil
Ninguém nunca disse que seria tão difícil
Oh, leve-me de volta ao começo
Coldplay – The Scientist
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