Broken Wing - Aprendendo A Voar
26 Capítulo 26 - Covarde
Notas iniciais
Ele e Sakura não poderiam ficar juntos para sempre.
Sakura’s POV
Ontem tive um dia de cão. Graças ao meu estúpido erro de não ter descoberto o porão na casa do Yoda, tomei cuidado extra enquanto procurava nas casas de Claudio Martinez, Yuzuru Suguyama e Aloka Tanketsu. Todos eles moravam sozinhos em casas pequenas e afastadas do centro, em bairros menos favorecidos. O melhor emprego pertencia a Yoda, o de policial militar. Martinez era taxista, Sugu trabalhava em uma mecânica de automóveis (um trabalho cansativo por um salário pequeno), e Aloka era atendente de uma lanchonete do centro.
Todos eles tinham alguma passagem pela polícia ou um histórico ruim entre conhecidos. O problema de Aloka era com drogas. Foi pego em uma boca de tráfico quando tinha 16 anos, foi para uma prisão de menores, de onde foi libertado quando atingiu a maioridade. Martinez, que antes trabalhava como caixa de supermercado, foi demitido por ter roubado do mesmo caixa que era responsável. E sempre havia denúncias de clientes e moradores locais em relação ao jeito violento com que Sugu trabalhava: sempre gritando com clientes, fazendo um trabalho mal feito e até agredindo fisicamente quem tivesse feito alguma coisa que ele não gostou. Esses homens eram problemas. O mais perigoso, como minhas suspeitas já diziam, era Sugu. O mais violento, boca-suja e impaciente. O líder do grupo. Quem eu teria mais prazer em matar (se assim tivesse que ser).
Enfim, dessa vez eu fiz do jeito certo: instalei escutas e revistei cada pedacinho de suas casas, aproveitando também para ir à casa de Yoda e descobrir sobre o tal porão. A entrada era por meio de um alçapão, na cozinha, debaixo de um armário velho (e pesado). Ao abrir o alçapão, fui conduzida por uma escada não muito comprida até um pequeno cômodo. As únicas coisas que havia ali eram duas camas, um balde, uma mesinha, duas cadeiras e uma estante com caixas e livros. Ino podia estar certa. Esse lugar é perfeito para ser um cativeiro. E também explicava o fato de a menina ter uma faca quando Sasuke a encontrou: ao sair dali, ela se encontrava na cozinha. Podia muito bem ter pegado a faca em cima da mesa ou dentro da gaveta. Instalei as escutas rapidamente e saí dali. O cheiro de pó era horrível. Pessoas alérgicas teriam tido um ataque ou algo do tipo.
Fora isso, graças às passagens de todos pela polícia em algum momento de suas vidas medíocres, eu havia conseguido registros o suficiente sobre a história de cada um, além de algumas conversas bem ensaiadas com pessoas do trabalho e da vizinhança de cada um. É, foi um dia cansativo. Mas agora eu precisava de Ino para me ajudar a analisar as informações recolhidas, por isso eu iria me reunir com ela hoje. Assim já bolaríamos um plano de ação e ficaríamos prontas para sábado a noite, a data da próxima reuniãozinha deles.
Almocei com calma enquanto assistia o noticiário do dia, que não mostrou muita coisa de interessante. Eu até poderia dar uma notícia interessante a eles envolvendo a história de quatro assassinos pedófilos. Deixei escapar um sorriso malicioso enquanto colocava meu prato na pia e o lavava. Me chame de sádica, louca, assassina, do que quiser – apesar de não necessariamente gostar de matar, eu tinha uma certa satisfação em punir as pessoas podres desse mundo. Terminei de lavar a louça e meu celular tocou com a chegada de uma mensagem. Era de Ino.
Acabei de deixar Meiko na casa de uma amiguinha. Me dá seu endereço que já vou aí!
Respondi com o nome da rua e aguardei a chegada da minha amiga loira, que não demorou. Ouvi a campaninha e mal atendi a porta, ela já veio me abraçando.
– Sakurita! Que bom te ver de novo! – honestamente, não entendia o porquê daquela animação toda. Só estávamos a 12 horas sem nos ver.
– Ino, menos barulho.
– Mas não tem ninguém para nos ouvir!
– Ah, tanto faz. – levei-a até a pequena mesa, onde ela se sentou e eu peguei a pasta com os arquivos de cada suspeito.
Ficamos literalmente a tarde inteira analisando a história de cada um deles e fazendo suposições. Por fim, pode-se dizer que havíamos conseguido um bom resultado. Mas eu digo que teríamos acabado bem antes se Ino não tivesse feito uma pausa de mais de duas horas para assistir um filme que passava em algum canal da TV.
Mas finalmente, chegamos à raiz de tudo: o porquê os pais daquela criança foram assassinados, qual foi a participação de cada alvo naquilo, nossas suposições sobre o que eles estavam planejando agora e um plano para encurralá-los.
Para começar, a família da menininha nunca tinha sido muito conhecida. O pai trabalhava como pintor e a mãe era faxineira de outras famílias. Mesmo assim, eles haviam conseguido, através dos anos, economizar uma boa quantidade de dinheiro. Eu soube através de perguntas inteligentes feitas a vizinhos que Kazuto Okazaki, o pai de Meiko, tinha muitas amizades, e que havia sido contratado para pintar a casa de Martinez há uns dois anos. Foi assim que começaram uma amizade e Okazaki pode conhecer os outros três membros da “gangue”.
– A Haruka-san, vizinha de Martinez, disse que sempre via Okazaki junto de mais três homens se reunirem frequentemente na casa de Martinez. – eu disse à Ino.
– Acho que não faziam festas nessas reuniões, não é?
– Não. Aparentemente, conversavam sobre negócios.
– Negócios?
– Sim. Um policial colega de Yoda me confirmou isso. Parece que os cinco estavam almejando abrir um negócio próprio.
– Como você consegue tantas informações em pouco tempo, Sakurita? – apenas dei um olhar divertido a ela.
– Ora, eu apenas chego como quem não quer nada, invento uma desculpa e faço as perguntas não parecerem sugestivas. – ela riu comigo, mas não gostei do que ela falou depois.
– Se você é tão boa em falar com as pessoas, porque não tenta a mesma tática com o Sasuke? – fechei a cara na hora e tentei mudar de assunto.
– Bem, esse negócio deles...
– Sakura! – ela colocou a mão em cima dos documentos que eu estava lendo e me fez encará-la.
– Ino, agora não é hora de falarmos sobre nossas vidas pessoais. Isso é parte da missão!
– Mas você sabe que não vai poder evitar isso para sempre.
– Mas eu posso evitar isso agora e é o que vou fazer. – ignorei o olhar inconformado que ela me deu e continuei a ler os documentos. Ela não teve escolha senão me acompanhar.
– Mais tarde você não escapa. – foi o último aviso dela. Revirei os olhos e continuei.
– Enfim, parece que esse negócio deles era uma lan house.
– Uma lan house? Que diferente... algum motivo em especial para isso? – ótimo, voltei a entretê-la no assunto.
– Naquela época, as três principais lan houses de Konoha ou faliram ou pararam de funcionar. Sugu e Yoda tinham alguma experiência com computadores. Além disso, não iria ser só uma lan house, e sim uma loja de informática também, para vender peças, aceitar máquinas velhas e negociar consertos. Um negócio pequeno no começo, mas eles pretendiam expandir aos poucos. Martinez tinha experiência de vendas e eles já tinham alguns contatos confiáveis para começar as negociações.
– Hm, parece que tudo ia bem...
– E tudo ia bem mesmo. O colega policial de Yoda dizia que o amigo fazia planos para se demitir da polícia e se mudar para um bairro melhor. Mas havia um problema a ser transpassado para eles poderem abrir a loja: a falta de capital e investimentos. – Ino raciocionou rápido.
– Aposto que eles deixaram toda essa parte em cima do Okazaki!
– Sim, eles deram a desculpa de que Okazaki era o que menos contribuía para o grupo e o que mais tinha dinheiro guardado. Isso eu descobri conversando com a vizinha dele. Foi daí que surgiu a dívida dos outros para com ele. Ele investiu todas as economias na loja. Ou melhor, pensou que estava fazendo isso.
– O que aconteceu? O dinheiro foi roubado?
– Quase isso. Ele deixou o dinheiro na mão dos colegas. Enquanto Yoda procurou investir o dinheiro do jeito certo, Aloka gastou metade, imagino que com drogas, e Sugu também usou praticamente tudo para pagar as últimas parcelas de seu carro.
– Mas isso não faz muito sentido. Se eles sabiam que aquele era o único capital disponível no momento para abrir a loja, porque gastaram de maneira tão despreocupada?
– Foi isso o que eu me perguntei também. Até visitar o local onde a lan house deles seria aberta, um daqueles edifícios alugados onde cada andar é uma loja. Conversei com o proprietário e ele se lembrou de cinco homens querendo alugar um andar, mas disse que como eles demoraram a voltar com o investimento oficial, acabou alugando o andar para outro. Quando Sugu e os outros apareceram lá para negociar, já era tarde.
– E não tentaram em outro lugar?
– Aquele era o mais barato e o menos burocrático. Para conseguir licença em outro lugar, eles teriam que conseguir muito mais.
– Então eles perceberam que não poderiam mais abrir a loja e não avisaram Okazaki.
– Tudo leva a crer que sim.
– E ao invés de devolverem o dinheiro como pessoas não criminosas...
– Usaram em benefício próprio, criando a dívida. – concluí com um tom de satisfação no rosto. – Imagino que Okazaki deve ter ficado furioso, os vizinhos sempre diziam que ele nunca atrasava as contas e aparentemente confiava nos quatro ladrões. Por isso seria normal ele sair cobrando o dinheiro perdido, inclusive ameaçando ir à polía fazer denúncia disso e quem sabe, de mais.
– Mais? – Ino inclinou-se para frente com o rosto curioso.
– Sim. Uma vizinha fofoqueira me contou que ouviu uma briga entre Okazaki e um homem, pouco tempo antes de morrer. Segundo ela, Okazaki fazia ameaças de expor à polícia o que havia visto no “porão imundo” da casa do outro.
– Seria o Yoda? – Ino perguntou imediatamente.
– Foi o que eu pensei.
– Que tipo de coisa o pobre Okazaki visualizou ali?
– Também não sei, mas podemos supor. Ontem eu me infiltrei naquele porão de mofo e teia de aranhas, e encontrei lá camas, cadeiras e um balde com cheiro de dejetos.
– Mas isso só confirma que o cativeiro de Meiko era lá. Uma cama para ela dormir e um balde para ela fazer cocô.
– Sim, mas Okazaki mencionou esse porão para Yoda antes de a criança ter estado lá. Mencionou algo que viu lá... Ino, pense comigo! – olhei para ela extasiada, e ela fazia o mesmo. – E se Meiko não foi a primeira criança a ficar presa lá? – vi o olhar horrorizado que Ino me deu. – E se o que Okazaki viu foi outra criança e logo suspeitou de algum negócio sujo de Yoda?
– Isso é horrível – ela disse simplesmente – mas faz sentido. Então a dívida não foi o único motivo para silenciar Okazaki.
– Não. Além de ameçá-los na polícia com a história da dívida, ele ainda ameaçava expor algum outro crime deles. E para todos terem agido, isso me faz pensar que todos estão envolvidos com o porão de Yoda, menos Okazaki, que descobriu.
– E quais poderiam ser esses negócios no porão? Algum tipo de tráfico de crianças? – o olhar dela mostrava repulsa, indignação, raiva e nojo. Eu sabia o quanto Ino se importava com crianças.
– Provavelmente. Faz sentido pensar que esse é o motivo de terem levado Meiko com eles.
– Eles iam trafica-la! – Ino estava om um olhar assassino. Parece que ela havia se apegado à menininha.
– Ino, se acalme, mas acho que você está certa. Eles não a mataram porque viram nela potencial para ser vendida ou sei lá... você comentou que eles a molestaram?
– Sim, pelo que ela me contou, não houve penetração. Ela disse que um deles tentou, mas o outro disse algo como ser “muito cedo”. Ai meu Deus! – agora até eu havia ficado com raiva.
– Sim, provavelmente eles queriam prepara-la primeiro antes de vendê-la ou trafica-la. Sendo desse jeito, deve haver algum dia do mês quando eles se encontram com alguém de fora para passar essas crianças.
– Isso é maior do que eu imaginava, Sakura. Bem maior. Esses caras merecem a pena de morte!
– É o que eles provavelmente vão pegar depois de serem condenados.
– Isso se eu não mata-los antes. – ela disse de forma feroz e assassina.
– Calma, não podemos pensar nisso agora. Temos que nos focar no resto da história e em como vamos captura-los. – o olhar assassino não havia abandonado Ino.
– Meiko escapou a tempo. – ela disse. Parecia prestes a chorar. – Graças a Deus, Meiko escapou a tempo!
– Sim, ficou vagando nas ruas e depois o Uchiha a encontrou. Ontem eu não encontrei ninguém no porão, nem resquícios de que alguma outra pessoa depois de Meiko tenha estado lá.
– Provavelmente...
– Sim. Provavelmente eles resolveram dar um tempo nesse negócio. Isso porque Meiko deve ter sido a primeira criança a fugir, e poderia facilmente denunciá-los. Acho que eles tiveram medo disso e pararam de se encontrar. Voltaram a fazer isso segunda a noite, quando ouvimos parte da conversa deles.
– Então agora temos que...
– Mostrar esses testemunhos – apontei para a pasta cheia de anotações sobre o caso que eu havia feito. – E convencer a polícia de que eles são culpados. Uma olhada em Meiko e no porão fedorento de Yoda vai ser o suficiente.
– Então o que estamos esperando para isso? Vamos agora mesmo! – Ino se levantou dando a mim um olhar determinado.
– Calma, Ino, não comprometa seu julgamento. Não podemos fazer isso agora, você sabe. – ela se sentou, derrotada e frustrada.
Não poderíamos ir à polícia agora. Eu pelo menos estava aqui com um nome falso, sem falar que havia estado aqui com um outro nome falso no ano anterior. Eu e Ino não éramos ninguém aqui. Nenhuma pessoa nos conhecia, nenhuma pessoa já tinha ouvido falar de nós. Seria no mínimo muito suspeito se duas garotas sem registro aparecessem na delegacia do nada com um monte de documentos dizendo terem descoberto criminosos, invadido suas casas e ainda por cima, encontraram uma menina desaparecida e não comunicaram as autoridades. Não podíamos arriscar. O trabalho de nós, Wings, era cumprirmos missões sem sermos descobertas.
O que teríamos de fazer seria conduzir a situação, bolar um plano envolvendo a polícia e os criminosos, um plano que não deixe nenhum rastro de nós, mas que faça a polícia chegar até os suspeitos sem a aparente ajuda de ninguém. E sem colocar a criança em risco.
– Ah, e quase me esqueci! – chamei a atenção de Ino. – Não podemos ignorar que eles também estão tramando alguma coisa. Graças à minha grande estupidez, não sabemos o que é ainda. Mas podemos descobrir nesse encontro que eles farão sábado a noite.
– É verdade, já nem me lembrava disso. O que esses malditos estão tramando? Será que estão planejando a próxima criança a ser sequestrada? – o horror voltou aos olhos dela.
– Duvido que seja isso. Arrisco a dizer que tenha a ver com Meiko.
– Por quê? Ela fugiu, eles não podem mais encontra-la!
– Mas ela pode denunciá-los! Acho que isso tem a ver justamente com o fato de ela ter fugido. Por isso precisamos pensar com calma em como vamos agir. Fazer a polícia pegá-los no flagra seria o ideal, mas...
– Tá, já entendi! Vamos descobrir o que esses filhos da puta estão planejando antes de agir. Mas Sakura, hoje é quarta. Tem mais três dias até eles se reunirem. Vamos ficar até lá sem fazer nada? – a frustração era palpável na expressão de Ino.
– Claro que não, vamos usar esse tempo para descobri um modo de encurralá-los. – olhei no relógio. Eram um pouco mais de 18h. – Mas acho melhor pararmos por hoje, estamos com a cabeça cheia depois de uma tarde só disso. Amanhã podemos pensar com mais calma.
– Concordo. Vou pensar em 1000 maneiras diferentes e criativas de mata-los fazendo com que sintam a pior dor possível. – por mais assustador que fosse, Ino não parecia estar brincando. Ela tirou o celular do bolso e discou um número.
– Como você vai embora? Alugou um carro ou vai ligar para o táxi? – perguntei sem compromisso.
– Ah, você já vai saber. Oi Sasuke. – o que? Olhei para Ino com a cara mais indignada que consegui. – Sim, já terminamos por hoje. Pode vir me buscar. Sim, é na...
– Não diga o meu endereço! – ai, isso só podia ser coisa da loira da Ino! Como não percebi antes? Merda, eu não ia deixar ela dar meu endereço para aquele moreno de jeito nenhum!
– Sakurita, não aja como uma criança!
– Ino, não passe meu endereço para aquela criatura! – eu estava puta. Muito puta.
– Você sabe que uma hora vai ter que encará-lo.
– Mas eu quero escolher essa hora, a última coisa que eu preciso é cair nos seus esquemas! – ai que raiva!
– Calma, testuda. Se fosse em outra ocasião, eu iria a pé, mas ainda temos que buscar a Meiko na casa da amiguinha. – não importava a desculpa que ela desse, eu não iria encarar aquele moreno. – Sakura, por favor, seja mais madura. Sasuke vai vir me buscar agora e antes de nós irmos embora, você vai ter aquela conversa que me prometeu com ele. – meu olhar era o de uma assassina. Eu ia começar a xingá-la, mas uma voz nos cortou.
– Pode me passar o endereço ou se eu for aí, vou ficar sem cabeça? – droga, esqueci que o Uchiha conseguiu nos ouvir do outro lado da linha. Merda, Ino, você não sabe o que te espera.
– Vai ficar sem cabeça! – gritei para o telefone de imediato.
– Relaxa, Sasuke, não vai ficar sem cabeça não. Pode vir. A rua é...
– Ino!
– Sakura! – ficamos nos encarando, ela com uma cara de “deixa de ser infantil” e eu com uma cara de “faça isso e morra”. – Sasuke é nosso cliente, não podemos recusá-lo.
– Mas isso não faz parte da missão! – falei em voz alta.
– Eu estar hospedada na casa dele faz! Agora deixa de birra, parece que você tem 12 anos! A rua é... – eu não acredito. Não acredito que ela estava dizendo meu endereço.
Eu estava muito frustrada. Agora sempre que aquela criatura resolvesse me encher o saco, ele saberia onde me encontrar! Incrível! Ino, sua idiota! Ah, mas isso não acabou. Sentei na cadeira com minha pior cara de bulldog enquanto ela terminava de falar com a criatura e me recusei a olhar de novo para ela.
– Sakura, você realmente é uma cabeça-dura.
– E você é uma dedo-duro! – cortei-a, praticamente gritando.
– Dedo-duro? Então voltamos mesmo à época de quando tínhamos 12 anos? – não respondi nada, apenas bufei e olhei para o outro lado. Um silêncio pesado tomou conta do ambiente. Não acredito que ele estava vindo até aqui nesse exato momento.
– Sabia que o Itachi, irmão dele, vai se casar? – Ino tentou quebrar o silêncio. Mas daquilo eu não sabia. A última vez que ouvi de Itachi, ele havia assumido o controle de uma das filiais da empresa e tinha uma noiva. Uau, ele evoluiu. Diferente do irmão...
– Não, não sabia. – respondi seca e grossa. A culpa era dela. – E o que eu tenho com isso?
– Hum, a noiva dele é bonita. Tem cara de inocente, mas aquele piercing debaixo do lábio não me engana. – ela disse de forma travessa, com certeza queria quebrar o gelo do ambiente.
– Bom para ela. – eu não queria ficar daquele jeito com Ino. Mas eu estava muito frustrada. Ele me deixava frustrada. Eu não queria encará-lo. Se eu o encarasse, temo que não poderia desviar o olhar por muito tempo.
– Claro que é bom para ela! Vai se casar com um Uchiha! – Ino continuou. – Desculpe te forçar nessa situação com o Sasuke.
– Não diga o nome dele.
– Digo sim! E você também devia parar com essa frescura! Enfim, eu sei que está sendo difícil para você... – ela me olhou com gentileza. Não preciso de gentileza. Preciso de um martelo para deformar a linda cara do Uchiha para que assim fique mais fácil eu odiá-lo.
– Ino, eu sei que tenho de confrontá-lo alguma hora. – falei por fim, engolindo minha vontade de procurar o martelo. – Só não estou pronta ainda.
– Só não espere ser tarde demais. – ela falou. E então ouvimos a campainha. Merda. – Não vai atender, Sakura? – ela me perguntou quando viu que não me mexi.
– Vai você. – ela deu um suspiro e se levantou.
– Você é impossível. – ela abriu a porta e eu rapidamente olhei para o outro lado. – Ah, oi Sasuke. Ei, calma!
Olhei para ver o que estava acontecendo e aquela criatura de cabelos negros havia invadido minha casa e estava parado bem na minha frente, como se fosse algum tipo de rei entrando em seu castelo. Ele me olhava diretamente, com aqueles orbes negros profundos e estreitados, mostrando raiva e petulância. Eu odiava isso nele. Não olhe naqueles olhos, Sakura, não olhe!
Levantei-me da cadeira e passei a olhá-lo da mesma maneira, mas tenho certeza de que o meu olhar estava mais mortal que o dele.
– Finalmente resolveu me encarar? – ele disse em um tom debochado.
– Eu não estou com paciência para isso, Uchiha.
– A minha paciência já acabou faz tempo, Sakura.
– Não estou aqui para te ajudar com sua paciência. – falei com os dentes trincados e fechei o punho. É hoje que ele perderia os dentes.
– Ei, vocês, sem brigas, tá bom? – Ino entrou timidamente na conversa. Era capaz de eu espanca-la também. A culpa era dela por estarmos nos encarando agora, então ela também teria que aguentar as consequências.
– Diga meu nome. – ele disse, me desafiando.
– O que? Qual é o seu problema? Não sabe o seu próprio nome?
– Já disse que estou sem paciência para suas frescuras, Sakura. Diga meu nome.
– Por que eu tenho que dizer o seu nome idiota? – encarei-o mais ainda e levantei meu punho. Ele não recuou. Corajoso, mas eu estava contando os segundos até minha mão agir.
– Por que você insiste em me tratar desse jeito? Só porque você é uma covarde que só foge, não significa que eu também seja.
Pronto, estava feito. Ele estava no chão. Sangrando. Meu punho fechado havia sido o aviso, e ele o ignorou. E eu não poderia aguentar ouvi-lo me chamar de covarde. Não de novo. Me preparei para dar o segundo soco, mas Ino me impediu.
– Sakura, acalme-se! Você está realmente impossível! – ela me olhava ao mesmo tempo preocupada e com medo, mas meus olhos assassinos estavam apenas direcionados ao Uchiha, que se levantava e limpava o sangue do canto da boca.
E ele também somente me olhava. Com raiva dentro daquela escuridão que eram seus olhos. Com pura raiva. E talvez frustração. E condenação. Não tenho certeza, sou péssima em decifrar sentimentos escondidos. Não me importa também o que ele estava sentindo naquele momento. Abaixei meu punho e desviei o olhar. Não queria mais olhá-lo. Não queria admitir que eu era uma covarde por evita-lo.
– Vamos, loira. – ouvi-o dizendo. – Temos que buscar a Meiko.
– Sasuke, você está bem? – ouvi Ino indo em sua direção.
– Não como eu gostaria. – por algum motivo, aquelas palavras me atingiram.
– Ela não está pronta, dê mais um tempo a ela. – Ino disse aquilo em um sussurro, mas eu consegui ouvi-la muito bem. Também ouvi um suspiro vindo dele. Idiota.
– Não vai dizer meu nome, Sakura? – o que? Ele ainda insistia nisso? Olhei para ele de forma inconformada e furiosa. Eu não iria ceder. E a última coisa que eu vi foram seus embriagantes olhos negros, envoltos em escuridão e desapontamento, sem o brilho de quando chegaram, e suas últimas palavras enquanto ele saía de casa com uma Ino arrependida – Covarde.
****
Sasuke’s POV
A quinta-feira havia passado devagar demais para mim. Mais um dia cansativo na empresa, mais trabalho para fazer ao chegar em casa e aqueles pensamentos da última vez que me encontrei com Sakura não me deixavam. Eu não sabia mais o que fazer. Ela era simplesmente impossível! “Ela não está pronta, dê um tempo a ela” foi o que a loira havia me dito.
Mas quando ela estará pronta? Quando a missão acabar e ela tiver que voltar para não sei onde? Sakura estava fugindo de novo, como uma covarde. Não entendo como alguém pode ser tão forte e tão corajosa quando se trata de fazer missões suicidas e tão fraca e covarde quando se tratava dos próprios sentimentos. Ontem a noite ela me deu um soco, e teria me dado outro se a loira não a tivesse impedido. Tudo por que eu pedi para ela crescer. Tudo porque eu pedi a ela que agisse como uma adulta razoável e dissesse meu nome. E essa é outra frescura que eu não entendo. Até que ponto ela iria fingir me odiar, se recusando a me olhar, a me encontrar, a falar comigo de maneira apropriada? Só sei que eu havia me cansado disso. Eu não iria mais tentar fazê-la me ouvir. Para mim chega.
Foi isso o que eu decidi quinta-feira a noite, quando Ino me ligou pedindo para ir busca-la de novo no apartamento da rosada. Eu disse a ela para descer até o carro. Se Sakura quisesse me ignorar, eu também faria de conta que ela não existia. A loira entrou no carro com um rosto cansado.
– Obrigada pelo trabalho de me buscar. – não respondi nada e comecei a fazer o caminho para casa.
– Meiko ficou sozinha a tarde inteira? – perguntei.
– Oh não! Hoje nós fomos ao comércio e voltamos no meio da tarde. – ela respondeu alegre. – Aí eu coloquei um filme para ela e disse que precisava sair. – a loira havia passado a tarde na casa de Sakura novamente. Eu não sei o que elas estavam fazendo, pois ela se recusava a me contar.
– Fizeram progresso hoje? – perguntei, esperando que ela deixasse alguma coisa escapar.
– Pode-se dizer que sim. – ela se calou e percebi que não iria me contar nada. – Sasuke...
– Hm?
– Saiba que a Sakura está arrependida por ter feito aquilo ontem.
– Quer dizer por ter agido como uma completa criança e me socado?
– É... sim. Olha, eu conversei com ela hoje e...
– Não me importo. – cortei-a.
– Você não... vai tentar falar com ela?
– Não. Se ela vai me tratar daquele jeito sempre que me vê, eu não me importo de fazer o mesmo. – ouvi-a dando um pesado suspiro.
– Vocês dois são tão difíceis de lidar...
– É ela quem age feito uma babaca!
– E você termina sendo mais babaca ainda! – ela me cortou, algo que me deixou extremamente irritado.
– Você ouviu o que ela falou ontem, por que eu deveria me importar com alguém que claramente me despreza? – falei indignado.
– Você também deve ter escutado o que eu te disse!
– Eu não vou esperar até o dia de são nunca para ela ficar “pronta” só para olhar na minha cara e poder ter uma conversa adulta! – eu não estava errado naquela história. Era Sakura quem precisava crescer.
– Ai, Sasuke, de todas as pessoas, eu achei que você tivesse entendido um pouco como a cabeça dura e teimosa da Sakura funciona!
– O que? O que está insinuando?
– Você sabe muito bem que Sakura tem essas crises de raiva e tem gênio forte. Você sabe perfeitamente que ela está te evitando porque está com medo do que pode sair de uma conversa entre vocês. E mesmo assim você chegou ontem invadindo a casa dela e jogando palavras na cara dela!
– O que você queria que eu fizesse? – gritei freando o carro bruscamente no sinal vermelho. A loira foi para frente com o impacto.
– Você já tinha que saber isso, Sasuke!
– Oh, queria que eu entrasse lá com um buquê de flores, beijasse a mão dela e dissesse que a culpa de alguma merda qualquer era minha?
– Pare de gritar, está pior que a Sakura! – ela disse botando as mãos nos ouvidos. Entramos em outro silêncio e o sinal abriu. – Você não pode chegar condenando-a, prendendo-a na parede. Você sabe que ela odeia ser pressionada, odeia que a forcem a enfrentar algo que ela tenta evitar. – ela disse mais calma, mas eu não respondi. – Caramba, Sasuke! Você tem que ser para ela um porto seguro, não alguém para pressioná-la ou acusa-la. Você tem que fazê-la saber que se importa com ela.
– Ela sabe que eu me importo com ela. – falei trincando os dentes. Só mais um pouco e já estaríamos em casa. Só mais um pouco. – A única que se recusa a tentar é ela, loira.
– Não me chame de loira.
– Então diga a ela para me chamar do jeito certo. Nem isso ela tem a coragem de fazer.
– Olha, eu conversei com ela hoje. Ela concordou que exagerou um pouco ontem...
– Um pouco? – perguntei sarcástico.
– Deixa eu terminar de falar, sim? – calei-me contrariado. – Ela concordou que exagerou e me prometeu tentar falar com você.
– Tentar? Não conseguir?
– Sasuke, por favor! Isso vindo da Sakura já é muita coisa. – calei-me de novo. – Enfim, ela vai tentar falar com você e aí vocês finalmente vão poder se acertar e deixar toda essa história de mals entendidos para trás.
– Duvido. E não houve nenhum mal entendido na nossa história. – ela me deu um olhar cansado.
– Sasuke, você sabe...
– Eu sei! Não vou tentar me casar com ela, droga. Nunca vou me casar. – pensei ter visto um sorriso de canto nela na hora em que falei isso. – O que, por que riu disso?
– Nada. – ela falou sorrindo. Com certeza não era nada. Olhei para ela suspeito, mas vi que ela também não falaria sobre aquilo e continuei.
– Eu só quero que ela me trate do jeito certo. – finalizei.
– Ela vai entrar em contato com você. Não se preocupe, solteirão.
– Certo, o que você tem contra quem não quer se casar? – perguntei, entrando no condomínio.
– Nada, nada. É só que esses dias eu estava imaginando se você seria do tipo que gostaria de se casar... já que o seu irmão é. – ela finalizou. Ah, ótimo, estava explicado.
– Como sabe que meu irmão vai se casar?
– As notícias correm soltas por aí...
– Você viu o convite, não viu? – falei derrotado. Ela me olhou sorrindo.
– Sim! Parabéns a ele! – me fez um sinal de “joinha” com a mão fechada e o polegar levantado enquanto eu guardava o carro na garagem. Saímos do carro. – Mas voltando ao assunto “Sakura”, eu a obriguei a parar de fazer drama e falar com você.
– Já disse que não me importo mais.
– Jura? Não foi isso o que você deu a entender no carro.
– Silêncio, loira. – ela me empurrou de leve e entramos pela porta dos fundos, onde uma alegre Meiko nos recebeu.
É, eu havia mentido. É claro que me importava com Sakura e com nossa conversa mal-acabada. É claro que eu queria conversar com ela. Mas ficava difícil sem a colaboração da mesma. Será que eu podia confiar nas palavras da loira afirmando que Sakura iria me procurar? Ou será que eu devia procura-la de novo?
Não, eu não faria isso. Eu já havia tentado e o único interesse mostrado por ela foi o de me socar. Ela sabia que eu estava esperando. E se ela não viesse até mim, eu entenderia que já não restara mais nada a fazer e continuaria minha vida.
****
Sakura’s POV
Aqueles dois ainda iriam me enlouquecer. Droga, tudo por causa daquele moreno irritante. Tá, eu admito que havia passado dos limites ontem a noite, mas parte da culpa foi dele! Ninguém mandou chegar invadindo meu apartamento como se fosse o dono daquilo, e ninguém mandou me olhar como se fosse um julgamento, e ninguém mandou falar comigo daquele jeito.
Mas tá, né, eu tinha que fazer isso de um jeito ou de outro, então que pelo menos eu faça direito. Não sei por que eu estava agindo daquele jeito perto dele. Por que eu tentava evita-lo, era rude com ele, ou até me recusava a dizer seu nome. Acho que no final, ele tinha razão.
Eu era uma covarde. Eu estava tetando fugir dele. E do que ele me causava. Já havia sido demais eu ter de admitir que havia me apaixonado por ele da outra vez. E já havia sido doloroso demais receber um último beijo dele para depois partir tendo em mente nunca mais poder encontra-lo, e foi mais doloroso ainda tentar esquecê-lo nos dias que passei treinando na base das Wings, indo a missões ultra secretas e tendo que satisfazer clientes. E tudo para depois eu ter me encontrado com ele de novo.
Depois de todo o esforço feito para tirá-lo da minha cabeça e da minha vida, lá estava ele de novo, com seu jeito despreocupado e superior, com aquele sorriso de canto de lábio, com aqueles olhos de buraco negro que me sugavam, me afogavam, me sufocavam naquele mar de escuridão. Eu não queria ter de encará-lo e passar por aquilo de novo só para meus sentimentos por ele voltarem, só para eu admitir mais uma vez que estava apaixonada por aquela criatura para depois ter de ir embora de novo. Para depois tentar esquecê-lo mais uma vez. Eu não queria passar por aquilo. Não de novo.
Por isso, pensei que tratando-o com desprezo, eu conseguiria me libertar de seu feitiço e me manter afastada dele o máximo possível para evitar uma situação na qual eu estava ansiosa para vê-lo. Mas eu sabia que não podia continuar com aquilo. Eu sabia que teria de encará-lo algum dia para podermos resolver esses conflitos e colocar um ponto final nisso. E fugir, como eu estava fazendo, não era a solução. Eu iria encará-lo com o rosto mais passivo e determinado possível e não deixaria transparecer qualquer tipo de sentimentos. Não iria desrespeitá-lo, mas não iria cometer a burrice de tentar fazer as pazes. Porque relacionamentos amorosos não existiam entre Wings. E o Uchiha era um cliente. Pior ainda. Não poderia haver entre nós qualquer tipo de relacionamento além do profissional. E eu estava grata por isso.
Por isso eu iria parar de fugir e encará-lo como devia ser. Iríamos colocar um fim nisso de maneira justa e madura. Ai Deus, por que eu fui gostar de um cara como ele? Soltei um longo suspiro, olhando para o telefone, não querendo pegá-lo. Deus, Ino estava certa, eu parecia mesmo uma criança.
“Faça isso, mulher” disse a mim mesma batendo com a palma de minhas mãos em minhas bochechas. Soltei outro longo suspiro e peguei o telefone, discando o número dele. Aquela voz masculina e entediada que sem dúvidas pertencia a ele atendeu.
– Alô?
– Uchiha. – eu disse, cumprimentando-o.
– Sakura? – a voz dele se alterou. – Mas o que... você... por que? – ei, aquilo havia sido uma ofensa. Por que ele estava tão surpreso em me ver ligar as onze da noite em uma quinta-feira?
– Tá, chega de apresentações. – falei, cortando-o.
– Você precisa de alguma coisa? – a voz dele agora estava fria. – Tem a ver com a missão?
– Não, não tem a ver com a missão. Precisamos conversar. – falar aquilo foi mais difícil do que pensei. Ele fez silêncio do outro lado da linha.
– Vai me bater de novo? – revirei os olhos.
– Só se você invadir minha casa. – ouvi um riso sarcástico vindo dele. – Ou se você rir desse jeito. – terminei ameaçadora.
– O que te fez mudar de ideia? – ah, eu não estava a fim de reconhecer que ele estava certo.
– Não importa agora. Você não queria conversar? Então vamos conversar. – falei impaciente. Quanto mais você oferecia, mais ele queria. É isso que dava se meter com gente rica, Sakura.
– Demorou muito para me tratar como gente de novo. – veio a voz fria dele mais uma vez.
– Tá, eu exagerei um pouco. Mas é porque... – o que? Não, eu estava prestes a confessar que era porque havia me apaixonado por ele! Droga, Sakura, o que você está pensando?!
– Porque... – ele continuou.
– Por nada. Ino está certa, temos que terminar isso de uma vez. Então... adeus.
– Adeus? Como assim? – ué, tínhamos que terminar. Eu estava terminando.
– Para nos poupar encontros estranhos, palavras mal interpretadas e um possível final infeliz. – falei impaciente.
– O que, então essa era a conversa que você prometeu a Ino que teria comigo? – percebi que ele havia se irritado. Calma, Sakura, você prometeu ser mais madura e maleável. Dei outro suspiro.
– E o que você quer fazer então?
– Não acredito que você decidiu simplesmente me ligar dizendo “adeus”. – ai, como ele era impossível!
– Tá, eu aceito fazer do seu jeito, mimado! O que você sugere?
– Uma conversa de verdade. – ele ainda estava irritado. – Amanhã a tarde eu não irei trabalhar. – amanhã já? Não, eu não estava pronta para encará-lo e ter “aquela” conversa!
– É... amanhã a Ino vem aqui. – tentei não soar nervosa.
– Tenho certeza que pode arrumar um horário para mim, Sakura.
– Bem, se você quiser alguma falha na missão, então...
– Vai fugir de novo? – o que?
– Amanhã está ótimo. – ouvi-o rindo outra vez. Filho da puta, eu havia caído na armadilha. Merda.
– Finalmente estamos nos entendendo, Sakura.
– Vai a merda. – me preparei para desligar o telefone, mas...
– Espera! – voltei o telefone ao ouvido, irritada.
– O que mais você quer?
– Promete – ele começou. Arqueei as sobrancelhas. – Promete que vai ouvir tudo o que eu tenho a dizer. – a voz dele estava séria. Eu sabia que teria de ser assim.
– Tá.
– E promete que vai me falar tudo o que você tem a dizer. – tá, aquilo era questionável. – Sakura?
– Até amanhã, Uchiha.
– E me chame pelo nome! – foi a última coisa que ouvi ele dizer antes de desligar.
Pronto, estava feito. Está contente agora, Ino? Porque eu não estava! Finalmente teria que encarar aquilo do qual fugi todo esse tempo. E eu não sabia no que isso ia dar. Só sabia que agora, finalmente, iríamos colocar um ponto final nisso tudo. Ao mesmo tempo em que eu estava aliviada, também estava com medo.
****
O dia amanheceu chuvoso, algo bastante incomum para a primavera de Konoha. Só podia ser um mau presságio para meu “encontro” com o Uchiha. Isso me fez querer me enfiar na cama de novo e nunca mais dar as caras. É claro que depois eu retirei meu lençol da maneira mais rápida que consegui e disse para mim mesma que não iria fugir de novo. Se aquilo devia ser feito, seria feito. Mas aí percebi que eu poderia dormir mais um pouco, pois ele só viria para cá de tarde. Ele viria para cá... merda.
Quando a campainha tocou, eu levei um susto e quase derramei meu copo com água. É agora, pensei, mas era somente Ino. Assim ela me matava do coração! Fingi não saber de nada enquanto ela entrava. Me esqueci de que ainda estávamos aqui para pegarmos cinco dos criminosos mais repulsivos que eu já havia visto.
Sentamo-nos na mesa e começamos a planejar.
– E afinal, por que temos de avisar a polícia, de qualquer jeito? Vamos mata-los nós mesmas! – Ino começou. Eu estava começando a concordar com aquilo.
– Na verdade, nossa missão era apenas seguir um dos suspeitos, não há nada nos dando autotização para finalizá-los. – continuei.
– Sim, mas quando o Sasuke te ligou pedindo isso, ele não tinha certeza de ter pegado o cara certo, mas agora já temos todas as informações de que precisamos! – ela continuava enérgica, tentando me convencer. – E além disso, ele ligou para as Wings, uma organização secreta, ou seja, quer que nós resolvamos isso, não a polícia!
– Ele só ligou para as Wings porque não podia confiar na polícia. – argumentei. – Além disso, o assassinato de cinco homens vai parecer suspeito demais. E ainda temos que ver qual será o destino daquela criança.
– Ela pode dar o testemunho. Podemos inventar uma história, ela pode seguir...
– Ino, ela tem seis anos!
– Aaahh... – Ino jogou-se para trás na cadeira, de modo dramático. – Olha, quando descobrirem que um deles é da polícia, o Sasuke não vai ter problemas de não tê-la levado para a delegacia. Ele vai sair dessa história como um herói por ter salvado uma garotinha indefesa.
– Tá, mas como colocamos essas provas na história?
Ino pareceu pensar.
– Denúncia anônima. Vamos ligar anonimamente e dizer que encontramos Meiko. E aí basta contar toda a história: sobre a família dela, sobre o porão do Yoda, sobre os esquemas nojentos deles...
– É, acho que essa é uma boa ideia...
– Podemos fazer isso amanhã durante a reunião deles! – Ino me olhou ansiosa.
– Ino, essa até pode ser uma boa ideia.
– Claro que é! Assim a polícia pega eles no flagra e ainda os impedimos de terminarem de tramar o que quer que estejam tramando!
– Sim. – falei pensativa. – Podemos nos passar por vizinhos. Contar que pensávamos em ligar há muito tempo, mas fomos ameaçadas. Vamos dizer que ouvíamos barulhos, que sempre víamos crianças entrando e saindo da casa...
– E que vimos uma criança da descrição de Meiko fugindo com uma faca um dia!
– Isso parece muito fantasioso. E como os faríamos chegar até a criança?
– É aí que Sasuke entra de herói! – Ino estava animada demais.
– Por que quer fazer dele um herói?
– Ué, foi ele quem salvou a menininha! – revirei os olhos e me levantei, pegando as chaves de meu carro alugado. – Vamos.
– Onde? – ela perguntou confusa.
– Falar com um vizinho de verdade de Yoda.
– Oh. Boa, Sakurita. – ela me olhou maliciosa e fomos.
Devo dizer que saiu melhor do que estávamos planejando. Acontece que os vizinhos de Yoda não eram tão ignorantes assim. O casal da casa ao lado de Yoda, os Amano, tinham medo do policial. Quando perguntamos o porquê, eles disseram que sempre ouviram choro vindo da casa, apesar do homem não ter filhos.
– E vocês nunca conversaram com ninguém sobre isso? – perguntou Ino, um tanto nervosa.
– Bem, o homem é policial. – o sr. Amano respondeu. – E quem iria acreditar na palavra de dois velhinhos caducos? E também era muito estranho, porque só ouvíamos algumas vezes. Depois ficava em silêncio por meses.
– E vocês nunca viram ninguém suspeito entrando ou saindo da casa?
– Basicamente as mesmas pessoas. Aqueles amigos esquisitos dele... ah, menos aquele pobre coitado que morreu meses atrás, ficaram sabendo? A filha do homem ainda está desaparecida. – o velhinho continuou.
– Anastacio, não eram só eles que entravam naquela maldita casa! – veio uma voz esganiçada e feminina. Era a sra. Amano.
– Perdão, senhora? – Ino continuou.
– Anastacio pode me chamar de caduca, mas eu não “tô” cega não! – ela falou isso negando com a cabeça cheia de cabelos brancos. – Pensa que “num” vi aquele homem todo de preto entrando e saindo de lá aquelas vezes, sempre carregando aqueles sacos?
– Mas isso faz tempo, minha velha! – sr. Amano continuou.
– Não importa! Eu vi!
Eu e Ino nos olhamos, já sabíamos o que aquilo significava. Parece que nossa teoria sobre o tráfico de crianças estava certa.
– Alguém mais viu isso, Amano-san? – Ino perguntou calmamente.
– Creio que não, “fia”. Sempre acontecia na madrugada alta. Eu só via porque tenho insônia e não fico rolando na cama tentando dormir.
– Obrigada, senhores. Boa tarde.
– Espera aí, mocinhas! – a velha chamou e voltamos. – Por que ficaram interessadas nisso de repente?
– Estamos na academia militar. – eu respondi rapidamente. – Parte do nosso trabalho é fazer a supervisão de nossos superiores. O Yoda-san é um deles. – aquilo pareceu ter contentado a velha, e pareceu ter dado a Ino uma ideia.
– Amano-san, desculpe a minha intromissão, mas... parece que a senhora não gosta do policial Yoda.
– “Num” gosto mesmo. Sujeitinho desprezível!
– E parece que a senhora sempre quis contar a alguém sobre o que viu na casa dele.
– E...? – a velha pareceu interessada. Eu já saquei qual era a de Ino.
– Acontece que na supervisão minha e de minha colega, nós acabamos descobrindo algo... sujo sobre nosso superior Yoda. E... estávamos pensando se a senhora não podia nos ajudar.
– Hum... – a velha pareceu pensar. – E o que eu ganho com isso?
– O que a senhora desejaria ganhar? – Ino perguntou. A velha riu uma risada grotesca.
– Se vocês jovenzinhas tivessem condições de pagar meu tratamento de varizes e o tratamento de escoliose do meu velho aqui, até pensaria em ajudar vocês.
– E quem disse que não podemos pagar? – a velha parou de rir e nos olhou com interesse sério. Ino também me olhou confusa, provavelmente querendo me dizer: “não podemos pagar”. Ela tinha razão. Nós não podíamos. Mas alguém podia.
– O que vocês querem que façamos? – agora até o velho havia entrado na conversa de novo.
– Nós queremos expor a verdadeira identidade de Yoda. – eu comecei, cautelosa com as palavras. – Temos uma suspeita de que ele sequestra crianças. – nesse ponto, a velha cobriu a boca com as mãos e olhou para o velho, não acreditando. – Mas não temos nenhuma prova quanto a isso. Se a senhora pudesse ligar contando o que viu na casa dele...
– Mas quem iria acreditar em nós? Precisaríamos de mais testemunhos se quisermos convencer a polícia inútil de Konoha.
– Acredite, Amano-san, se a senhora conseguir fazer a polícia revistar a casa de Yoda, já será o suficiente. E também temos outra testemunha.
– E nossos tratamentos médicos? – o sr. Amano perguntou.
– O herói da cidade irá providenciá-los. – eu disse confiante. Ino apenas me olhou incrédula, e entendeu de quem eu estava falando.
– Herói da cidade? Quem é o herói de Konoha, Anastacio? – a velhinha perguntou.
– Alguém rico? – o velhinho tentou.
– Não se preocupem com isso. Poderão nos ajudar?
– Sim, sim. Faz tempo que quero ver aquele sujeitinho e os capangas dele se darem mal, ainda mais agora que descobrimos sobre as crianças e teremos o nosso tratamento médico. Mocinhas, contem conosco. – a velhinha me deu um olhar determinado e feroz.
– Ótimo. Mas vocês devem ligar em uma hora que eles estiverem juntos. Isso acontecerá amanhã a noite, de madrugada. Conseguem ficar acordados até tarde esperando nosso sinal para ligarem?
– Deixa comigo, “fia”. A insônia me ajuda. – pobre velhinha.
Combinamos tudo com o velho casal e montamos no carro de novo.
– Isso foi bom, Sakurita. Agora a polícia os pegará no flagra. – Ino começou. – Mas você não acha que deu informações demais para aqueles velhinhos? E se eles suspeitarem de nós?
– Relaxa, Ino. Tudo o que eles querem é ter o tratamento médico pago.
– Sim, quanto a isso. – ela me olhou confusa. – De onde você tirou da cabeça que Sasuke vai pagar as despesas médicas deles?
– Ué, não era você quem o chamava de herói? Heróis ajudam pessoas sem motivos. E ele tem dinheiro o suficiente para isso. – e ele ia ficar “p” da vida quando descobrisse. Mal posso esperar.
Sim, eu havia prometido trata-lo com respeito, mas não consegui evitar fazer essa “brincadeirinha” com ele.
– Tá, mas tem outra coisa: se eles fizerem a denúncia bem na hora em que eles estão reunidos, não teremos como descobrir o que estão planejando.
– Já pensei nisso também. Nós vamos deixa-los se reunirem e conversarem, e assim obteremos qualquer informação útil daquela conversa. Quando sentirmos que eles não falarão mais nada para nos ajudar, eu dou o sinal e a velhinha da insônia faz a denúncia. E podemos precisar de Meiko.
– Ah, sim. Para o testemunho. Como ela vai aparecer em cena?
– Vamos leva-la à casa dos Amano. Podemos dizer que durante o tempo em que ficou foragida, ela procurou um lugar para ficar, e se lembrou dos vizinhos de Yoda.
– Vai fazer a ovelha entrar na toca do lobo, Sakura? – Ino me olhou preocupada. – É muito arriscado!
– Mas Meiko é uma testemunha real! Se fizermos a polícia acreditar que ela contou tudo aos Amano, a denúncia deles terá mais veracidade. E depois, com certeza a polícia investigará todos os quatro capangas e descobrirá a conexão deles com o assassinato da família Okazaki e com o tráfico de crianças. E os Amano poderiam ter encontrado Meiko na rua, assim como o Uchiha, e resolvido cuidar dela.
– Ainda acho que é muito arriscado. – Ino disse, enquanto eu a levava para o condomínio onde o Uchiha morava. – Mas parece um bom plano. Só temos que conversar com Meiko e depois combinamos de leva-la na casa dos Amano amanhã.
– Sim. E o Uchiha ficará fora dessa história, como sempre quis. – terminei de falar depois de estacionar o carro em frente ao condomínio.
– Falando no Uchiha, Sakura... – ah, ótimo. Só faltava alguém para me lembrar.
– Vou falar com ele hoje, sua chata.
– Hoje? Então vem agora!
– O que? Agora? Não, ficou louca?
– Sim, é uma boa ideia! Ele não está trabalhando agora.
– Eu iria falar com ele mais tarde.
– Mais tarde quando, Sakura? E você já está aqui, perto da casa dele! Não tem “mais tarde”.
– Mas...
– Não tem “mas”. Anda, vamos.
– Eu não sei o que vou falar!
– O que você ia fazer, um roteiro? – bem, sim... – Ah, não, dona Sakura, nada disso. Isso já se prolongou demais. Venha agora. Meiko está brincando na coleguinha de novo e eu darei a vocês toda a privacidade do mundo.
– Não! Não quero toda a privacidade do mundo! E eu estou em território Uchiha! É perigoso! – nesse momento, meu celular apitou com o som de uma mensagem chegando. Falando do diabo...
– De quem é a mensagem? É dele, não é? Deixa eu ver! – e a intrometida arrancou o celular da minha mão antes mesmo de eu terminar de ler.
– Ino!
– “Estou esperando, Sakura.” – ela leu em voz alta. – Ótimo, vou responder que você já está aqui!
– O que? Não! Me dá meu celular, sua porca! – avancei em cima dela, tentando resgatar meu celular a todo custo, mas ela era tão forte quanto eu.
– Testuda, acalme-se! – ela se desviava e falava – Você não quer acabar logo com isso? Não quer se livrar dessa conversa o quanto antes?
– Quero, mas não agora!
– Sakura, é agora ou nunca! Já são mais de 16h! Encare isso de uma vez!
Paramos de brigar e eu olhei para ela com cara de súplica, mas ela não se rendeu. Ótimo, parece que o momento finalmente havia chegado.
– Tudo bem. – eu disse derrotada. Ino abriu o maior sorriso do mundo. – Então me devolva o celular!
– Não, como eu sei que você não vai fugir? Vou responder a ele que você está chegando.
– Faça como quiser. – revirei os olhos, ignorando as voltas que meu estômago estava dando, me preparando emocionalmente para esse fatídico momento.
– Ele disse que vai ligar na portaria do condomínio autorizando nossa entrada. – ótimo.
Entramos no condomínio e eu desejei esquecer onde era a casa dele. Assim poderíamos ficar andando em círculos e nunca encontraríamos. E eu poderia evitar essa conversa. Mas quando me dei conta, já estava com o carro estacionado em frente ao portão dourado. Ino saltou do carro e tocou o interfone. O portão foi aberto e ela me arrastou para dentro da casa.
Ele abriu a porta para nos deixar entrar, vestido de camisa social branca e calça jeans. Fingi não notar o quanto ele estava bonito.
– Entrega feita, Sasuke! – Ino falou com uma voz alegre demais para o meu gosto. – Agora vocês dois já sabem o que fazer. Eu vou tomar um banho beeem demorado. – eu queria gritar à Ino para não me deixar sozinha com aquela criatura, mas pensei que isso só pioraria as coisas entre nós. Entre nós? Não, Sakura, não tem nós. Tem eu e a criatura. Ele me indicou o caminho para o escritório e eu o segui, relutante. Era agora ou nunca.
Weep little lion man,
You're not as brave as you were at the start
Rate yourself and rake yourself,
Take all the courage you have left
Wasted on fixing all the problems that you made in your own head
Chore, pequeno homem leão
Você não é tão corajoso como era no começo
Avalie-se e recomponha-se
Pegue toda a coragem que te sobrou
E que você desperdiçou consertando todos os problemas que criou em sua própria mente
Mumford & Sons – Little Lion Man
Fale com o autor