Broken Wing - Aprendendo A Voar

24 Capítulo 24 - Confissões da Gata


Notas iniciais
Desculpem não ter postado ontem, foi um dia muito corrido. Mas aqui está o cap, tentei fazer do ponto de vista da Ino, então espero que gostem, porque foi o mais tenso que já escrevi até agora hehe. Mais nas notas finais. Boa leitura :)

Apesar de ter de concordar com o Uchiha agora, esse cara era muito suspeito.

Ino’s POV

A garotinha me acordou cedo no outro dia.

– Seu leite vai esfriar! – foi a maneira como ela tentou me convencer a sair da macia cama onde eu dormia lindamente. Coloquei um roupão, escovei os dentes, ajeitei meu cabelo e acompanhei a animada menininha escada abaixo.

O Uchiha mais novo já estava de pé e totalmente vestido. Havia acabado de desligar o celular, e quando me viu, fez um pequeno sinal de “bom dia” com a cabeça. Tenho que admitir que ele era muito bonito e tinha um corpo muito bem construído. A camisa social branca marcava suas costas largas e seu peitoral definido. Ele mantinha os cabelos arrumados, mas não conseguia esconder a rebeldia daqueles fios negros; isso junto com os olhos também negros e frios dava a ele um ar de respeito e elegância mascarado por outro de sensualidade e juventude. Sinceramente, não posso culpar Sakura por ter sucumbido a essa imagem de homem. E mesmo que seja difícil e até cruel manter os sentimentos dela afastados dele, eu não podia deixa-los interferirem na missão.

Sentei-me em uma das cadeiras e a menininha pegou um copo vazio para mim e logo o encheu de leite.

– Você gosta de chocolate em pó no seu leite? – ela perguntou gentil, enquanto colocava o chocolate no próprio leite. Como eu queria me dar bem com a criança, assenti e deixei ela por no meu copo até que o líquido ficasse marrom escuro.

Tentei puxar assunto com a pequena.

– Então, o Sasuke me disse ontem que seu nome é Meiko. Posso te chamar assim? – ela olhou para mim de repente.

– Não me chame de Meiko. Me chame de Gata. A velhinha me deu esse nome. – olhei para Sasuke e ele assentiu me incentivando. Apesar de achar estranho, não recusei.

– Tudo bem então, Gata. Você pode me chamar de Ino. – ela assentiu sorridente.

– Você vai morar aqui, Ino?

– Vou ficar aqui por uns dias. Tudo bem?

– Sim, assim podemos brincar o dia inteiro. – ela sorriu mais ainda, e eu sorri também.

Sasuke colocou sua caneca de café na pia e me deu um olhar um tanto suspeito.

– Gata, eu preciso ir trabalhar, tudo bem? Obedeça a Ino e se comporte, tá?

– Tá. Quando você volta?

– No fim da tarde. – Gata acenou “tchau” para Sasuke e ele se virou para mim. – Uma palavra? – levantei-me e o segui até a porta dos fundos, dando na garagem, enquanto Gata subia para trocar a vestimenta que usava (uma camiseta do Uchiha).

Sasuke pegou uma maleta, olhou o relógio e depois para as escadas, garantindo que Gata não nos ouvisse, e em seguida abaixou a voz e me disse sério:

– Olha, eu sei que você está aqui para ajudar, e eu agradeço por isso, mas tenha cuidado quando for falar com essa criança. Ela pode não ter me contado tudo por receio, mas talvez ela se sinta mais confortável falando com você. Eu deixei algum dinheiro debaixo do vaso no corredor, use se for sair com ela ou comprar alguma coisa...

– É, porque de roupas, pelo menos, é o que ela mais precisa. – falei divertida, mas ele me mandou um olhar tão frio que me calei de repente. Não parecia ser fácil lidar com ele. Talvez seja por isso que ele e Sakura se deram tão bem. Assustador.

– Não chame atenção desnecessária, eu não sei quantos deles estão pelas ruas, se eles a reconhecerem, vai ser um problema. Eu queria ter podido sair com ela esses dias, mas tive receio. Mas acho que ela estando com você, será mais... normal. Enfim, cuide dela. Por favor. – eu só acenei enquanto ele me olhava aliviado. – Obrigado. Se precisar falar comigo, o número está anotado junto com o dinheiro. Se o telefone tocar, não atenda...

– Relaxa, Sasuke, ninguém vai saber que estamos aqui. – eu disse sorrindo de novo, ele precisava relaxar urgentemente. – Pode ir tranquilo, eu e a Gata vamos nos divertir muito, e eu vou ficar de olho na situação junto com a Sakurita para você.

Ele assentiu nervoso e foi até seu carro, abrindo o portão e saindo da minha vista. Logo depois, Gata chegou. Eu olhei para ela com uma cara triste e ao mesmo tempo divertida.

– Você esteve vestindo as camisetas do Sasuke todos esses dias? – perguntei me abaixando e tocando o tecido.

– Sim. Elas são confortáveis e cheiram gostoso.

– Mas não são para uma garotinha usar. Que tal nós sairmos e comprarmos roupas novas e bonitas só para você, heim? – eu disse aquilo animada.

– Mas tudo bem se nós sairmos? O Sasuke estava com medo de que eles me encontrassem na rua.

– Eles não vão te encontrar, você vai estar comigo. E se eles encontrarem, eu dou um chute na cara deles! – ela começou a rir alto.

– Você não consegue chutar todos ao mesmo tempo. – ah, consigo isso e muito mais, menininha. Eu só sorri de volta.

– Depois de comprarmos roupas, o que você diria de um sorvete?

– Eu quero sorvete!

– Então primeiro eu vou arrumar a cozinha, depois vamos nos aprontar e sair, ok? – ela acenou positivamente e me ajudou a recolher os copos e tirar a mesa.

Depois que eu me troquei, colocando uma roupa simples e não-chamativa, tentei customizar algum pedaço de pano para a Gata vestir. Bem, ela não podia ir ao centro de Konoha com a camiseta de um homem adulto, né? Demorou um pouco, mas mostrei os meus dotes de costura pegando uma camiseta inteiramente branca de Sasuke (espero que ele não se importe, parecia ser uma peça nova), recortando-a e remendando-a até que entrou como um vestido simples e delicado no pequeno corpo da Gata. Penteei seus cabelos loiros e rebeldes e ela parecia um anjinho. A tia Ino aqui sabia como despetar a beleza das garotas.

Peguei o dinheiro que Sasuke havia deixado e como achei arriscado demais sair com o outro carro dele (alguém poderia reconhecer a placa) eu e Gata andamos a pé até a entrada do condomínio fechado, de onde chamamos um táxi até uma casa de carros de aluguel (a mesma onde Sakura havia alugado o dela) e fomos ao centro de Konoha – não sem antes eu me perder algumas vezes. Bem, a cidade era grande e era a primeira vez que eu vinha aqui, tá? Mas o importante é que a Gata agora teria roupas próprias para vestir. Ela ficou bem animada comprando saias, blusinhas, sapatos e acessórios. Isso me fez imaginar quando havia sido a última vez que ela teria ficado feliz daquele jeito.

– Olha pra mim, Ino! – ela disse saindo de um provador da loja vestindo uma saia preta e uma blusinha rosa bebê. Eu a incentivei sorrindo.

– Ficou tão linda que agora vou começar a te chamar de Gatinha. – ela gostou da ideia.

Depois, já era horário de almoço, então fomos a um restaurante dentro do Konoha Shopping e depois, como prometido, comprei a ela uma casquinha de sorvete. Sentamos nas mesas cedidas pela sorveteria, e enquanto ela lambia as duas bolas de chocolate, me contava sobre os desenhos que havia visto na televisão de Sasuke.

– E aí o macaco louco tentou destruir a cidade, mas a Docinho deu uma surra nele, e a Florzinha e a Lindinha também! – ela falava empolgada, e eu tentei manter a conversa.

– Você gosta das meninas super poderosas, Gatinha?

– Sim, elas são fortes! Ino, você parece a Lindinha. E aquela mulher de cabelos cor-de-rosa que veio na casa do Sasuke ontem a noite parece a Florzinha. Mas só por causa do cabelo. – de repente, o sorriso sumiu do rosto da Gata.

– Só por causa do cabelo? Por que você ficou triste? – tentei recuperar a animação de antes.

– É porque a Florzinha é boazinha, mas eu acho que a Sakura não gosta de mim.

– Por que você acha isso, Gatinha? – perguntei cautelosa.

– Na primeira vez que ela me viu, ficou me olhando de um jeito estranho, e nem conversou comigo. Ontem foi a mesma coisa, e quando ela conversou com você e o Sasuke, ela estava brava, e nem deixou a gente brincar. Não sei por que ela não gosta de mim... – ela abaixou o rosto como se fosse chorar. Bem, eu sabia por que Sakura agia daquele jeito perto da Gata. Perto de qualquer criança, na verdade. Sem perceber, um sorriso triste se formou no meu rosto.

– Não se preocupe com isso, Gatinha. Sakura é muito cabeça-dura. Ela gosta de você sim, é só que... isso faz ela se lembrar do próprio passado. – Gata ergueu a cabeça, curiosa.

– Do passado dela?

– Sim, mas não se preocupe. Sakura é gentil, ela só não mostra isso porque é uma bobona.

– Ela é triste por causa do passado dela? – sinto que eu havia falado demais. – Então ela é parecida comigo.

Senti que nesse momento o sorriso iria ficar longe do meu rosto por um bom tempo. Eu sei que essa garotinha havia sofrido mals tratos, e não tinha mais ninguém. Além disso, teve que passar por tudo isso sozinha. Era impossível não fazer uma comparação entre ela e nós, Wings.

Tentei puxar outro assunto, mas a Gata não me acompanhou. Terminou seu sorvete em silêncio e disse que queria voltar para “a casa do Sasuke”. Dirigi até o lugar onde eu havia alugado o carro, chamei o táxi de novo e pedi para nos deixar a duzentos metros do condomínio onde o Uchiha vivia, isso para não causar suspeitas de olheiros. Entramos na casa sem ser vistas por ninguém e Gata disse que iria guardar as novas roupas perto de sua cama.

Sentindo-me um pouco culpada por ter sido a responsável por isso, sentei no sofá com a cabeça inclinada para trás, e as lembranças começaram a vir. Lembranças de quando eu me vi sozinha pela primeira vez e de como aquela foi a pior sensação da minha vida. Eu havia experimentado sensações ruins antes disso, mas me ver sem ninguém foi a pior delas. Lembro-me que tinha a idade de Meiko quando Shizune, a melhor Wing médica (depois de Tsunade, é claro) me encontrou sozinha no hospital e me ofereceu a chance de uma nova vida como uma Wing.

Eu vivia com meus tios em uma fazenda e nunca conheci meus pais. A doença os levou quando eu era pequena, e a irmã de minha mãe e o marido dela passaram a cuidar de mim. O sustento naquela casa vinha da produção e venda de laranjas da fazendo de meus tios. Nessa época eu era apenas uma criança normal, que brincava com outras crianças. Mas houve um período de infertilidade e seca na fazenda, e nossa comida estava se tornando escassa. Meus tios não tinham mais dinheiro. Até que viram a oportunidade de ganhar muito em pouco tempo. E eles me venderam. Para uma casa de shows. Só eu me lembro de como era maltratada pelos donos e molestada pelos funcionários. Até que um dia fugi. Mas o que eu sabia sobre fugir? A próxima vez que abri os olhos, me vi sentada em uma cama de hospital com várias pessoas decidindo meu destino.

Conheci Shizune lá. Ela conversou comigo, e vendo que eu estava sozinha, me ofereceu a oportunidade de ter uma nova vida, com amigas, uma casa, comida boa, roupas quentes e “vários tipos de aprendizado”. Antes disso, fui para um orfanato, onde presenciei crianças tão ou mais miseráveis do que eu, e senti por cada uma delas. Quando Shizune veio me buscar junto com Tsunade, eu perguntei se não poderíamos levar algumas daquelas crianças conosco, mas elas nada me responderam. Quando cheguei na base das Wings, minha vida mudou completamente. Aprendi a ler, escrever e me relacionar com outros. Perdi o medo de fazer sexo, ganhei coragem para matar. Aprendi a ser uma mulher forte. E conheci aquelas meninas, que são mais do que minhas amigas, são minha família.

Conheci Sakura lá, óbvio. Ela tinha a minha idade, mas estava ali desde os dois anos, e já sabia muitas coisas que eu comecei a aprender do zero. No começo, ela não gostava de mim. Ela não gostava de nenhuma criança que fosse para lá. Perguntei se ela não estava feliz por ter sido salva por Tsunade, e ela só respondeu que não gostava do rosto de infelicidade e miséria que cada novata mostrava ao chegar lá. Sempre admirei Sakura. Sempre a invejei por ter sangue-frio, por ser mais forte que eu e as outras garotas. Mas ela sempre foi muito reservada, demorou para que se enturmasse comigo e com as outras. Para ela, aquilo, ao mesmo tempo em que era uma salvação, era também uma condenação. Acho que esse é o motivo de ela se sentir tão insegura perto de crianças. Ela tem medo de ter contato com o sofrimento de novo. Sakura me viu chegar lá com um aspecto de pessoa derrotada. Ela viu expressões de outras garotas chegarem lá, sempre crianças. “Essa está aqui porque fugiu de casa depois de tentar se matar” ou “Os pais dessa morreram em um incêndio” ou “Essa matou os próprios parentes”, era o que dizia a mim sempre que uma nova “recruta” chegava. Sakura não via esperança para aquelas crianças. Ela só via angústia e desespero. Ela não se sentia bem perto daquelas pobres criaturas. Até hoje, quando chega alguma nova recruta criança, ela mantém distância. Por isso imagino que tenha sentido cautela e insegurança perto de Gata. A garotinha a fazia lembrar dos tempos antigos, quando ela via chegar novas perdidas e tinha de cuidar delas.

Acho que nisso, sou diferente de Sakura. Apesar de eu também ter visto várias crianças infelizes no tempo que passei no orfanato, acho que foi minha compaixão por elas que me fez gostar de crianças hoje. Enquanto eu quero que elas sejam felizes para não passarem pelo que passei, Sakura tem medo de sentir a infelicidade delas. É engraçado como situações parecidas podem levar a finais diferentes. Dei um sorriso triste, enquanto abri os olhos e percebi Meiko na minha frente, me encarando preocupada.

– Você está doente? – perguntou.

– Não, só estava pensando. – tentei dar um sorriso mais feliz. – Gatinha, por que não colocou uma roupa que compramos hoje? – ela ainda estava com o vestido branco que já tinha sido uma camiseta de Sasuke.

– Vou ficar com isso hoje. É bonito, era do Sasuke e foi você quem fez pra mim. – ela sorriu, e sorri também. Mas eu pude perceber que por detrás do sorriso dela, havia uma lágrima querendo cair. Ela se sentou ao meu lado, e tentei abordar esse assunto delicado.

– Gatinha... tem alguma coisa que aconteceu com você que você queria desabafar? Pôr pra fora? Qualquer coisa? – perguntei gentil. Bem, eu deveria tentar. Pode haver alguma coisa na fala dela que nos ajude a capturar os criminosos.

– Bem... – ela revirou os olhos e pareceu pensar por um longo tempo.

– Se você não quiser falar, está tudo bem. – acrescentei rápido. Não queria pressioná-la. – Mas saiba que pode me contar qualquer coisa a qualquer hora, eu sempre irei te ajudar. – sorri no final. Ela sorriu também e ficou em silêncio.

– Quando eu vi meu papai e minha mamãe morrerem, fiquei muito triste. – para minha surpresa, ela começou a falar. – Eles entraram na minha casa de noite, acordaram todo mundo e quando eu abri a porta do quarto para ver o que estava acontecendo, vi meu papai machucado. – o rosto dela estava triste, mas não parecia que iria chorar. – Minha mamãe correu para o meu quarto chorando, para proteger eu e minha irmãzinha. Mas eles derrubaram a porta e fizeram a mesma coisa com minha mamãe e minha irmãzinha. Mas não comigo. Eles me levaram com eles. Não sei por que. – ela me olhou, e os olhos dela estavam tão secos quanto o deserto.

– Passei um tempão naquele lugar. Eles nunca me deixavam sair. Só me davam comida e iam lá de vez em quando. Foi horrível. Eles... fizeram coisas comigo. Mas um dia eu bati em um deles e consegui fugir. Só queria voltar para minha casa e ver meu papai e minha mamãe de novo. Mas acho que me perdi, eu fui parar naquele bairro assombrado. Mas fiquei lá porque ninguém gostava de lá, então eu achei que não iam me pegar de novo. Aí o Sasuke me encontrou. – ela terminou de dizer aquilo com um sorriso alegre. Essa menininha era muito forte.

– Você sabe quem são eles, Gatinha? – perguntei cautelosa. Extrair informações era necessário, mas a saúde mental da menina também era.

– Não. Mas eu já tinha visto alguns deles antes. Um deles costumava ir em casa algumas vezes. Mas ele e o papai sempre discutiam. O papai chamava ele de... acho que era Yosha, Yoda... – o que? Poderia ser... – Acho que tinha um Sugu também. – ela dizia aquilo com medo.

– Está tudo bem, Gatinha. Não precisa ter medo de me contar. Eu só vou te ajudar. – ela me olhou surpresa.

– Vai me ajudar? O Sasuke disse a mesma coisa. Vocês são boas pessoas. – ela sorriu. – Você quer saber mais? – aquilo havia me pegado de surpresa.

– O que? – perguntei cautelosa.

– Se você vai me ajudar, precisa saber o que aconteceu, não é? – eu estava impressionada com a coragem e força de vontade dessa menininha. Apesar de ter passado por tudo aquilo e há muito pouco tempo, ela nunca perdeu as esperanças nem a confiança em outras pessoas. Deixei escapar um sorriso involuntário. Mas criei coragem para fazer outra pergunta.

– Você disse que eles te levaram para um lugar. Você sabe onde?

– Não, mas fica bem longe daqui. E ficava embaixo também. – ela disse, se lembrando.

– Embaixo? Embaixo de onde?

– De uma casa. Quando eu consegui fugir do quarto em que ficava, tive que subir uma escada e fui parar em uma casa. – poderia ser um porão onde ela estava confinada? – Ino, posso te perguntar uma coisa? – agora o rosto dela exibia traços de medo e... seria vergonha?

– Claro, Gatinha, qualquer coisa.

– Você gosta de garotos? – não entendi aquela pergunta de repente.

– Garotos? Bem, garotos são quase como garotas. – tentei arrumar uma resposta imparcial. – Mas, eles são garotos. – ótimo Ino, essa era sua resposta imparcial? Quanta inteligência, parabéns. Um orangotango teria pensado melhor do que você.

– Eu não gosto de garotos. – ela parecia bem infeliz. – Todos eles eram garotos. – agora eu estava entendendo. Demorou muito, sua lerda. – Os únicos garotos bons são meu papai e o Sasuke.

– Você não tinha amiguinhos garotos, Gatinha? – será que os únicos “garotos” com quem ela teve contato foi o pai, aqueles homens nojentos e Sasuke?

– Tinha, mas eles eram uns bobocas. Sempre diziam coisas feias pra mim. Mas o Yoki me deu uma flor um dia. – ela pareceu se lembrar de repente. – Mas não importa, se eles fossem garotas, não teriam feito aquilo comigo.

– Você pode me dizer o que eles fizeram com você, Gatinha? – foi a pergunta que mais tive cuidado e gentileza ao fazer, principalmente por esperar aquela resposta. Mas ela parecia confusa, parecia não saber o que dizer.

– Eles me batiam... me chamavam de coisas... Ino, o que é uma “putinha”? – filhos da puta. Fiquei sem saber o que responder. – Eles me chamavam disso, e de Pombinha. Puxavam meu cabelo e rasgavam minhas roupas. E sempre que rasgavam minhas roupas, eles... eles... – ai Deus. Eu não podia ouvir aquilo. Me senti a pessoa mais horrível do mundo ao fazê-la lembrar daquelas coisas. Coisas que haviam acontecido comigo e que infelizmente, haviam acontecido com ela também.

– Gatinha, você não precisa se forçar se não quiser. – disse isso tentando fazer minha voz não parecer embargada ou fazer alguma lágrima cair. Eu só queria abraçá-la.

– Não, eu quero contar. – ela também disse segurando o choro. – Acho que estou me sentindo melhor contando isso para você. Eu queria ter contado para o Sasuke, mas ele é um... – garoto. – Eu só te conheço desde ontem, Ino, mas eu confio em você. – ficamos em silêncio de novo, até que ela se sentiu confortável para falar de novo.

– Quando eles rasgavam minhas roupas, eles... me tocavam. Eu não sabia por que faziam aquilo. Mas quando eles me tocavam, doía. Sabe por onde você faz xixi? – filhos da puta. Mil vezes filhos da puta. – E eles riam. Uma vez, aquele que o papai chamava de Yosha ou Yoda tirou a calça também. Eu acho que ele queria fazer alguma coisa comigo. Mas o outro disse para esperar mais um pouco, eu não sei do que eles estavam falando. – ela olhou para mim, confusa. – Eles sempre me chamavam pra ir perto deles e diziam que não ia doer. – ela começou a chorar nesse ponto, e eu não aguentei e a abracei. – Aí eles colocavam a mão . E doía.

Nesse ponto, Gata não disse mais nada. Ela só me abraçou forte, enquanto eu murmurava um “está tudo bem agora”, enquanto sentia a raiva aumentar dentro de mim. Levou vários minutos para ela se acalmar, mas quando o choro parou, consegui fazer um chá com a camomila que encontrei em um dos armários da cozinha, e ela dormiu. Realmente, Sasuke estava certo. Além dos mals tratos físicos, ela também foi molestada. Pelo que ela disse, no estupro coletivo, não chegou a haver penetração, mas a violação foi grande de qualquer jeito.

Filhos da puta desgraçados. Uma criança tão inocente, tão pura. Mataram toda a família que ela tinha e causaram tanta dor nessa pequena criatura... essas pessoas não merecem viver. Não merecem piedade. Merecem a pior das mortes. Merecem agonizar até que cada membro lhes tenha sido arrancado e cada gota de sangue, drenada dos seus corpos imundos. Mereciam morrer gritando. E eu ia me certificar disso.

Levou bastante tempo até Gata acordar. Eu estava folheando um dos livros da estante de Sasuke, chamado “O Poder do Hábito”, quando a menininha se espreguiçou e me olhou com cara de sono. Eu olhei para ela de um jeito gentil, mas acho que não consegui esconder minha compaixão.

– O Sasuke já chegou?

– Ainda não. – falei com calma. – Mas são quase seis horas, ele não deve demorar. – ela me olhou com aqueles olhos verde claros, e eles não estavam mais vermelhos do choro.

– Ino, eu me senti melhor depois de ter falado com você. – ela disse simplesmente.

– É mesmo? – perguntei, ainda calma.

– Sim, parece que você me entende. Eu não queria ter chorado naquela hora.

– Você não precisa ter medo ou vergonha de chorar, Gatinha. – falei, encorajadora.

– Mas eu não gosto de chorar. Prefiro sorrir. – e ela sorriu. Sorri também.

– Você está bem, Gatinha? – mesmo que eu estivesse sorrido, ainda estava preocupada com o psicológico dela.

– Estou. Eu disse que me senti melhor depois de falar com você.

– Que bom. – sorri de novo. – Saiba que você não precisa mais ficar com medo, tá? Sempre que precisar, pode me procurar.

– Tá. – ela sorriu mais ainda. – Mas estou com fome agora. Será que o Sasuke comprou doces? – o tom dela havia mudado completamente. Nem parecia a menininha assustada que desabafou comigo há algumas horas, nem a menininha que ficou meses confinada em um porão. Parecia a menininha que sempre quis ser.

– Bem, vamos procurar, né? – se a Gata ainda via motivos para sorrir depois de tudo isso, não seria eu quem a faria chorar.

Fomos até a cozinha e procuramos por alguma coisa para comer, e no final acabamos fazendo gelatina. A Gata sorria para mim e conversava de modo alegre. Eu estava feliz por ver que ela ainda não tinha desistido de viver. É incrível como ela me lembrava de mim mesma. No meu caso, eu esqueci que estava viva durante algum tempo. Foi só quando Shizune me resgatou que eu encontrei outro motivo para viver. Essa garotinha não precisou de outro motivo. O motivo que a fazia sorrir e tentar ser feliz era o fato de simplesmente continuar viva. Era o fato de ter escapado daquele mundo de sofrimento e encontrado momentos felizes de novo. Eu admirava aquela garotinha. Tão pequena, tão frágil, e ao mesmo tempo tão forte. Agora eu sei o porquê de Sasuke ter se apegado a ela.

E eu quero que ela continue feliz. Com um vestidinho branco, com os cabelos soltos, e com o rostinho lambuzado de gelatina. Estávamos nos divertindo tanto que nem vimos quando Sasuke chegou. Só o que eu me lembro era de ter me virado e visto ele com uma cara de “o que vocês aprontaram?” mais engraçada que já vi. E foi automático: eu e Gata nos olhamos e começamos a rir alto. Tão alto e tão gostoso que Sasuke deixou escapar um sorriso de lado, com o olhar de confusão ainda estampado em seu rosto.

– O que aconteceu aqui? – ele perguntou. Eu e Gata o olhamos, travessas.

– Coisa de garota, Sasuke. – eu respondi.

– É, Sasuke, coisa de garota! – Gata correu para abraça-lo, mas ele ainda me olhava confuso.

– É isso mesmo, Uchiha, só garotas se divertindo. – eu dei uma piscadinha para ele, e aquilo pareceu confortá-lo. Antes que Gata o soltasse, porém, falei com os lábios. – “Depois conversamos”. – acho que ele entendeu, pois afastou Gata de si e tentou falar de modo animado.

– Que bom que as garotas se divertiram, mas está na hora do banho, né? – ele falou. Gata acenou positivamente e correu escada acima. Ele olhou para mim.

– Não sei o que você fez, mas ela parecia feliz. – ele disse.

– Vamos falar já já sobre isso. – ao responder isso, meu celular tocou. Era Sakura.

– Fique pronta para hoje a noite. Vou te buscar às 20h30. Parece que nosso amigo Yoda tem um encontro nesse horário. – ela disse simplesmente.

– Ótimo. Mal posso esperar para fofocar com você sobre ele. – eu não podia vê-la, mas sabia, que do outro lado da linha, ela havia feito uma cara maliciosa e assassina.

Olhei para Sasuke e expliquei a situação, o que o fez ficar sério. Sim, essa noite prometia. E eu e Sakurita iríamos cumprir todas essas promessas.

Some boys take a beautiful girl

And hide her away from the rest of the world

I wanna be the one who walks in the sun

Oh girls they wanna have fun

Oh girls just wanna have fun

Alguns garotos conseguem uma garota bonita

E a escondem do resto do mundo

Quero ser uma garota que caminhe no sol

Oh, garotas só querem se divertir

Oh, garotas só querem se divertir

Cyndi Lauper – Girls Just Wanna Have Fun

Notas finais
O que acharam do capítulo? E da Ino narrando? Acho que ela trouxe uma perspectiva diferente, se tiver espaço, pretendo fazer mais POV's dela. Quanto ao capítulo, foi o mais tenso que já escrevi, não sei se a parte em que a Gata confessou ficou muito dramática ou se ficou boa, só sei que eu me senti bem "mal" escrevendo hehe. A Sakura irá voltar logo, estou planejando várias coisas e espero que vocês gostem :) Até o próximo ^^