Broken Wing - Aprendendo A Voar
14 Capítulo 14 - Lábios
Notas iniciais
– Sim. Algum problema? – ela cruzou os braços, me dando um riso sarcástico, ainda me observando dos pés a cabeça, enquanto não desgrudava aqueles olhos verdes de mim. Ela vestia uma calça jeans com uma camisa cavada roxa, que contrastava com seus cabelos rosa claro, presos informalmente em um coque, com alguns fios soltos. Ah, isso não ia acabar bem.
Sakura’s POV
Aquilo que eu via na minha frente era real? Sasuke Uchiha estava naquele estado deplorável bem na minha frente? Confesso que quase não me contive e comecei a rir na cara dele, aquilo só podia ser piada. O todo-poderoso futuro herdeiro dos Uchiha, um dos homens mais cobiçados do país, conhecido por sua beleza, seriedade, carisma e fama de bom filhinho de ricaços estava ali, só de boxer preta, com os cabelos em forma de ninho de rato, me olhando de forma envergonhada e vulnerável?
E eu que achei que meu sábado seria um porre. Mais ainda me surpreendeu quando ele me perguntou o que eu fazia ali. Acho que ele tinha esquecido do serviço para a empresa e tinha dormido além da conta. Por isso demorou a atender a campainha. Mas isso não importava, porque ele claramente tinha ficado aborrecido por eu ter pegado ele de um jeito tão... exposto. Confesso que também ri por dentro quando ele se viu desesperado ao constatar que EU era quem iria ajudá-lo a organizar aquele monte de papelada.
Me recompus, tentando não rir da situação ridícula na qual ele se encontrava e cruzei os braços.
– Sim. Algum problema?
Observei-o me olhar com uma cara de desgosto, enquanto pegava uma camisa e ia ao banheiro. Fechou a porta com força e eu esperei em seu quarto. Nunca tinha vindo ao andar de cima da casa dele, mas só tinha algumas suítes, um escritório e uma salinha de TV. O quarto dele estava desarrumado, acho que ele tinha acordado agora mesmo.
– Como entrou aqui? Eu disse para esperar! – ele gritou de dentro do banheiro. Eu ouvi a torneira sendo aberta, acho que ele ia dar um jeito naquele rosto de zumbi.
– Não gosto que me deixem esperando. Como já tinha invadido aqui uma vez, não foi nenhum problema pular o portão e invadir de novo. – ouvi a torneira se fechar.
– Não te ocorreu por essa sua cabeça de algodão-doce azedo que eu poderia estar ocupado? – dessa vez não contive uma gargalhada.
– Ah, eu vi como você estava ocupado colocando suas calças, evitando fazer o papel ridículo que fez na minha frente. Confesso que vi até demais.
– Bem que você deu uma boa olhada. – ele falou tentando parecer sedutor. Aquilo não funcionaria comigo.
– Só para ter certeza de que eu não estava em algum filme de terror. – ele não respondeu, e a porta do banheiro foi aberta. Agora ele estava totalmente vestido, com os cabelos já arrumados. Mas eu ainda não tinha terminado de provocá-lo. – Achei que precisasse de ajuda para se vestir.
– Bem que você queria. – ele disse me olhando debochado enquanto sorria do mesmo jeito e abria a janela do quarto. Uma claridade o invadiu e eu tomei a liberdade de apagar a luz, ainda acesa.
– Queria o que? Tirar outra foto de você em um estado deplorável para completar minha coleção? Com certeza. – agora ele me olhava sério. Eu tinha atingido um ponto fraco, já que ele ainda estava sob minha chantagem das fotos.
Ele também devia estar estressado por eu não ter me interessado em seu conteúdo seminu. Aposto que muitas mulheres tiveram orgasmos só de verem Sasuke de cueca, acho que ele já estava acostumado em tê-las a seus pés através de seu corpo. Também duvido que alguma tenha recusado alguma coisa depois de vê-lo daquele jeito, e ele pensou que eu fosse igual a essas mulheres. Mas ele já devia saber que não.
Confesso que ver Sasuke exposto daquele jeito havia sido no mínimo, agradável. Ele era muito bonito e seu corpo não deixava por menos. Seu peito era muito bem definido, assim como o tanquinho de seu abdômen. Seus braços também eram fortes, e a parte de baixo não deixava por menos. Mas eu podia muito bem esconder o calor que aquela visão me proporcionou e não seria tentada facilmente por aquele corpo escultural. Ao contrário, queria atormentá-lo até não poder mais.
– Duvido que sua “amiguinha” não tenha ficado agitada quando me viu. Mesmo que você me odeie, não há como negar uma atração sexual, já que somos feitos biologicamente para isso. – cara, como ele era egocêntrico! Tá, ele tava certo, eu tinha sim ficado um pouco impressionada com aquela visão, mas ele achava o que? Que ia cair a seus pés implorando para ele tirar a camisa só pra eu poder ver aquele tanquinho magnífico de novo? Coitado.
– É... já vi melhores. – revirei os olhos enquanto falava aquilo com pouco interesse, e percebi que ele não gostou do que ouviu. Ele ia responder, mas eu não deixei. – Mas o que me impressionou mesmo foi a sua capacidade de fazer esse papel ridículo na minha frente. – terminei a frase rindo e comecei a bater palmas. – Parabéns, Sasuke, incrível mesmo.
– Cala a boca! Se tivesse me esperado atender a porta, não teria que me ver nesse “papel ridículo”. – ele imitou aspas na parte do “papel ridículo”, imitando minha voz. – E eu sei muito bem que você gostou. – a última parte ele falou com um sorriso. Idiota.
– Tá, pense o que você quiser para não ficar deprimido. Agora anda logo aí que a gente tem que trabalhar. – ele me olhou debochado.
– Como assim “a gente”? Eu não vou passar meu fim de semana inteiro trabalhando com você.
– Tá, então se vire lendo aquelas mil páginas e escrevendo mais mil sobre elas em dois dias. – me virei para sair, e eu ia embora mesmo. Se ele achasse que eu ia implorar para que ele me aceitasse como ajudante, estava muito enganado.
– Espera! – dei um sorriso de canto de lábio. Homens. Tão manipuláveis... – Não há nenhum outro funcionário disponível? – me virei para ele dando-lhe um olhar de tédio.
– Sasuke, se tivesse algum outro disponível, por que seu pai mandaria justo a mim aqui para te ajudar? Você podia usar essa cabecinha para pensar mais vezes, e não só para enfiar na vagina das suas prostitutas. – ele me olhou aborrecido por um tempo, sem responder. Eu adorava deixa-lo sem resposta. – E então, vai trabalhar comigo ou posso ir embora aproveitar o sol na piscina da mansão dos seus pais?
Vi ele me olhar e sussurrar um “merda” bem baixinho. Ele passou por mim indo em direção às escadas, e eu o segui. Ele pegou a grossa pasta de arquivos que teríamos que analisar e se encaminhou a um escritório no andar de baixo, comigo o seguindo.
Entramos no cômodo. Era médio. Tinha duas mesas, uma de frente para a outra. As duas tinham vários papéis em cima e notebooks de última geração. O ambiente era bem iluminado e as paredes eram bege claro. O ar condicionado estava meio forte, mas eu preferia o vento frio ao calor que estava fazendo hoje. Sasuke sentou em uma das mesas, dividiu a enorme pilha de documentos e me deu metade.
– Você analisa essas. – como assim? Que tipo de ordem era aquela? Ele me olhou interrogativo quando eu não peguei os arquivos em sua mão. – Anda!
– Não. Devemos ver tudo juntos. – ele tinha agora um olhar descrente no rosto, me encarando como seu eu fosse louca por desafiá-lo. Não me importei. Peguei a cadeira da outra mesa e coloquei ao lado da dele.
Tomei a liberdade de tirar todos os papéis da mesa em que estávamos e coloquei na outra, deixando o móvel livre. Me sentei de frente para ele na mesma mesa e comecei e abrir a pasta, enquanto ele me olhava confuso e irritado ao mesmo tempo.
– Que merda você pensa que está fazendo? – ele perguntou já irritado.
–Estou te ajudando a ler esses papéis. Temos que lê-los e analisá-los juntos, ao invés de cada um ficar com um monte. Vai render mais e será menos cansativo.
– Não quero você na mesma mesa que eu. Já fiz muito te deixando trabalhar aqui. – sério, aquele ele estava começando a irritar. Eu só ia dar mais uma chance.
– Olha aqui, Sasuke. Eu também não queria vir aqui ler esse monte de bosta, principalmente com você. Mas essa foi uma ordem do seu pai e eu não posso recusá-la. Então já que somos obrigados a passar esses dois dias juntos, vamos pelo menos fazer um trabalho bem feito. Se você vier com essas reclamações frescas e mimadas pra cima de mim de novo, eu vou embora. – falei aquilo de um jeito sério, e não estava mentindo. Muitas vezes em minha vida tive que fazer coisas que eu não gostava com pessoas que não suportava. Sasuke levava uma vida fácil demais. Ele tinha que aprender a crescer.
Depois disso ele não falou nada, me olhando de um jeito impassível. Pegou a pasta de arquivos da minha mão normalmente, ligou o notebook e começou a lê-las. Dei um suspiro, vendo que ele não seria capaz de dirigir a palavra a mim, e decidi tomar a iniciativa.
– Eu vou lendo, a gente discute e você escreve. – estendi a mão e ele, vencido, me entregou de novo a pasta.
Tentei me manter calma diante da quantidade de dados que eu e Sasuke teríamos que ler, processar, discutir e relatar. Nos arquivos estavam gravados muitos acordos da empresa Uchiha com outras, nacionais e internacionais. Tínhamos que ver se os acordos estavam atualizados, se os dados sobre as empresas estavam corretos, os planos para o futuro e depois, fazer relatórios sobre cada uma, destacando os pontos fortes dos acordos e contratos, que seriam usados na reunião que Fugaku teria com os representantes delas na segunda.
Começamos meio devagar. Eu lia, perguntava o que não sabia para Sasuke e ele respondia de mau gosto. Mimado. Depois ele começava a escrever o relatório no notebook, conforme a gente ia analisando as melhores opções para o futuro das empresas. Confesso que conseguimos ficar na paz por algumas horas, fazendo um bom trabalho. Mas aquilo estava começando a cansar meus olhos e eu estava com sede de tanto falar. Sasuke também precisava de uma folga. Esperei terminá-lo de digitar para falar.
– Estou com sede. Quero água.
– Vá buscar. – que gentil da parte dele. Me levantei com mal gosto e fui em direção à porta. – Você não quer também? Vamos dar uma pausa, já é hora do almoço.
– Quero terminar isso o mais rápido possível, e ainda estamos no começo. – ele respondeu sem tirar os olhos do notebook. Tá bom né...
Fui até a cozinha (que eu sabia muito bem onde ficava) e tomei um copo enorme de água gelada, enquanto procurava na geladeira e nos armários por algum lanchinho. Bem, eu estava com fome. De repente me viro e dou de cara com Sasuke ali, também enchendo seu copo com água. Ele percebeu meu susto e me olhou indiferente.
– O que? – perguntou enquanto bebia água.
– Achei que iria ficar lá. – falei normal, abrindo a porta do armário e retirando de lá um saco com aqueles ursinhos de gominhas. Não acredito que ele tinha um desses. Que gay!
Peguei o saco com as gominhas e olhei para ele de um jeito divertido. Cara, nem a Hinata, minha amiga Wing, que era toda delicada e “menininha” comprava aquilo. Ele franziu a cara, como se eu tivesse descoberto seu “segredo sombrio”.
– O que? É bom. – foi a única coisa que ele respondeu e eu não segurei um riso. Quem diria que Sasuke Uchiha tinha um pacote fechado de ursinhos de gominhas. Me preparei para guardar, mas ele me impediu. – Não, vamos comer!
– O que? Vamos almoçar ursinhos de gominhas? – eu falei rindo debochadamente. Ele só revirou os olhos e me respondeu sem vontade, se aproximando de mim e tirando o saco de minha mão.
– Não tenho tempo de esquentar o almoço agora, e não comi nada de manhã. Além disso, podemos comer sem parar de trabalhar. E eu to com vontade de comer isso. – ele disse a última parte quase inaudível, só para ele, mas eu ouvi mesmo assim e não pude deixar de simpatizar um pouco com ele, enquanto sorria por dentro.
Pois é. Sasuke podia ser frio, egoísta, egocêntrico, calculista, filhinho de papai, insensível e galinha, mas no fundo, bem lá no fundo desse coração de pedra, estava um menininho que adorava ursinhos de goma. Que lindo, me emocionou tanto.
Voltamos ao escritório, ele abriu o pacote de gominhas e deixou em cima da mesa, ao alcance de nós dois. Voltamos a trabalhar, agora mais relaxados, já que combinamos de dar trégua nesses dois dias. Vez e outra enfiávamos a mão no pacote e comíamos aqueles docinhos. Tenho que admitir, fazia tempo que eu não comia aquilo – desde os 13 anos, para ser mais exata – e o gosto açucarado deles deixou-nos mais a vontade e o ambiente ao nosso redor até ficou mais leve.
Sasuke, ao contrário de mim, que pegava dois ou três ursinhos de cada vez, pegava uma mão cheia, enquanto com a outra não parava de digitar o relatório. Eu via ele se lambuzar e comer aquelas gomas como se fossem a melhor comida do universo, e ria por dentro. Não de um jeito debochado, mas eu ria por ele agir de forma tão descontraída e tão infantil enquanto comia e deixava resquícios de açúcar nos lábios como se fosse uma criança de 5 anos. Eu quis, mas não pude deixar de notar que ele me atraía daquele jeito tão... inocente dele. Sério, nunca pensei que Sasuke teria esse lado, e não consegui não gostar dele nessa hora. Mas só nessa hora, porque no resto das vezes ele se mostrava um filho da mãe frio e irritante. Então era bom aproveitar o estado de humor dele agora, antes que ele virasse um ogro de novo.
Acabamos com o pacote de doces enquanto agilizávamos o trabalho. Já tínhamos lido uma boa parte dos arquivos, mas ainda não estávamos nem na metade e já eram 6 e meia da tarde. Resolvemos dar outra pequena pausa e fomos beber água na cozinha de novo.
– Não sei se vai dar para terminar. – para minha surpresa, Sasuke me disse aquilo, de um jeito preocupado, não grosso ou de tédio com que ele sempre falava comigo.
– Vai sim, já fizemos boa parte hoje, e ainda temos mais amanhã. – me vi tentando animá-lo, mas o que eu estava fazendo? Tinha sido fofo ver ele comer aqueles ursinhos, mas ele ainda era o mesmo Sasuke nojento e irritante de sempre. Pare de ser legal, Sakura!
Sasuke deu um longo suspiro e começou a olhar para o nada. Eu não tinha certeza do que ele estava fazendo ou do que eu deveria fazer. Mas ele decidiu isso por mim.
– Pode ir se quiser. Já vai começar a escurecer e minha mãe janta cedo de sábado. Amanhã pode voltar no mesmo horário, mas não invada minha casa de novo. – ele tentou fazer a última parte soar descontraída, dando até um risinho no fim, mas eu notei uma certa preocupação na voz dele. Não tinha certeza do que aquilo significava.
– Não, vamos chegar pelo menos na metade dos documentos ainda hoje. Sua mãe vai entender. A não ser que você já não suporte mais minha presença aqui. – ele não me deu resposta por algum tempo, depois deu outro suspiro e finalmente, falou.
– Tá. Vamos voltar lá então. Pega o pacote de biscoitos de polvilho dentro do armário. To com fome de novo.
– Você não é muito saudável, né? – falei fazendo como ele pedia, seguindo-o até o escritório.
– Só de fim de semana. – ele respondeu, ainda de um jeito descontraído.
Voltamos para o escritório e ficamos lá até 11 e meia da noite. Havíamos passado da metade dos arquivos, e os relatórios que Sasuke escrevia também estavam ficando bons. Eu tinha que admitir que ele não era um completo idiota, pelo menos sabia trabalhar direito. Resolvemos parar por ali e continuar no domingo.
Eu não parava de bocejar e esfregar meus olhos, fazer aquilo cansava demais. Sasuke também estava um caco. Ele se espreguiçou na cadeira, levantando os braços e esticando sua barriga. Foi involuntário. Olhei para ele daquele jeito e me lembrei de tê-lo flagrado mais cedo naquele estado seminu.
Imediatamente me lembrei de seu corpo definido, da sua cara de espanto ao perceber que eu o olhava daquele jeito e ao lembrar do que eu mesma tinha achado de vê-lo ali, tão exposto e tão tentador, apesar, claro, de não admitir. Certo, confesso: ele era bonito e eu me sentia atraída por ele. Merda, eu era só mais uma entre as milhares de mulheres que se sentiam daquele jeito por ele. E eu não queria ser uma dessas mulheres. Não queria olhar para ele e morrer de amores por seu corpo perfeito. Não queria me sujeitar a ser manipulada por aquele rostinho inocente. Ainda mais porque eu ainda tinha uma guerra para ganhar dele. E no final, quem iria ficar aos meus pés seria ele.
Sim, não importava se Sasuke tinha sido amigável essa tarde e eu tinha visto um pouco do outro lado dele (nos dois sentidos), eu ainda tinha uma guerra a ganhar dele e não podia esquecer de que ele usava todo esse charme que tinha de sobra para seduzir mulheres, usá-las e depois procurar outras. E eu não ia ser uma dessas mulheres. Se bem que com aquele tanquinho, não custava nada tentar...
NÃO. FOCO, SAKURA, FOCO. Sasuke Uchiha não ia conseguir colocar você na lista dele. Não mesmo. Você estava aqui em uma missão dada por Tsunade. Acabando essa missão, você iria voltar ao esconderijo das Wings para continuar sua vida patética e ia esquecer de Sasuke, do corpo dele e daqueles olhos cor de ônix que ainda te prendiam em uma escuridão viciante.
Sim, estava decidido. E você também tinha que mostrar a ele que com você não se brinca. Você ia deixá-lo aos seus pés. Não podia fracassar agora.
– Sakura! – opa. Acho que me exaltei de mais em meus pensamentos. Nem percebi que Sasuke me chamava do outro lado da mesa.
– Ah, o que? – ele sorriu de canto de lábio antes de continuar. Imagino o que ele pensou que eu estava pensando. Com certeza não era nele (ou melhor, ele não podia saber que era sim nele).
– Lembra, já terminamos por hoje. Vai embora agora ou vai passar a noite aqui também?
– Isso é um convite? – falei de modo malicioso. Eu só queria irritá-lo, claro. Como disse antes, ele pode me atrair, mas eu não ia me submeter a ele. Ia fazer o contrário. Mas ele só revirou os olhos de novo e me disse com tédio.
– Bem que você queria, mas não. – ele se levantou e abriu a porta do escritório, da qual eu saí, pronta para ir embora.
– Até amanhã então. – eu disse saindo pelo portão e enquanto ele me acompanhava. – E vê se não me aparece de cueca de novo.
– Bem que você queria também, mas terei esse cuidado. – ele disse dando um sorriso sarcástico. Não pude evitar e ri também. Ele fechou o portão e voltou para dentro do sobrado, e eu comecei a ir até a mansão Uchiha com o motorista que Fugaku enviara para me pegar.
O dia não tinha sido de todo ruim. Confesso que eu tinha me divertido um pouco, apesar de ter sido com Sasuke. Mas agora eu só queria tirar a imagem do rosto lindo dele da minha cabeça e me concentrar em coisas mais importante que eu ainda teria que fazer amanhã e durante a semana. Apesar de ser difícil ignorar o arrepio na minha espinha que insistia em aparecer toda vez que eu me lembrava dele com o peito nu.
****
No dia seguinte, cheguei ás 8 da manhã em ponto. Eu agora tocava a campainha da casa de Sasuke, esperando que dessa vez ele me atendesse. Assim como pensei, o portão se abriu e ouvi a voz dele no interfone, sempre fria e direta. “A porta está aberta”. Entrei e chamei por ele.
– No escritório! – ouvi sua voz. Imaginei que ele já tivesse começado sem mim, o que me deixou meio brava. Afinal, devíamos fazer isso juntos. Agora eu ia pegar o bonde andando e ele ia querer que eu sentasse na janelinha.
Entrei no cômodo e ele estava falando com alguém no celular. Parece que ainda não tinha começado a trabalhar, e diferente de ontem, estava completamente vestido (minha parte hormonal não gostou disso). Ele me olhou indiferente e me indicou o lugar onde eu sentei ontem, enquanto ouvia sua conversa.
– Já falei que não, Karin! – Hum, Karin? – Não, vou trabalhar o dia inteiro. Não, vou estar cansado a noite. Isso não é problema meu! Cansei, preciso ir. – e ele desligou o celular na cara dessa tal Karin, enquanto fazia uma cara cansada.
– Prostitutas, hem? Talvez esse seja seu problema. – claro, eu não podia deixar de provocá-lo.
– Hoje não, Sakura. – ele me deu um olhar ameaçador. Uh, olha quem estava de TPM. – Quero acabar com isso o quanto antes.
Recomeçamos de onde tínhamos parado ontem, fazendo o mesmo esquema. Eu me encarregava de ler os arquivos e Sasuke já ia passando para o notebook suas anotações. Ele não estava falando muito hoje, devia estar estressado com alguma coisa. Eu nem queria me meter, então fingi que nada acontecia.
Passamos algumas horas naquele clima tenso, bem diferente de ontem quando comemos ursinhos de goma, até que o celular de Sasuke tocou de novo. Ele olhou o número e ignorou a chamada. Tocou outra vez. Ele ignorou de novo, dando um grande suspiro. Na terceira vez que tocou, ele já tinha perdido toda a paciência. Mal olhou o número e já jogou o aparelho contra a parede. Confesso que dei um pulo de susto com aquela atitude, qual era o problema dele? Empurrei um pouco minha cadeira para trás, porque do jeito que ele estava instável, capaz de pular em cima de mim e tentar me estrangular. Ele fechou os olhos e apoiou os cotovelos na mesa, passando as mãos por seus cabelos.
– Preciso de uma pausa. – ele disse e eu nem me atrevi a discordar. Até porque, já era meio-dia mesmo. Eu estava com fome.
Ele se levantou e foi até a cozinha, eu o segui. Ele tirou duas embalagens de comida congelada da geladeira e colocou no microondas. Ficamos em um silêncio desconfortável na cozinha. Eu olhava para ele e via um vazio no seu olhar. Um “que” de preocupação e raiva também. Apesar de minha curiosidade, decidi mais uma vez não me meter nos assuntos dele.
– Sakura – ele disse de repente. Olhei para ele, esperando-o falar. – Quanto você quer por aquelas fotos? – ele me olhou sério, impassível.
– Se você se refere às fotos que eu tirei de você na noite do seu aniversário, elas não têm preço. – não pude evitar um sorriso. Eu não ia ceder à chantagem por nada, não era burra o suficiente para isso. Ele me olhou irritado e tirou as comidas do microondas, que começou a apitar.
Entregou uma para mim e começou a comer a outra. O cheiro estava muito bom. Começamos a comer, mas tinha algo errado ali.
– Achei que você queria comer algo sem que interrompesse nosso serviço. – falei. Afinal, foi isso o que aconteceu ontem.
– Achei que eu tinha dito que precisava de uma pausa. – voltamos ao Sasuke frio e mal educado. É, eu estava certa ao tentar ignorar o jeito mais “legal” dele ontem.
Começamos a comer em silêncio, que para a minha surpresa, foi quebrado por ele.
– Eu te dou qualquer coisa.
– O que? – levantei minha cabeça olhando para ele enquanto mastigava e já tinha até me esquecido do que ele tinha falado. – Me dá o que pelo que?
– As fotos, Sakura! – ele respondeu irritado.
– Ah sim! – então não me agüentei e comecei a rir. – Você é mesmo fraco, heim, Sasuke? – ele só continuou me olhando irritado. – Não vou dar aquelas fotos para você. Nem que você me vendesse sua casa, ou até mesmo a empresa. – acho que ele viu que não tinha jeito de me convencer.
– Mas você não vai publicá-las, né?
– Como eu disse antes, depende de você. Se continuar comportadinho como nesses dias, sua reputação está segura. Caso contrário...
– Já te falaram que você é uma vadia?
– Eu?! – fiz uma cara de ofendida, mas é claro que eu só tava tirando uma com a cara dele. – Devia se enxergar naquelas fotos, Sasuke, porque a coisa tava feia pro seu lado.
Depois disso, por incrível que pareça, Sasuke não trocou mais nenhuma palavra comigo. Terminamos de comer em silêncio e voltamos a trabalhar, com o clima mais pesado e tenso do que quando começamos.
Sasuke nem olhava para mim e mal respondia o que eu falava para ele sobre os documentos. Até certo ponto eu tolero, mas tem uma hora que ninguém agüenta ser ignorada.
– Qual é o seu problema hoje? Achei que tínhamos dado uma trégua por pelo menos esses dois dias. – falei alto me levantando da cadeira. Ele olhou para mim indiferente e deu um sorriso de canto de lábio.
– Nem tudo é sobre você, sabia disso?
– Então o que é? Não posso trabalhar com você enquanto você não sai desse estado de mosca morta!
– E quem você pensa que é? – ele disse agora também se exaltando e levantando a voz. – Não é da sua mísera conta o estado em que estou e você não é nenhuma psicóloga para me dizer o jeito que devo ficar. – eu o encarei enquanto ele também me olhava assustadoramente, com aqueles orbes negros expelindo raiva. Eu sentia que ele podia pular no meu pescoço a qualquer momento, mas ele não tinha o direito de falar comigo daquele jeito.
– É da minha conta porque sou eu quem tem que te aturar assim! Não é minha culpa se você está de TPM e também não me importo, mas nunca iremos terminar essa merda se você não colaborar!
– Se não quer trabalhar comigo desse jeito, então dá o fora! – ele gritou me apontando a porta. Então era assim?
– Sasuke, não me teste. Se eu for, não volto. Você não vai terminar essa papelada até amanhã de manhã sozinho. – meu lado gentil falou mais alto e eu tentei reconciliar com ele. Nunca mais farei isso.
– Mas parece que não há tanta diferença, porque segundo você, não estamos rendendo mesmo! – ele ainda continuava gritando. Qual era o problema daquele cara?
– Ei, eu não tenho culpa dos seus probleminhas, então não venha descontar em mim!
– Então pare de me irritar!
– Não estou te irritando, só estou pedindo para você melhorar esse ânimo para que possamos fazer um trabalho decente! – cara, ele era impossível!
– E desde quando você se importa se fazemos um trabalho decente ou não?
– Porque seu pai me obrigou, seu idiota! Para de dar chilique e de gritar comigo, não sou sua prostituta pra você fazer o que bem entender comigo!
– Você acha que sabe tanto de mim e fala como eu fosse a pior pessoa do mundo, mas claramente nunca deve ter se visto no espelho! – o que? Que insinuação era aquela pra cima de mim? Agora ele tinha me deixado putíssima. Subi em cima da mesa bagunçando e pisando nos papéis dali enquanto segurava o colarinho da camisa dele e puxava seu rosto contra mim.
– O que você quer dizer com isso? – não sei se ele reparou no olhar assassino que eu dava a ele, mas era melhor ele se preparar para ficar machucado, porque eu não aceito desaforos daqueles de graça.
– Você vive me enchendo por causa de prostitutas como se eu fosse um cafetão e ainda julga meus atos e minha posição na família, mas você faz muito pior, Sakura Haruno! – ele falou aqui cheio de raiva, senti isso, mas sem deixar escapar um sorriso de deboche.
– O que eu faço de pior, hem, seu playboyzinho de merda?
– Você acha que é tão inocente, mas já fez muito pior! Tira sarro de prostitutas, mas acho que você se esqueceu de que também é uma! Ou pensa que eu não sei que parte das suas missões com aquela velha da Tsunade incluem sexo por dinheiro? – ele gritava, seu rosto próximo do meu, seu olhar mais frio, ameaçador e penetrante do que nunca. – Ou ainda, todas as pessoas que você já matou a mando de sua querida mestra, todas as vezes que você roubou e trapaceou, todas as vezes que...
– Você acha que eu escolhi essa vida, seu imbecil? – não me segurei, dei um soco no meio do nariz dele, sem soltar seu colarinho e o obriguei a olhar para mim. – Eu só faço aquilo porque não tive outra opção! Eu até tentei, mas você e resto da sua família idiota me encontraram e eu fui obrigada a retomar essa vida! Mas você faz tudo isso porque quer, não sofre nenhuma consequência e ainda se acha o coitadinho da história! Deixa eu te falar uma coisa, Sasuke, quem não sabe quem é aqui é você, e eu não vou deixar você me insultar dessa maneira, ouviu, seu idiota?
Eu nem tive tempo de terminar a palavra “idiota”. Nossos rostos estavam muito próximos, ambos cheios de raiva. Eu gritava enquanto via o sangue escorrer do nariz dele, observando-o me olhar daquele jeito que só ele sabe. Mas eu não me importava, tinha que falar aquelas verdades. Quem ele pensava que era para me insultar daquele jeito? Mas como disse, nem tive tempo de terminar a palavra “idiota” e Sasuke avançou para cima de mim.
Mas não avançou no sentido de me atacar ou me machucar. Não, na verdade, o imbecil fez outra coisa: me beijou. Sim. Depois de eu gritar e com ele e dizer tudo aquilo, o que ele faz? Me beija.
Tá, alguém me explica isso agora? Porque quando ele avançou, juro que pensei que ele ia me jogar no chão do outro lado da mesa e até estava manejando outro soco para me defender. Mas o que aconteceu foi que seus lábios vieram de encontro aos meus, e me calaram imediatamente. Não foi do jeito que ele tinha feito da última vez, em que estava bêbado e só queria me atormentar. Dessa vez foi como em um impulso. Foi como se aquilo fosse a única coisa que podia ser feita naquele momento para nos acalmar.
Me pegou de surpresa, claro. Eu ali, ajoelhada em cima da mesa, tentando me segurar para não matá-lo e ele me pega em um beijo possessivo e quente, ao qual eu não demorei a retribuir. Não tinha como recusar aquilo. Depois da surpresa, tanto minha como dele, começamos a nos deixar levar. Ainda com as mãos em seu colarinho, eu o puxei para mais perto da mesa, e ele colocou uma das mãos em minha nuca, aprofundando o beijo. Era um beijo desesperado, um beijo de desejo, caos, agonia. E era muito bom.
A língua dele explorava cada parte da minha boca, e eu não deixava por menos. Os lábios dele envolviam os meus e o toque deles era macio e possessivo, como se dependesse dos meus para sobreviver. De repente não existia mais nada. Era só eu, ele, e a sensação mais prazerosa do mundo. Aquela boca, aquele hálito, aquele gosto, aquele cheiro, tudo nele fazia meu interior pedir por mais, apesar de eu ainda não ter plena consciência do que estava fazendo.
Senti que a coisa começou a ficar séria quando ele usou a mão livre para colocar sobre a minha perna, me causando arrepios. Eu, sem pensar, puxei-o mais ainda e comecei a erguer sua camisa, enquanto nosso beijo não parava. Era delicioso demais para acabar. Eu sentia que não precisava mais respirar, só precisava daquela sensação que ele me causava e mais nada.
Mas então percebi que aquilo não me traria oxigênio e que eu precisava respirar. Percebi também que não fazia sentido o que eu estava fazendo. Por que diabos eu estava fazendo aquilo?
Me distanciei dele de supetão, enquanto descia da mesa e ficava frente a frente com ele. Nós dois estávamos tentando recuperar o oxigênio perdido, ofegando ruidosamente. Cara, o que tinha sido tudo aquilo? Por que ele tinha me beijado daquele jeito tão... suplicante, necessitado? Não tinha sido para me atormentar como da outra vez. Sasuke tinha me beijado com vontade, e eu tinha retribuído porque eu quis! MAS COMO ASSIM?
Não era para aquilo acontecer! Eu só tinha que terminar aquela discussão para nós dois podermos voltar a trabalhar, mas o maldito não me deixou! O que ele estava pensando quando me beijou? E no que eu estava pensando quando retribui? E pior... por mais que eu tente, não consigo me arrepender de não tê-lo impedido, porque o beijo dele era muito bom. Era relaxante, era excitante, não dava para recusar. Eu não queria ter recusado. Eu adorei aquele beijo, e meus hormônios pediam por mais. Mas eu não podia fazer aquilo. Eu estava ali para trabalhar, não para Sasuke me beijar.
E eu não podia deixar ele me manipular daquela forma. Eu era imune aos charmes dos homens, eu havia sido treinada a resistir. Mas então por que nada disso funcionava com aqueles olhos cor de ônix que tanto me sugavam e aqueles lábios que faziam a mesma coisa? No que eu estava pensando quando retribui aquele beijo que ele me deu sem explicação?
Não sabia. Não sabia e nem queria saber. Só o que queria era sair dali antes que eu fizesse uma besteira. Antes que terminasse de tirar a roupa dele para ter a visão maravilhosa de seu corpo que tive ontem, que até agora me dá arrepios só de lembrar. Mas não era minha culpa. “Fomos feitos biologicamente para isso”. Até das palavras dele eu me lembrava agora. Mas não podia ficar ali. Quem ele pensava que era para fazer aquilo? Quem ele pensava que era para causar aquelas sensações em mim? Nunca ninguém, nenhum homem fazia percorrer por meu corpo aquela onda de desejos e anseios. Sasuke não seria o primeiro a preencher essa lista. Eu não ia deixar.
Por isso eu precisava sair dali. Peguei minhas coisas e tratei de ir embora daquela casa. Nem tive coragem de olhar para trás e verificar a reação dele. Ali eu não ficava mais. Ele que se vire para terminar o resto da papelada. Não me importava mais. Queria ir embora daquele lugar, daquela família. Queria voltar a morar com Tsunade e completar aquelas missões, pelo menos assim eu não teria que ter sentimentos nem ficar confusa em relação a eles.
É isso. Não dava mais. Sasuke que fosse para o inferno com aquelas fotos que eu mesma havia tirado para atormentá-lo. Para prendê-lo a mim. Não queria mais aquelas fotos. Não queria nada que o fizesse depender de mim ou o contrário. Ele queria as malditas fotos, agora iria tê-las de volta. Com ele eu não mexia mais. Para o meu próprio bem.
All the things a girl should know
Are the things she can't control
Todas as coisas que uma garota deveria saber
São aquelas que ela não consegue controlar
Pixie Lott – Mama Do
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