Broken Trust
5 Capítulo IV
Soul Eater POV
– Argh! Que dor de cabeça. – Murmurei em meio a um bocejo, depois passar as mãos no rosto. Abri os olhos vagarosamente, percebendo um feixe de luz adentrar por entre as cortinas e bater diretamente na minha cara. Serrei os olhos para que não ficassem irritados com aquela luz maldita, levantei o tronco e me sentei aonde, até então, eu estava deitado. Quando abri realmente os olhos, me dei conta que eu não estava no apartamento da Naomi. Pelo contrário, eu estava sentado em um sofá de uma sala em uma casa que aparentemente eu nunca tinha visto. E minha cabeça latejava de dor, parecia que faltava pouco pra explodir. Mas que diabos está acontecendo?
Junto a mim no sofá havia uma coberta e um travesseiro. Mas eu não me lembro de ter pegado nada disso. Nem ao menos me lembro de ter entrado nessa casa. Onde eu estou?
O ambiente em volta era silencioso. Observei tudo ao redor por alguns instantes, e assim que tive certeza que não havia ninguém além de mim ali, eu me levantei, logo colocando-me a percorrer com passos vagarosos e olhares investigativos que tentavam descobrir uma pista de que lugar era esse.
Mas era apenas uma sala normal, como qualquer outra; Sofás, poltronas, TV, tapetes e cortinas, quadros, porta-retratos... Isso! Porta-retratos.
Acelerei os passos até uma parede próxima a uma pilastra, e fitei alguns quadros e porta-retratos pendurados ali. Minha cabeça ainda doía e olhar algo tão de perto assim era difícil, pois minha visão estava um pouco embaçada. Mas com um pouco de esforço consegui obter foco da vista e passei a tentar identificar alguém conhecido naqueles retratos.
O primeiro que observei retratava uma mulher. Era uma mulher alta, magra e loira, muito bonita por sinal. Tentei buscar em minha memória algum nome pois o rosto daquela mulher não me era totalmente desconhecido, mas não consegui me lembrar de nada. “Mas que merda, essa dor de cabeça não me deixa raciocinar direito”, pensei enquanto fitava irritado o quadro ao lado. Meus olhos enxergavam agora um homem com uma menina. Era um homem ruivo com cara de retardado, e uma menina loira de olhos verdes, com o rosto bem similar à mulher do quadro anterior. “Mas espera aí, esse cara é o Spirit!” Pensei surpreso depois de esfregar os olhos e observar o retrato pela segunda vez. “E essa menina... essa menina é a Mak-...”
– Soul. – Uma voz doce proveio de trás de mim proferindo meu nome. Eu me assustei. Me assustei porque além disso tem acontecido inesperadamente, eu conhecia aquela voz. Era a voz dela.
Me virei bruscamente para encarar quem havia me chamado, mas ao girar o corpo, acabei cambaleando para frente e como conseqüência da falta de equilíbrio bati a cara na pilastra que se encontrava logo atrás. De imediato, exclamei um gemido de dor e levei as mãos urgentes até o nariz. “Mas que merda! Como é que eu pude esquecer que essa coisa estava atrás de mim?!”
– Oh meu Deus! Você está bem?! – A mesma voz doce voltou a propagar-se. Ao erguer a cabeça, pude ter certeza das minhas suspeitas. Era ela mesma... Maka.
Suas mãos pequenas e de dedos finos pousaram sobre as minhas e tentavam retira-las de cima do nariz, ao mesmo tempo em que seu par de olhos verdes me fitava com fervor.
Acabei cedendo e retirei as mãos da frente do nariz. Havia um pouco de sangue em minhas palmas, mas eu sabia que aquela hemorragia não foi causada pelo baque que tive contra a pilastra.
Antes de retirar as mãos de cima do nariz, meus olhos percorreram o corpo da Maka. Notei que ela era outra. Ela não usava mais aquelas antigas marias chiquinhas, seus fios loiros estavam livres caindo sobre os ombros; Ela vestia uma blusa decotada, que revelava o quanto o seu corpo de criança tinha se desenvolvido durante esses anos. Um shortinho curto apertava seu quadril e o início de suas coxas. E aquela bunda...
– Soul, seu nariz ta sangrando mais! – Maka exclamou, me fazendo recuperar a sã consciência.
Instantaneamente senti meu o rosto corar. Tive receio de que ela suspeitasse o real motivo daquele sangue fluindo do meu nariz. Mas eu não conseguia parar de olhá-la. Ela estava tão diferente...
Antes que minhas fantasias masculinas voltassem a tomar controle de minha mente, senti uma pancada acertar o topo da minha cabeça, causando uma forte dor. Logo percebi que o originador daquela pancada foi um livro que estava na mão da Maka.
– Maka-chop bem merecido, baka! – Ela gritou furiosa. É... Ela tinha descoberto a causa da hemorragia nasal.
Maka POV
Eu tinha acordado há pouco tempo atrás, e assim que troquei de roupa, desci ao primeiro andar e encontrei Soul olhando os retratos que meu pai tinha pendurado na parede. Quando o chamei, parece que ele se surpreendeu um pouco e acabou se machucando num choque contra a pilastra. Corri para ampará-lo, mas assim que aparentou ter tomado consciência, ele me fitou com o olhar ardente, analisando todo o meu corpo. Me senti intimidada, quase morri de vergonha e lhe castiguei com o meu velho e bom Maka-chop.
Ele ficou se lamentando e choramingando de dor. Eu apenas ignorei e o puxei pela camisa, arrastando-o até o toalete que havia numa das portas do corredor ao lado da sala em que estávamos. Assim que adentramos o cômodo, soltei sua camisa e fui até a pia, abrindo a torneira em seguida.
– Lava esse nariz. – Proferi séria cruzando os braços, e fitando-o com ar de “mãe brava”.
Ele debruçou-se sobre a bancada, e passou a enxaguar o rosto.
– Já se recuperou da bebedeira de ontem Sr. Encrenca? Ou ainda está de ressaca? – Indaguei com rigidez. Ele não respondeu, apenas terminou de lavar o rosto e enxugou o rosto com uma toalha que encontrava-se próxima.
Soul Eater POV
A água gelada molhava minhas mãos que eram dirigidas até meu rosto, assim retirando o sangue que havia escorrido do nariz. Eu ouvi a pergunta de Maka, mas fingi que não escutei. Agora eu me lembrava que depois de brigar com a Naomi, eu tinha saído desorientado e entrado no primeiro bar que vi pela frente. Me lembrei de ter bebido muito e de tudo, e por causa disso, eu havia perdido a consciência. Tive medo de pensar no que eu tivesse feito na casa da Maka enquanto estive embriagado. Esse medo me motivou a ignorar a pergunta.
Apanhei a toalha e passei a enxugar o rosto como se não estivesse acontecendo nada ali. Mas a Maka persistiu no questionamento.
– Você agora já está sóbrio o suficiente para termos uma conversa minimamente descente? – A rispidez em sua voz tornava-se mais intensa a cada palavra.
Senti um arrepio na espinha ao me lembrar que às vezes em que ela usou esse tom não resultaram em um desfecho pacífico.
Acabei de enxugar o rosto, larguei a toalha sobre a bancada e me virei, ficando frente a frente com ela.
– Me desculpe por qualquer coisa que eu tenha feito na noite anterior. – Abaixei o olhar, com receio de encará-la.
– Ah, você não fez nada demais. A não ser ficar gritando debaixo da minha janela, acordando meus vizinhos, que aliás já mandaram um comunicado de reclamação. – Maka estava sendo cruel com toda essa severidade. Mas parece que até mesmo ela viu que estava pegando pesado, pois suas próximas palavras soaram com mais suavidade. – A gente precisa conversar sério, você não acha? – Ela interrogou, e eu apenas concordei gesticulando com a cabeça.
Permanecemos em silêncio por algum tempo. Me faltavam palavras para aquele momento, e aparentava acontecer o mesmo com Maka, que agora também fitava o chão. Para sair daquela tensão, me permiti tomar a primeira palavra depois daqueles duradouros minutos de silêncio.
– Você quer ir pra algum outro lugar? – Balbuciei baixo, mas foi o suficiente para que Maka escutasse.
– Hm, ta certo. Só vou vestir outra roupa. Pode me esperar na sala, volto em um minuto. – Ela disse se retirando do toalete.
Mas parece que o minuto dela durou pelo menos 15 minutos. Eu já estava impaciente, andava de um lado para o outro enquanto minha cabeça fervia com tantas idéias e assuntos que eu tinha a tratar com a Maka.
Passados exatos 20 minutos, ela surgiu no topo da escada, linda como sempre. Tomei cuidado de olhá-la por apenas alguns instantes, porque eu sabia que se olhasse demais, acabaria provocando novos sangramentos.
Notei-a descendo as escadas e ir direto até a porta, que era onde eu estava. Segui-a com os olhos até o momento em que ele girou a maçaneta e abriu a porta.
– Vamos? – Maka perguntou retoricamente pois já se encontrava do lado de fora quando a indagação foi feita. Me limitei a apenas segui-la.
Fomos até a quadra onde costumávamos nos encontrar com Tsubaki, Black Star e o resto da turma na época de colégio para jogar basquete. Durante todo o percurso até nos sentarmos em um banco, permanecemos em silêncio absoluto. Mas precisou apenas que nos sentássemos para que Maka começasse a argumentar.
– Soul, o que foi que você viu naquela noite? – Ela não me olhava. Seu olhar estava petrificado no horizonte a sua frente.
Suspirei depois dessa pergunta. Eu me recusava a lembrar daquela noite. Mas eu sabia que era necessário. Aquela era a hora de tirar tudo a limpo, esclarecer todas as dúvidas.
– Naquela noite? – Tentei estender o meu prazo de resposta, pois uma hesitação ainda brotava em meu peito.
– Sim. Eu quero saber exatamente o que você viu naquela noite de anos atrás.
A noite onde nasceu o motivo pra que eu fosse embora.
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