Broken Trust
10 Capítulo IX
Soul Eater POV
Depois de parar de apertar as bochechas de Maka, Blair agarrou uma de minhas mãos e colocou-se a me puxar para dentro do apartamento.
– Por que vocês não entram? A casa ainda é de vocês. – Blair dizia me arrastando apartamento a dentro.
A loura atrás de mim ainda tinha a cara meio fechada, deixando bem claro que não estava gostando daquela situação. Enquanto Blair me puxava, fitei Maka por cima do ombro, a peguei por um dos pulsos e trouxe-a junto a mim. Quando estávamos todos dentro do apartamento, a porta bateu sem o auxílio de mãos; Havia sido fechada com um feitiço rápido de Blair. Eu e Maka, simultaneamente, observamos tudo à nossa volta e notamos que muita coisa ali tinha mudado.
Depois que Maka foi morar na casa da mãe e eu fui para o apartamento de Naomi, deixamos Blair morando por lá. E após todos esses anos, era nítido que Blair tinha feito questão de deixar tudo com a sua cara, assim, lotando o apartamento com aquelas abóboras.
E por falar na gata-bruxa... Bem, ela continuava “montada” em cima de mim, hora me beijando, miando meu nome, hora me sufocando no meio daqueles peitos enormes. Estava sendo difícil conter uma hemorragia nasal com ela se esfregando em mim o tempo todo. O que me fazia conter tal reação era por Maka estar bem ali do lado, a qual evidentemente parecia querer ir embora no mesmo momento que chegou. Mas ela continuava ali estendida de pé, me fazendo lembrar que ela havia motivos realmente sérios para não ir embora.
Em certo momento, segurei os braços de Blair, interrompendo os gestos dela. Encarei-a com rigidez para que ela entendesse a seriedade que a situação exigia.
– Blair, me escuta. – Minha exclamação veio seguida de um miado da gata bruxa, que agora me olhava atenta. – Eu e a Maka viemos até aqui em uma situação de emergência. Viemos até aqui para que você nos ajudasse. – Olhei para Maka, como se a dissesse para continuar.
A loura bufou com alívio por aquela série de gestos afetuosos de Blair ter acabado. Em seguida, nós três nos dirigimos ao sofá e nos sentamos; Maka e eu ficamos cada um numa extremidade e Blair ficou no meio. Após seu árduo silêncio, Maka colocou-se a proferir algumas palavras, explicando a atual situação para Blair. A loura contou a ela todos os fatos ocorridos, entre eles a confusão e a mensagem encontrada no apartamento de Naomi, o desaparecimento da ruiva, e a conversa com o Stein.
– E como eu poderia ajudá-los? – Blair questionou depois que Maka deu fim à sua explicação. A loura me olhou depois da indagação, como se também quisesse saber a resposta, já que quem havia decidido que Blair iria nos ajudar, era eu.
A ideia de procurar por Blair para nos ajudar me veio à mente porque, naquela noite de anos atrás, ela foi a única pessoa para quem eu havia relatado a cena que eu tinha presenciado. Nem mesmo para Tsubaki e Black Star eu havia dito algo. Apenas ela sabia. Ela também foi a única que viu o estado em que fiquei depois da partida de Maka. Mas acontece que eu também não sabia como ela poderia nos ajudar. Ao pedir o auxílio de Blair, eu agi por puro impulso causado ao ver Maka tão desamparada.
Eu realmente não sabia o que responder às duas que me olhavam fervorosamente. Desse modo, permaneci em silêncio, após abaixar o rosto, assim denunciando a minha incapacidade de pensar em alguma solução.
Maka percebeu que a angústia começava a me tomar, então ela respondeu à pergunta de Blair por mim.
– Eu acho que poderíamos começar procurando por Naomi. – A loura sugeriu. Eu ergui a cabeça, indignado comigo mesmo por não ter pensado isso antes. Maka deu procedência depois de fitar Blair ao seu lado. – Você não conhece nenhum tipo de feitiço rastreador ou algo do tipo, Blair?
– Conheço sim, Maka-chan. Mas eu não irei usá-lo para achar essa tal de Naomi que roubou o Soul-kun de mim. Na verdade, esse desaparecimento deve ter sido um sinal, de que o Soul pertence a ninguém mais e ninguém menos do que euzinha. – Blair ronronava ao fim de suas palavras, e roçava sua cabeça em mim como os gatos fazem.
– Para com isso Blair! – Maka se exaltou e elevou a voz. – Isso pode parecer brincadeira pra você, mas não é. Há vidas em jogo, e uma dessas vidas é a do Soul! – Maka exclamava fitando Blair com austeridade. As últimas palavras da loura fez vir à tona de minha mente a mensagem de sangue na parede, a qual, por pouco, eu quase havia esquecido.
Quando Maka acalmou os nervos, nós três ficamos nos entreolhando, esperando por quem reagiria primeiro. Por fim, Blair pareceu se dar por vencida e proferiu.
– Se isso vai salvar a vida do Soul eu faço. Mas eu ainda não vejo a relação entre salvar o Soul e salvar a Naomi.
As duas se olhavam com ar de desavença. Era nítido que Maka tinha a resposta na ponta da língua, pois seu olhar de certeza me dizia isso. Todavia, algo a impedia de dizer. Tal relutância em responder me atiçou mais ainda a curiosidade.
Depois de alguns segundos encarando Blair, Maka finalmente jogou as cartas na mesa e então eu compreendi sua relutância.
– Talvez Naomi tenha algum envolvimento nos acontecimentos que estamos investigando. – Maka balbuciou tais palavras de cabeça baixa, parecendo tentar evitar que nossos olhares se encontrassem ao acaso.
Mas mesmo que ela tentasse evitar, eu a fitava de forma penetrante, com o cenho franzido e os olhos cerrados. “De onde Maka havia tirado tal conclusão? E desde quando ela pensava assim?” Eu quis fazer tais questionamentos à garota, mas antes que tivesse oportunidade, Maka e Blair reiniciaram sua conversa, como se estivessem de comum acordo com tal conclusão.
– Você irá nos ajudar ou não? – Maka interrogou.
– Irei tentar. – Blair deu a reposta enquanto se levantava do sofá e buscava algo numa estante na parede ao lado. Ela retirou um livro que parecia ser de receitas, e colocou-se a folheá-lo. Subitamente suas mãos pousaram sobre uma página central do livro, e seu olhar percorreu as linhas daquela página enquanto ela começava a nos instruir. – Eu conheço apenas um feitiço de rastreamento. Ele é bem rápido e eficiente na maioria das vezes. Mas para que ele seja realizado, ele exige um pertence pessoal da pessoa procurada. – Blair levantou o olhar e encarou a mim e a Maka no sofá. – Vocês têm alguma coisa da Naomi aí?
Eu ouvia o que Blair dizia, mas meu pensamento continuava preso nas palavras de conclusão de Maka. Eu precisava saber por que ela suspeitava logo da Naomi.
Vendo que eu estava distante no pensamento, a garota loura deu a resposta à pergunta feita.
– O Soul me disse que encontrou a correntinha da Naomi no apartamento dela hoje.
Com tal afirmação de Maka, de súbito retomei a plena consciência. Enfiei uma das mãos no bolso traseiro na calça jeans e retirei a correntinha. Entreguei a mesma à Blair, a qual se dirigiu à cozinha.
– Me acompanhem, vou fazer os preparativos necessários. – Seguimos-a, e aguardamos até que tudo que fosse necessário estivesse pronto. Tal espera levou cerca de 30 minutos.
Depois do tempo decorrido, Blair nos esclareceu como funcionaria o procedimento.
– Antes de começarmos a busca, quero deixar claro algumas coisas para vocês. Esse feitiço consegue encontrar qualquer tipo de ser, contanto que ele esteja vivo. Mas ele possui alguns filtros. Como a Naomi é uma Shokunin, o feitiço exige certo ingrediente essencial, que é este aqui. – Ela nos mostrou um pequeno frasco com um pó branco dentro. Logo depois, prosseguiu com a explicação. – Eu vou iniciar o canto de evocação e vou derramar esse pó nessa tigela aqui. Depois que eu fizer isso, eu preciso que um de vocês derrame a água, e o outro coloque a correntinha. Tudo nessa exata ordem. Estou pedindo isso pra vocês porque assim eu não vou precisar parar a evocação, portanto, vamos ter o resultado mais rápido. Entenderam?
Maka e eu assentimos simultaneamente, enquanto pegávamos a água e a correntinha, respectivamente. Nós três nos posicionamos em frente à tigela e em seguida, Blair começou o canto de evocação, com palavras que eu não entendia, que pareciam uma variação estranha do latim. Enquanto ela ainda fazia a evocação, eu espiava Maka pelo canto do olho, ainda me perguntando sobre a suspeita que ela tinha por Naomi. Quando dei por mim, percebi a garota loura derramando a água na tigela já com o pó branco dentro. Faltava então a correntinha.
Sem muita delonga, levei o objeto banhado a ouro até a tigela e o soltei dentro da água. Uma espuma, então, se formou até o topo do recipiente. Blair mergulhou a ponta do dedo indicador no meio da espuma e fez alguns movimentos com o mesmo. Ficamos observando o que viria a seguir enquanto as últimas palavras do canto de evocação eram soadas.
Quando o silêncio fez-se presente no ambiente, a espuma começou a abaixar e a originar vários símbolos na superfície da água. Eu não compreendia nada do que esses símbolos significavam, mas a gata bruxa ali presente lia-os com facilidade.
Passados alguns minutos, Blair fitou a mim e a Maka, questionando com o cenho franzido.
– Qual o nome completo dessa garota que estamos procurando?
– Naomi Nakamura. – Respondi à indagação com certa urgência.
– Tem alguma coisa errada... – Blair continuava com o cenho franzido, agora analisando os símbolos um pouco mais de perto. Repentinamente, ela voltou o corpo à posição inicial e me encarou. – Tem certeza que essa corrente é dela mesma, Soul?
– Claro que eu tenho. Ela já me contou várias vezes a história dessa corrente, é uma herança de família. – Eu tentava manter o tom de voz firme, mas o estranhamento pela situação ainda fazia-se presente. Afinal, que tipo de dúvida que Blair tinha?
Eu fitava os símbolos na bacia, tentando decifrá-los e entender o que se passava na mente de Blair, mas era impossível pra mim entender aquele código ali expresso.
Com tal obstáculo, eu iria perguntar diretamente para Blair o que estava acontecendo de errado, mas foi então que meu celular tocou.
As duas garotas ali presentes levaram os olhares até mim, enquanto eu atendia o aparelho sem olhar o número que realizava a chamada.
Quando levei o celular à orelha, uma voz fraquíssima e quase sussurrada soou no outro lado da linha.
– Soul... – Tal voz não voltou a soar mais. Ela deu lugar a uma série de arfares, de suspiros pesados que faziam meus músculos de contraírem de tensão. Subitamente, o outro lado na linha desligou, encerrando a chamada.
Retirei o celular da orelha com agilidade e com alguns movimentos do dedo sobre o teclado, eu buscava a lista de chamadas recentes. Quando finalmente encontrei, li o primeiro nome da lista, que indicava a última chamada recebida.
Naomi Casa – xx/xx/xxxx – às 23:47
Levei o olhar preocupado às garotas a minha frente. Elas pareciam ansiosas para saber o que me deixara tão abalado de uma hora pra outra.
– Parece que não vou mais precisar desse seu feitiço Blair. – Proferi sério, indo até a sala e ignorando a incompreensão expressa na face delas.
As duas me seguiram apressadas fazendo questionamentos.
– O que aconteceu? – Elas formaram um coro com tal indagação.
– A Naomi acabou de me ligar. Eu estou indo pra casa dela agora. – Proferi já arrancando passos apressados à porta.
– Você não pode! – O coro das duas voltou a ecoar pela sala. Eu apenas ignorei, ouvindo-as bufar atrás, impacientes. Depois de mais algumas reclamações delas, ouvi alguns passos ecoarem atrás de mim.
– Eu vou com você. – Maka não perguntou se podia, ela estava apenas anunciando que me seguiria, portanto eu não quis convencê-la a ficar, pois eu sei que seriam esforços inúteis. Eu havia aberto a porta, e a loura já estava bem próximo de mim, quando Blair gritou do lado de dentro.
– Não Maka! Se o Soul quer ir sozinho, então que vá. Mas eu preciso de você aqui! – Com o soar de tais palavras, Maka cessou os passos abruptamente e girou gentilmente o tronco, fitando Blair.
– Mas Bla-...– Maka foi interrompida por outra exclamação de Blair.
– Eu p r e c i s o de você aqui. – A gata bruxa praticamente soletrava as palavras, dando ênfase a real necessidade que ela tinha de Maka permanecer ali.
A loura pareceu entender a urgência na voz de Blair. Assim ela se virou para a frente novamente e me encarou, com um olhar zeloso.
– Toma cuidado. Qualquer coisa me liga. – Ela dizia como se soubesse que eu corria sérios riscos indo até lá. Lembrei-me então da conclusão que ela teve sobre Naomi mais cedo, e naqueles breves segundos tentei mais uma vez descobrir porque ela parecia ter suspeitas da ruiva. Mas tive a atenção desviada para a expressão de angústia esboçada no rosto de Maka.
Ela tinha decidido ficar, mas parecia que tal decisão a mantinha em um estado de aflição. Nesse momento, vendo-a com essa expressão torturante, senti meu coração apertar.
Dei um passo para alcançá-la, e assim que estávamos bem próximos, passei uma das mãos por cima de sua cabeça, me abaixei um pouco e dei um beijo em sua testa. Ela cercou minha cintura com as mãos e me apertou em um quase abraço. Senti que compartilhávamos a mesma sensação de medo de que nos separássemos outra vez.
Mas era necessário fazer aquilo. Dessa forma, me afastei dela e agarrei a maçaneta da porta, fechando essa mesma atrás de mim depois de sair.
Desci as escadas de forma apressada e logo já estava na portaria. Saí do prédio, fui de encontro à moto estacionada bem perto dali, e montei nela, desse modo dando a partida e acelerando pelas ruas até o apartamento de Naomi.
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Chegando ao prédio destino, cessei o automóvel de duas rodas, logo me colocando a atravessar a portaria e a subir as escadas de 3 em 3 degraus. Não demorou muito para que eu estivesse em frente à porta do apartamento de Naomi.
Sem nenhuma hesitação, girei a maçaneta abrindo a porta de madeira, e adentrei o apartamento.
Estava escuro, assim como eu havia deixado aquele lugar há algumas horas atrás. Tomei o cuidado de não fechar a porta para que assim a luz do corredor iluminasse pelo menos uma parte da sala.
Por estar escuro, suspeitei de que Naomi não estivesse realmente ali. Mas não era possível... Ela tinha me ligado do telefone fixo do apartamento.
Quando dei por mim, a porta atrás de mim bateu sem que eu ao menos encostasse nela.
Me virei abruptamente para analisar o que causara aquilo. Foi quando senti algo metálico muito pesado e grande acertar minha testa em cheio. Com o impacto, cambaleei para trás, mas me mantive em pé.
Estava muito escuro, e a luz da lua não ajudava muito.
Senti então uma segunda pancada,
com o dobro de força da primeira,
o que me levou ao chão
e à inconsciência.
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