Broken Hearts

6 Quem é você?


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"Quando um louco parece completamente lúcido é o momento de colocar-lhe a camisa de força". (Edgar Allan Poe)

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*** Joalheria Tiffany & Co./ Gotham ***

A cena diante deles é grotesca. No centro do salão principal da joalheria mais sofisticada de Gotham, há um corpo inerte, coberto de sangue, posicionado de bruços. O odor do sangue beira o insuportável e Gordon oferece um lenço para Diana cobrir a boca e o nariz, atenuando a sensação de enjoo provocada pelo cheiro aterrorizante de morte dominando o ambiente.

Um sinal do comissário e o perito muda a posição do corpo, mas é impossível a identificação: o rosto, busto e abdômen completamente mutilados.

Aquilo ficou na mente de Diana e tudo que ela pode fazer foi uma oração para que a vítima encontrasse a paz do lado oposto da margem, do rio da vida que todos atravessaremos um dia, para encontrar o além-viver.

Bruce colheu todas as evidências que podia. Ele era bom nisso. O ‘grande detetive’, como era chamado por Ra’s Al Ghul, o homem que já fora seu mentor e agora não passava de um genocida psicótico em sua vasta galeria de vilões sádicos.

*** Batcaverna ***

Diana estava em silêncio. O corpo inerte, a expressão do rosto contida, os olhos distantes, a respiração quase imperceptível. Batman a observara todo caminho da joalheria à caverna. Ele podia sentir que ela não estava bem, como se pudesse ler através dela – o que não era uma tarefa complicada, já que Diana era a epítome da verdade, como um belíssimo livro aberto.

Ele decidiu levá-la novamente à caverna porque estava preocupado com ela. Uma noite difícil para ele em Gotham significaria uma noite tragicamente chocante para outrem, ainda mais para ela, que jamais se deparara com a parte mais pútrida da humanidade. A não ser através da história de sofrimento contada por suas ‘irmãs’ e mãe.

— Princesa?... Princesa?! – Ele fez uma pausa, esperando que ela se voltasse para ele. – Você está bem?

— Sim, Batman – ela soltou, baixinho – Eu só... Eu... Eu só estou tentando organizar minha mente e meu coração.

— Princesa, eu sinto muito – Ele foi sincero – é por isso que eu não queria que você viesse, em primeiro lugar. Por isso não quero metas em minha cidade. Gotham é diferente. Aqui não há lugar para salvamentos heróicos estimáveis. Aqui, mesmo quando fazemos a coisa certa, a dor é inevitável.

— Você parece sereno... Tão focado. É como se não o atingisse!

— Me atinge. É minha cidade. Minha missão... Mas eu não posso me dar ao luxo de me deixar envolver com sentimentalismo. Gotham cobra um preço caro para um homem manter-se são, princesa. Eu não posso tratar os casos com uma sensibilidade como a sua.

Ela sentiu como se fosse picada: – Sinto muito. Eu... eu não quis ofender. É que... – Ela ponderou se deveria ou não prosseguir – Eu imagino que você tenha experimentando tanta violência que precisou endurecer seu coração.

Diana pôs a mão em seu ombro e deu um pequeno aperto, para transmitir conforto. – Como, Batman? Como um homem pode suportar tanto, sem perder-se no caminho?

Bruce estremeceu em seu interior. Como ela poderia entendê-lo? Enxergar através dele em tão pouco tempo. Ele reconhecia os sintomas, e começou a lutar contra os sentimentos que estavam eclodindo, emergindo das entranhas do coração. Emoções que ele se esforçara bravamente para esconder.

— Diana, volte para Torre. Nosso turno já acabou. Você precisa descansar – ele se esforçou para manter a voz indiferente.

— Eu não quero voltar agora... Eu não quero ficar sozinha. – Ela pediu, sem apelo na voz, apenas suavidade – Me deixe ficar mais um pouco, Batman. Eu não vou atrapalhar!

Ele assentiu e se dirigiu ao computador. Perguntou se ela estava com fome e ela respondeu que não, sentando-se ao lado dele, mais ainda emitindo nenhuma palavra, apenas sons de suspiro. Ela estava pensativa e Bruce agradeceu as lentes do capuz encobrindo seus olhos – permitindo que ele olhe pra ela, de soslaio, sem que ela perceba.

Mesmo com sua resposta negativa, Bruce fez a chamada para a cozinha da mansão e pediu a Alfred que descesse com chá e algo para comer, informando-lhe da visita. Visto que ela não conhecia Bruce Wayne, Alfred ou até mesmo a mansão, ele não entendeu que ela seria uma ameaça à sua identidade secreta, mesmo na companhia de Alfred.

(...)

O homem grisalho e elegante descera as escadas vestindo um sofisticado pijama de seda, coberto por um hoby no mesmo tom, amarrado frouxamente na cintura. Ele trouxera uma bandeja com chá e sanduiches.

— Vejo que o senhor nos trouxe visitas, ‘mestre B’ – Alfred sorriu para Diana e ela correspondeu-lhe sorrindo da maneira mais efusiva. Quisessem ou não os deuses, o brilho dos olhos de ambos indicavam o que seria o sentimento iminente de uma amizade profunda.

— Sim, Alfred: Esta é Diana... Diana, este é Alfred Penyworth – Batman continuou atento aos arquivos, procurando pistas.

Diana foi até ele e ajudou a trazer a bandeja. Ela continuava sorrindo e o velho homem não pode esconder seu encanto.

— Pelos trajes e a beleza divinal da sua convidada, suponho que seja a Mulher Maravilha. Tendo em vista que ela é parte da realeza, senhor, não é civilizado tratá-la com descortesia: permita-me, alteza – Alfred inclinou-se e beijou-lhe a mão direita, fazendo-lhe uma reverência.

— Oh, não, Alfred. Eu imploro, não é necessária tanta formalidade. Diana está ótimo! – Ela sorriu e agradou ainda mais o mordomo saber que seu amado ‘filho’ deu-se a oportunidade de fazer amigos e, talvez, um romance com alguém que não esteja do lado oposto ao seu da Lei.

— Pode ir, Alfred. Você pode recolher-se. É tarde – Bruce sabia onde a conversa iria e preferiu Alfred fora de alcance.

— Foi um prazer, miss Diana!

— Igualmente, Alfred. Espero poder vê-lo novamente, se você quiser... – Ela olhou para Bruce – E se o Batman permitir que eu venha a Gotham... – Antes que ele pudesse negar, ela completou – Em trajes civis, não como a Mulher Maravilha.

Bruce não respondeu, mas Alfred assentiu com veemência, tão empoderado que seria impossível não notar que suas decisões tinham força naquela relação entre ‘patrão/empregado’. Ainda mais porque Bruce não respondeu nada além de grunhidos fracos para mostrar descontentamento, mas não ousou retrucar a decisão do mordomo.

Diana alegrou-se: Ela acabara de fazer um amigo. O primeiro amigo civil. O primeiro amigo fora do círculo de heróis.

(...)

Batman estudou as pistas em silêncio. Reuniu as imagens do local e da vítima, captada pela câmera em seu capuz. Diana ficou a seu lado, olhando as provas com atenção. Quando o banco de dados mostrou na tela o resultado da pesquisa de digitais que ele colhera da vítima, a fim de descobrir quem era.

Vanessa Zimerman: 26 anos, cidadã de Gotham.

Ocupação: -

Filiação: Esther e Klaus Zimerman

A imagem dela na tela causou uma surpresa desagradável e Bruce contraiu a poderosa mandíbula, antes de ajustar-se levemente em sua cadeira. A expressão corporal não passou desapercebida e Diana sentiu que possivelmente ele conhecia a vítima. A questão era: em que nível de intimidade.

Ela passara muito tempo com ele e, desde sua demonstração de respeito para com ela após seu exílio a levou a observá-lo. Não que ele fosse fácil de ler. A indiferença, ausência de sentimentos e sua postura estóica o creditavam como um livro com as páginas em branco: impossível de se ler.

— Você a conhecia? – Diana perguntou.

— Sim – ele fez uma pausa antes de continuar. A voz era serena, quase compassiva, mas ainda capaz de provocar arrepios a quem quer que fosse, menos para ela.

— Vocês...? Eram amigos? – Ela estranhou o tom da própria voz, não reconhecendo o sentimento. Era como se estivesse com medo da resposta. E pior, a sensação crescente de irritação ao imaginar que Vanessa e Batman já foram intimamente ligados.

— Não. Mas ela já foi a acompanhante de Bruce Wayne em inúmeros eventos sociais.

— Bruce Wayne... Eu tenho a impressão que esse nome é familiar, mas não consigo lembrar. Quem é Bruce Wayne, Batman?

Bruce lembrou-se que ela não conhecia sua identidade secreta e agradeceu sua mente por não cometer um ato falho e revelar-se. Então ele contornou a situação:

— Bruce Wayne é um idiota, princesa. É um riquinho mimado e mulherengo que gasta a fortuna de sua família com bebida, mulheres e extravagâncias.

– E quem é ela? – Ela perguntou e completou – Eu lembrei: Eu vi esse nome, ‘Wayne’ na Torre de Vigilância. Alguns equipamentos têm o nome Wayne Tech.

— Wayne é um idiota bem assessorado. Um dos CEOs das suas empresas tem uma visão melhor que a dele e ele permite que suas empresas financiem a Liga e o Batman.

— Então ele é um bom homem, Batman. Alguém com uma atitude tão generosa não pode ser realmente ruim.

Bruce quase sorriu, mas abafou o divertimento para não revelar-se demais. Afinal, ao contrário das acompanhantes estúpidas que ele costumava escoltar na pele do playboy, Diana era inteligente e muito perspicaz.

— Vanessa Zimerman era uma menina rica e mimada. Seu pai veio da Alemanha para América na década de 60 e tornou-se multi-milionário investindo em mineradoras. Ele acumulou uma fortuna com importação e exportação de minério de ferro, além de vários outros materiais essenciais.

Batman continuou:

— Ela é um personagem muito conhecido em Gotham. Uma dessas socialites que se tornaram celebridades nas redes sociais e com reality shows. Mas ela não tinha o carisma necessário para manter os holofotes sobre si e vivia forjando escândalos para garantir seu espaço nos tabloides.

— Eu não entendo esse tipo de comportamento das mulheres no mundo dos homens. – Ela franziu o cenho – Expondo-se ao ridículo, humilhando-se, buscando sucesso material, completamente incapazes de atitudes altruístas.

— Você tem razão, princesa. Mas nem todas as mulheres tiveram o privilégio de herdar a beleza de Afrodite. Elas desejam atrais as atenções usando todas as armas que têm, mesmo que sejam armas moralmente condenáveis.

Diana abriu um sorriso amplo com o flerte. Era um Batman diferente do que ela conhecia. Um homem mais relaxado – para os padrões rígidos do Morcego – mostrando-se muito mais em um dia do que revelara em um ano como companheiro fundador da Liga.

(...)

Ainda analisando as pistas, Batman respondeu, quando Diana perguntou o que ele captara até agora.

— Vanessa Zimerman sofreu severos golpes provocados por um objeto cortante. Provavelmente a navalha deixada sobre a poltrona. A temperatura do corpo indicava que a hora da morte foi entre meia-noite e uma da manhã, quando ainda estávamos em Arkham. Apesar de algumas escoriações que indicassem uma luta com o agressor, mas ele não deve ter tido qualquer dificuldade em nocauteá-la. – quando ele viu a sobrancelha de Diana arqueada, percebeu que ela queria saber por quê – O salão não estava tão desordenado que indicasse uma luta. Os balcões que exibiam as peças eram de vidro e nenhum foi quebrado. Acredite, uma luta entre agressor e vítima, quando acontece, deixa o local da luta completamente revirado.

— Esses cortes... são tantos. Se o agressor queria matá-la, poderia fazer isso de forma mais rápida. – Diana disse, ainda olhando para a tela do computador com as imagens da vítima – É como se o assassino não quisesse apenas matá-la. Ele queria que ela sofresse.

Bruce sentiu uma sensação de orgulho ao ouvir suas deduções. A mesma sensação que o preenche em relação aos seus filhos – Dick e Tim.

— Isso mesmo, princesa. Todas as pistas levam a crer que foi um crime passional, por causa da fúria dos ferimentos. Além do mais, nada foi roubado. O assassino tinha acesso fácil à uma fortuna em diamantes e nem se preocupou em levar nada. Ele estava focado unicamente na vítima e, provavelmente é de uma família financeiramente privilegiada: A única razão para ele não levar nada da loja que vende os diamantes mais caros do mundo é que ele não precisa.

— Sabe o que está me intrigando?! – Ela olhou para ele. – Uma navalha não é a arma mais indicada para usar em um assassinato. Elas causam lesões superficiais, a não ser em um corte profundo no pescoço. Por que não um cutelo, uma faca para corte de carnes, nos frigoríficos. Matar com cortes superficiais é possível, mas não é prático. Ele precisava de tempo para feri-la a ponto de matá-la.

— Eu cheguei a mesma conclusão, princesa. Era como se ele quisesse puni-la; que sua morte fosse lenta e dolorosa.

— Exatamente! – Diana sorriu, mais uma vez, contente por ele deixá-la fazer parte disso, e mais ainda pela mudança no comportamento do Batman. – Mas eu tenho uma pergunta!

— Vá em frente, Diana! – Ele a incentivou.

— Se eu sou um assassino, colérico, ferindo meu alvo violenta e irracionalmente, Vanessa teria mais lesões em muitas outras partes do corpo. Crimes de ódio tendem a ser violentos ao extremo, justamente porque a fúria do agressor é tão primitiva que remove sua humanidade, seu bom senso, sua empatia. O agressor não tem controle. Então, Por que não há nenhuma lesão em outra parte do corpo que não seja rosto, seios e abdômen. Por quê?

— Eu me fiz a mesma pergunta, princesa. E tenho uma teoria. Mas preciso dos registros médicos dela para provar minha teoria.

— Você vai compartilhá-la? – Ela deu um sorriso largo, piscando repetidamente as pálpebras, como uma criança pedindo um brinquedo.

— Hoje não, princesa. – Ele virou sua cadeira, para olhar de frente a amazona sentada ao seu lado, e esboçou um meio sorriso. Uma expressão que lhe indicara que sua irritação por ela tê-lo imposto sua companhia. – Por hoje, encerramos. Você volta para torre e eu vou me recolher.

— Mas Batman, eu não quero dormir. Ainda tenho as imagens dela em minha mente.

— Esta foi uma das coisas que eu queria evitar, quando disse pra você ficar na Torre. – Diana não sabia, mas ele estava travando uma batalha interna: Batman x Bruces (Seu verdadeiro eu e Wayne, o playboy mulherengo). Batman queria que ele a mandasse embora, que se afastasse dela. Bruce queria deixá-la descansar em um dos quartos de hóspedes da Mansão, revelando sua identidade. E Wayne queria desesperadamente levá-la ao seu quarto e conferir, em primeira mão, quão generosa Afrodite fora em sua bênção.

— Eu entendo, Batman. Mas eu confesso que tudo que aconteceu, ao invés de me afastar, me fez desejar fazer mais, ajudar você na patrulha. Mas eu respeito sua decisão e prometo nunca mais me intrometer. A menos que eu seja chamada.

— Está bem, princesa... é melhor voltar, já é quase manhã. – Ele disse, dirigindo a ela um sorriso, completo, não pela metade. – Use o meu jato*.

l– Tudo bem, eu vou. – Ela sentiu-se meio desanimada com a ‘separação’, mas como todas as outras emoções despertadas pelo Cavaleiro das Trevas, ela também não fazia ideia do que seria ou porque estava experimentando essas sensações. – Você não vai nem me agradecer?

— Por salvar os policiais? – Ele perguntou.

— Não. Esse é o meu dever. Proteger aqueles que precisam de ajuda – Ela riu – você devia me agradecer por aturar seus humores terríveis.

— Boa noite, princesa! – O sorriso dele mais uma vez despontou – E obrigada por me obedecer, não me distrair ou me fazer perder meu tempo.

— Bom, não foi o que eu esperava, mas foi suficiente, por agora.

Assim que tomou seu lugar no Batwing, Diana chamou:

— Batman... – ele voltou o olhar pra ela – É uma grata surpresa descobrir que você pode sorrir. Eu nunca imaginei que você poderia fazê-lo. – Diana corou levemente as bochechas – Eu prometo não contar a nenhum dos fundadores, mas você tem que prometer que, quando estivermos sozinhos, você não vai esconder seu sorriso de mim.

Ele não respondeu, mas ela não esperava que ele o fizesse. Afinal, amigos ou não, ele ainda era o aterrorizante Batman.

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