Broken Hearts
80 A dor dos pássaros feridos
Notas iniciais

♣ ♣ ♣
“Guardar raiva é como segurar um carvão em brasa com a intenção de atirá-lo em alguém;é você que se queima”, Sidartha Gautama (Buda)
♣ ♣ ♣
♣ Gotham City || Mansão Wayne || Jardim ♣
>— Um mês antes do primeiro aniversário dos gêmeos
Alfred Thaddeus Crane Pennyworth, desde a morte de Martha e Thomas Wayne, desempenhava dois papéis na vida do filho do casal. O papel de mordomo (que zelava pela casa, pelo nome da família) e cuidador (que assumia a organização na vida do herdeiro). E o papel de pai, muito embora fosse uma responsabilidade não verbalizada.
E como todo pai zeloso e sábio, Alfred sabia o que dizer e não dizer ao seu filho. Não era uma omissão por vilania, mas o silêncio que os pais tomam como melhor opção, quando necessário.
Como agora: Não traria benefício algum revelar a Bruce o que sabia.
Pela segunda vez, em uma manhã comum, horas antes de Hades visitar Sarah, seus olhos viram o inimaginável.
(...)
Não era preciso ser um detetive para suspeitar que a figura sobrenatural, que se materializara em meio ao arboretum, seria um dos deuses patronos da senhora Wayne. Tampouco, era necessário intelecto de gênio para imaginar que se tratava de Apolo.
O deus sol surgira, irradiado por um feixe de intensa luz solar, ao centro do arboreto coberto por uma abóboda envidraçada. Quando o brilho perdera intensidade, a imagem diante de Diana, Alfred e dos pequenos Waynes tinha a forma de um homem humano, contudo, era indubitavelmente divina.
As mechas dos cabelos eram como raios solares – louro não seria a qualidade a apropriada. A cabeleira, que descia ao cumprimento das omoplatas, não foram tonalizados com cores, mas pintados de luz. Era um homem alto, vestindo um traje clássico dos gregos, detalhado pela mitologia, que evidenciava uma silhueta forte e enxuta, quase esguia – longe de parecer a de seu pai Zeus ou Hércules.
Ele era um homem com a postura imperiosa da realeza – mas, ao contrário da maioria dos deuses, não tinha a intenção de impor soberania aqueles a quem se mostrara. Era um homem de feições bonitas, com o rosto bem desenhado, harmonizando a mistura de traços masculinos e delicados. E, por fim, o que fez sua ‘identidade’ conhecida, a luz amarelo-alaranjada (como do fim de tarde) que parecia uma aura contornando-o.
Thomas correu para ele em velocidade, enquanto Alfred segurava Sarah, que enterrara a cabeça na curva de seu pescoço, e Diana punha-se de joelhos.
— Meu senhor, Apolo!
O inglês observou desconfiado as ações de seu convidado não-convidado. Sentindo a apreensão diminuir em virtude do comportamento do deus grego.
Quando Thomas correra em sua direção, o menino o fizera com uma naturalidade que levantara suspeitas de que não se tratava de uma figura desconhecida para ele. Havia um contentamento em Thomas, ao correr para ele, que beirava o êxtase – o que não poderia ser confundido com a simpatia habitual do menino. Da parte do grego, a expressão de satisfação em seu rosto e a posição que tomara não deixava dúvidas.
— Meu pequeno sol – Apolo saudou o pequeno Wayne, ajoelhando-se à quase altura do menino.
Alfred e Diana assistiram em silêncio a interação não verbalizada entre eles. Tão cheia de um estranho afeto – que não era simplesmente carinho, mas também respeito. Era a forma de uma criança sentir. O respeito e confiança que Thomas só poderia mostrar através de seu afeto. Um elemento incomum, mesmo para Apolo, um deus tão cultuado. Mesmo ele, não poderia manter-se alheio ao amor.
— Levanta-te, princesa das amazonas! – O deus sol ordenou à Diana, tomando Thomas pela mão e aproximando-se dela e de Alfred. – Estás livre de tuas obrigações formais para comigo. Toma minha presença ‘visível’ como cortesia. – Ele frisou a palavra visível para evidenciar que estivera presente outras vezes.
— Permita-me saber o motivo de sua visita, meu senhor. – Diana não parecia surpresa com a aparição do deus, tampouco sua indagação tinha o tom de curiosidade. O que fez Alfred perceber que ela desejava que ele ouvisse a justificativa do próprio Apolo. E uma onda de satisfação o inundara, a medida que se deu conta do quanto ela o tinha em consideração.
— Como eu suponho que você já saiba, minha campeã, o rito final de bênçãos e presentes dos deuses deve ser executado antes que o primeiro ciclo de vida daquele que os recebe complete a passagem de quatro estações.
— Meu senhor, embora eu considere uma dádiva, devo dizer-lhe que respeito a vontade do homem com quem me casei de recusar vossos presentes – Diana respondera-lhe com tristeza.
— Minha boa menina... – Alfred colocara a mão no ombro dela, confortando-a. Com Sarah agarrada à ele, irritada com a luminosidade, ele ousou dar-lhe um conselho – Nem sempre mestre Bruce tem razão, apesar dele estar convencido e convencer as pessoas disso. Ouça o que teu patrono tem a dizer e faça uso da sabedoria dada a ti por Vossa deusa Atena para ponderar se é o melhor para seu filho e sua família.
— O servo do mortal é um homem sábio, Diana. – Apolo ofereceu um cumprimento ao inglês, inclinando a cabeça – Ainda que, por benevolência, teus deuses desconsiderassem a heresia blásfema de tua rejeição vergonhosa dos presentes e bênçãos daqueles a quem dedicas tua fé, aqueles a quem jurastes representar como sua campeã. Negar nossa herança à tua prole é uma abominação, que desonra e encerra em ti o legado de teus deuses e de teu povo.
Diana olha para o inglês com os olhos marejados. Todavia, Alfred entende a súplica dentro deles, procurando por respostas que ajudem-na a tomar o caminho certo.
— Mestre Bruce jamais aceitaria as bênçãos e presentes de seus deuses. Ele não está aberto à negociações e a senhora sabe disso. Aceitar ou não é uma escolha unicamente sua, tendo em vista que a resposta dele é não... – Alfred prosseguiu – Mas, se serve de conselho, não raras foram as vezes que tomei decisões por ele, que em tese, caberiam a ele. Decisões que não me arrependo porque foram para o bem dele.
— Diga-me então, meu senhor... O que trazes para meu solzinho e auxilia-me em minha decisão? – Diana pedira.
— Teu filho com o mortal carrega nas veias o sangue humano e da tua herança: de teus deuses e de teu povo. – Apolo olhou para o menino sorridente. – o que os mortais chamam de herança genética.
— Ele herdou os poderes da mãe? – A pergunta retórica veio de Alfred.
— A resposta mais precisa seria que ele carrega toda nossa herança, meu caro servo. Seus poderes foram herdados não apenas de sua mãe, mas do povo dela e de seus ancestrais, nós deuses.
— Meu senhor, temo pela segurança do meu filho se Zeus sentir-se ameaçado por Thomas, se eu não recusar as bênçãos e os dons não forem bloqueados. – Diana ponderou, apreensiva.
— Se esta é tua preocupação, não temas. Zeus está entre aqueles que enviaram bênçãos e presentes ao menino. Além disso, ele tem nosso sangue, mas não todo nosso poder. O pequeno sol já manifesta alguns de seus talentos, mas outros se mostrarão à medida que sua forma humana lhe permita.
Apolo aproximara-se da amazona à distância de um passo à frente dela.
— Tua querida Atena envia-te um presente, amazona. A Sabedoria sopra em teu coração as respostas para tuas dúvidas.
Diana fechou os olhos por um momento e, como se tivesse chegado à compreensão de tudo, decretou: – Que assim seja!
(...)
Como se compreendesse a importância do momento, Sarah desenterrou o rosto do pescoço de seu avô e assumiu uma posição de espectadora da cena, ainda que a luminosidade excessiva a incomodasse. A menina, nos braços de Alfred, ao lado de sua mãe, assistiram com encantamento os desdobramentos entre Apolo e Thomas.
O deus sol fez o pequeno Wayne flutuar a uma certa altura, de pé sobre a borda larga de uma pequena fonte, de forma que Thomas ganhasse uma altura média de 1m70.
O menino assumira uma postura serena que jamais se vira, enquanto seu protetor entoava uma espécie de cântico ou salmo, uma bênção em grego arcaico, sua língua materna. Tommy fechou os olhinhos quando Apolo tocara-lhe a testa, desenhando o que pareciam as letras que representam Alfa e Ômega.
Thomas ergueu os braços e sorriu quando o sol o saudara com um brilho intenso e, depois, o cobrira com o véu de sua claridade – como quem toma um banho de chuva.
“De Zeus, Senhor de todos os deuses, herdastes a força sobre-humana; De Hermes, que dedica à tua mãe sua predileção, a velocidade e reflexos aprimorados; De Héstia, os mesmos dons dados à Diana, de comunicar-se com animais e entender e se comunicar em qualquer idioma”, o deus sussurrou ao pequeno Wayne.
“Sobre ti foram derramadas as bênção de Afrodite, deusa do amor, porque a grandeza de teu coração lhe prestará louvores; e as bênçãos da majestosa Hera, rainha dos deuses: a partir de hoje, Hera te faz o laço que manterá tua família unida”, prosseguiu.
Por fim, no que parecia um momento de intimidade entre o menino e o Deus, o véu de luz os cercou e ofuscou os demais, que puderam apenas ouvir.
“O castigo de Zeus negara-me filhos de minha semente. E o sol, desobediente, me deu filhos Tu, meu menino, és um deles. Filho do sol, como o kryptoniano, como Alexandre, o Grande, gerado por Olímpia e Felipe. Assim como foste gerado pela semente de um mortal plantada no ventre da Campeã dos deuses”.
“Tu herdas de mim presentes, como os que dei a tua mãe – cura acelerada, resistência, sentidos aprimorados, visão do futuro – em um nível de intensidade muito maior. Dei à minha campeã, filha de Hipólita, uma pequena parte dos meus poderes. Mas para ti, meu menino sol, entrego metade de mim.”, a dádiva levou Diana às lágrimas.
— Diana de Themyscira, tua criança com o mortal tem o sangue de um povo guerreiro, parte deus, parte mortal. Ele é filho da luz, mas também da escuridão. – Apolo aproximou-se de Diana e Alfred, de mãos dadas ao menino que levitava ao seu lado. – Sobretudo, o pequeno sol é também metade de mim.
— O pequeno sol é agora imortal como os deuses e tão invulnerável quanto o kryptoniano. E, quanto aos seus poderes, não há motivo para preocupações. Eles despertarão gradualmente. Os dons ganharão intensidade à medida que ele for se desenvolvendo.
Apolo sorriu sutilmente para o menino, ao mesmo tempo que reduzia a altura até colocá-lo no chão.
— Αντίο, λίγος ήλιος μου *(adeus, meu pequeno sol).
(...)
Diana entrou na mansão em companhia de seus filhos e Alfred. Sem conseguir tirar da cabeça o conselho de Atena, tampouco a resposta de Apolo, quando ela o questionara sobre as bênçãos e dons dos deuses para sua Sarah.
“Não tenho permissão de fazer revelações a respeito da pequena mortal, filha de Hipólita. Os deuses ofereceram bênçãos e dons às duas crianças, mas após uma conversa com Hades, Zeus só nos permitira dedicá-los ao menino. Ele e Hades tem planos para a menina”.
“Diana, não sabemos porque Zeus tomou esta decisão, contudo, se te serve de consolo, ele e Hades, diante do panteão, fizeram o inimaginável em favor da pequena mortal. Zeus e Hades fizeram juntos o juramento de protegê-la, selando a promessa com sangue (que os obriga a cumpri-la, quer queira, quer não)”.
Uma revelação que provocara mais preocupação que alívio, exceto o fato de que ninguém ousaria sequer tentar fazer mal à sua filha. Quem seria estúpido de enfrentar Zeus e Hades? Ou pior, sofrer punições nas mãos de ambos?
A amazona sentiu uma onda de choque percorrer a espinha. Era a reação física ao temor em seu coração, quando a mente tomara consciência de que Hades estava tramando alguma coisa e sua menina era uma das peças de seu jogo maquiavélico.
Ela sabia que o senhor do Submundo era um mestre da manipulação. Capaz de alienar e levar ao engano as mentes mais geniais. O que fazia a tarefa de ludibriar Zeus, seu irmão, das mais fáceis. Não porque Zeus era um ignorante pouco inteligente, como Hades o classificava, e sim porque além de ardiloso, Hades conhecia todos os pontos fracos do irmão.
“O que no Tártaro ele está tramando? O que ele pretende com minha filha? O quê ele disse para convencer Zeus, que há milênios deixara de ouvir seus conselhos, ciente de seus planos contra ele? Teria que ser algo grave o bastante para o senhor dos deuses considerar aliar-se à ele!”, Diana pensou.
♣ Gotham City || Mansão Wayne || Batcaverna ♣
Batman continuara sentado por horas em frente ao computador da batcaverna, como nas
Batman continuara sentado por horas em frente ao computador da batcaverna, como nas últimas semanas, focado nas investigações que o levassem ao paradeiro de seu filho Tim. Ele não dormia há dias e somando as semanas, não teve 5 horas de sono. Não fazia uma refeição decente há quase 20 dias e passava dias sem comer, tomando um shake com vitaminas e suplementos quando precisava de força física para arrancar a confissão de alguns criminosos.
Bruce podia sentir a dor de um arrepio congelante, que paralisou todos os músculos de seu corpo, indo e vindo sem dar-lhe descanso. O looping ininterrupto de uma dor que começara quando Bárbara o informara o desaparecimento de Tim.
Ele sabia. No fundo ele sabia que a felicidade não lhe cabia. Que esse tipo de ‘conforto emocional’ tiraria o foco da missão e o faria cometer erros – erros que sempre tinham o mesmo resultado: dor, tragédia, sofrimento.
Ele sabia que algo ruim estava prestes a acontecer. Harley havia conseguido facilitar a fuga do Joker durante uma transferência prisional e ele estava quieto há quase um mês. Um sinal claro de que a qualquer momento algo trágico e sádico teria sua assinatura. Ele não queria deixar os Robins patrulharem sem ele, mas era o primeiro aniversário de seus filhos e ele se juntaria à patrulha uma hora depois.
Mas depois disso, nada mais importava pra ele.
Batman recusou qualquer tipo de ajuda – até de Alfred, Diana ou Dick, que começou a investigar por conta própria. Achando que essa ‘ajuda’ iria atrapalhar as investigações.
Quando finalmente encontrou uma pista, após mais de duas semanas, o ódio e todas as emoções derivadas dele eram tão intensos que poderiam dar-lhe a descarga de adrenalina necessária para surrar o Joker por 3h, antes de matá-lo. Ele jurou que o mataria e se culpou por não tê-lo matado quando teve a chance, evitando o sofrimento de seu filho e a dor de sua família.
Desta vez, não haveria outra sentença senão a de morte.
O Batman não estava indo capturá-lo.
Ele estava disposto a mandá-lo para o inferno.
♣ Gotham City || Antigo Parque de Diversões desativado ♣
O fraco som das risadas demoníacas foi ficando cada vez mais intenso, ecoando dentro de sua cabeça. Demorou 4 segundo para ele se dar conta que perdera os sentidos, sabe-se lá por quanto tempo. Seu corpo estava cobrando o preço da desnutrição e da desidratação a que o submetera. A perda de peso era considerável e, pior, não havia depósitos de gordura para ser queimada. Ele perdeu massa magra. Seus reflexos estavam lentos.
Batman queria uivar de dor quando tentou levantar, forçando a mente a manter-se alerta, organizando a memória dos eventos que levaram à isso.
O Joker estava mantendo seu filho em um parque abandonado, próximo a uma antiga usina também desativada. Ele estava disposto a matar o Coringa e não considerava qualquer outra alternativa. Ele chegou ao máximo do limite da sanidade quando o palhaço matou Jason. Um limite ultrapassado com o seqüestro de Tim, que não tinha mais volta.
O Morcego encontrou o Palhaço na casa dos espelhos. Vestido com seu ‘traje de gala’ – o clássico terno roxo – a maquiagem desbotada no rosto, que o fizera aterrorizante – especialmente o vermelho vibrante que destacava as cicatrizes do sorriso medonho. No centro do palco octogonal, para refletir sua imagem em todos os espelhos.
Antes que o Batman se aproximasse, o Coringa deu o comando para Harley trazer seu filho, para apresentá-lo ao Morcego. E o choque emocional ao ver o menino suprimiu a adrenalina do ódio e o herói era todo cansaço e dor.
Lembrou-se do olhar aflito e melancólico de seu menino, vestido e maquiado à semelhança do Coringa. De suas mãos pequenas, de dedos finos, trêmulas ao segurar a arma que o vilão lhe entregara.
“Você é meu filho e vai matar o Morcego para seu pai”, o Coringa repetira à exaustão, em um tom entre o sussurro e um comando rígido moderado. E o Batman sabia que era algum tipo de comando.
Ele estava pronto para morrer e jamais culparia seu filho por isso. Nem ele poderia manter a sanidade após quase três semanas nas mãos de dois psicopatas. E ainda sim, Tim mostrava valentia, lutando uma guerra interna dolorosa. E, então... tudo ficou escuro.
Harley perdera a paciência e golpeara a nuca do Batman com o taco de basebol, enquanto o Joker ‘brincava’ de esfaquear o Morcego abatido. Ele cravou o punhal na coxa esquerda de sua vítima, pouco antes de perder o ar, por causa do impacto violento que lhe atingira o peito em cheio.
“Você cuida da louca... O palhaço é MEU”, o Justiceiro bradou para o protetor de Bludhaven, que localizara o Batman e deu-lhe a localização, com uma imperiosidade que não permitia negociação.
Harley era louca, mas ninguém poderia acusá-la de ser burra. Ela sabia que não tinha a menor chance em um combate corpo a corpo contra Asa Noturna, nem se tivesse armada com uma pistola. Mas suas chances não eram ruins em uma disputa de fugir e se esconder para evitar sua captura. E ela e Dick começaram um jogo de gato e rato.
(...)
Batman rangeu os dentes para afastar a dor do músculo perfurado até o osso, quando se apoiou nos espelhos para ficar de pé. Ele olhou na direção da risada sádica e viu Tim rindo baixinho, enquanto o Coringa era brutalmente espancado por alguém e, ainda sim, continuava rindo.
Não era Dick ou ninguém do Batclã. Ele não reconhecia o traje e de costas, mesmo o grande detetive levaria um tempo para deduzir quem poderia ser... Até lembrar-se do justiceiro que o confrontara. Só podia ser ele...
O Cavaleiro das Trevas se arrastou até eles, para proteger Tim, caso o Justiceiro o considerasse uma ameaça. E um esforço que provocou um estalo na mente, que voltara a trabalhar na velocidade da luz, mostrando um monte de lembranças, imagens e suposições que parecem aleatórias, mas que ela costura em uma rede que leva as respostas.
A altura era a mesma de Dick e o porte físico ligeiramente mais forte. Ele conhecia sua identidade e sugeriu que sabia sobre a morte do segundo Robin. Aquela surra no Coringa era passional e alguém como ele sabe a diferença entre golpes desferidos friamente, como parte do trabalho e aqueles que descarregam vingança, frustrações e dor. A lembrança de Sarah o fez chegar à mesma solução impossível:
“Não é possível”, Bruce sussurrou.
— Não pode ser... Você não pode ser ele... Ele se foi... Eu perdi o Jason... – Ele parou de socar o rosto agora desfigurado do Joker e o jogou desacordado no chão. Tomando um tempo antes de dar as costas ao vilão e encarar o Batman.
O Justiceiro de Capuz Vermelho destravou a removeu a máscara que lhe cobrira todo rosto. Revelando a beleza viril de Jason Peter Todd, o filho que a morte o tomara.
Batman, Jason ou o recém-chegado Asa Noturna não tiveram tempo de reagir ao ouvir o som dos disparos. Só quando viram o pobre Tim de joelhos, chorando copiosamente, com a arma na mão perceberam que ele descarregara as 6 balas do revolver na direção do Coringa – prestes fazer um disparo contra Jason, de costas, a dois passos dele. Os tremores e a falta de habilidade com armas comprometera a precisão e algumas balas atingiram seu irmão.
(...)
Eu andei por uma terra vazia
Eu conhecia o caminho como a palma da minha mão
Eu senti a terra sob meus pés
Eu sentei do lado do rio e ele me completou
Um pequeno gargarejo e um sussurro veio do Batman e de seus irmãos.
“Jason”
Eles correram.
Jason quer ir embora, mas desta vez ele sabe que não pode. O rapaz tem um alto limiar de dor, mas mesmo ele tem limites. A capacidade de ser independente, de viver sozinho como em toda sua vida, era um orgulho para o garoto de rua que ainda vivia dentro dele. É por isso que dói quando ele cai primeiro no chão do lugar. Por que sempre deve ser um lugar abandonado?
E por que ele está feliz?
Porque ele não está sozinho, como antes. Agora, seu pai e seus irmãos estão lá!
Ele pode sentir as vibrações no chão e ele sabe que sua família está vindo para ele, e se eles estão vindo é porque é sua redenção. “Oh, Deus. Eu sou amado”, vem o sopro em seu ouvido. O sangue nunca será lavado de suas mãos, porque ele é um homem torturado e triste. Mas amor é coisa que dá a sensação de leveza que ele nunca sentiu antes.
Oh coisa simples, pra onde você foi?
Eu estou ficando velho
E preciso de alguma coisa para confiar
Então me fale quando você vai me deixar entrar
Eu estou ficando cansado
E preciso de algum lugar para recomeçar
Ele carrega sua culpa. Isso, como seu pai, reflete sua maior força. Não é o caminho que seu pai queria que ele fizesse, mas seu trabalho era necessário. Bruce não podia carregar a culpa, e Batman não permitiria isso, então Jason suportou aquela cruz. Ele ia matar o Coringa porque ele NUNCA deixaria seu pai fazer isso. Ele tinha cruzes demais. Seu pai tinha uma nova chance. Ele não.
Quando Jason Todd está em seu próprio sangue, balas nas costas. Ele reflete sobre os eventos que o levaram a esse momento. Ele pensa em pássaros-bebês perdidos, um morcego quebrado e uma família que nunca teve, mas poderia ter tido.
As mãos calejadas o enrolaram quando os olhos mortos olhavam para ele. Bruce foi quebrado muito antes que Jason o conhecesse, mas não pode deixar de pensar que agora está prestes a quebrar novamente, e isso é errado. Seu pai é maior do que a vida, imperfeito, mas ele sempre foi alguém que Jason queria imitar. Seu herói.
Eu dei de encontro com uma árvore caida
Eu senti os galhos dela olhando para mim
Esse é o lugar que nós costumávamos amar?
Esse é o lugar com que eu tenho sonhado?
Jason Todd estava cercado por família, uma palavra que, por todos os direitos, não deveria ter chegado ao seu vocabulário desordenado de bad boy. Ele não merecia uma família, mas ele tinha uma. Dois irmãos e um pai, todos olhando para ele, e tudo o que Jason pode pensar dizer é: "será... que eu vou ter outra chance?”.
Sua família não parece pensar assim. Lágrimas nos olhos de um morcego são quase sacrílegas, ver tantas ao mesmo tempo era terrível. O Morcego chorava como o menino de oito anos. Agarrado ao menino novamente ensangüentado em seus braços e com Dick abraçado ao pobre Timothy, devastado.
Jason não poderia saber se foi Bruce ou Batman que o puxou para fora dos escombros pela primeira vez. É Batman quem encontra a força para levantar o capuz vermelho do chão e começa a correr em direção ao Batmóvel. Não é como antes. Agora, há resgate e não apenas morte.
Agora, há luz, não apenas o carmesim do sangue tomando a escuridão.
Oh coisa simples, pra onde você foi?
Eu estou ficando velho
E preciso de alguma coisa para confiar
Então me fale quando você vai me deixar entrar
Eu estou ficando cansado
E preciso de algum lugar para começar
Jason Todd ainda era um Robin, mesmo que ele nunca admitisse isso. Ele era pássaro, como todos os seus irmãos-pássaros, quebrados e sofridos, filhos do Morcego.
Tim ficou para trás, carregado nos braços de Dick, envolvido na capa de morcego Batman, como uma criança no colo do pai.
Jason está morrendo, ele sabe disso, e Bruce também. Novamente. Não é Batman, mas Bruce que o está carregando. É seu pai, não seu mentor ou comandante que está segurando sua mão.
Agora, pela primeira vez em muito tempo, Jason Todd não é um soldado. Jason Todd é um filho e um irmão se despedindo de sua família. E por isso, Jason diz as palavras que ele queria dizer por muito tempo, mas sempre pensou que soaria como um homem menos, menos digno do homem que o criou se dissessem em voz alta: "Amo você, pai".
Então se você tiver um minuto por que nós não vamos
Conversar sobre isso num lugar que só nós conhecemos?
Isso poderia ser o final de tudo
Então por que nós não vamos
Para um lugar que só nós conhecemos?
Jason fecha os olhos e deixa a escuridão vir sobre ele. Ele não consegue ouvir a resposta de Bruce, ele não consegue deixar os olhos abertos. Não consegue ouvir Tim chorar pedindo perdão.
Talvez um ato de heroísmo não lhe permitisse recuperar sua alma, mas sabia que era o que tinha que fazer. E quando a escuridão chegou, ele estava cheio de amor. Uma rosa plantada em meio ao deserto. Porque a violência desta vez não havia roubado sua humanidade. Ele morreu por sua família.
Sentia-me bem ficar de novo na luz, mesmo que fosse só por um momento.
Ou não... Quem sabe não seria um renascimento?!
Isso poderia ser o final de tudo
Então por que nós não vamos
Para um lugar que só nós conhecemos?
Para um lugar que só nós conhecemos?
Para um lugar que só nós conhecemos?
Lily Allen — Somewhere Only We Know
Trilha Sonora de ‘O pequeno príncipe’
https://youtu.be/a47BPT1WMZY
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