Broken

4 Capítulo 3


Notas iniciais
Mais um capítulo fresquinho pra vocês, enjoy :)

Indignada pelo que lhe parecia um insulto, Lydia apenas o fitou e sentiu a face esquentar com o sangue que fervilhava. Aquelas palavras demonstravam o pouco que ele se importava com ela. E que, com exceção da cama, onde a recebia com prazer, ela não passava de um “estorvo necessário”.

Ela cerrou os punhos, que mantinha no colo. As mãos ásperas pelo trabalho duro a que estava acostumada e as unhas curtas, nas quais a tia dele costumava reparar com deboche.

Após um longo suspiro, ela decidiu que não iria se ofender com aquilo. Não podia ser mais magoada do que já estava. E também não adiantaria lhe dizer que não pretendia receber nada da fortuna dos Stilinskis porque só desejava a liberdade. Ele não acreditaria. Para que falar para as paredes?

Por fim, desviou o olhar dos lindos e cínicos olhos do marido e os repousou no copo de vinho ainda intocado. Sabendo que teria momentos difíceis pela frente, resolveu experimentar a bebida, e erguendo o copo sorveu um longo gole. O álcool ingerido a fez encorajar-se:

— Não acredito em você. Prove! Por que meus pais perderão a casa? Poderíamos ir lá agora mesmo e perguntar a eles.

— A esta hora? Está maluca? — Stiles quase gritou ao ouvir as palavras tão insensatas. Inclinou o corpo para a frente e retirou da mão dela o copo quase vazio e o depositou na mesa. Em seguida, aproximou dela o prato com os sanduíches. — Eles devem estar dormindo, tranqüilos, e acreditando que estamos resolvendo nossas diferenças e fazendo as pazes. Principalmente porque prometi ajudá-los com as dificuldades que estão passando.

— Que dificuldades? — perguntou ela, arrependida do tom preocupado na voz. Só queria saber do que se tratava e sair correndo dali. Não suportava mais a presença dele. — Diga! — insistiu com veemência, ao perceber que ele pretendia ficar calado e deixá-la na ignorância.

Stiles limitou-se a um discreto sorriso.

— Você fica mais linda quando está zangada!

Ela o olhou com frustração. E, apesar da raiva, o tom que ele usava para cortejá-la e o brilho de luxúria nos olhos castanhos ainda a incendiavam.

Ele prosseguiu:

— Seu pai alcançou a idade da aposentadoria. Por isso a companhia foi obrigada a cancelar o contrato de trabalho. E, segundo as normas da empresa, a casa deve ser desocupada para servir de moradia ao próximo encarregado a ser contratado.

— Eles lhe contaram isso?

Lydia ficou arrasada. Provavelmente deveria ser verdade. Seis anos antes o idoso sr. Joseph havia vendido toda a área para um grupo de consórcios que transformara o lugar num grande centro de lazer. Construíram um campo de golfe, piscinas e saunas. Além do acesso ao lago para quem gostasse de pescaria. O pai dela ficou desapontado com a mudança e, na última vez em que conversou com o velho amigo Joseph ouviu dele que estava cansado e pretendia partir dali. Mas trabalho é trabalho, o pai insistiu. Teria de se adaptar. E confiava na promessa de Joseph de que a casa seria deles por quanto tempo desejassem.

Todavia, os novos proprietários não deveriam pensar da mesma forma. Para a companhia, os anos de lealdade e respeito provavelmente não contavam.

De repente, Lydia percebeu que a ameaça dos pais ficarem sem teto não era nada impossível.

— A princípio foi sua mãe quem me disse — revelou Stiles. — Quando cheguei à casa de seus pais, percebi que ela estava aborrecida. Imaginei que fosse por que você tivesse ligado e falado sobre o divórcio. — Naquele ponto ele interrompeu-se para lançar um olhar incisivo, com as feições bonitas enrijecidas pelo desagrado. — Mas quando lhe contei sobre sua decisão, ela não agüentou e começou a chorar. Foi quando notei que deveria haver algo mais a atormentando.

Lydia sentiu um aperto no coração. Os pais estavam orgulhosos do genro. O marido perfeito que eles jamais ousariam sonhar para a filha, considerada por todos como uma “maria-joão”.

Com certeza, Natalie Martin deveria estar arrasada com a notícia. Porém, se ela tivesse tido a oportunidade de contar sua versão da história para a mãe, na certa sua reação seria outra. Ficaria do seu lado se soubesse que o “marido perfeito” não passava de um cínico manipulador!

— Então você chegou sem ser convidado e meteu o bedelho onde não devia? — falou Lydia, odiando-o por ter causado maior sofrimento para sua mãe.

E dizendo aquilo ameaçou levantar-se. Seu único desejo era correr para os pais e, depois de contar-lhes a verdade sobre a razão de um magnata ter-se casado com uma moça simples como ela, ajudá-los a resolver o problema com a casa. Faria tudo que estivesse ao seu alcance. Desde encontrar outro lugar para se mudarem até enfrentar a companhia nos tribunais. Deveria haver leis que os defendessem contra aquele procedimento injusto, pensou.

— Sente-se — ele exigiu, com a voz tão dura quanto o aço. — Se eu meti o bedelho, como você comentou de maneira tão cruel, foi só porque se tratavam dos pais da minha esposa. Não se esqueça disso!

Lydia direcionou-lhe o verde do olhar e disse:

— Muito bem. Você me contou a razão de meus pais estarem sendo expulsos da casa. Mas isso não muda nada. Você não pode fazer nada a respeito.

— Verdade — concordou ele. — Não posso impedir que o consórcio retome a casa. Verifiquei o contrato que a companhia pediu a seu pai que assinasse. E li as letras “miúdas”, que seu pai não observou. De acordo com o que ele me confidenciou, estava tão feliz com o contrato de trabalho que assinou que nem se importou em ler o documento. — Depois de uma pausa, para respirar profundamente, Stiles concluiu: — Se prestasse mais atenção, em vez de ficar explodindo à toa, lembraria que eu disse que poderia ajudá-los se você fizesse tudo que eu pedisse.

Ela não havia se esquecido. Como poderia? Mas achava estupidez que ele esperasse sua concordância. E agora o melhor a fazer era sentar e ouvir com paciência o que ele iria dizer. Forçar-se a esquecer que um dia o amara e que ele usara aquele sentimento para os propósitos que tinha em mente. E era muito difícil apagar os momentos de prazer que tivera nos braços daquela “potência masculina”!

Ela remexeu-se inconfortável na cadeira, ao sentir um arrepio na espinha que se direcionou direto à parte mais íntima do corpo. Sentiu o rosto esquentar com a certeza de que ainda sentia uma atração física irresistível, apesar da mente odiá-lo.

Stiles considerou o súbito rubor da face dela como conseqüência da recente explosão de ânimo. Então, prosseguiu, procurando usar um tom amigável:

— Seus pais e irmãos fizeram tentativas para resolver o problema por conta própria. Não tendo dinheiro suficiente para comprar uma propriedade nem renda para alugar algo confortável, Sam e Ben se empenharam em procurar algum tipo de hospedaria. Seus pais planejam mudar para a casa de Adam e Anne provisoriamente, enquanto aguardam que a companhia ofereça algum tipo de auxílio para a moradia. A situação não é das melhores, não acha?

Lydia permaneceu calada. A situação não era apenas ruim, era desesperadora. Seus pais não tinham economias. Todo caixa extra que sobrava era gasto para ajudar os filhos. E, mesmo que o filho mais velho e a nora os recebessem bem, não seria por muito tempo. A família de Adam estava crescendo e o espaço era pouco para abrigar tanta gente. E sua mãe, acostumada a reinar em seu próprio império, não ficaria feliz no espaço da nora. Os pais mereciam um final de vida melhor, pensou ela. Mas não daria o gosto de concordar com Stiles, mesmo sabendo que ele estava certo. Não queria nada que viesse dele, nunca mais!

Stiles analisava a teimosia da esposa, observando através dos espessos cílios. A linguagem corporal era evidente, mas ele tinha esperanças de modificar a situação e tornar a esposa um pouco mais submissa. Fora ela quem havia começado a batalha, e nenhum homem grego que se prezasse deixaria o desafio passar sem lutar e vencer.

Estava na hora de dar o tiro de misericórdia, pensou Stiles, procurando afastar da mente os bons momentos que haviam passado juntos. Ou melhor, o que ele imaginava que tivessem sido.

— Quando cheguei à casa, sua mãe estava sozinha. Seus irmãos tinham saído com seu pai, para tentar convencer o fazendeiro que lhes aluga o lote de terreno onde cultivam as plantas a aumentar-lhes a área, para que pudessem produzir mais e aumentar o lucro. — E, vendo que ela parecia distraída, ele aumentou o volume da voz quando perguntou: — Está me ouvindo?

Lydia deu de ombros. Pouco se importava se ele estava furioso. Ele merecia! Além do mais, ela já sabia que Sam e Ben há muito tempo procuravam aumentar a área. As plantas que cultivavam estavam em crescente demanda. Eles poderiam introduzi-las no mercado com grande facilidade. Porém, precisavam de mais terreno e uma estufa extra. Com a aposentadoria do pai, fazia sentido procurarem um espaço maior e deixá-lo participar como sócio.

No fundo, Stiles tinha vontade de sacudi-la tão forte até que ela rangesse os lindos e saudáveis dentes. Ou, melhor ainda, beijá-la tão ardentemente até que ficasse sem fôlego e prometesse prestar atenção ao que ele falava.

Porém, a voz saiu fria e calma:

— Eles retornaram bastante abalados. O fazendeiro informara que estava negociando a fazenda. E até mesmo o pequeno lote que ocupavam parecia ser um problema a ser resolvido com o novo proprietário. Ou eles compravam tudo ou nada feito. — Stiles deu uma pausa forçada para apreciar o efeito que as más notícias provocavam no rosto da esposa e depois continuou: — Então, a idéia que expus para seus parentes foi a seguinte: eu poderia comprar a fazenda e deixar que eles morassem lá e expandissem o trabalho. É claro que eles protestaram, dizendo que não poderiam aceitar. Mas eu argumentei que com o nosso casamento todos se tornaram minha família, por lei. E era meu dever ajudá-los. E com todo o prazer faria o que pudesse. Agora… — Ele interrompeu-se para lançar um olhar insinuante, depois prosseguiu, com um tom mais severo: — A dúvida é se você vai continuar como minha esposa. Caso contrário, não poderei considerar nenhum deles como parente.

— Isso é pura chantagem! — exclamou Lydia com espanto. — Não quero continuar casada com você!

— Você é quem sabe. É pegar ou largar.

Lydia levou as mãos às têmporas. A cabeça parecia explodir. A imagem da família tranqüila e feliz a atormentava. Até podia ver a mãe sonhando com a troca de mobília. Por outro lado, não conseguia voltar atrás da firme decisão de afastar Stiles de sua vida.

Ele ergueu-se e contornou a mesa até ficar na frente dela. E, então, lançou a “bomba” final:

— Apenas para ajudá-la a fazer a escolha, lamento informar que há menos de uma semana seu pai foi levado ao hospital com suspeita de enfarte.

Notando a palidez com que ela recebera a notícia, ele apoiou as mãos nos ombros miúdos e desculpou-se:

— Sinto muito! Eu deveria ter contado de uma maneira mais sutil. Mas a boa notícia é que não houve seqüelas. Foi apenas um aviso. Se ele tomar os remédios e evitar o estresse, tudo ficará bem. Sua mãe me disse que estava escrevendo uma carta para colocá-la a par do que estava acontecendo sem alarmá-la demais.

Stiles estava tão próximo que ela podia sentir a potente masculinidade sobrepujando-a:

— Que escolha posso ter? Estou entre a “cruz e a espada”!

— Você se colocou nessa posição! E agora tem que se decidir: ou volta para a Grécia como minha esposa ou nega a sua família a oportunidade de ter uma nova vida — concluiu Stiles, e enfiou as mãos nos bolsos traseiros das calças.

— Como pode ser tão baixo? — perguntou ela com desprezo. Sentiu vontade de atirar-lhe na cara toda a verdade que sabia sobre a indecente trama para poder ganhar um herdeiro. Mas, se fizesse isso, não mudaria a situação e perderia o pouco de amor-próprio que lhe restava. E agora as manobras diabólicas dele deixavam-na sem saída. Como poderia chegar em casa e dizer que a oferta fora retirada porque ela não queria mais continuar casada com Stiles? Como poderia fazer isso depois de ele ter levado os sonhos dos pais dela a uma altura inimaginável? Não! Definitivamente não poderia fazer isso e acabar com a família! Apenas baixou os olhos e pronunciou a própria sentença de morte:

— Está bem. Será como você quer, Stiles.

Sem aguardar pela resposta e odiando-o por ter vencido, ela ergueu-se, apanhou a maleta e encaminhou-se para a porta. Depois falou, com a entonação mais fria que a frustração podia lhe permitir:

— Agora pode me levar para casa. Eu tenho as chaves, não farei barulho.

— Às vezes você age como alguém que tivesse o cérebro removido por alguma cirurgia. Sabia disso? — ele indagou, dando alguns passos na direção dela. — Se os seus pais estão pensando que fizemos as pazes, não acha que desconfiariam se não passasse a noite com seu marido?

Ela raciocinou por um momento. Ele estava certo. Se os pais dela desconfiassem da “chantagem”, com certeza recusariam a oferta. E, além disso, aquilo tudo afetaria ainda mais a saúde do pai.

Lydia botou a maleta no chão para confirmar sua decisão.

Stiles apanhou a valise e a colocou perto da cama. Depois, demonstrando perfeito autocontrole, tirou a gravata e abriu sua bolsa, retirando alguns pertences.

— Pode usar o banheiro primeiro — ele comentou. -Amanhã será um dia atribulado. Primeiro vamos passar na casa de seus pais e dar-lhes a boa notícia da nossa reconciliação. Depois farei uma oferta irrecusável ao fazendeiro.

Lydia retirou da maleta uma camisola confortável e dirigiu-se para o banheiro, certificando-se de trancar a porta depois de entrar.

O reservado era simples, mas estava limpo. Não tinha nem como comparar com a suíte da mansão onde morava com Stiles além dos esplendorosos espelhos de cristal e do piso de mármore, era espaçoso e ornamentado com plantas exóticas. Um box de vidro com uma ducha excelente e uma banheira tão imensa que quase daria para nadar naquele mundo de água!

Entrou no chuveiro e permitiu que a água caísse abundante, enquanto os pensamentos prosseguiam.

Pelo que poderia deduzir, Stiles não estava disposto a perder tempo procurando outra “cobaia” para ter seu sonhado herdeiro. E, também, o “orgulho grego” não lhe permitia deixar que ela decidisse quando o casamento deveria terminar. Provavelmente esperaria até que lhe desse um filho e, então, terminaria o compromisso na hora em que achasse conveniente.

Porém, Lydia tinha um trunfo nas mãos: já que decidira impedir que ele lhe tocasse, não haveria chance de engravidar. E não havendo herdeiro, os planos dele iriam por água abaixo.

Uma leve pancada na porta e o pedido dele para que ela se apressasse de repente a fizeram pensar num outro lado da questão: Stiles dissera que cuidaria da família dela enquanto os laços do matrimônio perdurassem. E se ela se recusasse a lhe dar um herdeiro, provavelmente ele acabaria por dar um fim ao casamento. E se lhe desse um herdeiro, mesmo assim ele pediria o divórcio e tomaria o filho dela. Os advogados se encarregariam de arranjar um jeito de enganar a corte, afirmando que ela não era uma mãe responsável.

E o que adiantaria todo o sacrifício? No final, acabaria sempre da mesma maneira: seus pais e irmãos teriam que saúda propriedade e acabariam sem teto do mesmo jeito.

Lydia sentiu que não havia como vencer o arrogante marido. Ela mordeu o lábio inferior para impedir um grito de angústia.

De repente, a porta foi arrombada e Stiles entrou como um furacão. Estava apenas de short e com as feições assustadas:

— Por que não respondeu? — perguntou, abrindo a lateral do boxe. — Pensei que tivesse desmaiado ou passado mal!

Ela desligou o chuveiro e ficou paralisada. Estava em choque por ter-se distraído a ponto de demorar tanto. Stiles apanhou a toalha do prendedor e ofereceu-a:

— Cubra-se! — exclamou ele, olhando-a com desprezo. — Se eu quisesse o que parece estar oferecendo, eu já teria me apossado. Poupe o esforço!

Lydia ficou confusa e humilhada. Nem se dera conta de que estava parada e nua. Stiles deveria estar pensando que ela planejava “oferecer-se”, sabendo que nos velhos tempos ele costumava derreter-se com a visão do corpo escultural dela.

Enrolando-se na toalha, ela se dirigiu para o quarto. E depois de vestir a camisola, acomodou-se na cama.

Tinha vontade de contar-lhe a verdadeira razão pela qual o abandonara e revelar o sofrimento que a traição dele lhe ocasionara. Mas, se fizesse isso, se sentiria a pior das mulheres em matéria de amor-próprio. Seria preferível deixar que ele pensasse que ela só queria sua fortuna. Porém, permitir que achasse que ela ainda o desejava sexualmente, nunca!

Aproveitando o pensamento, Lydia teve uma idéia: apanhou a colcha grossa que cobria a cama e preparou um improvisado colchão no chão. Ajeitou um dos travesseiros e deitou-se, cobrindo-se com um lençol. Era preferível dormir no chão do que ao lado dele. Assim, provaria que não tinha nenhuma intenção de seduzi-lo. E também se acostumaria ao lugar onde provavelmente seria seu futuro, independentemente do quanto se rebelasse: o chão.

Lydia quase chorou ao ouvir a risada estrondosa que ele deu ao entrar no quarto e vê-la ali.

Depois disso só restou o silêncio.

Um silêncio tão sufocante quanto o chão duro que impedia que ela conciliasse o sono.

Inconformada com o fato de que Stiles estaria dormindo o sono dos vitoriosos enquanto a esposa submissa ficava aos seus pés como um cachorro de estimação, ela resolveu gritar:

— Diga-me como consegue se sentir bem mantendo uma esposa que deseja se ver livre de você? Não faz sentido!

Com a voz sonolenta, ele respondeu:

— Você é minha esposa. E continuará sendo até que eu decida o contrário. Enquanto isso, é pura perda de tempo falar sobre o assunto.

Notas finais
Espero que tenham gostado, acompanhe os próximos capítulos, muita coisa está para acontecer, beijos. :)