British Rainy Night
1 Era uma vez, um garoto,,,
... E era ele, apenas ele. Ele quem atravessava sereno uma rua deserta, quebrava o silêncio com passos desapressados. Passos que ecoavam na rua vazia, rua fria. Olhava o céu, olhava as casas. Casas escuras que dormiam, esperando a luz do dia. Ele não queria esperar. E cantava baixo para si mesmo caminhando na rua de asfalto molhado. Molhado pela chuva que caiu de manhã. Molhado pela chuva que sempre cai. Chuva que não tardaria a voltar, atacaria o pobre traunsente. Mas não tiraria sua felicidade. Não o faria andar mais rápido. E assobiava o garoto com a lua e estrelas de plateia.
Canção calma de um pedestre solitário vagando pelas ruas de uma cidade antiga. E olhava o céu e via estrelas, olhava as casas e nada via. Olhava o chão e via a água. Viu a água e ouviu um trovão. Ouviu um trovão e sorriu. Não era o suficiente para apressá-lo. Olhava para a frente e via seu destino. As mãos trêmulas com um objeto ocultado pelas costas. Ocultava-os de pessoas que não existiam na rua vazia. Mas não podia escondê-lo da lua e estrelas. E estas, curiosas, acompanhavam o traunsente e seu objeto. Curiosidade que era expressada pelo brilho intenso de cada uma. E o garoto olhava o céu e sorria. Sorriso que difícilmente abandonava seu rosto.Veio uma gota de água e molhou-lhe o nariz. E a rua encheu-se de uma breve risada enquanto o garoto continuava. Veio o reforço ajudar aquela gota. E a rua já molhada encharcou-se mais ainda. Encharcaram-se a rua e o garoto. Mas ele continuou andando com o objeto nas costas, seus passos surdos pelo ruído das gotas. Gotas que batiam de leve no garoto. E na rua. Casa simples, a que procurava, a que logo alcançou. Simples aos olhos dos outros. Como todo o resto, parecia. Mas a casa botava no garoto certo medo, receio. Suas mãos trêmulas mais ainda tremiam. Seu sorriso por pouco não se foi. Mas este resistiu, ficou no rosto do pedestre. Pedestre que se encheu de coragem e avançou até a casa de aparência simples. Avançou como de encontro a um leão, leão que rosnava a cada passo do traunsente, agitava suas grandes patas tentando feri-lo. Incapaz, porém, de pará-lo. O garoto continuou e chegou à porta. E o leão ainda deu um último rosnado selvagem antes de ter a campainha apertada. Isso com hesitação por parte do pedestre. Hesitação que ele venceu. Matou a fera, que voltou ao cargo de inocente moradia. A chuva caía e molhava os cabelos dourados do garoto. Grudava-os à testa e obrigava o pobre a tirá-los dos olhos. Tinha o barulho dela que impedia outros barulhos. Impedia-os de serem ouvidos. Monopolizava a audição de todos. Mas veio a campainha e transpassou a barreira. E foi aberta a porta branca, branca como as das outras casas. Casas simples como aquela. Chuva forte, a que caía. Furiosa por ter sido ignorava. Insistia e aumentava a força. E os pingos machucavam, doíam na pele do garoto. Impediam-no de ver muito longe. Mas via, via o dono da casa. Olhava bem em seus olhos verdes, e como amava aqueles olhos. Veio uma mão e agarrou-o. Puxou seu corpo encharcado para baixo de um teto. Ouviu a porta fechar-se. E virou-se. Veio um trovão, mensageiro da chuva. Mostrava a raiva desta pela perda do alvo. E ela batia, batia forte no telhado da casa. Batia mas era esquecida. — Ficou louco, porra?! Sair sem guarda-chuva? Sem se vestir direito?! Quer ficar doente? Pegar um resfriado?! Saudação esquisita, a do outro. Mas era ouvida com calma pelo mais novo de cabelos dourados. Ouvia e sorria, só de ouvi-lo. Acompanhou-o com os olhos quando subiu as escadas. Obedeceu à sua ordem de ficar onde estava. E veio o frio, bravo como a chuva. Bravo por também ter sido ignorado do lado de fora. Mas o frio era esperto, entrava nas casas. Veio ele e atingiu o garoto, atingiu-o e fê-lo tremer. Voltaram os passos do mais velho. Novamente audíveis, mais fortes que a chuva. Veio ele com seu olhar de censura. Reprovava os atos do mais novo. Reprovava que ele tivesse saído naquele tempo. Reprovava tanto que se esqueceu de que dia era. Mas junto dele veio uma coberta, e com ela envolveu o mais novo. Pressionou-a forte contra seu corpo trêmulo, resmungava e reclamava enquanto isso. E o garoto ouvia, sorria, sentindo o toque do outro em seu corpo. Sentia o frio que lentamente morria, tentava cravar as garras gélidas em seu corpo e não conseguia. Foi puxado novamente, sentou-se no sofá. E o mais velho afastou-se pela segunda vez, pediu que esperasse. E, como um cão obediente ao dono, esperou, o garoto. Veio um aroma, aroma que alargou seu sorriso. Se era possível, não se sabe. Mas alargou. E confirmando o olfato veio a visão, que captava com os olhos azuis do garoto o formato de um bule. Bule que o mais novo tentou alcançar, tirou os braços da proteção que era o cobertor. Veio o frio e agarrou-se a eles. Porque o frio era esperto, não morria fácil. Se escondia e aguardava, aguardava uma chance de atacar. E obrigou o garoto a encolher-se, esperar que o outro se sentasse. Sentir o peso de seu enésimo olhar reprovador. Mas sorria, sorria e olhava o outro. E viu um breve sorriso brotar em seus lábios também.
Recebeu dele uma xícara fumegante. Olhou para ela, viu o líquido, viu sua cor dourada. Mantinha ambas as mãos grudadas à porcelana, protegidas do frio. Frio que ainda esperava por uma brecha. Brecha para atacar, envolver o mais novo em um abraço gélido. Bebiam ambos em silêncio. Bebiam e trocavam olhares vez ou outra, em uma conversa muda. Esvaziaram o bule com rapidez, devolveram as xícaras à bandeja. Não veio o silêncio porque tinha a chuva, e a chuva batia na casa em sua fúria. Batia e fazia barulho. Mas o barulho era gostoso, acolhedor. Típico ruído de uma noite de sábado na terra do mais velho. Olhavam-se por um tempo e desviavam os olhares, nenhum sabendo o que fazer. Esperava, o mais novo, que o outro se lembrasse de algo. O outro nenhum sinal dava. Foi o garoto e aproximou-se do homem de olhos verdes. O homem ameaçou recuar. Parou. Gostava da presença do mais novo. Gostava de tê-lo por perto. E inclinou-se para o garoto, envolveu-o com braços protetores. Foi o garoto e encolheu-se mais para perto do homem. Sentiu-o apoiar a cabeça em cima da dele. E daquele jeito ficaram, compartilhavam o calor. Afastaram de vez o frio, que para fora voltou, foi buscar outra vítima. Deixou-os sozinhos com a chuva e as estrelas e a lua. A chuva que amansava, pingava gotas leves na casa simples. O firmamento iluminado de astros que enfeitava o cenário, agradecimento pelas canções do garoto de minutos atrás. E o garoto quase fechava os olhos, tentava vencer o cansaço. Lembrou-se do que o mais velho já havia esquecido. — Happy birthday, Iggy... Abriu os olhos, o mais velho. E seu olhar atingiu o outro lado da sala, o calendário. 3/3. Havia esquecido. 3/3. Ninguém nunca o visitava e ele esquecia. Era um dia comum de acontecimentos comuns. 3/3. Sorriu. Sorriu como o mais novo sempre sorria, um sorriso largo, de verdadeira felicidade. Sorriu e pressionou-o mais contra o próprio corpo. E o garoto se aconchegava mais, aninhado em seus braços. Queria dormir. Lembrou-se do presente. Havia guardado no bolso. Mas não queria mostrá-lo naquele momento. Queria ficar junto dele. Daquele jeito. Aquecido por seu corpo, seguro por seus braços. Passar a noite daquele jeito. Sem nada que pudesse estragar. Sorriu e dormiu, quase ao mesmo tempo que o mais velho. E batia a chuva do lado de fora, batia uma calma canção de ninar.
Notas finais
Bom, eu decidi fazer essa fic só por diversao. Eu tava meio que sem ter o que fazer... E... Aí saiu isso e eu decidi publicar o3o' Nao é bem uma poesia, mas é o gênero mais perto que encontrei q
O aniversário do Iggy foi o melhor motivo que encontrei pro Alffie visitar ele öo' Eu sei que já foi faz um tempinho q
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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