Brisas Passadas
1 One Shot
Notas iniciais
Contém leve toque de Shonen-ai entre Iori e Kyo
Em um domingo, dia de sol, apenas curtindo a preguiça, Kyo Kusanagi sentiu uma certa nostalgia ao se lembrar dos tempos em que lutava. Não sabe bem porque essa nostalgia bateu... Talvez pelo torneio de 2015 estar se aproximando.
Incrível, esse torneio não perde o embalo, mesmo com dois de seus principais lutadores já fora.Kyo já faria 40 anos... Não que não estivesse disposto a lutar mais, afinal ás vezes se entrincava com Yagami, em uma luta amigável, e também treinava com os amigos. Kyo mantinha o ar jovial, e seu corpo bem formado não foi superado pelos anos. Shingo ainda lutava, e era legal ver que o ‘garoto’ havia se tornado tão forte.Kyo se orgulhava, mesmo não tendo muito do que se orgulhar, afinal sempre judiava do garoto, e ensinava pouca coisa. Se orgulhava da perseverança de seu ex-discípulo.Era nostálgico também saber que era o último descendente de uma geração de quase 600 anos.E foi pensando nisso que levantou-se de sua cama, sentindo a brisa de verão que entrava pela janela e acariciava seu corpo apenas vestido com uma calça de pijama, e foi até a porta do armário onde batia o sol da tarde.Abriu e pegou, lá no alto, um livro de capa de couro surrado, e a julgar pela aparência, devia existir há muito tempo. Passou a mão pela capa sentindo a textura já conhecida e sentou-se ao chão cruzando as pernas, ao mesmo tempo em que abria e folheava, sentindo novamente a brisa em seu corpo.Não precisava nem de índice... Já sabia de cor a página a qual queria ver........................“ Há muito tempo, em uma vila pacata onde haviam camponeses, sacerdotes e guerreiros, uma tormenta começou a afligi-los. Ouvia-se que as jovens filhas dos camponeses estavam sendo raptadas por algo desconhecido, e a voz dessa entidade fazia tratos à respeito dessas jovens. Prometia que não assolaria a vila inteira, se estas fossem oferecidas como sacrifícios. Desolados, mas sem alternativas, as jovens eram oferecidas como sacrifício á entidade que adorava sangue, e assim a vila permanecia em paz durante um bom tempo, até que o mostro voltasse e pedisse por mais, retirando mais uma jovem de sua vida e família.Foi a vez de uma bela jovem da família Kushinada ser escolhida para satisfazer o mostro. A garota que logo se casaria ficou desolada, e seu noivo tramava algo para que ela não fosse levada.Seu noivo se chamava Kusanagi, um dos bravos guerreiros que a vila tinha, e não somente ele, mas também Yasakani.Os dois tinham poderes e conseguiam manipular as chamas, enfrentando muitas batalhas juntos e sendo conhecidos e prestigiados em várias localidades.Kusanagi e Yasakani, unidos do sacerdote da vila que se chamava Yata, forjaram um plano para selar de uma vez a entidade demoníaca a qual era chamada de Orochi, uma gigante cobra negra com 8 cabeças dispostas pelo corpo.No dia do sacrifício de sua noiva Kushinada, Kusanagi á expôs como isca ao alto de um pedestal, e Yasakani dispôs 8 barris de seu melhor vinho produzido na vila em volta do pedestal, formando um grande círculo, com o intuito de banquetear o demônio e embebedá-lo antes que pudesse raptar a donzela.Logo que Orochi chegou para buscar sua oferenda, a moça Kushinada falou com uma doce voz, apesar de trêmula, que os vinhos eram presentes, para que a entidade pudesse poupar a vila de sofrimentos.A criatura aceitou os presentes de bom grado, já que o gosto era bem parecido com sangue, e logo afogou suas oito cabeças nos jarro de vinho, sorvendo com vontade.Notando a criatura mais cansada, supostamente embriagada, Yasakani não titubeou e de suas mãos fez surgir labaredas alaranjadas, e com um movimento as fez percorrer o círculo de jarros e logo depois subir como uma parede de fogo, prendendo a criatura ao centro, junto com a donzela.Aproveitando que Kusanagi não se queimaria com fogo, pulou ao centro com sua formidável espada, a Espada Kusanagi, e cortou uma das cabeças da criatura, a fazendo dar um urro. Não apenas esta, mas as outras cabeças também foram degoladas pela afiada lâmina, e logo o demônio pendeu ao solo.Yata fez uso de seu poder, trancando a alma, essência de Orochi, em um gigante espelho com adornos dourados, o selando definitivamente.E assim, a vila comemorou a caída de Orochi, prestigiando Kusanagi e sua espada.Yasakani, não contente e tomado pela inveja de somente Kusanagi estar sendo agradecido pelo povo constantemente, tentou buscar formas de aumentar o seu poder. Ao deixar a raiva por Kusanagi entrar em seu coração, começou a ouvir a voz de Orochi em sua mente, dizendo que ele conseguiria lhe dar esse poder.Yasakani censurou-se diversas vezes, mas cada vez mais tinha raiva de ter sido deixado de lado, nem mesmo sendo agradecido por Kusanagi ao ajudar.Sucumbindo, foi até a caverna onde o grande espelho era guardado e protegido por Yata. O sacerdote, junto de mais oito guardiões não foram páreos para as chamas de Yasakani, e acabaram mortos pelo guerreiro cego pelo poder.Então, o homem de longos cabelos vermelhos, presos, quebrou o espelho, liberando a alma de Orochi, que começou a persuadí-lo para Yasakani deixar ser possuído e ganhar o grande poder que lhe prometera.
Felizmente, Kusanagi chegou em hora certa e impediu a possessão. Yasakani não gostou da intromissão do outro, e os dois pela primeira vez lutaram em rivalidade.Após um tempo, Kusanagi conseguiu derrotar Yasakani, que foi preso em uma caverna com uma cela, por traição. O homem de cabelos vermelhos contou o que pensava sobre a ingratidão de todos e sobre a arrogância de Kusanagi por achar que fez aquilo tudo sozinho.O outro ouviu atentamente o que Yasakani tinha para dizer, mas se decepcionou pelos motivos de pura inveja, e apenas deu as costas dizendo para ele pensar em sua esposa e família, ao ter feito uma desonra tamanha em matar os guardiões e querer libertar um demônio por pura ganância.Yasakani ficou ainda com mais raiva de Kusanagi, e seu ódio estava a ponto de querer matá-lo e fazê-lo pagar por essa humilhação. Sentado no frio chão de pedra da escura caverna, não tardou para novamente ouvir a voz de Orochi em sua cabeça tentando a alma do guerreiro, que ainda mantinha-se firme, ao menos realmente pensando em sua esposa.Orochi disse que era inútil pensar em sua esposa, já que Kusanagi a havia matado para servir de exemplo pela traição de Yasakani. Era verdade que a esposa de Yasakani jazia morta nessa mesma hora, mas pelas mãos de Orochi, não de Kusanagi.Yasakani sem saber da manipulação de Orochi, em ira ferveu seu corpo em labaredas de ódio e sucumbiu à vontade extrema de ser mais poderoso que Kusanagi, e matá-lo por ter matado sua esposa e pelas infelicidades recentes.Aceitando o pacto com o demônio, que na mesma hora depositou um pouco de sua essência nas veias do guerreiro, sua chamas tornaram-se púrpuras, cheias de rancor e vingança, e à ele foi dada a missão de eliminar todo e qualquer indivíduo da linha dos Kusanagi.Seu símbolo seria o inverso da Luz do Sol... A escuridão da Lua.E seu nome já não seria mais Yasakani. Uma nova linhagem foi batizada á partir daí, e agora seguiria para sempre como Yagami, tendo sempre o primogênito de cada geração sendo amaldiçoado pelo sangue demoníaco, espalhando rancor e ódio. “...........................- De novo...?Kyo passava a mão na figura guerreira que representava Yasakani, já desbotada pelo tempo, e sorriu confortável ao ouvir a grave voz descendente da linhagem da lua. – Eu nunca me canso... – Falou sorrindo, virando seu pescoço para o homem parado á porta do quarto, com uma xícara de café levando aos lábios.Era como se Kyo viajasse 600 anos... Lendo essa história, e agora vendo o último descendente dos Yagami, ali... No mesmo cômodo de um Kusanagi.- Perdi as contas de quantas vezes voce leu essa lenda... – O ruivo já de mesma idade que Kyo falava sereno, e se aproximava sentando na borda da cama tendo seus fios vermelhos iluminados pelo sol, olhando o moreno de cima, que sorria para ele. – As páginas estão até rasgadas... Kyo suspirou sorrindo e olhou novamente para a figura que ilustrava a Lenda de Orochi. — ... É a história da nossa vida... Iori olhou para Kyo, tomando mais um pouco do café, e depois estendeu a xícara á ele que pegou sorrindo. – História da nossa vida?... A história da nossa vida é diferente dessa... Voce acha?... – Perguntou Kusanagi, curioso, depois de tomar o café.Iori balançou a cabeça. – Muitas coisas são parecidas... Mas os acontecimentos são inversos... Yasakani e Kusanagi se davam bem, e depois houve o ódio... Não acho que seja a história da nossa vida, por que não levamos essa história em consideração, nem eu nem voce quando resolvemos nos aproximar.Kyo sorriu com a resposta.- Isso voce tem razão... – Voltou o olhar para o livro o fechando e passando a mão de leve pela capa. – Gosto de fazer essa transição entre passado e realidade...- Explicou voltando o olhar ao do ruivo. – É confortável comparar essas condições... Principalmente as condições da nossa vida mesmo... Já que não foram poucas vezes que eu ouvi voce dizer que me odeia... Prova dos sentimentos de seu ancestral.- Não foram poucas vezes em que voce me disse para eu viver minha vida e que eu nunca derrotaria voce... Prova da arrogância de seu ancestral... – Iori rebateu singelo, e os dois se olharam rindo provocativos.- Digamos então que tudo isso foram passagens de nossa vida... Brisas... – Falou Kyo.- E depois de brisas, vem a calmaria... – Completou Iori sorrindo. E Kyo sorriu de volta.- Alguma vez se arrependeu de ter dito que me odeia?... – O moreno perguntou, levantando-se e sentando-se ao lado de Iori.- Não... – O homem ruivo respondeu sem hesitar, olhando para o outro enquanto ele se sentava. – Eu realmente não gostava de voce, e não dizia isso sem propósito... Eu sempre disse o que eu realmente sentia...Kyo encostou seu rosto ao peito do mais alto, sentindo ele enlaçar seu pescoço em um pequeno abraço, onde um poderia sentir o perfume do outro.- Alguma vez se arrependeu de dizer que me ama...? –Kyo perguntou sem olhar.Iori deu um pequeno sorriso perante a insegurança de sempre do outro, e afagou seus cabelos. — ...Acho que eu já respondi sua pergunta... E isso faz parte da grande diferença que nossa história tem da deles...Kyo sorriu largo sem o ruivo ver... A decepção de Kyo era não saber mais da história dos dois. Ás vezes tinha muita vontade de acreditar que eles se acertaram, assim como Iori e Kyo se acertaram.E também gostaria de saber se eles estariam orgulhosos de seus últimos descendentes acabarem de vez com todo esse rancor entre os clãs dando lugar á vida de paz que Yasakani e Kusanagi deveriam ter tido após tudo aquilo...E mereciam.
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