Nora abriu os olhos sentindo a claridade que entrava pela janela causar uma ardência nos olhos. Ela sentia uma mão quente sobre a sua, e o lençol fino de sua cama enrolado entre suas pernas.

- Patch. — Ela murmurou sem olhá-lo, apertando sua mão.

- Errado. — A voz de Scott a acordou completamente, fazendo-a se virar para ele.

- O que está fazendo aqui? — Ela se sentou na cama, arrumando os cachos rebeldes. — O que eu estou fazendo aqui? — Nora perguntou confusa, sem se lembrar como chegara ao seu quarto.

- Patch te trouxe. E me ligou.

- Te ligou? Para quê? — Nora se abraçou ao travesseiro. — Eu estava na casa dele. — Ela se lembrou. — Está tudo confuso.

- Ele me disse que você desmaiou e que tinha umas coisas pra fazer. — Scott deu de ombros. — Devia ser sério, pra ele te deixar comigo.

- Ele foi atrás de Dabria. — Nora murmurou.

- Difícil é não ir. — Scott riu, e recebeu um olhar de reprovação e nojo de Nora. — Qual é, ela é bonita.

- De onde a conhece?

- Bolsa do Diabo. Ela se apresentou. — Um sorriso cafageste apareceu no rosto de Scott.

- Por favor. — Nora fez a melhor cara de nojo que podia. — Há quanto tempo estou aqui?

- Não muito. Estamos no fim da tarde, ainda. Por que não me conta o que aconteceu?

- Acredita em fantasmas? — Nora fechou os olhos, lembrando-se das visões que tivera de Katarina e a sensação de estar sendo observada.

- Se acredito em nefilins e anjos caídos... Fantasmas não são um problema.

- Patch caiu por causa de uma garota. Há muito tempo. — Ela encarou Scott, esperando por alguma reação dele. — E essa garota acabou morrendo, claro. Louca.

- O quê? — Scott riu. — Não venha me dizer que a morta está te assombrando. — Ele esperou que ela risse, mas ao ver a seriedade no rosto de Nora, parou de rir. — É brincadeira, não é?

- Fui atrás de Dabria, ela me mostrou os diários da garota. Dabria a assombrou até que ela enlouqueceu. Havia um desenho, e era a mesma garota que eu tenho visto. Patch acha que é coisa da minha cabeça.

- Nora...

- Também acha que é loucura? Me diz, como isso é possível? Eu a vi, tenho certeza que é ela. E ela me disse traga-me de volta a vida.

- Há algo errado nessa história.

- Eu sei. — Nora deitou-se outra vez, encolhendo-se na cama.

Scott colocou a mão sobre o braço nu de Nora em um gesto de consolo.

Já havia escurecido quando Patch entrou no quarto pela janela. Scott já havia ido embora e Nora já havia tomado um longo banho quente e vestido um pijama qualquer. Desde então, ela se mantivera deitada e coberta.

- Como você está? — Patch deitou-se ao lado dela na cama. Nora continuou virada de costas para ele. — Nora. — Ele murmurou, com a boca pressionada contra o ombro dela.

- Não quero conversar. — Ela avisou sem virar-se.

- Tudo bem. — Ele concordou, mas não se afastou.

Longos minutos se passaram e mais nenhuma palavra foi dita. Patch permaneceu imóvel na cama, enquanto Nora mexia-se inquieta.

- Por que não acredita em mim? — Ela perguntou baixinho, quebrando o silêncio.

- Eu acredito. — Ele colocou a mão sobre a da garota.

- Estou com medo. — Ela começou a chorar.

- Estou com você, Nora. Vai ficar tudo bem. — Patch a puxou para mais perto, fazendo-a se sentir quente e segura.

- Aonde estava?

- Não fui atrás de Dabria. — Não era a resposta certa, mas tranquilizou Nora. — Me fale sobre a garota que tem visto.

- Sei que está apenas tentando fazer com que eu me sinta melhor.

- Isso é errado? — Ele sorriu. — Me conte.

- Tem uma garota ruiva. E ela está chorando. Estamos em um quarto branco, como quarto de hospital. Ela fica repetindo que alguém irá buscá-la. Esse é o sonho. Mas eu a vejo. Antes de desmaiar eu a vi ao seu lado, Patch. Ela chega até mesmo a te tocar. Sei que é Katarina, eu vi um desenho dela dentro de um dos diários.

- Tenho muitos inimigos que conhecem meu passado. Algum deles pode estar...

- Não é uma ilusão, eu saberia se fosse. Ela está aqui por você, Patch.

Ele não tinha mais argumentos, então apenas se calou. Nora aninhou-se mais entre os braços de Patch, e poucos minutos depois acabou dormindo.

Nooooooooooora! Um grito distante ecoava na cabeça de Nora.

- Patch? — Ela chamou baixinho com os olhos fechados.

- Patch não está aqui, Nora. — Uma voz triste tomou conta de seus ouvidos. — Estamos sozinhas. — Nora não abriu os olhos, apenas ouviu.

- Quem é você? — Ela perguntou abrindo os olhos lentamente.

- Katarina. Não tenha medo, olhe para mim. — Nora levantou a cabeça, os olhos completamente abertos. Seu coração pulou ao ver a mesma garota do outro sonho, mas agora bem vestida com um lindo vestido azul de época e os cabelos sedosos e penteados, caindo sobre os ombros e quase alcançando sua cintura. A franja, antes grande demais, agora estava no tamanho certo.

- Você é linda. — Nora sussurrou, encarando-a admirada.

- Patch me dizia isso. — Katarina sorriu timidamente. — Sinto tanta falta dele. Como ele está?

- O que quer aqui? — Um ciúme irracional subiu à cabeça de Nora. — Você está morta.

- Estou na memória de Patch, e isso tem me mantido viva. Me ajude a voltar, Nora.

- Do que está falando?

- Converse com os arcanjos, me ajude a sair desse lugar. Estou sozinha e com medo.

- Não posso ajudá-la. Me deixe em paz.

- Patch sente minha falta tanto quanto eu sinto falta dele. Ele me ama, Nora. Sempre amou. Ele caiu por mim. Eu posso fazê-lo feliz.

- Patch é meu namorado. — Nora gritou.

- Deixe-me viver, por favor. — Katarina manteve a voz calma e suplicante. — Patch é meu, Nora.

Descontrolada, Nora gritou com toda força que tinha um irritado "Vá para o inferno". As lágrimas vieram aos olhos embaçando sua vista. Quando sua visão tornou-se mais focada tudo que ela viu foi olhos negros e aflitos a observando. Patch.