Brincadeira

1 Brincadeira - Único


Notas iniciais
Link da música (opcional) - http://www.youtube.com/watch?v=q0ORBTjNf8o&feature=player_embedded#at=27

Kagome Kagome kago no naka no tori wa

Kagome, Kagome, o pássaro em uma gaiola

- Kagome! Acorde! — A voz agitada de Sango interrompeu meu sonho. Após movimentar minhas pálpebras e fixar meus olhos em seu rosto preocupado, esqueci completamente o que eu havia sonhado. Mas parecia ser algo importante. Minha boca estava seca e eu sentia gotas de suor escorrerem pela raiz dos meus cabelos, apesar de não estar quente. Além disso, uma dor aguda emanava do meu polegar direito. Algo estava errado.

- Hm? — Perguntei, tentando me localizar. Estava dentro de uma van, no último banco. Do meu lado, Sango estava com as mãos sobre meus ombros, enquanto Miroku e Inuyasha me olhavam de forma assustada no banco à minha frente.

- Você parecia estar tendo um pesadelo! Não nos assuste assim! — Passei a mão pela minha testa, afastando a franja. Suspirei, um pouco ofegante. Um pesadelo...? Verdade. Meu coração estava acelerado e algumas extremidades do meu corpo tremiam. Eu estava com medo. Mas medo do que? Ou quem?

"Não refaça!"

- O que disse, Sango? — A encarei. Não refazer o que?

- Hm? Eu não disse nada, Kagome. — Ela me olhou confusa. Eu estava ouvindo coisas? Deve ser por causa do pesadelo. Voltei meus olhos cansados para a janela da van próxima de mim. Estávamos parados.

- Chegamos há alguns minutos. — Miroku esclareceu.

- Vamos, você vai se sentir melhor com o ar fresco daqui. — Sango abriu a porta e puxou-me pela mão para fora da van. Senti um misto de alívio e liberdade ao entrar em contato com a brisa fresca e pura daquela região rodeada de natureza. Lembrei-me finalmente do que eu estava fazendo ali.

Há uma semana, eu e meus colegas de faculdade decidimos fazer um acampamento na região rural, próxima de onde morávamos, para quebrar a monotonia do dia-a-dia e nos divertir depois de semanas de árduo trabalho. Nos planos, parecia ser uma ótima ideia, mas por algum motivo, eu não me sentia bem ao olhar para a paisagem.

Era um lugar incrível, sem dúvidas. No alto do céu azul, o sol brilhava, rodeado por umas poucas e pequenas nuvens brancas. Embaixo, podíamos ver alguns morros distantes, pintados de verde, serem conectados por uma depressão de terra belíssima, onde havia um rio de águas claras. O único som que podia ser ouvido naquele momento era o canto dos pássaros, tão convidativo e inocente.

- Que lindo, não é, Kagome? — Sango estava radiante.

- Sim, mas sinto como se já...

"... Tivesse visto isso antes."

- Já...?

- Nada. É só impressão minha. — Realmente, eu me sinto muito cansada. Pesadelos acabam com a animação de qualquer um.

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Itsuitsu de yaru yoake no ban ni

Quando você vai se libertar? Na noite da madrugada

Apesar de ser uma área própria para acampamento, não haviam outras pessoas. Mas também, estávamos no meio do período de aulas, longe de qualquer férias ou feriados. Caminhando por entre as árvores altas e tomando cuidado para não pisar em pequenos e frágeis animais que cruzavam meu caminho, a sensação de que eu já havia estado ali crescia na minha mente. Talvez meu pai tenha me levado para pescar na infância, quem sabe. Sango e Miroku caminhavam mais a frente, ao lado de Rin e Sesshoumaru. Meus olhos procuraram por Inuyasha, e me surpreendi ao ver que ele estava do meu lado o tempo inteiro.

- Você está distante. Aconteceu algo? — Ele acariciou o topo da minha cabeça, descendo os dedos por entre os fios do meu cabelo. Um sorriso surgiu naturalmente em meus lábios. A sensação ruim desapareceu momentaneamente.

- Talvez seja a mudança de ambiente. É bem diferente aqui. — Segurei a sua mão. Ele sorriu, parecendo mais calmo.

- Hey, parem de namorar! Vamos arrumar as barracas! — Miroku gritou, um pouco distante. Eu e Inuyasha nos entreolhamos e, entre risos, apressamos o passo. Apesar da minha sensação esquisita, eu sabia que tinha tudo para ser uma tarde e noite divertidas e memoráveis.

"Não refaça!"

Quando estávamos montando as barracas, acabei dando uma martelada acidentalmente no meu polegar direito, que já estava dolorido. Repreendi-me mentalmente, e Inuyasha tratou de fazer isso publicamente. Eu realmente sou uma garota desastrada, mas aquilo acabou rendendo umas boas risadas.

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Tsuru to kame to subetta

O grou e a tartaruga escorregaram e caíram.

Foi uma tarde divertida. Miroku e Inuyasha disputavam para ver quem conseguia ficar mais tempo debaixo d'água, enquanto Sesshoumaru, que demonstrou uma habilidade especial para pesca, tentava ensinar Rin a pegar um peixe. Mas era uma cena cômica, porque o frio e ranzinza Sesshoumaru estava envergonhado com a pequena tão próximo dele. Acho que apenas a própria Rin, do jeito que era infantil, era a única que não havia notado os sentimentos daquele bloco de gelo.

"Ela vai escorregar nas pedras e machucará o joelho, perceba!"

- Por que diz isso, Sango? — Virei-me para ela, que estava tomando sol ao meu lado.

- Hm? O que? — Ela fixou seus olhos em mim, novamente confusa. Pensando bem, não era a voz da Sango. Parecia mais distante...

- AH! — Me surpreendi com o grito de Rin. Ela estava caída sobre as pedras, assustada, com um pouco de sangue escorrendo do joelho. Ia me levantar para ajudá-la, mas Sesshoumaru a pegou no colo segundos depois. Ela o abraçou como se fosse uma criança, com algumas lágrimas escorrendo livremente pelos olhos castanhos. Eu senti um arrepio na nuca. Como eu sabia o que iria acontecer? Não, eu não sabia. Alguém me disse. Mas quem? Aliás... perceber o que?

- Hey, venham aqui! Achamos uma coisa interessante! – Inuyasha gritou. Eu e Sango nos olhamos, curiosas. Não demorou muito para que nos aproximássemos dos garotos. Atrás de algumas árvores, próximas ao rio, havia uma pequena caverna, que dava espaço o suficiente apenas para uma criança pequena entrar.

- O que é isso? – Sango perguntou, olhando desconfiada para a pequena caverna.

- Não sei, não dá para ver direito. Mas parece que tem algo brilhando lá dentro. Uma lanterna, talvez? – Miroku perguntou-se.

- Ah, estou curiosa! Mas não vou conseguir entrar, sou muito alta e... – Ela dirigiu seu olhar divertido para mim. Droga, sabia que isso ia acontecer.

- Você não precisa entrar, se não quiser. – Meu querido Inuyasha disse isso, mas aposto que ele estava tão curioso quanto os outros dois. Para ser sincera, eu também estava, apesar do mal estar que havia aumentado.

“Não entre! Não entre!”

Consciência... sempre indo contra a curiosidade. Agradeci por ter o corpo pequeno e fino, pois pude entrar com uma certa facilidade pelo espaço da entrada da caverna.

- Mas o que...? – Meus olhos demoraram um pouco para assimilar a cena. O brilho que Miroku havia visto não era de nenhuma lanterna. Dentro de um espaço pequeno e circular, o brilho surgia de um dos olhos de uma estátua em forma de... não sei dizer. Parecia um rosto humano masculino, em agonia. Embaixo da estátua, em letras pequenas, pude ler a frase “Vamos brincar?”.

“Kagome! Kagome!”

Em volta da estátua, no chão, haviam muitos pedaços de papeis. Alguns com a aparência extremamente velha, outros mais novos, mas todos tinham um ponto em comum: Pareciam estar escritos a mão. Tentei ler um deles, mas não compreendi a língua. Ao pegar outro, constatei que estava escrito em outra língua.

- Kagome! – Escutei a voz de Inuyasha.

- Hã? – Larguei o papel, sentindo algo embrulhar meu estômago.

- Você não respondia, eu estava ficando preocupado! O que tem aí dentro? – Não queria mais ficar ali dentro. Abaixei-me e saí da caverna, segurando a mão do meu namorado. Ele, Miroku e Sango olhavam para mim curiosos e confusos.

- Ah, só haviam alguns papeis e uma estátua... talvez seja algo religioso... – Respondi. De fato, era o que aquilo me pareceu ser. Eles me olharam decepcionados.

- Que pena. Poderia ser uma base alienígena... – Comentou Miroku, o mais decepcionado entre eles.

Pensando melhor, eu realmente queria que fosse uma base alienígena...

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Ushiro no shoumen daare

Quem está atrás de você agora?

- E então... sabe quem havia matado o namorado da garota, no fim de tudo? — Miroku estava com uma lanterna iluminando seu rosto. Estávamos contando histórias de terror. Sango estava se divertindo tanto quanto Miroku, ao contrário de Rin, que aninhava no colo de Sesshoumaru, dirigindo um olhar assustado algumas vezes para o narrador. Inuyasha estava com um braço em torno dos meus ombros, não aparentando sentir nada com a história. Normalmente eu estaria apavorada, mas eu já havia escutado aquela história antes, então não havia nada demais.

- A própria garota, possuída. — A resposta escapou dos meus lábios, sem eu perceber. Miroku fechou a cara, enquanto os outros se surpreenderam.

- Kagome! Mesmo que você já soubesse a história, não podia estragar! Eu ia fazer a revelação de forma assustadora... — Ele se levantou, demonstrando sua insatisfação.

"Você nunca ouviu essa história!"

- Hã...? Ah, me desculpe. — Claro que já ouvi. Senão eu não saberia o final, oras.

- Miroku, você está meio pálido! Está se sentindo bem? – Perguntou Rin.

- Hm? Não se preocupe, estou bem. – Ele disse, abrindo um sorriso. Não me pareceu muito verdadeiro, mas imaginei que pudesse ser a mudança da temperatura. Havia esfriado bastante naquela noite.

Eu já estava o dia inteiro falando comigo mesma na minha mente, acho que realmente não era um bom dia. E justo quando eu estava num momento de descanso...

Mas eu não gostava da sensação de ouvir minha própria voz, sem de fato ouvi-la.

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Ushiro no shoumen daare

Quem está atrás de você agora?

Acordei com os gritos de Rin, que cessaram-se tão rápido quanto surgiram. Eu e Inuyasha saímos correndo para fora da barraca com uma lanterna, e demos de cara com os corpos dilacerados de Rin e Sesshoumaru. Ao lado dos corpos, de pé, Miroku sorria. Seus olhos, antes castanhos e brincalhões, estavam tão vermelhos quanto o sangue dos meus amigos mortos, com um brilho prateado emanando como uma aura em cada um. Lágrimas brilhantes e abundantes escapavam por eles, em contraste com o sorriso.

"Agora é tarde demais. Você não percebeu."

- M-Miroku...? — Inuyasha sussurrou, ainda incrédulo. Eu não queria ouvir nada. Puxei-o pela mão e corremos o mais rápido que podíamos. Sentia os passos de Miroku atrás de nós, até que chegamos à margem do rio. Nele, para o meu desespero, encontrei o corpo de Sango, parcialmente submerso. O pescoço parecia estar quebrado. Inuyasha não dizia nada, atrás de mim. Minha vontade era de desligar a lanterna entre meus dedos trêmulos, não queria ter outra visão assustadora.

"Quem está atrás de você agora?"

Com a voz da minha consciência, senti como se meu coração tivesse parado de bater. Inuyasha estava calmo atrás de mim. Calmo demais. Virei-me lentamente, tremendo, sentindo as gotas de suor descendo pelo meu rosto pálido. Não era o meu namorado que estava atrás de mim, sorrindo e com grandes orbes prateadas — como os olhos da estátua — fixas nos meus olhos. Ele estava chorando tanto quanto eu. Desci meu olhar, vagarosamente. O corpo de Miroku estava sem vida, abandonado como lixo. Já devia estar morto antes de nos perseguir.

- Você perdeu de novo, Kagome. — Inuyasha disse entre risos e lágrimas, num tom de voz que nunca fora seu. — Vamos iniciar o jogo novamente!

Fui empurrada para dentro do rio e presa por braços invisíveis. No meu desespero, a verdade veio à minha mente. Eu já havia passado por aquilo muitas vezes. Eu estava numa jaula de memórias. Quantas vezes repeti esse momento? Não lembro. Mas eu não podia perder de novo, eu não vou passar por esse inferno de novo, eu preciso me lembrar, eu preciso me avisar! Tenho que tirar todos da floresta, tenho que ficar longe daquela maldita estátua, não posso ver aqueles malditos olhos prateados mais uma vez! Por favor, Kagome, lembre-se! Não esqueça!

- Não refaça! – Gritei, para mim mesma, ao me afogar e ver meu próprio corpo, na minha frente, em repouso dentro da van.

- Kagome! Acorde! — A voz agitada de Sango interrompeu meu sonho. Após movimentar minhas pálpebras e fixar meus olhos em seu rosto preocupado, esqueci completamente o que eu havia sonhado.

Mas parecia ser algo importante...

“Repeti o mesmo dia tantas vezes que esqueci o que era tempo.

Minha mente ficou tão destruída que eu esqueci meu próprio eu.

Ouço na minha mente uma voz fantasmagórica que eu nunca ouvi.

Encaro meus amigos cujas vidas já devem ter sido retiradas há anos, mas ainda tenho esperança de que posso salvá-los.

Esforcei-me, mas ainda não descobri uma forma de escapar dessa tortura.

Os sussurros das árvores nada me dizem, nem das outras pessoas que passaram por isso antes de mim.

Os olhos prateados nos quais já encarei tantas vezes parecem cada vez mais escuros, e torço para que eles se cansem de mim.

Mas ao mesmo tempo, não quero que outra pessoa torne-se vítima desta brincadeira cruel.”

- O mais novo entre todos os pedaços de papel, encontrado ao lado do rosto agonizante feminino de uma estátua de olhos brilhantes. -

Kagome Kagome kago no naka no tori wa

Kagome, Kagome, o pássaro em uma gaiola

Itsuitsu de yaru yoake no ban ni

Quando você vai se libertar? Na noite da madrugada

Tsuru to kame to subetta

O grou e a tartaruga escorregaram e caíram.

Ushiro no shoumen daare

Quem está atrás de você agora?

Notas finais
Talvez eu tenha pulado muitos espaços... mas enfim, eu estava meio viciado no enter e no
quando escrevi esta oneshot.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!