Brida

11 O percurso


No meio da tarde chegaram perto de umas montanhas que ficavam a uns 30 quilômetros ao sul de Dublin. “Podíamos ter feito o mesmo percurso de ônibus”, reclamou Brida mentalmente, enquanto pagava o táxi. Wicca trouxera consigo uma sacola com algumas roupas.

— Se quiserem eu espero – disse o motorista. – Vai ser meio difícil encontrar outro táxi aqui. Estamos no meio da estrada.

— Não se preocupe – respondeu Wicca, para alívio de Brida. – Sempre conseguimos o que queremos.

O motorista olhou as duas com um ar esquisito e arrancou com o carro. Estavam diante de um bosque de eucaliptos, que chegava até a base da montanha mais próxima.

— Peça licença para entrar – disse Wicca. – Os espíritos da floresta gostam de gentilezas.

Brida pediu licença. O bosque, que antes era apenas um bosque comum, pareceu ganhar vida.

— Mantenha-se sempre na ponte entre o visível e o invisível – falou Wicca, enquanto andavam pelo meio dos eucaliptos. – Tudo no Universo tem vida, procure estar sempre em contato com esta Vida. Ela entende sua linguagem. E o mundo começa a ganhar uma importância diferente para você.

Brida estava surpresa com a agilidade da mulher. Os pés dela pareciam levitar no chão, sem quase fazer barulho.

Chegaram a uma clareira, perto de uma enorme pedra. Enquanto procurava saber como aquela pedra havia aparecido ali, Brida notou restos de uma fogueira bem no centro do espaço aberto.

O lugar era lindo. Ainda faltava muito para o entardecer, e o sol mostrava o colorido típico das tardes de verão. Pássaros cantavam, uma brisa leve passeava pelas folhas das árvores. Estavam em uma elevação, e ela podia ver o horizonte lá embaixo.

Wicca tirou de dentro da sacola uma espécie de túnica árabe, que vestiu por cima de sua roupa. Depois levou a sacola para perto das árvores, de modo que não pudesse ser vista da clareira.

— Sente-se – disse ela.

Wicca estava diferente. Brida não sabia explicar se era a roupa, ou o profundo respeito que o lugar inspirava.

— Antes de qualquer coisa, preciso explicar o que vou fazer. Vou descobrir como o Dom se manifesta em você. Só poderei lhe ensinar algo se souber alguma coisa a respeito do seu Dom.

Wicca pediu que Brida procurasse relaxar, que se entregasse à beleza do local, da mesma maneira como havia se deixado dominar pelo tarot.

— Em algum momento de suas vidas passadas, você já esteve no caminho da magia. Sei disso pelas visões do tarot que você me descreveu.

Brida fechou os olhos, mas Wicca pediu que ela tornasse a abri-los.

— Os lugares mágicos são sempre lindos, e merecem ser contemplados. São cachoeiras, montanhas, florestas, onde os espíritos da Terra costumam brincar, sorrir, e conversar com os homens. Você está num lugar sagrado, e ele está lhe mostrando os passarinhos e o vento. Agradeça a Deus por isto; pelos passarinhos, pelo vento, e pelos espíritos que povoam este lugar. Mantenha sempre a ponte entre o visível e o invisível.

A voz de Wicca fazia com que ela relaxasse cada dez mais. Havia um respeito quase religioso pelo momento.

— Outro dia lhe falei de um dos maiores segredos da magia: a Outra Parte. Toda a vida do homem sobre a face da Terra se resume a isto – buscar a sua Outra Parte. Não importa se ele finge correr atrás da sabedoria, do dinheiro, ou do poder. Qualquer coisa que ele consiga vai estar incompleta se, ao mesmo tempo, ele não conseguir encontrar sua Outra Parte.

“Com exceção de algumas poucas criaturas que descendem dos anjos – e que precisam da solidão para o seu encontro com Deus – o resto da humanidade só conseguirá a União com Deus se, em algum momento, em algum instante de sua vida, conseguiu comungar com a sua Outra Parte.”

Brida notou uma estranha energia no ar. Por alguns momentos seus olhos se encheram de água, sem que pudesse explicar o porquê.

— Na Noite dos Tempos, quando fomos separados, uma das partes ficou encarregada de manter o conhecimento: o homem. Ele passou a compreender a agricultura, a natureza, e os movimentos dos astros no céu. O conhecimento sempre foi o poder que manteve o Universo no seu lugar, e as estrelas girando em suas órbitas. Esta foi a glória do homem: manter o conhecimento. E isto fez com que a raça inteira sobrevivesse.

“A nós, as mulheres, foi entregue algo muito mais sutil, muito mais frágil, mas sem o qual todo o conhecimento não faz qualquer sentido: a transformação. Os homens deixavam o solo fértil, nós semeávamos, e este solo se transformava em árvores e plantas.

“O solo precisa da semente, e a semente precisa do solo. Um só tem sentido com o outro. O mesmo se passa com os seres humanos. Quando o conhecimento masculino se une com a transformação feminina, está criada a grande união mágica, que se chama Sabedoria.

“Sabedoria é conhecer e transformar.”

Brida começou a sentir um vento mais forte, e percebeu que a voz de Wicca estava fazendo com que ela entrasse de novo em transe. Os espíritos da floresta pareciam vivos e atentos.

— Deite-se – disse Wicca.

Brida reclinou-se para trás, e estendeu as pernas. Em cima dela brilhava um profundo céu azul, sem nuvens.

— Vá em busca do seu Dom. Não posso ir com você hoje, mas vá sem medo. Quanto mais você entender de si mesma, mais entenderá do mundo.

E mais próxima estará da sua Outra Parte.

Wicca abaixou-se e olhou a menina a sua frente. “Igual a quem fui um dia”, pensou com carinho. “Em busca de um sentido para tudo, e capaz de olhar o mundo como as mulheres antigas, que eram fortes e confiantes, e não se incomodavam de reinar em suas comunidades.”

Naquela época, entretanto, Deus era mulher. Wicca debruçou-se sobre o corpo de Brida e desafivelou o seu cinto. Depois abaixou um pouco o zíper da calça jeans. Os músculos de Brida ficaram tensos.

— Não se preocupe – disse Wicca, com carinho.

Levantou um pouco a camiseta da menina, de modo que seu umbigo ficasse exposto. Então, tirou do bolso de seu manto um cristal de quartzo, e o colocou sobre o umbigo.

— Quero que você feche os olhos agora – disse com suavidade. – Quero que você imagine a mesma cor do céu, só que de olhos fechados.

Retirou do manto uma pequena ametista, e colocou entre os olhos fechados de Brida.

— Vá seguindo exatamente aquilo que eu lhe disser a partir de agora. Não se preocupe com mais nada.

“Você está no meio do Universo. Pode ver as estrelas a sua volta, e alguns planetas mais brilhantes. Sinta esta paisagem como algo que a envolve completamente, e não como uma tela. Sinta prazer ao contemplar este Universo; nada mais pode preocupá-la. Você está concentrada apenas no seu prazer. Sem culpa.”

Brida viu o Universo estrelado e percebeu que era capaz de entrar Nele, ao mesmo tempo em que escutava a voz de Wicca. Esta pediu que ela visse, no meio do Universo, uma gigantesca catedral. Brida viu uma catedral gótica, com pedras escuras, e que parecia fazer parte do Universo a sua volta – por mais absurdo que aquilo pudesse parecer.

“Caminhe até a catedral. Suba as escadas. Entre.”

Brida fez o que Wicca mandava. Subiu as escadas da catedral, sentindo os pés descalços pisando na laje fria. Em determinado momento teve a impressão de estar acompanhada, e a voz de Wicca parecia sair de uma pessoa atrás

dela. “Estou imaginando coisas”, pensou Brida, e de repente lembrou-se de que era preciso acreditar na ponte entre o visível e o invisível. Não podia ter medo de se decepcionar, nem de fracassar.

Brida estava agora diante da porta da catedral. Era uma porta gigantesca, trabalhada em metal, com desenhos das vidas de santos. Completamente distinta daquela que vira na sua viagem pelo tarot.

“Abra a porta. Entre.”

Brida sentiu o metal frio em suas mãos. A porta abriu sem qualquer esforço, apesar do tamanho. Entrou numa imensa igreja.

— Repare em tudo que você está vendo – disse Wicca. Ela notou que, apesar de estar escuro lá fora, muita luz entrava pelos imensos vitrais da catedral. Podia distinguir os bancos, os altares laterais, as colunas adornadas, e algumas velas acesas. Tudo, entretanto, parecia um pouco abandonado; os bancos estavam cobertos de poeira.

“Caminhe para o seu lado esquerdo. Em algum lugar você vai encontrar outra porta. Só que, desta vez, muito pequena.”

Brida caminhou pela catedral. Os seus pés descalços pisavam na poeira do chão, provocando uma sensação desagradável. Em algum lugar, uma voz amiga a guiava. Sabia que era Wicca, mas sabia também que não tinha mais controle sobre a sua imaginação. Estava consciente e, no entanto, não conseguia desobedecer ao que ela estava lhe pedindo.

Encontrou a porta.

“Entre. Existe uma escada de caracol, que desce.”

Brida teve que abaixar-se para entrar. A escada de caracol tinha archotes presos na parede, iluminando os degraus. O chão estava limpo; alguém estivera ali antes, para acender os archotes.

“Você está indo ao encontro de suas vidas passadas. No porão desta catedral existe uma biblioteca. Vamos até lá. Eu estou esperando no final da escada de caracol.”

Brida desceu por um tempo que não soube determinar. A descida a deixou um pouco tonta. Assim que chegou lá embaixo, encontrou Wicca, com seu manto. Agora ficava mais fácil, estava mais protegida. Ela estava dentro do seu transe.

Wicca abriu uma outra porta, que estava no final da escada.

“Agora vou deixar você sozinha aqui. Ficarei do lado de fora, esperando. Escolha um livro, e ele lhe mostrará o que precisa saber.”

Brida nem percebeu que Wicca ficava para trás; contemplava os volumes empoeirados. “Tenho que vir mais aqui, deixar isto limpo.” O passado estava sujo e abandonado, e ela sentia muita pena de não haver lido todos aqueles livros antes. Talvez conseguisse trazer de volta para a sua vida algumas lições importantes que já havia esquecido.

Olhou os volumes na estante. “Como já vivi”, pensou. Devia ser muito antiga; precisava ser mais sábia. Gostaria de ler tudo de novo, mas não tinha muito tempo, e precisava confiar na sua intuição. Podia voltar quando quisesse, agora que havia aprendido o caminho.

Ficou algum tempo sem saber que decisão tomar. De repente, sem pensar muito, escolheu um volume e puxou. Não era um volume muito grosso, e Brida sentou-se no chão da sala.

Colocou o livro no colo, mas tinha medo. Tinha medo de abrir, e não acontecer nada. Tinha medo de não conseguir ler o que estava escrito.

“Preciso correr riscos. Preciso não ter medo da derrota”, pensou, ao mesmo tempo em que abria o volume. De repente, ao olhar as páginas, sentiu-se mal. Estava de novo tonta.

“Vou desmaiar”, conseguiu refletir, antes que tudo escurecesse por completo.

Notas finais
é isso, vou atualizar mais vezes a fic pra terminar rápido, já tenho vários cap escritos aqui e atualizar cada vez mais rápido.