Brida
8 A Outra Parte
Notas iniciais
Durante uma semana, Brida dedicou meia hora por dia para espalhar seu baralho na mesa da sala. Costumava deitar-se às dez da noite e colocar o despertador para uma da madrugada. Levantava-se, fazia um rápido café, e sentava para contemplar as cartas, procurando entender sua linguagem oculta.
A primeira noite foi cheia de excitação. Brida estava convencida de que Wicca havia lhe passado alguma espécie de ritual secreto, e tentou colocar o baralho exatamente como ela o fizera.
Brida repetiu a mesma coisa na segunda noite. Wicca dissera que o baralho ia lhe contar sua própria história, e – a julgar pelos cursos que ela freqüentara – era uma história muito antiga, de mais de três mil anos de idade, quando os homens ainda estavam próximos da sabedoria original.
“Os desenhos parecem tão simples”, pensava. Uma mulher abrindo a boca de um leão, um carro puxado por dois animais misteriosos, um homem com uma mesa cheia de objetos a sua frente. Aprendera que aquele baralho era um livro – um livro onde a Sabedoria Divina anotou as principais mudanças do homem em sua viagem pela vida.
“Não pode ser tão simples assim”, pensava Brida, cada vez que espalhava as cartas sobre a mesa. Conhecia métodos complicados, sistemas elaborados, e aquelas cartas desordenadas começaram também a desordenar seu raciocínio. Na sexta noite atirou todas as cartas no chão, irritada. Por um momento pensou que aquele seu gesto tivesse qualquer inspiração mágica, mas os resultados foram igualmente nulos; apenas algumas intuições que ela não conseguia definir, e que sempre considerava como fruto de sua imaginação.
Ao mesmo tempo, a idéia da Outra Parte não lhe saía da cabeça um minuto sequer. No começo achou que estava voltando à sua adolescência, aos sonhos do príncipe encantado que cruzava montanhas e vales para buscar a dona de um sapatinho de cristal, ou para beijar uma mulher adormecida. “Os contos de fada sempre falam da Outra Parte”, brincava consigo mesma.
“Talvez porque não estejam contentes com a alegria.” Achou sua frase meio absurda, mas registrou no seu diário como algo criativo.
Depois de uma semana com a idéia da Outra Parte na cabeça, Brida começou a ser possuída por uma sensação aterradora: a possibilidade de escolher o homem errado.
Escolheu um restaurante que não era muito caro, pois ele sempre fazia questão de pagar as contas – apesar do salário como assistente de catedrático de Física na Universidade ser bem menor do que o dela como secretária. Ainda era verão, e sentaram-se numa das mesas que o restaurante colocava na calçada, à beira do rio.
— Quero saber quando os espíritos vão me deixar dormir com você de novo – disse Lorens, bem-humorado.
Brida olhou para ele com ternura. Pedira que ele ficasse quinze dias sem ir ao apartamento, e ele havia aceito, fazendo apenas reclamações suficientes para que ela entendesse o quanto a amava. Também ele, à sua maneira, procurava os mesmos mistérios do Universo; se algum dia lhe pedisse para ficar quinze dias longe, ela teria que aceitar.
Jantaram sem pressa e sem conversar muito, olhando as barcas que cruzavam o rio, e as pessoas que passeavam pela calçada. A garrafa de vinho branco que estava na mesa esvaziou-se e foi logo substituída por outra. Meia hora depois as duas cadeiras estavam juntas, e eles olhavam abraçados para o céu estrelado de verão.
— Repare este céu – disse Lorens, afagando os cabelos dela. – Estamos olhando um céu de milhares de anos atrás.
Ele dissera aquilo no dia em que se encontraram. Mas Brida não quis interromper – esta era a maneira dele compartilhar o seu mundo com ela.
— Muitas destas estrelas já se apagaram e, no entanto, suas luzes ainda estão percorrendo o Universo. Outras estrelas nasceram longe, e suas luzes ainda não chegaram até nós.
— Então ninguém sabe como é o céu verdadeiro? – Ela também fizera esta pergunta na primeira noite. Mas era bom repetir momentos tão gostosos.
— Não sabemos. Estudamos o que vemos, e nem sempre o que vemos é o que existe.
— Quero lhe perguntar uma coisa. De que matéria somos nós? De onde vieram esses átomos que formam o nosso corpo?
Lorens respondeu, olhando o céu antigo.
— Foram criados juntos com estas estrelas e este rio que você está vendo. No primeiro segundo do Universo.
— Então, depois deste primeiro momento de Criação, nada mais foi acrescentado?
— Nada mais. Tudo se moveu e se move. Tudo se transformou e continua se transformando. Mas toda a matéria do Universo é a mesma de bilhões de anos atrás. Sem que um átomo sequer tenha sido acrescentado.
Brida ficou olhando o movimento do rio, e o movimento das estrelas. Era fácil perceber o rio correndo sobre a Terra, mas era difícil notar as estrelas se movendo no céu. Entretanto, um e outro se moviam.
— Lorens – disse por fim, depois de um longo período em que os dois ficaram em silêncio vendo um barco passar. – Deixa eu te fazer uma pergunta que pode parecer absurda: é fisicamente possível que os átomos que compõem o meu corpo tenham estado no corpo de alguém que viveu antes de mim?
Lorens olhou para ela espantado.
— O que você está querendo saber?
— Só isto que lhe perguntei. É possível?
— Podem estar nas plantas, nos insetos, podem ter virado moléculas de hélio e estarem a milhões de quilômetros da Terra.
— Mas é possível que os átomos do corpo de alguém que já morreu estejam no meu corpo e no corpo de uma outra pessoa?
Ele ficou quieto por algum tempo.
— Sim, é possível – respondeu finalmente.
Uma música distante começou a tocar. Vinha de uma barcaça que cruzava o rio e, mesmo a distância, Brida podia distinguir a silhueta de um marinheiro emoldurada pela janela acesa. Era uma música que lhe lembrava a sua adolescência, e trazia de volta os bailes na escola, o cheiro do seu quarto, a cor da fita que costumava usar no rabo-de-cavalo. Brida percebeu que Lorens jamais havia pensado no que ela acabara de perguntar, e talvez neste momento estivesse procurando saber se em seu corpo estavam átomos de guerreiros vikings, de explosões vulcânicas, de animais pré-históricos e misteriosamente desaparecidos.
Mas ela pensava em outra coisa. Tudo que queria saber era se o homem que a abraçava com tanto carinho havia sido, um dia, parte dela mesma.
A barca foi chegando perto e sua música começou a encher todo o ambiente em redor. Em outras mesas interrompeu-se também a conversa para descobrir de onde vinha aquele som, porque todos tiveram algum dia uma adolescência, bailes na escola, e sonhos com contos de guerreiros e fadas.
— Eu amo você, Lorens.
E Brida torceu para que aquele rapaz que sabia tanta coisa sobre a luz das estrelas tivesse um pouco do alguém que ela fora um dia.
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