Brick by brick
1 A pessoa mais organizada do mundo, se esqueceu
Notas iniciais
Essa é minha primeira fic das três que postarei, ela é mais leve para ser lida, temos bastante diálogos, bastante brigas, mas prometo que haverá bastante romance também.
Espero que gostem.
― Eu não acredito que você está se fazendo de vítima Hermione!
― Você não grita comigo! Chego tarde do trabalho e é assim que você me recebe?!
Ronald estava com um terno preto e vociferava contra a esposa que tinha acabado de chegar em casa cansada depois de uma jornada dupla de trabalho.
― Você se esqueceu?!
― Me esqueci do que Ronald?!
― Ora, ora, logo você, Hermione...! A pessoa mais organizada do mundo, a que prega um milhão de post-its pela casa para não se esquecer de nada... Esqueceu! – Ron ria de desespero e raiva.
― Eu odeio, eu odeio... Quando começa um assunto e não fala o que é! – Hermione lhe meteu um soco no ombro brava pelas meias palavras do marido.
― Cheque seus post-its! – começou a sair da sala em direção a seu quarto. – No momento não consigo nem formular uma resposta pra você.
Hermione deixou que ele saísse bravo de perto de si, encaminhou-se para seu quadro de post-its: era o mês de março de 2020, dia 17. Deslizou o dedo até o recado na cor laranja berrante. Em letras garrafais estava escrito:
“FESTA DE INAUGURAÇÃO DA NOVA LOJA EM QUE RON SERÁ ADMINISTRADOR EM HOGSMEADE”
― Eu me odeio.
Amassou o papel e sentiu seu chão se abrir. Ele esperava por aquele dia por meses, havia se planejado para conseguir administrar a loja de lougros e brincadeiras em Hogsmeade, era seu sonho levar a loja para mais próximo dos estudantes de Hogwarts: tinha contratado funcionários, checado se tudo estava em ordem um milhão de vezes, comprou um terno novo, a fez prometer que não ia se atrasar para irem ao povoado naquele dia e ela... Ela havia esquecido.
― Você não foi? – encontrou ele sentando na cama com a cabeça cabisbaixa, ainda de terno.
― Fui sozinho. – ele havia lhe respondido, era um bom começo.
― E deu tudo certo? – sentou-se ao lado dele. Tentou segurar a mão do marido, mas ele tirou antes que Hermione tocasse.
― O que importa? – ele lhe encarou chateado. – Seu trabalho é muito mais importante que o meu.
― Estou tentando conversar com você. É impossível me dar respostas diretas!? – já havia perdido a paciência novamente com ele.
― É impossível você tirar a cara do seu trabalho e prestar atenção nos outros?
― Se quer saber? Mesmo que eu tivesse lembrado do evento, não poderia ir, não poderia largar os protocolos pela metade hoje.
Ele se levantou, olhou para ela com a maior cara de desgosto que ela se lembrava em vida.
― Vê que é você que torna impossível nossa relação? – apontou o dedo no rosto da esposa.
― Hahahaha – riu sarcástica. – Esqueceu do seu ciúme doentio? Do seu frenesi de eu estar te traindo ficando mais tarde no ministério?
― Ainda não descartei essa possibilidade.
― Vê que é você que torna impossível nossa relação, Ronald Weasley?
Ron bufou, fechou os olhos e tentou se acalmar.
― Só assume... Assume uma vez na sua vida que VOCÊ errou.
Ela deu de ombros e cruzou os braços.
― Eu sempre assumo meus erros. – Ergueu a sobrancelha pra ele sem dar o braço a torcer.
Ron pegou um travesseiro e foi dormir no sofá da sala. Hermione ficou encarando a porta por onde ele havia passado, ponderando se devia ir atrás dele, lhe pedir desculpas, lhe beijar, pedir para que lhe contasse como foi sua noite, dizer que se sentia a pior pessoa do mundo, que faria qualquer coisa pra se redimir, mas não fez nada. Resolveu tomar um banho e dormir, o dia seguinte estava cheio de trabalhos para terminar e outros para começar. Não conseguiu parar de pensar nele na sala, chorou no banho, sentiu falta dele ao seu lado na cama, dormiu em exaustão agarrada num travesseiro.
Na sala Ron ligou a televisão e percebeu que em todos os canais trouxas noticiavam o mesmo assunto. Um vírus novo, altamente contagioso estava se propagando rápido demais. Algumas pessoas já haviam até pegado na Inglaterra, as escolas fechariam no dia seguinte, ninguém poderia sair de casa sem segunda ordem. Quarentena era o nome.
Abriu a boca pronto para perguntar a Hermione se ela tinha visto essa notícia, se ela sabia o que significava quarentena e se um vírus trouxa poderia afetar os bruxos. Mas se lembrou da briga e seu orgulho ferido foi maior para que não chamasse a esposa. Começou a prestar atenção nas explicações, nos sintomas do vírus, nos perigos, e que tudo era uma pandemia.
Pandemia, o que significava pandemia? Pensou consigo, mais uma vez a vontade de chamar a Hermione lhe corroeu, porém a ignorou e continuou assistindo. De madrugada dormiu com a TV ligada.
Acordou antes de Hermione, achou estranho, ela, teimosa como era, estava o evitando, preparou um café para si, ponderou se faria um pra ela, forte e sem açúcar do jeito que ela preferia, descartou a possibilidade. A TV ainda noticiando o tal vírus, olhou seu relógio, já passava das nove, Hermione entrava no ministério as oito. Ou ela tinha saído de madrugada para não esbarrar com ele ou tinha aparatado do quarto. Resolveu parar de pensar nela.
Uma coruja bateu o bico na janela. Ron reconheceu como a coruja de George. Algo na loja o chamava. Deu comida a ave e água, abriu o pergaminho:
“Ron, não poderemos abrir as lojas, decreto do ministro da magia devido ao vírus trouxa que está circulando no ar, é super contagioso, várias pessoas do ministério da magia já pegaram. Nenhuma loja do Beco Diagonal poderá abrir, acredito que nem a de Hogsmeade, dispensei os funcionários o resto da semana. Para evitar aglomerações, estaremos atendendo somente por correio coruja. Estou indo para a loja para pensar nas propagandas que faremos para atender a distância. Te encontro lá. George”.
― Caramba, esse vírus é sério.
Resolveu se trocar para encontrar o irmão na loja, abriu a porta do quarto sem cerimônia, encontrou Hermione dormindo envolta de vários cobertores. Não ia falar nada, queria ignora-la, queria que ela perdesse a hora do trabalho e soubesse o que ele sentiu quando ela o abandonara no dia anterior. Mas não resistiu:
―Hermione. – a chamou enquanto procurava uma calça limpa e uma camiseta no guarda-roupa.
Ela não se mexeu e ele achou estranho, o sono dela sempre foi muito leve, reclamava dos roncos dele todos os dias. Suspirou cansado, engoliu seu orgulho, sentou-se ao lado da esposa e tocou em seu rosto.
― Hermione, você está ardendo em febre! – ela então se mexeu, gemeu de dor e sentou-se na cama.
― Resolveu dormir na cama? – a voz dela saiu rouca. – Nossa minha garganta está doendo.
― Acho que pegou uma gripe, melhor não ir trabalhar hoje.
Segurou sua varinha e apontou para a testa da esposa.
― Temperatura revelius.
Os números pairavam no ar. 38 graus Celsius.
― Vou pegar uma poção para você.
― Que horas são? – perguntou a ele enquanto Ron se encaminhava para a prateleira de primeiros socorros no quarto.
― Quase nove e meia.
― O que?! Me atrasei! Não posso faltar ao trabalho hoje! – tentou se levantar, mas seu corpo estava todo dolorido e sentiu tontura.
Ron a observou de canto de olho, ainda estava chateado com ela e muito, mas não poderia deixar de se preocupar com o estado da mulher. Lhe entregou a poção para baixar a febre. Hermione tomou sem contradizer.
― George me mandou uma carta dizendo que a loja não vai abrir hoje, vamos nos reunir para ver o que vamos fazer.
― Inaugurou a loja ontem e já não vai abrir hoje? – tentava falar brava com ele, mas sua cabeça doía, deitou-se novamente na cama.
― É uma crise mundial, Hermione...
― Já sei, você me fez perder a hora e fingiu que não precisa abrir a loja hoje para conversarmos, não precisa desse teatro todo Ronald. – sua voz estava abafada devido ao travesseiro que colocou em sua cabeça para ver se a dor acabava.
― Acha mesmo que eu teria capacidade imaginativa para tanto?
Pensou se não era uma oportunidade para fazer as pazes com ela, sua raiva estava passando. Foi quando reparou ao lado.
― Você deixou o bichento dormir do meu lado da cama?! – Apontou para o amasso.
Bichento, o gato amasso dela da época de Hogwarts, havia morrido, mas Rose ganhara um novo felino de Hagrid quando entrou na escola, e para desespero de Ron o felino o odiava e amava Hermione. Parecia até reencarnação do outro bicho.
― Você me deixou sozinha e foi dormir na sala. Não fique bravo com ele. – Hermione sentou-se e segurou o animal em mãos, ficou acariciando os pelos dele.
― Ele está fedendo, Hermione! Fedendo!
Bichento rosnou para ele, Hermione colocou o nariz nos pelos do gato.
― Está mais cheiroso do que você.
Na certa não está sentindo o cheiro insuportável do gato, ou...
Ia retrucar, mas começou a pensar:
― Febre... Dor de garganta... Anosmia...
― Anosmia? – Hermione perguntou a si mesma – Perda do olfato? Eu nem sabia que você conhecia essa palavra.
Ron pegou um controle da TV do quarto e ligou, o telejornal da manhã noticiava os novos casos confirmados e quantas pessoas haviam morrido no mundo.
“...lembrem-se de ficarem atentos aos sintomas, febre, dor de garganta, falta de olfato ou paladar...”
― Hermione, você pegou a doença!
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