Breve Histórias de Morte

2 Linha 1 - Karl Label


– Oh, Morte/Oh, Morte/Você não vai me poupar por mais um ano/Bem, o que é isso que eu não posso ver/com mãos geladas tomando conta de mim?/Quando Deus se foi e o Diabo toma conta/quem terá misericórdia da sua alma?/Oh Morte, por favor, veja a minha idade/por favor, não me leve nesta fase/Oh, Morte/Oh, Morte/Você não vai me poupar por mais um ano...

– Que merda você está cantando?

– Uma musiquinha sobre a morte. Achei que seria conveniente uma vez que estou à beira dela.

Karl estava exagerando. Tudo bem, após ser mordido por aquela coisa ele começara a passar mal além de todo o pessoal da cidade vizinha estar agindo estranho. Tínhamos saído da fazendo do meu avô para ir comprar decorações pro aniversário de Emily, minha irmãzinha, porém ouvimos muitos boatos de confusões no centro e pessoas agressivas pela cidade.

Tentamos ser rápidos, porém quando íamos em direção ao carro, um velho maluco pulou em cima de Karl e... Mordeu ele.

Peguei um pedaço de madeira e bati na cabeça do velho. A ferida no antebraço de Karl era feia. Ele não viu, mas o rosto do velho estava completamente desfigurado – não pelo golpe que dei – com a pele pálida, lábios secos e rachados. Achei que estava bêbado, mas algo em seus olhos revirados e modo como atacou aquele cabeça-oca me chamou atenção.

– É sério, Lara. Tá ardendo muito, e coçando.

– Me deixe dar uma olhada.

Diminui a velocidade da van do irmão de Karl, que o esperava na fazenda junto dos outros que iriam participar e colaborar com a festa. A ferida era feia, já havia estancado o sangramento, mais ainda assim corria o risco de voltar a sangrar e sofrer uma hemorragia. Se Chris, irmão de Karl, o visse naquele estado...

Ele era meio pavio-curto, sabe? Eu não gostava muito dele, mas quanto a Karl...

Nos conhecíamos desde o ensino médio, e continuamos a nos falar após entrar na universidade. Nós sempre tivemos esse... Não sei, esse... Nós nos gostávamos, é verdade. Eu sempre o admirei: ele sempre dava uma de intelectual geek/hipster com seus óculos na moda e cabelo bagunçado, mas na verdade era bem humilde e engraçado – às vezes. Eu tentava seguir o padrão intelectual dele no secundário, mas vendo que não dava certo, decidi após a formatura mostrar minha verdadeira eu, com minhas roupas fora de moda e personalidade desengonçada.

O ano que se propagou após isso nos aproximou muito, meus pais até já o consideravam da família. Ele começou a falar mais comigo quando mostrei como era, olha só. Se ele soubesse que fiz tudo aquilo só para lhe impressionar...

– Sério mesmo Larissa, para o carro, acho que vou vomitar.

Opa! Sinal vermelho! Se ele não me chamou pelo apelido como sempre é porque temos um problema grave.

Estacionei o carro no encostamento da estrada até a zona rural e descemos do carro fora da rua, onde ele se inclinou para frente e começou a tossir.

– Desculpa, alarme falso.

– Ainda bem, porque não queria ver o que você tomou no café da manhã.

– Ovos, pão, café e salada.

– Salada?

– Fui forçado pelos meus pais.

Sorri, mas logo me envergonhei quando nossos olhares se demoraram um pouco demais. Ele olhou para o horizonte, na direção da fazenda.

– Será que aguento?

– Claro que sim. Melinda, nossa empregada, deve ter algum remédio caseiro, ela é uma mestra.

– Melinda parece nome de vaca.

–Sério? Bem, é mesmo. Vamos, então?

– Com você, com certeza.

Quase tropecei quando o ouvi dizer isso. Era uma cantada? Parecia uma cantada. Karl vinha agindo dessa forma, me deixando meio constrangida às vezes. Se eu gostava? Bem, não era o habitual dele. E se fosse sua vontade, porque agora? Porque só nas últimas semanas após esses tantos últimos anos? Não, fazia mais sentido meu amor ser platônico mesmo.

Sorri de lado e entrei no carro com ele logo depois. Girei a chave. Tchuc-tchuc-tchuc. Não ligou. Tchuc-tchuc-tchuc. Outra vez.

– Ei, olha – disse ele apontando para o medidor de gasolina, que estava com a luz que significava “ei cara! Você não me abasteceu de certo líquido necessário para eu funcionar e agora não posso ligar! Valeu, falou!” ligada.

– Droga, e agora? Você está ferido e não posso te deixar assim.

– Eu vou com você.

– O que? Não, você não está em condições...

– Qualé, Lara...

Ele me olhou com aqueles olhos castanho-claros tão lindos, quase me aproximei para beija-lo, mas me retive, só para depois perceber que ele se aproximava de mim.

– O-o que...

Ele parou.

– Hã? Eu só... Bem, eu...

MERDA!! SUA IDIOTA!!! ELE IA TE BEIJAR E VOCÊ ESTRAGOU TUDO! SUA VACA DESCARADA!! Eu senti vontade de me dar um tiro, mas...

Desisti. Desisti da vergonha, desisti dessa vida, desisti da dúvida do que sentia. Afoguei qualquer resistência da parte consciente da minha mente, peguei seu rosto e puxei para meus lábios.

Ele aceitou bem. Logo estávamos nos beijando como dois desesperados um pelo outro, como se precisássemos nos tornar um só através de tal ato. Não sei onde aprendi a beijar daquele jeito. Nas novelas, filmes? Não, nunca beijara alguém na vida, percebi que era mais ele que me beijava do que eu o fazia, então tentei me empenhar mais.

Não sei o que tinha em mim, aquela não era Larissa e sim uma eu minha que nunca experimentara, que lutava para se libertar após tanto tempo reprimida e que finalmente alcançara seu objetivo. E sinceramente, gostei dessa Larissa.

Seu rosto foi lentamente se desviando para meu pescoço. Era impressão minha ou ele parara de respirar por um segundo?

Meu corpo estava quente de excitação. Pensamentos. rápidos. demais. para. destinguir. Ai. Meu. Deus.

Sua mão seu arrastou da minha barriga para meu peito.

Não. Não era bem isso que queria. Ou era? Sim. E não. Não me importei. Deixei-o toca-lo. Era bom. Era quente. Estava ficando mais submerso na sua mão em mim, me massageando, e sua boça beijando o meu...

– AAAAAAAAAAAAAHHHH!!

A dor. O sangue escorrendo. Ele... Me mordeu?! O que?!

Empurrei o homem com quem a pouco estava tendo o mais maravilhoso momento da minha vida e vi paralisada, com a mão no pescoço, seu rosto.

Pele pálida.

Lábios secos.

Olhos revirados.

Não era Karl.

Ele estava morto, percebi logo isso sem entender o porquê dele pular em cima de mim e tentar me morder outra vez. Abri a porta e caímos na rua. Nenhum carro passou. Não percebi na hora que todos deveriam estar na cidade flamejante cheia de helicópteros ao horizonte.

Tentei o empurrar outra vez, mas ele era forte. O que havia dado nele? No que havia se tornado. Lhe dei um chute no saco. Sequer reagiu.

Rraaaawwwnngh!! – gritou após eu conseguir lhe empurrar.

Me levantei o mais rápido que pude e correi na direção da estrada. Cidade em chamas. Floresta nos lados. Ele era mais rápido do que eu. Me pegou.

Um disparo.

Me virei.

Karl jogado no chão, garganta sangrando. Não voltou a se mexer.

Caí de joelhos. Morto. Ele estava...

Olhei para quem havia disparado: um policial que usava um boné azul se aproximou de mim.

– Está tudo bem garota, sou o oficial Craig, Kevin Craig.

“Está tudo bem”?! Quem é ele para dizer isso? Karl... Ah, não...

– O-o que está acontecendo? Porque... Ai meu Deus...

– Se acalme, está acontecendo com todo mundo. Perdemos a cidade em questão de minutos. Foi... Um desastre.

A cidade toda? E quanto a...

– Minha família! Está numa fazenda próximo daqui. Será que eles estão bem?

– Não sei lhe dizer. Posso lhe levar até lá e...

Ele parou de falar quando o que um dia fora Karl o pegou por trás e arrancou um pedaço do seu ombro com os dentes. O policial gritou com todas as suas forças e tentou sacar a arma, mas a largou ao desmaiar. Karl aproveitou e começou a mastigar vorazmente o pedaço de carne que arrancara do ombro do policial, era uma coisa horrível de se ver.

Peguei o revólver de Kevin, apontei para aquela coisa.

– Karl – tentei dizer com as lágrimas atrapalhando a visão – para com isso.

Ele me respondeu com um grunhido. Levantou-se. Correu em minha direção. Disparei.

Notas finais
*A cantiga cantada por Karl é uma bem conhecida nos Estados Unidos, chamada de "O' Death". Recentemente foi feito um cover da versão original para o jogo Until Dawn. Dá uma pesquisada :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.