Breve Ensaio Sobre Ela
1 "E se demorar, i'll wait for you..."
BREVE ENSAIO SOBRE ELA
Gostava do jeito como aqueles grandes olhos negros me encaravam no escuro do quarto, como se procurasse algo dentro de mim, algo que valesse a pena. Em seguida, demostrou que achava em cada beijo que depositava na pele que clamava por mais, mais dela, daquilo, de nós.
Não sei qual dose do romantismo é correta para um momento tão inusitado como aquele. Era barulho, mas ao mesmo tempo não era nada além de uma pele em contato intenso com a outra. Seus dedos desceram pela minha espinha como forma de tortura, enquanto lábios esticavam o lóbulo de minha orelha de maneira adocicada, assim como seu cheiro, seu hálito. De vez em quando, envolvia-me o rosto com suas mãos, fazendo um carinho bom demais para querer interromper. Eu só desejava parar quando sentia o rosto esquentar com aquele olhar sobre mim, ela me queria, era tão claro quanto o dia.
Luz que mostrava apenas metade de seu rosto, mas eu conseguia ver mais por saber daquela beleza de cor. Conseguia ver os anéis que seus cabelos negros formavam, caindo em cascata por perto dos ombros, alguns fugiam do resto e faziam sombra por cima de sua clavícula que saltava junto a respiração pesada que conduzia seu corpo. Corpo que se movia de maneira arrastada, aquecendo minha cintura e costas, marcando território com garras afiadas. Por muitas vezes tentei manter a mente sã, porém a cada risada que saia daquele ser, por conta das cócegas que meu hálito ocasionava em sua nuca, me fazia titubear. Meus ossos tremiam, mas a pele não. A vontade de tocá-la era tão viva quando a de respirar o seu ar.
Eram momentos como aqueles que eu esquecia de toda miséria, ambição e provisão de tragédias que assolavam os arredores da nossa presença. A pouca luz que entrava de algumas falhas de ambiente era tudo o que eu precisava para apreciar sua beleza, sua riqueza, sua maestria e o poder que eu fatidicamente tentava disfarçar os modos em mim. O tecido roçou sutilmente por seus braços, revelando outras partes dela e consequentemente, minhas. Era admirável a confiança que pairava sobre ela, por outro lado o rubor não abandonava meu rosto. Mesmo com os artifícios que nos tornavam meros vultos no mesmo campo de visão, ela conseguia perceber e exibiu seu sorriso condescendente, me mostrando como eu poderia esquecer qualquer vergonha que ousasse aparecer.
Tudo parecia congelar, durante alguns minutos. Estava frio e chovia forte lá fora, era audível toda a tempestade que se formava, mas nada parecia acontecer, ao mesmo tempo, isso me enchia a mente de confusão e o coração de desejo. Os toques cada vez ficavam mais fundos e intensos, capazes de chegarem perto da alma, sua voz era a canção mais bonita que eu poderia ouvir.
Se tornou algo diferente quando ela anunciou que ia embora.
Percebi que o inverno havia chegado quando olhei o frio em seus olhos. Sua boca se movia vagarosamente, procurava palavras e explicações para o meu sorriso que se foi quando percebi que as malas estavam feitas juntas a porta. Eu não ousei perguntar, apenas segurei a xícara de café que estava ali, fria como o clima que pairava entre nós, bem diferente de situações anteriores. Não perguntei sobre sua decisão, apenas a olhei, disposta a me certificar de seus traços. Olhos pretos, cabelo igual, anéis como o de saturno, boca vermelha que agora tremia, ou quase isso. Pele morena como um verão, mas agora era inverno, porque o inverno chegava e acabava com tudo. Corpo simétrico que se moveria até a porta e levaria o calor do seu olhar embora.
As coisas aconteciam de maneira lenta, como se cada momento tivesse suma importância para o universo e para as coisas que dali aconteceriam. Teoria do caos, não sei se o sofrimento por sua partida poderia ser apenas meu, essas coisas acometem tudo e todo mundo, de certa forma. O mundo sem ela giraria da mesma forma e os mesmos erros seriam cometidos, mas tinha algo, faltava a graça que era algo único de sua presença.
Perder alguém é difícil justamente pela singularidade de tudo. Seu cabelo preto poderia ser associado ao mesmo que enfeita muitas cabeças, mas não era nem um pouco parecido. Aquele cabelo era dela, apenas dela, por mais comum que possa parecer ninguém tem aquele tom, aquela forma e aquele cheiro. Os olhos dela são dela e se eu não pudesse olhar novamente algo tão intimidador e bonito assim, com certeza minha vida seria bem menos qualquer coisa que poderia ser.
Era quem poderia deixar meu coração em chamas e só de viver isso, algo já valeu.
Passou um tempo e eu não podia lembrar de muito. Não foi por culpa minha, mas precisei de muita coisa para evitar pegar o telefone e discar seu número quando ouvia certas músicas. Eu esqueci de sua voz, do tom, da risada e do sorriso fácil, mas sabia que bastava algo tão simples como um cheiro ou algumas expressões carregadas de seu sotaque que era tão agradável.
Não apostava na sua volta, deixei com que a vida seguisse o seu rumo, mas nunca consegui apagar totalmente aquela esperança do coração, que era como uma faísca que crescia com qualquer estímulo. Quando batiam à porta, imaginava ser ela com algumas malas e um sorriso torto no rosto. Nos melhores sonhos, pedia desculpas e pedia para tomar um café, mas acho que sabia que precisava de bem menos disso para voltar. Mudei os móveis de lugar, joguei algumas roupas para o ar, deixei que meu cabelo crescesse e mudei minha playlist do celular, mas tais ações nunca permitiram com que eu a abandonasse totalmente. Uma vez eu ouvi que era impossível um só viver o amor de dois e me senti bem porque eu poderia ser importante por fazer algo considerado impossível.
Também nasciam dias que eu duvidava que tudo que aconteceu. Duvidei das conversas, das comidas que deram errado, dos filmes ruins e das tardes em que planejávamos o futuro. A explicação poderia estar no fato de que nada nunca existiu ou aconteceu, de certa forma, era até bem fácil de aceitar porque sobreviver para de fato viver aquilo era mais reconfortante que aceitar que tudo começou e acabou de uma maneira tão rápida e cortante.
Quando o sol apontava no horizonte e a lua tomava forma, eu refletia sobre tais hipóteses para justificar o fim daquele verão e quando a exaustão dominava a mente, eu simplesmente pensava sobre o dia de amanhã e em quais intervalos faria para fumar meu cigarro e tornar menos sufocante aquela rotina miserável.
E esse foi o início de uma qualquer não finalizada quase história de amor.
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