Break My Heart

19 Revelações


Continuação de Encruzilhadas. .....

Seria mentira dizer que as alucinações pararam há cerca de um mês. Continuei a ver aparições de Meyrin durante meu trabalho. Principalmente em momentos em que estava só. Quando estava no jardim, vi um gato de pelagem escura passar. Ele se enroscou em minhas pernas e logo me entreguei aos seus encantos. Acariciei-o, até o momento em que fui pegar a correspondência e entregá-la a Ciel. Depois disso ele me disse que iria a uma festa em três dias, e me pediu para que comprasse-lhe uma cartola nova.

Na cidade, fui à loja de chapéus. Vi os modelos na vitrine, empurrei a porta e um sino tocou no topo da porta. Me aproximei do balcão e lá estava o chapeleiro. Percebi um pouco de delírio em sua feição. Deveria ser o mercúrio da cola.

Havia uma moça no canto mais escuro da loja, olhando os chapéus mais largos.

Disse ao chapeleiro o que queria.

– Espere um momentinho, por favor. A milady chegou primeiro. — e sumiu nos fundos da loja.

Por algum motivo de vez em quando eu dava algumas espiadas. Percebia uns fios rubros escaparem da nuca alva. O chapéu que usava cobria metade de seu rosto, então não pude ver claramente seu rosto. Mas posso afirmar com plena certeza, que o formato delicado de seu maxilar me pareceu bastante familiar.

O chapeleiro voltou, e trouxe consigo um chapéu de abas largas. Entregou-o a ela, e a moça então virou-se para receber. Foi então nesse exato momento em que senti um calafrio percorrer minhas pernas. Perdi o sustento das pernas e precisei me apoiar no balcão. Então encontrei forças para falar.

– Meyrin... — mas veio engasgado e baixo. Tão baixo, que era digno de um sussurro.

Ela olhou para mim. Tomado pela mentira de meus olhos, caminhei até ela e toquei-lhe o ombro. Meyrin se transformou em uma jovem de cabelos de ouro e olhos esmeralda. Ela me olhou assustada, então pedi-lhe perdão.

– Perdoe-me. A confundi com outra pessoa.

Ela assentiu e saiu da loja. Não levou o chapéu.

Na rua, fui envolvido por rostos desconhecidos. Com a caixa da loja nas mãos, onde estava guardado o chapéu do jovem mestre, caminhei entres as pessoas; esgueirando-me entre elas.

Cheguei à praça. Puxei o relógio de bolso, e li as horas. Faltava apenas meia hora para o meio-dia. Tempo o suficiente para ir buscar os outros empregados no porto.

A bruma em Londres era como uma camada densa sobreposta na cidade. Tapava por completo os raios, dificultando a concepção das pessoas se era dia ou noite.

Uma semana atrás, Ciel permitiu que Finnian, Bard e Cassandra fossem à Paris; no intuito de comprarem-lhe roupas dignas de um conde. — motivo que só idiotas acreditariam ser importante. Foi tempo o suficiente para planejar uma invasão naquela organização secreta. Essa viajem foi apenas uma distração para ela.

Olhei para as água negras do porto, e pareciam agitadas. A fumaça erguida de algum ponto tornou-se espessa. Mas consegui ver a o casco preto e enferrujado do navio cortar a água e se aproximar do cais. Logo a forma corpulenta do navio surgiu em meio a neblina, como se descobrisse de um véu cinzento.

Logo as cordas foram arremessadas e presas aos postes pequenos por marinheiros, e a âncora fora jogada ao mar. Uma ponte de madeira foi posicionada do navio ao cais, e os passageiros começaram a descer. Depois de umas dez pessoas, consegui ver o chapéu de Finnian. Ele, quando me viu, veio correndo em direção ao meu pescoço. Mas acabou agarrando-me pelo meio.

– Sebaaaassttiiaaannn!!!! — disse ele — Senti tanto sua falta!

– Verdade? — o arranquei de minha cintura.

Bard veio ajudando Cassandra carregando suas malas. Ela não olhava para outro canto se não para o chão que pisava.

– Sebastian! Você nem acredita quem encontramos em Paris! — disse Finnian todo animado.

– Quem? Uma famosa atriz que você adora?

– Não. Mas não seria ruim se isso acontecesse...

– Pelo amor de Deus, Finny. — disse Bard. — Diga logo a ele.

Ergui a cabeça.

Cassandra veio até mim e aproximou os lábios de minha orelha. Sussurrou:

– Ela está muito mais bonita do que antes.

Agarrei seu braço, preocupado.

– Quem?

– Você não é idiota, que eu sei. Sabe muito bem de quem eu estou falando. — ela riu — acho que fiz besteira.

Algo dentro de mim se comprimiu.

– O que você fez?

– Ora, acho que a fiz chorar. Tadinha... a ex-empregada sente falta do antigo trabalho. Ou será que sente falta é de você? Humpf. Meyrin está muito bem. Parece que se casou, pois vi um homem buscá-la quando nos encontramos.

– Isso não quer dizer nada. — disse, recusando-me a acreditar em algo que parecia tão absurdo aos meus ouvidos.

– Hum... e a aliança em seu dedo? E o Beijo que deram em nossa frente? E a apresentação?

– Mentirosa. — Não pude me conter. Agarrei o pescoço de Cassandra, tentando enforcá-la.

– Ah, contei-lhe aquela coisinha que nós dois fizemos na cama. Ela não gostou, viu?

Agarrei com toda minha força, mas ela não demonstrava asfixia.

– Sebastian, largue-a! — Bard se jogou em cima de mim, mas de nada adiantou.

Depois foi Finnian. Mesmo com sua força sobre-humana, ele também não conseguiu.

Cassandra sorriu, e deu uma piscadela.

– Ora, você gosta dela, não é, Sr. Michaelis? O que foi? O ciúme, a preocupação e a angústia não lhe são suportáveis? Você a ama?

– Cale essa maldita boca! — rosnei.

– Solta ela, Sebastian. — agora era Finnian e Bard tentando me tirar de cima dela.

– Vem calar. Você sabe como se cala a boca de uma pessoa, não sabe? Com um beijo.

Eu a larguei finalmente. Cassandra não puxou o ar, como seria o normal. Ela me olhou divertido como se debochasse de minha tortura. Olhei para os outros dois, e eles devolveram o olhar com um espanto compreensível no rosto.

Quis me afastar dali o quanto antes. Fui para longe deles, e enquanto caminhava, meu pensamento não saía de Meyrin. Sei que Cassandra é inimiga e poderia estar mentindo. Mas por alguma irritante razão, isso me incomodou bastante. Por que será? Mesmo diante de tanta mentira, ela disse uma verdade? Será mesmo que eu... amo a Meyrin?

A única solução para achar um lugar reservado, foi escalar uma Catedral até a torre mais alta. E ali eu fiquei. Tomando chuva. Ela serviu para afastar um pouco o estresse. Uma gota escorreu da mecha de meu cabelo, e pingou no sapato. Um tempestade se aproximava. Ainda não podia voltar para a mansão. Não depois de escurecer e daquele mal entendido. Por que? Por que? O que está acontecendo comigo?

– Você simplesmente está passando por uma transição. — disse uma voz atrás de mim.

Olhei para lá e vi ao lado do enorme sino, Cassandra.

– Você nunca foi um demônio. Posso ver em seu interior que já foi um humano. E o mundo infelizmente te fez o que você é. Quando algo chamado sentimento invade um ser como você, Sebastian, este se modifica e se torna algo que é um tormento ao humanos. — retornei a olhá-la, e vi Meyrin. — Ilusões. Você vê aquilo pelo qual a essência anseia.

– Você é quem está fazendo isso comigo, não é?

– Eu não. Você mesmo se maltrata. Me desculpe. Eu só fiz aquilo para te testar e ter a certeza se você passava por essa situação. — Meyrin se aproximou de mim. — Por que está me evitando? Está vendo ela, não está?

Balancei a cabeça positivamente.

– Entendo... Eu já passei por algo assim há muito tempo. Eu gosto de você, Sebastian. Porque é mais humano do que um demônio. E você não faz ideia do que é ter a pessoa amada ao seu lado, e não poder tocá-la. Não me refiro a você, não. Eu amo outra pessoa. — ela riu como uma menina boba. Meyrin voltou a ser Cassandra. — Amor não é desejo carnal. É espiritual. Me diga uma coisa. Você sabe a definição do amor?

– Acredito que o amor não tem uma definição própria, por que não está relacionado a si mesmo. Mas ao outro. Rosa. Nasce feia, mas se o jardineiro se dedicar em cuidá-la com carinho, esta irá florescer. É cuidar então daquele que o coração ama.

Cassandra sorriu.

– Exatamente. Eu não desejo ter relações avançadas com essa pessoa. Apenas desejo cuidar dela. Humpf. Só aceitei esse trabalho porque teria a oportunidade de estar ao seu lado. Eu sinto o mesmo que uma mãe sente pelo seu filho.

– De quem você está falando?

Ela me olhou envergonhada.

– Eu fui o anjo da guarda de Ciel. Crei um laço muito especial com ele, mesmo sem ele poder me ver. Mas aí veio o acidente na mansão. O lugar de seu coração que antes era cheio de amor e inocência de uma criança, foi ocupado pelo ódio e o desejo de vingança. Então você tomou meu lugar, Sebastian. — uma lágrima escorreu de seu rosto. — Não consegui depois disso voltar a me unir a ele. Você me Tapava. Então veio Saitou. Ele me fez uma oferta irrecusável para alguém desesperado em estar junto do amado. Se eu fizesse tudo o que ele mandasse, teria Ciel de volta. Mas... agora vejo que isso é burrice. Ciel tem o seu próprio anjo da guarda. E não sou eu.

Caí sentado. Muitas revelações para alguém aguentar.

– Sebastian, deve se apressar. Meyrin está junto de meu patrão, Saitou. Deus sabe o que ele irá fazer a ela. E não duvido nada de que ele saiba sobre a sua invasão contra o Submundo.

Me levantei e disse cheio de determinação:

– Não se preocupe. Eu vou fazê-lo pagar por tudo o que fez, e ainda vou tirar Meyrin de seus braços.- Agarrei a mão de Cassandra e lhe disse: — E quero que você me ajude.