Notas iniciais
último capítulo

Nunca em minha existência pudera eu pensar em uma união como esta: um demônio e um anjo unindo forças para combater um mesmo inimigo. Tudo pode acontecer, e tudo se pode esperar.

Aqui vai os meus últimos relatos sobre o que aconteceu naquela noite que veio a causar-me medo. Pode acreditar com fervor de que nunca esquecerei a angústia, o pesar e a tristeza que senti amarguradamente naquelas ruas escuras.

Começou quando tentei convencer Ciel de que Cassandra não era aquela vilã quem pensávamos que era. Disse-lhe o ocorrido, que ela estava nos ajudando, que Saitou a manipulava; porém não revelei-lhe sua verdadeira identidade.

– O senhor não se preocupe, porque nós vamos acabar com isso. — disse Cassandra, enquanto me ajudava a retirar os pratos da mesa.

– Você é otimista demais.- digo.

– Ora, um homem que não tem fé é uma casca fazia. — disse ela — Se não acreditar que algo vai acontecer, ou mesmo se não achar que é capaz de fazer algo, é porque não vai se realizar. A mente pode ser sua melhor amiga e sua pior inimiga.

Cassandra se retirou, me deixando sozinho. Confesso de que aquela mulher, mesmo sabendo o que ela é, ainda possui segredos, pensamentos e ensinamentos misteriosos e ao mesmo tempo dotados de uma vasta sabedoria. E também é encantadora.

O dia da invasão chegou. Ciel e eu nos preparamos. Os empregados, Finnian e Bard, não poderiam saber. Dissemos que estaríamos fora à negócios. Uma carruagem veio buscar Ciel, levando-o para o quartel. Cassandra e eu fomos juntos. Ela trazia consigo um embrulho pardo, que eu fiquei muito curioso em saber o que era.

– É algo que preciso destruir. — transmitiu confiança em suas palavras.

E então lá fomos nós, sobrevoando a cidade de Londres. Cassandra deixou suas asas surgirem e me agarrei em suas costas. Os milhares pontos da luz pareciam se destacar diante de tanta negritude. A bruma estava mais densa do que nunca. As nuvens eram como paredes, impedindo-nos de ver nosso percurso. O vento fazia nossas vestes dançarem, e os cabelos voarem.

Chegou em fim o momento de pousar. Me posicionei obre as costas de Cassandra, tomando cuidado é claro para não machucá-la. Avistei a torre do relógio, e esperei paciente pelo momento certo. Estava muito próximo da ponta, então finalmente me joguei.

Enquanto meu corpo despencava no ar, sentindo seu peso esmagar meu peito, minha mente se esvaziava. Dei um giro, e agarrei uma haste de ferro que pertencia à torre. Ganhando velocidade, fui me esquivando das formas detalhadas daquela grandiosa estrutura de ferro e concreto. Escorreguei pelos enormes enfeites do Big Ben e cheguei a um dos quatro magníficos relógios que o compunham. Me equilibrei em um dos ponteiros, leve como uma pluma. Avistei no horizonte um exército de homens marchar em direção ao Big Ben. Ciel estava entre eles e também o Sr. Lionel. A marcha parou, e vi claramente meu mestre descer da carruagem. Ele tirou a cartola nova que lhe comprei, e ergueu a cabeça para cima.

– Sebastian! — gritou.

Nesse momento, Cassandra pousou ao meu lado. Penas negras flutuaram a minha frente.

– Estamos finalmente aqui. — disse ela — Vamos abrir logo esse troço?

– Vamos.

Cassandra pegou o seu embrulho e o rasgou. Tirou de lá de dentro a ampulheta que o Jovem Mestre ganhara de presente. Aquele cheiro enlouquecedor de Meyrin novamente veio a encher minhas narinas. Ao que tudo indicava, fora mesmo ela quem dera este presente a ele. Agora eu me perguntava a razão de Cassandra tê-lo trazido esta noite. Ela me olhou e disse:

– Você escolhe muito bem a pessoas... Meyrin é muito esperta.

– Por que diz isso?

– Paciência e você verá.

Ela virou a ampulheta inversamente e os grãos prateados escorreram de um cone para outro. Enquanto os brilhos se mexiam, Cassandra disse:

– " O tempo não esquece nem perdoa aqueles que julgam, mas sim aqueles que são julgados. O amor, por tantos machucados, permanece inconsolável até o momento em que seu causador o torna insuportável. E de repente, o peito não suporta mais o pesode um coração carregado de amarguras. E a coragem que antes tinha, torna-se o medo causado pelas desventuras. Ah, o tempo não esquece. Não esquece. E então, outrora, um recipiente vazio o coração se torna. Porém, este não é mais feito de vidro. É de aço, para que possa suportar as quedas. O pó então irá escoer...Na ampulheta da vida; você vai ver. O tempo passa. E leva consigo a graça. Infeliz é aquele que observa a areia transpassar pela finíssima passagem e não se faz nada. Observa o monte se formar, e não toma jeito. O tempo não para. Ele passa. E não perdoa, não perdoa. Aqueles que não julgaram injustamente, são os que possuem o mérito para virar a ampulheta e ver a areia escorrer novamente." — era o poema que viera com o presente.

O que aconteceu a seguir, foi incrível e estranho.

Primeiro, senti a torre tremer. As paredes rangeram, como se o Big Ben fosse uma enorme engrenagem. Os ponteiros do grande relógio alinharam-se, anunciando a chegada da meia-noite. Uma estrutura fina de metal cresceu entre mim e Cassandra. Esta tinha a boca em formato oval, e profunda. Cassandra então encaixou a ampulheta no buraco, e o pó prateado começou a se esvair do cone ao qual ele estava acumulado. A torre sofreu um abalo, e dividiu-se em duas. Cassandra e eu fomos nos afastando; ela sendo levada para longe junto com a metade do relógio. Me segurei em uma haste grossa, enquanto via uma enorme cratera se formar entre as paredes. Então esta se aprofundou mais ainda, surgindo uma escadaria larga que dava acesso ao subterrâneo. Os soldados viram o sinal de Lionel e avançaram adentro da escuridão. Ciel foi com eles. Adiante, Cassandra assimilava para que nos juntássemos a eles. Acenei como a cabeça, concordando. Dei um enorme pulo, Cassandra me acompanhando, e fomos engolidos pela escuridão do desconhecido.

***

A caminhada parecia não ter fim. Estávamos a quinze minutos andando. Ciel reclamava, resmungando ao meu ouvido. Cassandra era quem nos guiava, mas de vez em quando parava e dava atenção ao menino mimado. Ela bateu palmas três vezes e luzes se acenderam. Estávamos dentro de uma caverna, mas esta era estranha. Onde estavam as estalactites e estalagmites? As rochas e a umidade? Até a superfície, que o normal seria deformada e fria, era lisa e as paredes formavam um retângulo vertical prefeito. Era como se estivéssemos dentro de um corredor bem grande.

Cassandra, que estava na dianteira, parou de repente. Ela cheirou o ar e sua expressão direcionada a mim demonstrava sinais de desconfiança. Alguma coisa estava errada. Ela girou os calcanhares e gritou desesperada:

– Voltem!

Mas foi tarde demais. O chão que estava sob nossos pés desapareceu. Abriu-se como se fosse um alçapão. Os guardas despencaram e agarrei imediatamente Ciel, pondo-o em meus braços. As solas de meus sapatos grudaram-se à parede, enquanto ouvia os gritos cessarem lentamente. E aos poucos, devorados pelas trevas. Meus olhos giraram, procurando por algum sinal da mulher de olhos verdes. Nada. Comecei a ficar preocupado. Foi então em que ouvi algo que brotou uma pontada de esperança no meu âmago.

– Sr. Sebastian! — gritou alguém lá do fundo.

– Onde você está? — gritei de volta.

– Estamos bem! Podem vir! É perfeitamente seguro.

Olhei para Ciel, buscando a sua afirmação. Ele balançou a cabeça, concordando. Então sem hesitar mergulhei para dentro do alçapão. Senti uma mão agarrar meu fraque e me puxar para um canto. Era Cassandra. Ela parecia horrorizada.

– Sebastian, precisamos tomar cuidado. Eles já sabem que estamos aqui. — Ela tinha medo. — Precisamos tomar cuidado. Saitou, ele... — a pressão fora longe demais. Alcançara o limite. E a tristeza transbordara-se em lágrimas. Fui surpreendido em um entrelaçamento de corpos. Cassandra me abraçou.

Não soube o que fazer. Então um grito histérico me salvou daquela situação que na qual me encontrava a mercê.

– Preparem suas armas, homens! — disse o general.

E houve o engatilhar das metralhadoras e das outras armas. Os canos foram apontados para o nada. Esperamos silenciosamente que algo acontecesse. E então o que esperávamos aconteceu. Infelizmente não veio da forma como esperávamos. Uma horda de vultos veio para cima de nós, e um clarão dos tiros cobriu o local assim como o som das balas zunindo. Agarrei Cassandra e Ciel, para não perdê-los de vista.

– Fiquem juntos! — berrei.

– Ciel, fique atrás de mim. — Disse Cassandra. E ele a obedeceu; minguando atrás da saia de seu vestido.

Cassandra rasgou as mangas e a saia. Exibiu as coxas lisas que tinham coldres presos a elas. Ela sacou duas pistolas e começou a atirar. Mirava e acertava criaturas que se esgueiravam pelos cantos. Corpos caiam ao meu lado, e pude ver o que eram: homens. Mas não homens comuns. Demônios. Eles, depois de mortos, transformavam-se em sua forma original. Aquela coisa horrenda e asquerosa.

Um deles tentou me engolir; agarrando minha perna. Mas parou ao perceber que eu era um deles. Mas prosseguiu com a tentativa de me matar, pois deve ter sentido o cheiro das asas de anjo. Peguei uma das facas que guardava no fraque e a cravei em seu pescoço. Deixei o sangue jorrar até que o levasse à morte.

Lutamos contra esses monstros durante um bom tempo. Matava-os com um grande facilidade e Cassandra também. Ela lutava com estilo e precisão.

Quando enfim acabou a carnificina, sobraram poucos soldados. E os que sobreviveram, ficaram muito machucados. Ciel estava bem, mas suas roupas não. Lionel perdera o braço esquerdo e Cassandra não demonstrava cansaço. Eu estava exatamente como me encontrava algumas horas atrás. Normal.

– Continuem — disse Lionel e começamos a andar novamente. — O que eram aquelas coisas? — perguntava ele.

Cassandra não respondeu apesar de saber a resposta. Ela veio até mim e Sussurrou ao meu ouvido:

– São anjos caídos, assim como eu.

Olhei-a com espanto.

– É assim que vou ficar se Saitou continuar com essa loucura de querer dominar tudo.

– Dominar?

– Sim. Primeiro a Inglaterra, depois o mundo.

– Quem afinal de contas é Saitou?

Quando ela ia responder, senti uma força me puxar para trás. Cassandra agarrou minha mão, mas por estar lisa por causa do suor, nossos dedos escorregaram e eu fui levado.

– Sebastian!

Não ouvi mais nada depois disso.

***

Quando recobrei a consciência, não podia ver um palmo à minha frente. Quando as duas salas voltaram a ser uma, dei-me conta de que estava dentro de um aposento nada confortável. Era como uma sala de tortura sem os equipamentos medievais que a tornavam tão famosa e cruel. A porta se abriu, e um homem entrou. Era Saitou. Ele sorria em me ver. Parecia em estar e divertindo.

– Sebastian, como se sente?

Fiquei furioso. Me levantei e avancei para cima dele. Tentava esmurrá-lo de todos os ângulos. Mas Saitou possuía uma velocidade incrível e desviava com facilidade de meus ataques. Ele segurou o meu punho cerrado, e logo não pude mais movê-lo. Saitou o torceu e eu esganicei de dor.

– O que você é? — perguntei massageando o pulso.

Ele riu de desdém.

– Por que não pergunta à elas?

Saitou sumiu nebulosamente da minha frente. As paredes foram se desintegrando, dando lugar à uma rua deserta e coberta pelas sombras. Não estava mais naquela sala de tortura, e sim de volta àquele lugar onde o primeiro assassinato ocorrera. Lá estava novamente a carruagem, e meu outro eu acabava de fechar sua porta. Subira no caleche e o Sr. Lionel apareceu trazendo a bengala de Ciel. Então repetiu-se a cena do assassinato. O meu clone perseguiu o culpado pelo beco e também levou um tiro no olho.

Em seguida, foi o assassinato de outro membro da aliança. O que aconteceu na casa de Ciel. O nobre chegara à mansão e antes de bater à porta, alguém o atraiu para a estufa, onde o matou cruelmente.

As imagens foram sumindo e novamente eu estava em uma rua deserta. O que estava acontecendo? Onde estavam todos? Caminhei pelas calçadas e fiquei sob a luz de um poste. " Tenho que sair daqui." pensei.

A voz de Saitou soou como um rádio dentro de minha cabeça: " Por que você não perguntas a elas?"

Foi naquele momento em que as torturas voltaram. Fui envolvido repentinamente por um grupo de pessoas. Mulheres. Clones da Meyrin. Todas me indagavam, e estavam vestindo preto. O cabelo ruivo caia sobre os ombros e a mecha escondia os olhos. Elas riam de mim. Apontaram-me dedos, querendo me julgar e me intimidar. Não deu certo, pois aquilo não me atormentava mais. Eram apenas alucinações criadas pela minha mente. Não eram reais. Precisava acabar logo com isso. Puxei uma faca, e fui cortando cada uma delas. Elas iam desaparecendo como imagens sendo rasgadas. Evaporavam. Finalmente estava dando um basta naquilo. Aniquilei todas, mas ao me virar, vi que deixara uma. Esta não sorria. Mas apontou-me uma arma.

– Chega de mentiras! — gritei.

Corri em direção à ela, e finquei a faca onde deveria estar seu coração. Mas algo diferente aconteceu. Esta ilusão não desapareceu como as outras; em vez disso persistiu em manter-se ali, à minha frente. Pensei que a qualquer momento essa também fosse desaparecer, mas me enganei quando vi uma tonalidade escura desabrochar de seu peito feito uma rosa, e tingir sua veste de vermelho. O líquido rubro escorreu pelo cabo de prata da faca e pingou no chão. A mulher então ergueu o rosto e me fitou.

Minhas pernas ficaram bambas, e a sensação era de como se o mundo parasse de girar. Os olhos castanhos dela transmitiam um enigma intrigante. Aquela era a verdadeira Meyrin. E eu havia acabado de feri-la mortalmente.

Ela desabou no chão e eu rapidamente a peguei em meus braços. Retirei a faca de seu peito, e pressionei para que o sangue parasse de sair. Não adiantava, pois a cor deixava seu rosto cada vez mais rápido. Eu estava desesperado, sem conseguir saber o que fazer. E o peso esmagador da culpa e do arrependimento contribuíam para o meu sofrimento. Meyrin não tirava os olhos de mim, e de vez em quando tinha tremeliques. O calor deixava seu corpo, e tentei inutilmente aquecê-la.

– Que droga... — tranquei os dentes.

Senti seus dedos gélidos tocaram serenamente minha face. Dirigi minha total atenção a ela. Meyrin sorria com franqueza. Debilitada, chorou. Vi alegria em seu olhar.

– Sr. Sebastian... — sua voz estava rouca, e então veio um cuspe de sangue. — Você veio até mim.

– Shh, não fale. — Temi por ela — Eles já devem estar chegando aqui. Vai ficar tudo bem.

– Não. Basta-me morrer em seus braços. Ah... obrigada. Eu estou livre. — Estas foram as suas últimas palavras antes de fechar os olhos.

Então Meyrin deixou os meus braços para ir se deleitar nos da morte. Tremi. Ainda incrédulo, a abracei com todas minhas forças. Desejando profundamente que nada tivesse acontecido. Acariciei seu cabelo, e senti algo diferente. Uma dor tão profunda que destruiu meu ser. Um calor mortal e diversas sensações e sentimentos desconhecido. Alguma coisa molhou minhas bochechas. Passei os dedos sobre, e os vi umedecidos. Eram lágrimas. Eu estava chorando. Senti o vento e os aromas que este trazia consigo. Mas sentia de uma forma diferente e muito melhor.

Um pessoa se materializou diante de mim. Era Saitou. Ele olhava diretamente para mim.

– Parabéns, Sebastian. — Disse ele. — Você conseguiu o que queria. Tornou-se humano.

Saitou desapareceu. A prova de que eu era humano, é que vi as veias sob a pele de minha mão pulsarem. A marca de meu contrato havia sumido. Os olhos já não eram vermelhos. Não liguei para o que havia acontecido a mim. Naquele momento tudo estava voltado para o cadáver da garota que eu amava.

Deitei ao lado de Meyrin, e me pranteei em lágrimas em seu leito de morte.

Notas finais
Oi, pessoal. Primeiro, eu gostaria de agradecer a vocês, leitores, que não desistiram dessa fanfic mesmo quando eu mesma estava tendo certas dúvidas se devia ou não continuar a escrevê-la. Confesso que adorei os comentários. - Se não fosse por eles, a história teria acabado mesmo antes de ter sido concluída. Enfim, para quem gostou - a maioria de vcs, espero -, vai haver continuação. A história de ''Break My Heart'' continuará em ''The Devil May Cry''; que logo estarei postando. Então fiquem ligados nas minhas atualizações.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!