Brave
2 Um balão estourado
Veronica não sabia o que fazer. Suas mãos ainda seguravam a tampa da lata de lixo, enquanto o Homem-Aranha a olhava por trás de sua máscara, e mesmo que ela não pudesse ver seus olhos, sabia que ele a estava vendo.
Peter via três do que parecia ser uma garota de cabelos presos em um rabo de cavalo apertado, olhos grandes e brilhantes, lábios em uma linha fina que mostravam o quanto ela parecia irritada.
Vee estava irritada. Antes, estava surpresa por ter uma má sorte mesmo carregando a droga do trevo de quatro folhas da vovó. Não que ela acreditasse que aquilo pudesse melhorar sua vida de alguma forma que agora andava nos trilhos, mas, ainda assim, uma parte pequena de sua mente, obviamente seu lado maluco, acreditava que talvez aquele treco poderia ajudar de alguma forma.
Não, não poderia. E aquele encontro refletia muito bem aquilo.
Veronica mordeu o lábio inferior. O herói parecia machucado e, seria perigoso ficar ali jogado em uma lata de lixo. E se ele tivesse tido uma concussão? E se…
‘’Droga’’ Veronica sibilou.
As preocupações de uma mini enfermeira dentro de si apitou e pareceu envolver todo seu corpo. Nesse quesito, ela tinha criado dentro de si esse fervor de ajudar as pessoas como sua mãe.
Alexandra trabalhava agora no hospital central do Queens e desde que Veronica se conhecia por gente, vivia rodeada de estudos relacionados à saúde. Alexandra, sua mãe, tinha um kit de primeiros socorros em casa sempre muito bem abastecido e zelava cinquenta vezes mais do que uma matriarca normal por sua filha.
Veronica não conseguia esquecer o dia em que caiu no parquinho da escola e a enviaram para casa urgentemente. A mãe deu pontos no joelho machucado com um vinco de preocupação na testa que fez Vee torcer para não se machucar mais vezes, afinal, tomar pontos doía, mesmo que eles não fossem propriamente costurados, porque seu corte não fora tão preocupante assim.
A cara de Alexandra era o que preocupava. Ela agia friamente com seus pacientes, via sangue todos os dias, estava acostumada com acidentes, braços dilacerados, mas nada se comparava ao ver sua filha sangrar. Veronica entendeu isso e passou a tomar o máximo de cuidado possível.
E mesmo que nada na área da saúde interessasse Veronica, ela sabia muito bem como dar pontos, como higienizar um machucado, até mesmo dar os primeiros socorros em alguém. A convivência com a enfermaria do hospital do Brooklyn a fez uma enfermeira de mão cheia sem algum diploma.
Sua mãe costumava dizer que Vee seria uma enfermeira e até mesmo uma médica incrível, mas, na verdade, Veronica queria usar seu poder de comunicação no futuro e talvez, só talvez, tivesse medo de dizer a mãe que não, não queria ser médica ou enfermeira.
Seria um baque e tanto para ela.
A garota suspirou e empurrou a tampa da lata de lixo para trás.
‘’Consegue se levantar?’’ ela sussurrou para o Homem-Aranha.
Os batimentos cardíacos de Peter estavam acelerados, não só por estar ali indefeso como um saco de lixo, mas também por estar nas mãos de uma garota desconhecida que a qualquer momento poderia saber quem ele era.
Sua cabeça assentiu involuntariamente respondendo a pergunta.
Veronica não pensou duas vezes. Ela colocou um dos braços por debaixo dos de Peter e sentiu que apesar de ser um garoto, ele era forte. Veronica o ajudou a se levantar.
Peter apoiou uma das mãos na lixeira e a outra no ombro da menina e finalmente ele conseguiu sair da lixeira. Uma fincada em seu braço o fez soltar um gemido de dor.
Os olhos de Veronica se fixaram no estilete ainda no braço de Peter e ela temeu. E se tivesse atingido algum lugar preocupante? A garota sentiu sua garganta inchar. Era uma sensação de pânico. Ela não era médica, não era enfermeira, ela não era sua mãe. O que estava fazendo ali tentando ajudar um moleque metido a aranha que tinha se dado mal?
Peter colocou os pés no chão e cambaleou. Ele piscou os olhos e tentou ao máximo manter o seu peso no corpo sem atingir Veronica. Ela o tentou ajudar de alguma forma a se equilibrar mesmo vendo o quanto ele se esforçava para não usá-la como apoio.
‘’Tudo bem! Pode se apoiar em mim.’’ Veronica sussurrou para ele.
Peter encontrou os olhos castanhos da garota envoltos por pintinhas de sardas. Ela era adorável e o olhava com uma preocupação tão escondida que ele mal pôde perceber.
‘’Obrigado!’’ Peter sussurrou de volta.
Ele tentou desvencilhar-se do abraço de Veronica, mas ela manteve-se firme e o segurou com o braço pelas costas. Quase próximo a sua cintura.
‘’Onde pensa que vai?’’ ela resmungou ‘’Acho que esse corte aqui precisa de pontos.’’
Veronica pegou o braço de Peter com a mão livre e o apertou desajeitada.
Peter resmungou.
‘’Eu estou bem!’’ ele disse baixinho.
Vee estalou a língua e lhe lançou um sorriso enquanto levantava as sobrancelhas.
‘’Eu sei que essa coisa de ser o herói de todos faz o peito de um garoto se inflar de orgulho, mas, sabe, não é vergonhoso precisar de ajuda, portanto, minha casa é somente duas ruas daqui e garanto que seu ego não será ferido, não mais do que você já está.’’
Peter encontrou o olhar da garota. O tom irônico e animado dela o fez lembrar de Michelle, a garota do grupo de Decathlon que se tornou tão amiga dele quanto Ned. Ele ponderou aquela escolha, não era bom envolver a garota naquilo tudo. O Stark mesmo tinha dito que se pudesse não envolver outras pessoas em sua vida maluca, melhor ainda.
‘’Nem pense em dizer não!’’ Veronica disse.
Ela estranhou seu tom um tanto doce com o garoto. Ela o achava completamente idiota, seu uniforme era idiota, a bandeira aranhuda que ele levantava, mais ainda, mas naquele momento, indefeso, assim como ela, assim como qualquer morador do Queens, Veronica se lembrou que apesar de um super herói, ele era um garoto.
Veronica o puxou de leve pelo beco e os dois partiram devagar pelo mesmo em um caminho meio apertado que Vee usava quando queria chegar mais rápido em casa e quando não estava afim de passar pelas ruas movimentadas.
Ela já conhecia aquelas vielas muito bem.
Veronica destrancou a porta de trás da casa que dava para um quintal tão minúsculo que nem deveria ser chamado de quintal. O lixo vazio a lembrava de que hoje era o dia dela de recolhê-lo. Ela quis dar de ombros, aquilo não era tão importante quanto o garoto que entrava com ela na casa precisando de pontos no braço. Sua mãe superaria o lixo não tirado por, pelo menos, um dia.
Os dois subiram a escada desajeitadamente e assim que Veronica abriu a porta de seu quarto, um suspiro de alívio escapou de seus lábios. Por mais que Peter estivesse retendo todo seu peso, ela estava cansada, suada e com uma dor nos ombros que talvez permaneceria por mais que um dia.
Peter sentou-se em sua cama e logo Veronica saiu do quarto à procura do kit de primeiros socorro que sua mãe deixava no armarinho do banheiro. Ela o pegou e se pôs de pé. Seu reflexo no espelho a chamou atenção.
Veronica continuava normal, tudo nela, em sua aparência, até as incômodas sardas, estavam no lugar, mas seus olhos refletiam um certo tom de desespero e as sobrancelhas arqueadas demonstravam confusão. Tudo nela gritava em um turbilhão de perguntas e mais perguntas.
O que ela estava fazendo? Tinha acolhido um moleque em casa que estava machucado e envolto em um uniforme de super herói e o que ela faria? Lhe daria pontos, comprimidos pra dor e… o que mais?
Em que mundo isso aconteceria? Em que mundo ela encontraria um super herói na lata de lixo do seu trabalho e o ajudaria? Aquilo não fazia o menor sentido.
Veronica olhou novamente para si no espelho. Aquilo era estranho, mas tinha uma leve sensação de que algo mudava. Uma espécie de coragem minúscula nascendo dentro de si.
A garota nunca se sentiu corajosa, na verdade, ela sempre se achou covarde.
Covarde por não contar a mãe que não queria ser médica, covarde por não mostrar alguns de seus textos a ela, ou ter coragem até mesmo de se permitir ser uma pessoa que acreditava em algo. Veronica não conseguia acreditar, aquela sua parte morreu junto com seu passado. Era por causa dele que nada mais a fazia acreditar, tanto nas pessoas, quanto em si mesma. Ela só se via como covarde.
Seus lábios se apertaram em uma linha fina e pela última vez, Veronica se olhou no espelho como uma completa covarde. Dentro dela, uma linha pequena de coragem se erguia e, ela tinha medo disso, porque… oras, porque havia gostado de se sentir corajosa.
‘’Ai!’’ Peter resmungou assim que Veronica tirou cuidadosamente a lâmina de seu braço.
Seus lábios se levantaram em um sorrisinho. Ele era engraçado. Ao voltar ao quarto, Vee encontrou Peter no mesmo lugar em que havia deixado, mas, seus olhos examinavam tudo, seu quarto, seu mural de frases, a pequena estante de livros e as estrelinhas coladas no teto que brilhavam no escuro.
Ele parecia acuado quando ela chegou, e não relaxou em só um momento, mesmo quando os dedos de Veronica tocaram sua pele.
‘’Eu preciso que você… tire o... seu uniforme pra que eu veja se precisa de pontos.’’ Veronica disse meio embaraçada por ter que pedi-lo para tirar o uniforme.
Peter engoliu em seco.
Tirar o quê?
‘’N-não acho que s-seja preciso...’’ Peter se enrolou nas palavras.
Veronica quis rir, mas, também estava nervosa com aquela situação. Ela tentou empurrar para dentro de si aquela vergonha e estranheza, mas, mais uma vez sua mente gritou: o que está fazendo, Veronica Andrews?
A garota respirou fundo. Com seus olhos abaixados, ela tomou coragem, mais uma vez naquele dia e olhou para Peter e disse:
‘’Não se preocupe, não vou ficar babando no seu tanquinho e nem nada. Eu só preciso ver seu braço e é só isso que eu verei.’’
Peter ficou em silêncio, o que pareceu uma eternidade para Veronica, mas, depois daquela eternidade, ele apertou a aranha em seu peito e o uniforme escorregou por seu braço e tronco. Ele rapidamente segurou o tecido sobre o tórax, mas isso não impediu que Vee visse, discretamente sua estatura forte para um… garoto. E que garoto.
Vee se concentrou em seu braço. Ela o pegou delicadamente em suas mãos geladas. Peter se remexeu desconfortavelmente tanto pelo gelado de suas mãos de médica e também, por ser uma garota tão bonita como ela o tocando.
A garota examinou o braço de Peter e suspirou de alívio por não precisar de pontos ligeiramente costurados. Só precisaria de pontos de criança, como ela costumava chamar e, bem, ele não precisaria vê-la novamente para tirá-los. Mesmo que parecesse, o corte não havia sido fundo o suficiente, e isso, graças ao uniforme. A lâmina tinha se fincado muito mais no tecido grosso do que no braço dele.
Veronica deixou o braço de Peter de lado, abriu a caixinha de primeiros socorros e embebeu um algodão com antisséptico e passou delicadamente no local do machucado. O Homem-Aranha retesou seus músculos e a garota quis mais uma vez rir de sua reação. Ele estava de todas as formas tentando ficar calado.
‘’Então...’’ Vee começou ‘’como isso aconteceu?’’
Peter que mantinha sua cabeça virada para a porta do quarto, não conteve sua primeira reação ao olhar para a garota através de sua máscara. Ela estava com uma ruguinha de concentração na testa enquanto limpava o sangue já seco do braço de Peter.
Ele não sabia ao certo se deveria respondê-la, se deveria começar uma conversa com a sua ‘salvadora’. Todas as partes de sua mente diziam que não, ele não deveria. Mas, sua língua parecia um membro fora de seus pensamentos racionais, na maioria das vezes.
‘’Um cara bem fã da Liga da Justiça decidiu que roubar os caixas eletrônicos seria uma boa ideia e não gostou quando eu disse que era uma ideia bem estúpida.’’
Veronica soltou uma risada baixinha.
Peter sentiu algo dentro de si animar-se com a reação da garota.
‘’Então quer dizer que você dita as regras por aqui.’’ Veronica levantou os olhos para ele e a sua franja fora do rabo de cavalo se remexeu.
Peter acompanhou aquilo e deu graças por ter uma máscara cobrindo seu rosto. Ele deveria estar com uma cara de idiota pra ela.
Ele piscou os olhos e tentou se manter concentrado. Ele? Ditar as regras?
‘’N-não.’’ ele apertou os olhos por gaguejar.
Um super herói não deveria gaguejar. Ele era a pior imagem de super herói confiante.
‘’Mas, não é isso que um super herói faz? Dita as regras aos bandidos e tudo mais?’’
Peter ficou em silêncio por mais um tempinho refletindo sobre aquilo. Não era exatamente isso que ele fazia e nem queria ser um ditador de regras, só queria ajudar as pessoas.
‘’Não é isso que eu faço, exatamente. Não quero…’’ ele se interrompeu com um resmungo por Veronica ter apertado seu machucado.
‘’Desculpe.’’ ela sussurrou para ele.
Peter assentiu.
‘’Não quero ditar regras, só quero ajudar.’’
Veronica levantou as sobrancelhas. Aquilo parecia idiota para seus ouvidos, porém, Peter disse com tamanha sinceridade que, Vee fez um esforço para ouvir sua mente descrente dizer o quanto aquilo era ridículo. Um garoto aranha ajudando?
‘’Não acha que isso deveria ser um trabalho pra polícia?’’ Vee disse em um tom irônico.
Peter olhou para ela novamente. A garota estava debochando dele? Ele reprimiu uma resposta grosseira. Parker não era grosseiro com ninguém, nunca sentiu vontade de ser, por mais que as pessoas o importunassem. Ned era um exemplo disso.
‘’Deveria ser, mas, na maioria das vezes, o trabalho não cabe a eles.’’
Veronica se irritou. Mais uma vez o ego inflado daquele garoto a tirou do sério. Só por imagens, vídeos e tudo relacionado ao Homem-Aranha, Veronica sabia que ele era orgulhoso e se achava melhor que as autoridades.
‘’O que quer dizer com isso? Você se acha superior às autoridades?’’ Veronica parou de limpar o machucado de Peter e ergueu o queixo para ele o desafiando com o olhar.
Peter deveria se sentir acuado, mas dentro de si, a irritação pela prepotência de sua ‘salvadora’ o fez sentir uma tamanha raiva que talvez nunca tenha sentido por ninguém.
‘’Não me acho melhor do que ninguém. Os poderes que eu tenho nunca foram pedidos, me foram dados, e eu só os tenho usado para fazer algo bom. Por que você diz como se estivesse fazendo isso para me mostrar?’’ a voz de Peter subiu uma oitava.
Veronica sorriu ironicamente.
‘’Porque é o que parece, senhor Cabeça de Teia.’’ ela respondeu friamente.
Seus dedos trabalharam rapidamente nos pontos de criança e logo ela empurrou o uniforme de Peter para cima.
Ele estava estagnado com a resposta de Veronica. Seria isso que as pessoas pensavam dele? Um moleque metido a besta que queria se mostrar fazendo acrobacias pelo Queens com suas teias? Não era exatamente essa a imagem que Peter queria passar.
‘’Fique aqui, vou lhe trazer algumas aspirinas e um copo de água.’’
Veronica se levantou e saiu sem ao menos deixar Parker falar algo.
Ele se manteve sentado. As palavras dela foram como um espinho estourando um balão, e aquele balão era sua certeza de que queria ajudar as pessoas, de que seus poderes eram somente para benefício alheio e não dele. Por mais irado que fossem.
Veronica foi até a cozinha e se esforçou para pegar a caixa de remédios em cima da geladeira. Ela bufou ao puxar uma cadeira e subir. Assim que pegou os comprimidos e um copo de água, ela voltou devagar para o quarto.
Enquanto subia as escadas, Veronica sentiu-se um pouquinho mal por ter dito na cara do próprio Homem-Aranha que ele só queria se mostrar. O momento em que ele disse que queria só ajudar as pessoas havia sido tão sincero, tão real, tão do fundo de seu coração que se a alma e corpo de Veronica não fossem tão descrentes, ela acreditaria.
Seus pés subiram as escadas enquanto sua mente a cobrava de dois lados: um queria que ela se desculpasse, outro, queria que ela dissesse mais verdades na cara do Cabeça de Teia.
Ao entrar em seu quarto, Veronica encontrou Peter sentado. Ele estava cabisbaixo e só levantou assim que a ouviu chegar.
Peter não sabia o porquê ainda estava ali. Havia pedido para que Karen achasse uma forma de voltar para casa e as coordenadas já estavam prontas. Ele só… se sentia mal, a garota o havia ajudado mesmo que tivesse estourado seu balão preferido. E por mais que quisesse sair dali, não conseguia, não antes de dizer algo a ela.
‘’Aqui está. Acho que duas aspirinas podem te ajudar com a dor no corpo.’’ ela os entregou para Peter.
Ele levantou as sobrancelhas para ela. Como tomaria o comprimido sem ter que tirar sua máscara?
Veronica deixou o copo em cima da mesinha de seu notebook próxima a cama e pegou o kit de primeiros socorros o organizando. Ela se levantou para levá-lo até o banheiro de sua mãe e então, Peter a impediu de ir com suas palavras:
‘’Você pode achar que eu não passo de um garoto mesquinho que quer mostrar seus poderes, mas, uma vez, alguém me disse que com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. E, se eu pudesse escolher não ter responsabilidades tão pesadas como essas, eu escolheria, porém, decidi aceitá-las. Decidi deixar a covardia de lado e impor minha coragem, por mais novo que eu seja e por mais inexperiente, não quero esconder a força que eu tenho só por ser interpretado mal. Então, que se dane se você acha que eu quero me mostrar, que se dane as pessoas que pensam isso. Eu só quero ajudar e vou continuar fazendo isso.’’
Veronica estagnou em seu lugar. Ela não sabia o que fazer. A parte em sua mente gritava para que ela pedisse desculpas. Suas bochechas coraram de vergonha por ouvir um sermão do herói Cabeça de Teia que por muito a irritava e a fazia descrer mais ainda que a humanidade tinha uma chance de ser menos idiota.
‘’Obrigado pelo que fez. Aliás, o que você fez, me mostra que existe uma pequena parte de você que acredita que o que eu faço não é pro meu próprio orgulho… na verdade, hoje, comigo, você fez o mesmo que eu faço todos os dias.’’
Vee engoliu em seco. Ele estava dizendo que ela havia agido como uma heroína naquela noite. E por mais que as anteriores a tivessem ofendido, depois dessas novas palavras, o ponto de coragem nela se inflou um pouquinho mais ao ser chamada de heroína.
Ela quis gritar e empurrar aquilo dentro dela. Ser um herói como ele, como o Stark, como qualquer um outro não passava de pura idiotice e ego inflado. Veronica não queria ser assim.
Vee ouviu o som de sua janela ser aberta e assim que virou sua cabeça para o som, Peter já não estava mais ali. A ligeira lembrança de que esteve ali era somente o copo de água intacto, os lençóis de sua cama meio revirados e o kit de primeiros socorros em suas mãos.
Ele esteve ali, Veronica havia conhecido o Homem-Aranha e ela tinha certeza que o odiava mais ainda do que só por vê-lo nos noticiários.
Ela o odiava por fazer uma minúscula parte de si acreditar que algo relacionado ao que ele fazia podia ser realmente bom e digno de ser chamado heroico.
☘
O sinal bateu fazendo com que Peter voltasse a si. Era hora de entrar pra aula e Ned falava sem parar ao seu lado. Ele não conseguia ao menos entender uma só palavra, mesmo que seu amigo estivesse falando sobre a luta da noite anterior de Peter.
Os dois caminharam para fora do ônibus escolar e encontraram Michelle que os cumprimentou apenas com um grunhido. O que significava um bom dia extremamente mal humorado. Eles seguiram para dentro da escola.
Peter abriu seu armário, pegou seus livros e seguiu os amigos para dentro da sala de aula. Ele se sentou e percebeu que não prestaria atenção na maldita aula de Literatura do dia por causa de uma certa garota que importunou seu sono na noite anterior. Ela havia plantado uma minúscula dúvida dentro de si que seria extremante difícil de sanar.
Ele apoiou as mãos sob o queixo e olhou pela janela a sua esquerda.
A sala se encheu de conversas paralelas e arrastar de cadeiras. Todos se acomodaram, mas o burburinho não parou até que a professora batesse na lousa e dissesse algo que chamou a atenção de todos.
‘’Bom dia, alunos! Hoje temos uma nova aluna na sala. Por favor, se apresente.’’
Peter levantou os olhos para a garota de cabelos soltos e o familiar sobretudo abotoado com grandes botões pretos.
Ele quase deixou seu queixo ir ao chão.
A garota sorriu meio sem graça para a classe e finalmente se apresentou.
‘’Eu sou Veronica Andrews… vim da escola municipal do Brooklyn e...’’
‘’O que você deseja cursar, Veronica?’’ A professora questionou.
Geralmente os professores perguntavam isso aos alunos novos que chegavam assim, na metade do terceiro ano ou no começo.
‘’Bem, eu quero cursar Jornalismo.’’
‘’Uh! É uma boa escolha.’’ a professora sorriu para ela e indicou um lugar vago ‘’Sente-se ali, Veronica e seja bem-vinda!’’
Peter apertou os dedos das mãos tão forte que os nós ficaram brancos. Aquela garota, era a garota que o encontrou na lata de lixo. Era o mesmo cabelo, o mesmo sobretudo, as mesmas sardas e as mesmas sobrancelhas arqueadas e desafiadoras. Era ela! A garota que estourou seu balão preferido.
Era ela!
Era Veronica Andrews e o lugar vago, agora preenchido por ela, era exatamente ao seu lado direito.
Era ela! A garota que importunou seu sono e o deixou duvidoso de si mesmo e, que, provavelmente, lhe traria inúmeros outros problemas.
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