Brasileiríssima
2 Capítulo 2
— Ainda vai demorar muito para chegarmos? – Mariana perguntou, impaciente. Eles já estavam na estrada há quase uma hora. Que praia mais longe era essa? Sua tia dissera que havia uma praia linda há poucos minutos da casa deles. Mas se isto era o que ela considerava perto, a garota pensava que as definições que elas tinham sobre tempo e espaço eram muito diferentes.
— Estamos quase chegando – Guilherme respondeu, sem tirar os olhos da estrada. – Você vai adorar esta praia, é perfeita para quem não gosta de usar trajes de banho. Aqui você vai poder ser você mesma – disse todo enigmático.
Mariana não dava a mínima para o que quer que fosse aquilo que o primo estava falando. Preferia ter ido para um lugar mais próximo, onde olharia as pessoas expondo suas peles ao risco de adquirir câncer de pele e diria que queria ir para casa. Mas não, Guilherme tinha que dificultar ainda mais as coisas para ela.
Após mais alguns minutos, o carro finalmente foi estacionado e eles desceram. Guilherme tentava o controlar o sorriso, que insistia em querer brotar em seu rosto, enquanto Mariana olhava ao redor, absorvendo a beleza do lugar (não que ela fosse admitir a alguém que achara a praia bonita).
Eles começaram a caminhar na areia, as ondas do mar batendo em seus pés. O lugar era cercado por muita mata e paredões de falésias. No entanto, não parecia tão grande quanto ela esperava. Parecia mais uma prainha, o que foi decepcionante. Depois de mais alguns passos, Guilherme pegou sua mão. Mariana não gostou da atitude e tentou soltar-se dele, mas o primo não permitiu.
— Será que dá para você soltar minha mão? – Perguntou, irritada.
— Desculpe, prima, mas temos que parecer um casal. Não é permitida a entrada de pessoas sozinhas nessa praia, apenas casais – o garoto mentiu. Mulheres podiam entrar sozinhas, ele sabia, apenas os homens não. E, claro, menores de idade só acompanhados dos pais. Não que eles fossem realmente entrar. A estrangeirinha jamais aceitaria, nem se pudesse. Guilherme teve de se esforçar muito para segurar o riso. Quando a prima soubesse que tipo de praia era aquela teria uma reação inesquecível, ele tinha certeza.
Que tipo de praia seria essa?— Pensou a garota, confusa e levemente temerosa, enquanto continuava a andar de mãos dadas com o primo. Entretanto, sua dúvida logo foi sanada. Assim que chegaram perto de uns quiosques, que vendiam algum tipo de bugiganga que os turistas compram como souvenir, ela avistou a infame placa.
BEM VINDO
À PRAIA NATURISTA DE TAMBABA
WELCOME TO TAMBABA’S NUDIST BEACH
— Como você ousa me trazer aqui?! – Mariana gritou, sem se importar que estava fazendo uma cena diante das pessoas que estavam por perto.
Guilherme finalmente deu vazão ao que riso que vinha contendo, quase se dobrando para frente, de tanto rir.
— Você precisava ter visto a sua cara! – Comentou, entre risos. – Pena que eu não tirei uma foto!
— Isso não vai ficar assim, Guilherme! Pode esperar que vai ter volta. E tia Carla certamente vai colocar você de castigo, porque, assim que chegarmos em casa, eu contarei a ela. – Mariana disse, por cima do ombro, ao começar a caminhar de volta para o lugar onde havia estacionado o carro.
— Ela não pode me colocar de castigo, eu tenho dezoito anos, sou maior de idade! – Ele revidou, seguindo-a.
— Aposto que pode, você não é dono do seu nariz ainda – a garota retrucou. Sentia tanta raiva naquele momento, mas tanta, que achou que fosse começar a expelir lava, de tanta fúria. Uma praia de nudismo! De nudismo! Mariana não conseguia nem colocar a cabeça em torno disso. Como as pessoas gostariam de se expor assim, em um nível tão pessoal? Era demais para ela entender. Ela, que tinha problemas em pensar que precisava sair de biquíni enquanto estivesse ali, jamais teria coragem para tamanha exposição. Mariana não era ousada a este nível, por isso estava usando um short marrom de tecido leve e uma blusinha regata, junto com um par de chinelos (calçado que parecia ser quase obrigatório no litoral).
— Foi só uma brincadeira, sua chata. Essa primeira parte da praia não é de nudismo, podemos ficar aqui. – Ah, mas ela não ficaria mais nem um segundo naquele lugar. Queria chegar logo na casa da tia, para contar tudo, e vê-la dando uma grande bronca no filho. E que o deixasse sem internet. Não havia nada pior para os jovens do que ficar sem internet. Era o castigo perfeito.
— Quero voltar para casa. – Mariana ditou, como era acostumada a fazer. Ela sempre tivera suas vontades atendidas. Seus pais faziam questão de dar-lhe tudo o que pedia. E mesmo após seu pai ter morrido, cerca de dois anos atrás, sua mãe não deixara de atender seus pedidos. Quer dizer, exceto este último. O cancelamento da viagem para os Estados Unidos fora a primeira (e Mariana esperava que última) vez que Helena Silva, mãe da garota, deixara de fazer a vontade da filha.
— Tudo bem, estressadinha – Guilherme revirou os olhos, antes de destravar o carro.
Ainda fervendo de raiva, Mariana entrou e afivelou o cinto de segurança. Abaixando-se, pegou sua bolsa no chão do carro e começou a procurar o celular. Precisava ligar para a mãe. Diria que essa viagem fora uma loucura. Ela aceitava até ficar em casa até as aulas recomeçarem, mas não ficaria naquele lugar mais nenhum dia. Não mesmo. Ela procurou, procurou, remexendo em suas coisas, no entanto, o aparelho não parecia estar ali.
Desesperando-se – pois tinha certeza de tê-lo colocado na bolsa antes de viajar -, ela virou todo o conteúdo da bolsa em seu colo.
— Ficou maluca, menina? – Guilherme olhou espantado para a bagunça que prima fizera.
— Cale a boca, idiota! – Ela gritou. – Acho que perdi meu celular – falou, lamuriosa.
— Bem feito – comentou ele, com um sorriso. – Quem sabe assim você abaixa sua crista.
— Piss off! — Bradou em inglês. Estava tão irritada que xingara na língua que costumava falar. – Só não tire o olho da estrada, e nos leve para casa.
***
— Não, não se preocupe. Tudo está bem até agora. – Carla falou, em voz baixa. Não queria que ninguém da casa a ouvisse. – Já disse que eles não vão encontrá-la aqui, Lena, e, que se isso acontecer, estaremos preparados.
Nesse momento, Mariana e Guilherme estavam entrando em casa e escutaram um trechinho da conversa da mulher. Mas não entenderam o que ela quis dizer.
— Tá falando com quem, mãe? – O garoto perguntou, antes mesmo de ter terminado de atravessar a porta. A mulher deu um pulo do sofá, ao ouvir o questionamento do filho, deixando até mesmo o celular cair em cima do tapete que recobria o chão.
— Nossa, que susto, Guilherme! – Ela colocou uma das mãos no peito. – Quase me mata do coração.
— Desculpa – ele teve a decência de parecer envergonhado. – Não foi minha intenção.
— Mas foi o que aconteceu. Quantas vezes eu já disse para não entrar em casa gritando? – Falou em tom repreensor. Pegando o celular, viu que a ligação havia sido encerrada. – Agora sua tia desligou. Satisfeito? Eu estava falando com a mãe da Mari, e você sabe como essas ligações internacionais são instáveis.
— Des...
— Você já falou isso antes. Não precisa falar de novo – ela o interrompeu. – Só tente não fazer mais, ok?
— Tá bem – ele resmungou.
— O que a minha mãe falou, tia Carla? – Mariana perguntou, passando por seu primo e indo ficar próxima da tia. – Ela já está com saudades de mim e vai me mandar voltar?
— Claro que ela está com saudades, que mãe não estaria? – A mulher forçou-se a sorrir, para encobrir a tensão que a dominava. – Mas quer que você aproveite suas férias. Falando nisso, como foi o passeio? Gostou da praia?
Ah, aquele era o momento perfeito. Guilherme, finalmente, iria ter seu castigo.
— Não, tia, eu não gostei. Seu filho fez uma brincadeira de muito mau gosto comigo.
— O que ele fez dessa vez? – Questionou, estreitando os olhos na direção do filho.
— Me levou a uma praia de nudismo! – Mariana reclamou.
— O quê?! – Carla ergueu-se do sofá. – Guilherme te levou para Tambaba?!
***
O dia seguinte passou lentamente para Mariana; parecia mais uma eternidade. Sem celular, sem internet (pois nem morta usaria o computador de Guilherme, para acessar as redes sociais), ela estava praticamente incomunicável. Além de estar entediada. Só o que lhe restava fazer era ler. Mas nem isso parecia ter o mesmo encanto de antes. Não quando ela não tinha as outras coisas das quais gostava.
Essas férias estavam sendo terríveis mesmo. A garota tivera razão ao pensar que seriam as piores férias de sua vida. Porque estavam sendo mesmo. A única coisa boa até aquele momento fora ver o primo de castigo. Sem internet e vídeo game até começarem as aulas, dissera sua tia, para alegria e deleite de Mariana. Quem sabe assim ele aprendia a não fazer mais brincadeiras de mau gosto.
Já era um horário avançado da noite, todos dormiam, menos ela, por isso a casa estava silenciosa. Mariana não conseguira dormir. Deitara na cama de casal em seu quarto e ficara encarando o teto, esperando que o sono aparecesse. Talvez ainda estivesse sob o efeito do jet lag, quem sabe? O que não dava era para ficar ali, daquele jeito. Resolveu descer e beber e um copo d’água.
Ela estava descendo às escadas quando ouviu um barulho na maçaneta da porta. Segurando o corrimão fortemente com uma mão, com a outra procurou o interruptor de luz que ficava por ali.
As duas figuras ficaram olhando uma para a outra, sem nada dizer, um pouco incrédulos, quando a luz acendeu.
Guilherme quase conseguira. Quase. Faltou tão pouco para ele conseguir sair!
— Aonde você estava pensando em ir a essa hora? – Ela questionou, após sair do estupor momentâneo. Ficara com tanto medo de ser algum marginal entrando na casa! Mariana sabia que a cidade era conhecida pelos assaltos e assassinatos.
— Eu ia sair – ele respondeu, a contragosto.
— Posso saber para onde?
— Não é da sua conta!
— Ah, é da minha conta, sim – a garota retrucou. – Você ia sair escondido. Eu posso gritar e acordar todo mundo, aí sua mãe vai ficar sabendo o que você ia fazer! – Ameaçou.
— Tudo bem – Guilherme suspirou. – Eu estava indo para uma festa.
Festa? Mariana se animou instantaneamente. Ela adorava festas! Finalmente algo de bom.
— Que festa? Quero ir também!
— Ah, mas não vai mesmo! – Ele disse, com raiva. – Já me meti em problemas demais por sua causa.
— A culpa foi sua. Você quem inventou de me levar para aquela praia! – Mariana o acusou.
— De certa forma. – Ele deu de ombros. – Mas eu estou indo com alguns amigos e não sei se tem vaga para você.
— Deixe de enrolar. Se você quiser me levar, dá um jeito. E como foi que você combinou alguma coisa com seus amigos se não estava podendo usar a internet?
— Eu não podia usar o computador, estrangeirinha. Mamãe não falou nada sobre usar o celular – ele deu um sorriso de lobo.
— Que seja! – Ela revirou os olhos. – Se você vai sair, eu também vou. Não aguento mais ficar dentro de casa. Vou só trocar de roupa e já volto!
— Mas...
— Me espere aí, Guilherme. Senão eu conto para tia Carla que você saiu de casa escondido – e subiu novamente a escada, sem se preocupar em olhar para trás. Ela sabia que ela a esperaria.
***
— Você tem mesmo muita sorte – Guilherme comentou, ao passarem pela segurança do local. – Como conseguiu fazer eles acreditarem que era maior de idade?
Mariana deu um sorrisinho. Ter uma carteira de identidade falsa vinha bem a calhar. Mas ela não iria revelar seu segredo ao primo; não lhe daria nenhuma informação que ele pudesse usar contra ela depois. E Mariana queria poder ir e vir livremente em Manchester, sem se preocupar se sua mãe autorizaria sua ida, ou não. Por isso fizera uma carteira de identidade falsa junto às amigas.
— Eu pareço ser mais velha – ela deu de ombros. – Além do mais, eles nem olham direito para a identidade.
Mariana tomou cuidado, enquanto andava, para não pisar nas poças de lama que haviam se formado na areia da praia. Chovera no dia anterior, e também esta manhã, deixando tudo encharcado. A rua que a tia morava tinha sido pior, ela admitia. O lugar não era calçado, e a chuva o empoçara, formando o que parecia ser quase uma lagoa. Fora um horror atravessar a rua, sem se sujar, até chegar no carro dos amigos de Guilherme, que estava estacionado no começo da rua.
E, como o primo dissera, Mariana era mesmo sortuda. Não só conseguira passar pela segurança, como também ganhara a entrada para o Fest Verão — a festa que estavam indo. Um dos amigos de Guilherme adoecera e não poderia mais ir, mas como já tinha comprado o ingresso, não queria perdê-lo. A ideia inicial era vendê-lo, mas Mariana conseguira ganhá-lo jogando seu charme para os amigos do primo. Agora sim, essa havia sido a melhor parte daquela viagem.
Passada a tenda eletrônica, eles caminharam em direção ao palco principal, onde uma banda que ela não sabia o nome estava tocando (Iriam tocar naquela noite Jorge & Mateus, Gabriel Diniz, Oito7Nove4 e Dorgival Dantas. Mas ela não tinha de quem estava se apresentando no momento). Conforme iam andando, a multidão se tornava maior, e a locomoção, mais difícil. Conversar era impossível, a não ser que quisesse ficar muito próxima de Guilherme, coisa que não queria, por isso preferia manter-se calada. Ela também já não podia mais evitar as poças, e os pés de sua calça jeans skinny deveriam estar imundos. Paciência!
Quando eles estavam no meio da arena, os olhos da garota encontram o garoto da casa ao lado; aquele que ela tão desavergonhadamente ficara observando. Mesmo que estivessem rodeados de pessoas, eles conseguiram fixar os olhos um no outro. Mariana sentiu um rebuliço na barriga.
— Mariana? – Seu braço foi puxado. – Mariana?! – A voz de Guilherme conseguiu se sobressair acima da barulheira.
— Oi? – Ela virou-se para encará-lo.
— Você parou de repente – ele abaixou-se para falar. – Quer ficar perto do trio?
A garota balançou a cabeça, negando. Ainda tentou encontrar o garoto no meio daquele mar de corpos, mas não conseguiu mais.
Eles mal deram alguns passos antes de pararem abruptamente. Aquilo que ouviram certamente não era...
E o som inconfundível de tiro foi ouvido novamente.
As pessoas que estavam mais perto de onde foi feito o disparo começaram a gritar e correr, chamando a atenção das outras. Logo a arena estava um alvoroço só.
Guilherme puxou o braço da prima e eles também começaram a correr em direção à saída de emergência mais próxima. Sorte que não haviam ido muito longe ainda. Enquanto esperavam para passar por uma saída que havia entre duas lanchonetes mais um disparo foi ouvido.
Quando, enfim, estavam fora do lugar começaram a acenar para que algum táxi parasse. Mariana estava um pouco sem fôlego, e apoiava as mãos nos joelhos. Que noite louca fora aquela?
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