Brasileiríssima
5 Capítulo 5
Vinte e dois dias. Mariana Silva estava no Brasil há vinte e dois dias, graças aos ferimentos que ganhara ao jogar-se de um carro em movimento e pelo tiro que levara. Por sorte, a bala que fora disparada em sua direção a atingira apenas de raspão na perna, não causando lesões sérias. Ela ficara dois dias no hospital, em observação, pois também havia batido a cabeça no chão, e fora isto que causara seu desmaio. Mas, como o próprio primo Guilherme dissera na noite do Fest Verão, Mariana era sortuda, e ela não apresentou nenhum sintoma preocupante, e fora liberada para se recuperar em casa.
Quanto aos mafiosos? Bem, um deles foi morto no confronto com a polícia naquela noite, e os outros dois foram presos e mantidos na Superintendência Regional da Polícia Federal até serem enviados de volta para a Itália, onde se esperava prender os outros membros. Mariana adorara a Interpol!
Sua mãe viera para a Brasil assim que fora informada do que acontecera, chegando quando a garota ainda estava no hospital. Ela se desculpara milhares de vezes por tê-la envolvido nisso. Como se a culpa fosse dela! Mariana ainda estava muito decepcionada com o pai. Saber a verdade manchou a imagem que tinha dele, o que a magoou muito .
Assim que voltou para a casa da tia, Mariana pediu desculpas pelo modo como se comportara com ela na noite em que lhe contara a verdade sobre o que estava acontecendo, e também agradeceu por ter colocado o celular em seu bolso, já que foi através do rastreador dele que a polícia conseguiu sua localização para armar a emboscada e salvá-la. Mariana devia sua vida a tia, ela sabia disso. Se as coisas tivessem acontecido de modo diferente, ela podia estar morta agora.
***
— Nem acredito que você quis vir para a praia por iniciativa própria! – Guilherme comentou, ao sentar-se em uma das cadeiras embaixo do guarda-sol.
Esticando as pernas e mexendo os dedos contra a areia úmida da praia, Mariana sentiu uma sensação de paz envolvê-la. Ela estava viva, segura, e sua mãe também. Ela só tinha o que agradecer. Então, que melhor forma do que prestigiando um dos paraísos na terra, que Deus deixou para seus filhos? Mariana não iria se prender mais a convenções, a medos idiotas; iria aproveitar a vida, apreciando cada momento, pois nunca se sabia o que poderia acontecer. Ela estivera muito próxima da morte, e podia afirmar isso. A Mariana que chegara ali não existia mais. Em seu lugar havia uma garota melhor, e ela estava grata que esta viagem tivesse proporcionado isso, mesmo com tudo que ocorrera.
— Por que não, Guilherme? – Questionou, colocando os óculos de sol sobre a cabeça. – Eu não sou mais aquela garota cheia de frescuras que chegou aqui.
— Também, depois de tudo o que aconteceu, me espantaria se fosse.
— Besta – ela deu um tapa em seu ombro.
— Ouch— ele resmungou, rindo. – Também não precisa partir para a violência, menina!
— Então pare de fazer seus comentários idiotas. – Suspirando, ela encarou as pessoas se divertindo, contemplando o quanto estivera errada quando não dera o devido valor à praia. – Nem acredito que vou embora amanhã.
— Então não vá – pediu ele. – Fique. Você e tia Helena estão se dando tão bem na cidade, por que não voltar a morar aqui? Você quase não tem mais sotaque!
Mariana sorriu, a ideia realmente a agradava. Quem diria?
— Vou conversar com a mamãe, talvez ela reconsidere. Mas você sabe que, mesmo que eu vá mesmo amanhã, virei aqui nas férias, certo? Em todas, prometo! Vou até praticar com mais afinco o português, para perder o sotaque totalmente.
— Que bom que finalmente aceitou que é brasileira!
— É claro que aceitei. Eu sou brasileira. Aliás, brasileiríssima! – Levantando-se da cadeira, desamarrou a canga que estava em sua cintura. Sim, Mariana Silva, a garota que não gostava de mostrar o corpo, estava usando um biquíni – um biquíni lindo, azul marinho, que destacava o tom claro de sua pele. — Agora vamos, quero entrar na água!
— Como quiser, priminha – Guilherme riu, quando ela o empurrou, de brincadeira. Ele adorava irritar aquela menina. Essas férias, com certeza, foram muito interessantes. As mais loucas da vida dele, e tinha plena convicção que da dela também. Mas algo de bom havia surgido de tudo isso: a amizade entre eles.
Os dois correram para o mar, sob o sol forte de verão, ainda rindo. Mariana sabia que adoraria poder morar ali, mas, se não fosse o caso, ela voltaria em todas as oportunidades que tivesse. Além de ter se apaixonado pela cidade, a garota gostaria de ver como as coisas progrediriam com Ricardo. Ele fora tão atencioso durante a recuperação dela! Visitava-a todos os dias, levava bombons e chocolates, e tinha muita coisa em comum com a garota, como a paixão por filmes de comédia.
Ah, sim, Mariana realmente descobrira como era bom ser brasileira, brasileiríssima!
Fale com o autor