Born to Die (Hiatus)
5 Capítulo 5
Notas iniciais
P.O.V. Elara
*1 mês depois*
Graças a alguma força do além, não briguei mais com os meninos. Não sei como não ficaram putos da vida comigo por tê-los embebedado sem um motivo aparente. Na realidade, não os encontrei mais com eles, mas Aurora falava regularmente com todos por telefone. No momento, estavam no Japão em turnê, fazendo com que eu e minha irmã não tivéssemos muita função na Big Hit.
Era uma tarde aleatória e eu apenas mexia no celular sem um objetivo claro. Aurora estava rodopiando e murmurando uma música qualquer quando deu um tapa em minha testa como se quisesse me lembrar de algo.
—- Que foi porra? Não vê eu estou ocupada fazendo nada aqui? – Murmurei.
—- Vamos lá no último andar? Por favoooooor! Eu quero ouvir você cantar!
—- Só quando um unicórnio vomitar arco-íris no seu cu eu canto de novo, principalmente aqui.
—- Tá, mas vamos lá em cima. Quero ouvir alguma coisa que você for tocar, não importa o que seja.
Bufei e me levantei do chão.
—- Tenha certeza de que não vou ficar só tocando piano e coisas fofinhas, ok? Se acha isso vai tomar no cu. – Resmunguei enquanto caminhava em direção ao elevador.
—- Pelo amor de Deus, Elara! Quer falar menos palavrão?
—- Não.
Chegando ao último andar, fiquei perambulando entre os instrumentos até achar um piano de cauda branco, que lembrava o piano da academia onde eu e minha irmã estudávamos. Me sentei no banquinho e suspirei.
Minha irmã, se sentou no chão ao meu lado.
Fiquei alguns segundos encarando as teclas pensando no que iria tocar. No fim decido tocar “Für Elise”, uma das músicas que eu mais gosto de tocar no piano e que sei a partitura de cor.
“ Era tarde da noite e a nevasca assolava Moscou. Estava sentada em frente ao piano negro do anfiteatro da Academia, tocando Für Elise novamente, enquanto minha irmã deslizava pelo palco como uma pluma, sob o olhar atento de nossa mãe. Adoraria ter aquela leveza que apenas bailarinas conseguem ter. Alternava meu olhar entre a partitura e minha irmã, temendo que ela errasse algum passo.
Dito e feito: um simples movimento errado de braço despertou a fúria da vadia que éramos obrigadas a chamar de ‘mãe’, a levando a subir no palco enfurecida e começar a distribuir tapas no corpo frágil e excessivamente magro de minha gêmea até ela cair no chão sem forças, recebendo ofensas verbais e chutes pelo corpo. Parei no mesmo instante de tocar, correndo para acudir minha irmã já desmaiada no chão. Me joguei entre Aurora e nossa progenitora para proteger o já esfolado corpo dela.
Sentia as lágrimas molhando meu rosto enquanto apanhava junto. Depois de mais alguns minutos ela parou e me pegou pelos cabelos me arrastando para a frente do piano enquanto gritava de dor. Sentia o sangue saindo do meu couro cabeludo, além de meu nariz estar sangrando e sentir o metálico gosto de sangue na boca. Me sentei no banco temendo mais agressões e fiquei esperando as instruções de minha mãe. A cada dia que se passa, sinto mais nojo de ter saído do ventre dela.
—- Volte a tocar. – Neguei veemente, afinal não queria manchar as teclas daquele belo instrumento com meu sangue ou minhas lágrimas.
—- Por favor mamãe, me deixe ao menos cuidar dos ferimentos de Aurora! – Cada vez que uma lágrima entrava em contado com uma das inúmeras feridas abertas, era como se estivessem passando brasa pela minha pele.
—- Não! E comece a tocar se não quiser que eu entregue sua irmã a Nikolai, quer? – Neguei desesperada. Nikolai era o porco que chamam de diretor dessa academia que assediava minha irmã e a mim desde a infância, chegando a tentar abusar de Aurora enquanto a mesma ensaiava. Tive muita sorte de chegar a tempo, antes que algo irreparável acontecesse.
Suspirei me dando por vencida e recomeçando a tocar, agora a 5ª sinfonia de Beethoven. Não ousava tirar os olhos do piano, com medo de errar. Meus dedos longos, magros e pálidos deslizavam com uma naturalidade impressionante pelas teclas. Minha vontade no momento era correr e me trancar no meu quarto na casa de minha doce e querida avó. Ela era, provavelmente, a única pessoa que realmente se preocupava comigo e com minha gêmea.
Cerca de meia hora depois, finalmente pude socorrer minha irmã, que ainda se encontrava no chão, porém consciente. A ajudei a levantar, tamanha era sua fraqueza que não suportava o próprio peso sobre as pernas. Nossa mãe, não tinha ideia de onde havia ido depois que acabei de tocar.
Cuidei dos cortes e machucados mais graves de Aurora. Pegamos nossos casacos e saímos na noite fria. Caminhamos com grande esforço até a casa de nossa avó, que ficava um pouco longe. Bati na porta, sem forças. Instantes depois uma senhora de baixa estatura a atendeu e nos olhou com tristeza. Ela era a única que nos cuidava, nos alimentava, desde que me entendo por gente.
Depositei cuidadosamente minha irmã em sua cama. Ela chorava de frustação, como se estivesse se culpando pelo que aconteceu. Nossa avó voltou com os remédios e curativos. Procurei por que fizesse Aurora dormir. Quando o achei, lhe dei, sabendo que ela não iria discutir, mesmo não sabendo o que era.
Horas depois, ainda rolava entre meus cobertores. Simplesmente não conseguia dormir, porque assim que eu fechava os olhos, voltava a um sonho estranho. Nele, eu simplesmente caminhava sem rumo por um corredor branco. Sentia alguém me seguir, mas sempre que virava a cabeça, apenas conseguia cabelos longos e negros como a noite, fazendo um maravilhoso contraste com a brancura daquele lugar. Aquela coisa se movia cada vez mais rápido na direção oposta à minha, como se quisesse fugir da minha presença. Eu andava tão distraída com o que acontecia as minhas costas, que não reparei no abismo a minha frente. Assim que acordei senti mãos envolta de meu pescoço. ”
Lembrar disso fez um arrepio passar por minha espinha. Parei de tocar no mesmo instante, olhando automaticamente para minha irmã, me certificando que ela estava bem. Cada música que diferente desencadeava uma lembrança diferente. Em cada ensaio forçado, uma nova cicatriz, uma nova mágoa, uma nova lembrança que dificilmente seria apagada. Um medo bobo, mas real: temia que as lembranças amargas voltassem a acontecer, dessa vez com as ameaças se tornado uma bruta realidade.
Naquela época havíamos completados a pouco tempo 14 anos. Aurora, ao reparar que a música havia parado, se levanta, com sua expressão facial vazia.
Me levanto bruscamente do banquinho. Saio a procura de um café com as mãos tremulas. Ando apressada e passo alguém, não dando muita atenção. Quando finalmente acho a merda da cafeteira, suspiro aliviada.
“Por volta das cinco da manhã, acordo e na ponta dos pés, vou até a cozinha. Pego o bolinho que havia deixado preparado na noite anterior e coloco uma pequena vela em cima. A acendo e vou até o quarto de Aurora. Me sento no chão próxima a sua cama e a sacudo levemente, a acordando. Ela abre os olhos lentamente e me encara confusa. Começo a cantar baixinho uma os parabéns e lhe abraço. Apagamos a única vela juntas e lhe entrego o pequeno bolinho, frustrada por não ter feito um bolo maior.
—- É seu aniversário também, Elara. Não fiz nada para você. – Ela sussurrou.
—- Não tem problema. Sabe que ambas somos acostumadas com isso. Só quis variar um pouco esse ano. – Disse dando de ombros como se não ligasse para esse fato. Mas eu ligava: a única coisa que queria era que nossa mãe notasse o quanto ela nos machucava sendo tão fria, em todos os sentidos.
Fiquei olhando os machucados espalhados pelo rosto e pescoço de minha gêmea. Geralmente ela quem saia mais machucada das agressões, o que fazia ter mais raiva ainda da nossa ‘mamãe’. Alisei seus cabelos longos e castanhos, sorrindo, querendo passar segurança a Aurora. Depois de alguns minutos, voltei ao meu quarto e me arrumei, logo indo à cozinha arrumar o café da manhã. Antes que passasse pela porta do cômodo, sinto meus cabelos serem puxados. Gritei de dor, até sentir a parede às minhas costas após um grande impacto.
Minha progenitora me encarava com raiva. Levei um soco no olho, ainda sem entender o motivo de tanta agressividade.
—- Porque você deu a merda um bolinho para sua irmã? – Gritou enraivecida.
—- É o nosso aniversário, mãe. Ela merece por todo o esforço que ela faz. – Sussurrei sabendo que ela ouviu.
Depois de minhas palavras levei um tapa na face.
—- NUNCA MAIS FAÇA ISSO, SUA VADIA! SE ISSO VOLTAR A ACONTECER PODE DIZER ADEUS A SUA QUERIDA IRMÃ! – Gritou me arrastando pelos cabelos, só parando quando chegou ao meu quarto, me jogando lá dentro e trancando a porta em seguida.
Gritei em desespero, com medo de ela se voltar contra Aurora por um erro meu. A dieta de minha irmã era muito rigorosa, assim como a minha. Nada que não passasse pela aprovação de nossa mãe era expressamente proibido.
Bati incansavelmente na porta, apenas ouvindo os gritos de Aurora no quarto ao lado. Chorava muito, até me encolher em um canto do quarto, abraçando os joelhos. Comecei a sussurrar músicas aleatórias em uma vã tentativa de me acalmar.
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Quando era por volta das três da manhã do outro dia, ouço minha porta ser destrancada lentamente. Me levanto assustada.
Aurora entra mancando, com um pequeno embrulho amassado nas mãos. O identifiquei na hora: era uma das típicas embalagens de presente brega que nossa avó comprava.
Abri um sorriso involuntário, indo ajudar minha gêmea a se sentar. Peguei o embrulho da sua mão e o abri na hora. Era um pequeno colar de ouro com uma pequena nota musical nele. Sorri, mas logo desmanchei o sorriso vendo o estado de Aurora.
Seus pequenos braços tinham marcas roxas e vermelhas, assim como nas pernas. Em seu pescoço havia o desenho perfeito dos finos dedos de nossa mãe. Havia sangue seco em vários cortes, espalhados pelo corpo.
Abracei Aurora chorando silenciosamente em seu ombro. ”
Me arrepiei lembrando daquele fato no nosso aniversário de 11 anos. Apesar de ter a delicadeza da bailarina que era, nossa mãe tinha a força de um elefante. Inconscientemente toquei o colar que ainda permanece em volta de meu pescoço.
Voltei para perto do piano com dois copos de café. Entreguei um a Aurora e me dirigi à uma das várias baterias que haviam por ali. A bateria é provavelmente o instrumento que eu mais gosto de tocar: coloco toda a minha força e raiva em tocar. A harmonia e importância de uma bateria em uma música me faz amar toca-la, afinal a bateria e o baixo fazem a base de boa parte das músicas.
Me sentei no banquinho e me ajeitei, pegando as baquetas e colocando os fones, selecionando Master of Puppets, do Metallica. Não era a música mais fácil de tocar na bateria, mas conseguia manter.
“—Errou de novo, Elara. – Falou mais uma vez Alec, meu namorado.
— Merda. – Sussurrei e recomecei a tocar. Sentia seu olhar em cima de mim, e sabia que estava gostando do que via. Com um cigarro entre os lábios, Alexander era provavelmente a criatura mais bonita que já havia cruzado meu caminho. Olhos azuis acinzentados, cabelos curtos e negros como a noite, alto e musculoso.
Com ele aprendi a tocar instrumentos que minha mãe abominava e a amar o Rock. Conclui aquela música, olhando em seus olhos, que sempre demostravam sinceridade e amor quando me olhava.
Me levantei, ainda usando sua camisa. Por mais que estivesse com um short por baixo, sua camisa de botões branca cobria ele. O abracei, me encostando em seu peitoral nu. O senti acariciando meus cabelos e abri um sorriso involuntário. Amava ele como eu nunca amei ninguém.
— Vamos lá, Lara. Vou te levar para casa. – Falou me afastando depois de alguns minutos naquela posição. Adorava o apelido que ele havia me dado. Fiquei na ponta dos pés, lhe dando um pequeno selinho.
Entrei em seu carro alguns minutos depois, devidamente arrumada. Ele, louco como sempre, corre pelas estradas cobertas pela neve incomum para a época do ano. Dava risada, como uma criança que acabou de ganhar um doce.
Quando o carro parou em frente à minha casa, me virei e o encontrei olhando para o nada, como se estivesse se lembrando de algo importante.
—- Vai logo, Lara. Falo com você depois. – Disse em um tom frio. Concordei, respeitando sua privacidade.
Sai do carro sem falar nada. Nunca entendi o motivo de ele ficar frio como gelo do nada. Mas, como eu não queria que ele se envolvesse nos meus assuntos, não me envolvia nos seus. Muitas vezes era ele quem cuidava de meus ferimentos, já que fazia medicina. Nunca me perguntou de onde vinham, simplesmente as tratava e me confortava em sua cama.
O conheci em um bar qualquer quando fui a São Petersburgo. No fim, apenas ficamos bêbados, eu voltei para Moscou e por dois meses não ouvi falar sobre o misterioso garoto dos olhos cinzentos, até que por alguma razão, ele aparece na Academia.
—- Não lembro de ter me fala que era bailarina, Lara. – Sussurrou em meu ouvido na tarde em que apareceu, me arrepiando por completo.
—- E não sou. – Respondi sem revelar mais nada.
—- Então o que faz aqui, na imponente Academia Estatal de Coreografia de Moscou? – Perguntou.
—- Sou uma das musicistas daqui. – Falei de modo simplório.
Ele levantou as sobrancelhas, impressionado. E realmente estava certo em ficar daquele jeito. Era muito difícil ver uma criança ou adolescente circulando por aqui se não fosse um bailarino, até porque minha aparência era semelhante: braços finos e delicados, dedos longos e magros, pernas longas e magras. Eu era magra por natureza, a única diferença entre eu e Aurora era o fato de ela ser uns oito centímetros mais alta do que eu.
—- Você me impressiona cada dia mais, Lara. – Sussurrou mais uma vez em meu ouvido. ”
E foi assim que começou mais uma típica e clichê história de amor. Na época em que o conheci tinha 15 anos e vivia entrando escondida em bares. Era divertido me passar por maior ou ter que molhar a mão do segurança. Ele, na época, tinha 23 anos, e apesar da diferença de idade, nunca tínhamos discussões sérias. A maioria era por que eu tinha a mania de roubar suas camisas.
Terminada uma sequência de músicas aleatórias na bateria, me deitei no chão, não ligando para o que pensariam.
Fiquei olhando para o teto e pensando nas minhas recordações em solo russo. A maioria eram repletas de dor e angústia, mas algumas se salvavam.
No fim, descobri o que Alexander tanto escondia de mim: o motivo de ele ter saído de São Petersburgo era que ele havia brigado com a namorada e havia ido a Moscou para resolver alguns assuntos. No fim, se transferiu para a faculdade de Moscou e ficou por ali. Mas no tempo em que nós supostamente “namoramos”, ele continuava com Katharine, sua real namorada. Descobri isso uma semana antes de vir para Seul, o que realmente me magoou, mas no fim foi bom: agora não existia absolutamente nada que me prendesse ao meu passado conturbado ou a alguém no freezer natural que chamam de Rússia.
No final, era apenas eu e Aurora, como sempre foi e sempre será.
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