Born For This
18 Underneath it all
Cap. 18 — Underneath it all
Scorpius,
Eu não quero dar uma de namorada grudenta, nem nada, mas é bom a gente ser ver o mais rápido possível nesse verão. Não quero que seja só quando as aulas começarem. Eu sei que sua família tem essa coisa de não se misturar com trouxas, mas eu prometo que Los Angeles vai ser incrível. Claro que não é incrível o fato de que o pai da Natalie será enterrado nesta manhã, ainda penso que ela sente pela morte dele apesar de tudo o que ele fez. Mas é exatamente por isso que Albus e eu vamos passar um tempo lá com ela. Para dar força a ela e tudo o mais. Natalie é forte por si mesma, mas ela precisa dos amigos para diverti-la. De qualquer forma, se você quiser passar alguns dias com a gente… vou deixar aqui o endereço da minha casa e nós podemos ir juntos, tudo bem? Sempre tive curiosidade de andar de avião... não vamos aparatar. Se não puder vir… me mande uma carta de qualquer maneira. Mas vou ficar esperando a melhor resposta!
Saudades!
Rose.
– Eu espero ter a chance de conhecê-la um dia– uma voz atrás de mim soou curiosa quando guardei a carta de Rose no bolso. Olhei para minha mãe, que recolocava um quadro esquisito na sua nova exposição. A loja estava pouco movimentada naquele dia, embora o Beco Diagonal estivesse lotado. Eu estava sentado atrás do balcão, sem fazer nada, esperando o tempo passar. E tentando encontrar uma forma de dizer a minha mãe que eu estava querendo sair do país nesse verão, para ficar com meus amigosde verdade.– Eu prometo não te deixar constrangido. Não vou falar de quando você tinha dois anos e não queria me deixar trocar a sua roupa, você ficava correndo pelado pela mansão, gritando “vovô, vovô” com aquela coisinha pequena balançando entre as pernas e…
– Rose ia adorar ouvir isso da senhora– eu comentei, enquanto ela dava risada. Estava de bom humor.
– Estou brincando. Você nunca fez isso. Você era um bebê muito sério na sua idade. Difícil era te fazer dar alguma risada… e agora ri sozinho só porque está lendo a carta de uma namorada. Sorte a dela que eu não sou uma mãe ciumenta.
– E o que você iria fazer se fosse ciumenta?
– Eu ia perguntar qual era as intenções que ela tinha com o meu filho.
– Está sendo sarcástica de novo, mãe.
– Claro que estou. Sou a mãe sarcástica, não ciumenta. Como eu disse, sorte a dela. – Ela fez uma pausa, como se tivesse lhe ocorrido agora uma boa pergunta. – Scorpius, a família dela sabe sobre isso?
Fiz que sim.
– Até conversei com o sr. Weasley. Não acho que eu tenha tanta sorte assim, ele é do tipo… protetor, sabe?
– Eu nunca vou entender isso. Mas se você não trocou de namorada, é porque…
– Eu gosto dela.
– Eu ia dizer que era porque você se mostrou confiável a um Weasley. Mas o seu motivo aí é bem importante também. Ajuda a manter um relacionamento. Bem, meu querido, agora vou sair e preciso que você tome conta da loja. Eu disse paratomar contada loja e nãocochilar.
– Está bem, mãe. Nem estou com sono agora.
Ela pegou a bolsa em cima do balcão de vidro e me lançou um olhar de que agora ela estava falando sério. Quando saiu, fiquei dois minutos ali sentado observando os quadros. Eram muitos. Alguns até angustiantes e que chamavam a atenção. Obriguei-me a levantar porque quis observar um de perto. Quando consegui tirar alguma conclusão daquela pintura estranha, uma voz muito conhecida perguntou ao meu lado:
– Sua mãe pintou todos eles?
Olhei para Rose, que virava os olhos na direção dos quadros da exposição. Eu não esperava sua visita naquele dia. Ela era sempre uma surpresa agradável.
– Ela pintou os que você não consegue entender – contei.
– Uau – pregou os olhos no quadro de uma paisagem maravilhosa, perto de nós. Era o quadro mais bonito da exposição, perfeito e com todas as medidas certas. Não havia o que criticar, a não ser ficar de boca aberta durante alguns segundos. – Esse aqui parece até fotografia.
– É da minha tia, mãe de Dimitre.
– As duas têm estilos muito diferentes. Mas são igualmente talentosas.
– É o que dizem. Mas uma coisa que elas nunca repararam… e queeureparo quando vejo os quadros dela. Olha – eu indiquei o quadro de Dafne com o dedo, direcionando a visão para a assinatura dela. Rose espreitou. Era uma caligrafia itálica, bonita e clara: Dafne Greengrass. Em comparação, mostrei a assinatura da minha mãe de um de seus quadros. Era uma caligrafia itálica, bonita e clara: Astoria Greengrass.
– São parecidas – exclamou Rose, virando-se para mim bastante impressionada. – Scorpius, você é um bom observador.
– Agora sou – me aproximei para segurá-la. Automaticamente, os braços delas se enrolaram no meu pescoço. Ela sorriu. – E o que está fazendo aqui, Rosie? Achei que só iríamos nos ver daqui vários dias.
– Minha família tem uma loja gigante, lembra? E precisa de muita ajuda porque hoje lá está cheio. Agora estou tirando um tempo de folga. Resolvi ver se você estaria aqui. E você está. – Ela olhou ao redor e franziu a testa. – Você está sozinho aqui.
– Uhum – inclinei meu rosto e a beijei nos lábios. – Nós estamos sozinhos. Você sabe o que isso significa, imagino. – Beijei outra vez. Rose segurou meu rosto, a boca esticada em um sorriso, enquanto tentava se afastar.
– É a loja da sua mãe, maluco.
Eu comecei a rir, agarrando sua cintura e a puxando de novo para mim. Ela não conseguia ficar muito tempo sem resistir. Sussurrei no seu ouvido:
– Agora você se importa onde estamos, não é? Mas quando fizemos na biblioteca de Hogw...
– Scorpius! – depois de me dar um tapa no braço, ela disse baixinho: – O que falamos sobre nunca comentarmosdaquelavez?
– Você se sente ruim por pensar que nem se arrependeu! Eu entendo. Mas não tem como não lembrar, ainda espero você ficar louca de novo e me deixar-
– E vocêsópensa nisso?
– Não – suspirei. – Eutambémpenso que quero só beijar você agora. Sério, Rose. Parece que não nos vemos há meses.
– Hum, a gente saiu de férias semana passada.
– Viu? Eu estou mesmo maluco para te beijar.
Ela me beijou com vontade depois que eu disse aquilo. Eu já conhecia seus melhores segredos, o que a deixava satisfeita com apenas nossas línguas se tocando. Deixou-me quente, de uma forma natural. Eu afoguei meus dedos em seus cachos, soltando-os do coque frouxo que ela deixava às vezes. A intensidade foi diminuindo, mas não quis parar tão rápido. Instiguei a mais alguns segundos no beijo. Finalmente, quando íamos nos soltar, acabamos sendo interrompidos com o som da porta de entrada se abrindo.
Não era a minha mãe, pois ela constatou que ia demorar um pouco. E também não era nenhum freguês ou alguém que gostaria de observar os quadros. Era meu pai.
Meu pai provavelmente voltava de Gringotes e me lembrei que no horário de almoço ele passava na loja para levar minha mãe ao restaurante do meu tio Frank. Estávamos em horário de almoço.
Ele passou por nós dois, depois de se recuperar da surpresa de me ver ali beijando uma garota no meio da loja, e disse:
– Não precisavam parar por minha causa.
Quando ficou a nossa frente, Rose foi a primeira a fazer algum movimento, pois estendeu sua mão dizendo educadamente:
– Como vai, sr. Malfoy?
Ele olhou para a mão de Rose e por dois temerosos segundos achei que ele ia ser escroto e ignorá-la, mas por fim a apertou e disse:
– Muito bem. E a senhorita deve ser...?
Como assim ele não reconhecia quem ela era?
Rose piscou e disse hesitante:
– Sou Rose. Weasley. Rose Weasley. Pensei que Scorpius já tivesse…
– Estamos namorando – eu disse rapidamente a ele. Era a primeira vez que ele sabia disso. Olhou para nós dois com as sobrancelhas erguidas.
– Namorando? O que houve com a outra namorada que você tinha?
– Amber está grávida de Dimitre – respondi.
– Não. A outra. Aquela que você disse que estava namorando depois da srta. Davis.
Antes que eu apontasse que o tempo todo foi Rose, por algum motivo,elame olhou estupefata:
– Seu pai está sabendo disso sóagora?
– Claramente estou sabendo disso só agora – ele respondeu.
Calma. Espera. Os dois estavam me olhando de um jeito que parecia me condenar por um crime que eudemoreia contar que cometi. Gaguejei alguma coisa, pateticamente, e Rose soou chateada quando disse:
– Você disse que tinha contado, Scorpius. Por issoeucontei para os meus. Minha família inteira está sabendo disso, e você nem abriu a boca para contar ao seu pai?
– Minha mãe está sabendo – falei, olhando para os dois alternadamente, como se isso fosse ajudar para o meu lado. Mas acho que só deixou meu pai mais irritado.
–Astoriaestá sabendo? E ela não me contou esse tempo todo?
– Eu sei que eu devia ter contado essa grande novidade para o senhor, pai.
– Devia – meu pai e Rose disseram em uníssono.
– Mas vejam! Claramente já estão se dando bem – eu comentei, rindo nervosamente. – Concordando com várias coisas, não é? Por que não vamos todos almoçar. Tenho certeza que podemos nos conhecer muito melhor.
Por que você não cala a boca, Scorpius?
Rose se afastou e abanou a cabeça.
– Vou voltar para a logros. Até mais, Scorpius.
Ela saiu da loja, envergonhada. Quando encarei meu pai, pensei que eu precisava me explicar melhor. Em vez disso, então, corri atrás de Rose. Na calçada, segurei o braço dela para fazê-la me encarar.
– Olha, foi mal. Eu não devia mesmo ter esperado ele ver a gente se agarrando para eu ter coragem de contar a ele, mas não fique emburrada por isso. Euiacontar.
– Eu não estou emburrada. É que você mentiu a mim. Você disse que seus pais sabiam que você estava namorando!
– E eu realmente disse a eles que eu estava namorando. Só não dissequemeu estava namorando. Não faria diferença para ele!
– Fez agora! Viu como ele olhou para mim? Não era assim que eu esperava poder conhecer seus pais. Olha, não precisamos discutir só por isso, e agora não é comigo que você tem que conversar. Seu pai obviamente quer entender como isso está acontecendo. É melhor você dizer a ele.
– Eu vou conversar.
– Ótimo. Você não sabe o quanto éembaraçoso...
– Eu sei, eu sei. Eu fui um covarde.
– Foi mesmo.
– Acho que eu estava confuso demais no começo. Você era como uma melhor amiga, e de repente eu estava vendo você de um jeito que eu não devia ver. Eu achava que se eu tivesse que contar a ele, eu teria que contar como isso aconteceu, e não faço a mínima idéia. Você não devia ter me beijado primeiro naquele dia!
– É claro que devia! É isso o que nós dois queremos – ela disse. – E nada que nossos pais disserem vai mudar isso. Eles não precisam ser um obstáculo no nosso relacionamento. Já tem muita garota olhando para você aqui.
A voz dela ficava diferente, um pouco fina demais, quando ela demonstrava seus ciúmes com palavras. Ela até se aproximava um pouco mais de mim, segurando minha blusa, como se isso fosse mostrar as garotas que passavam pela rua, que eu era o idiota do namorado dela e que ninguém ia tirá-lo dela assim tão fácil.
Não pude deixar de sorrir quando ela disse isso.
– E você acha que você é invisível, Weasley?
Rose suspirou.
– Só converse com seu pai, está bem? Ele não deve ter tido uma imagem muito boa de mim agora.
– Eu vou – falei de novo. – Ele vai ver, assim como eu, que você vale à pena.
Dei-lhe um rápido e último beijo. Quando girou os calcanhares e já estava andando novamente para o seu caminho, eu a chamei de novo. Virou-se para mim. Então garanti:
– Estarei lá. – Pela expressão de Rose, achei que eu precisaria ser mais específico: – Los Angeles vai ser incrível, amor.
Ela sorriu, mostrando seus dentes. E foi aquele sorriso dela que me deu convicção para voltar à loja e conversar melhor com meu pai sobre o que escondi dele nesses últimos tempos. Estava com a postura preparada para enfrentar qualquer discussão, mas assim que nos encaramos novamente, meu pai impediu que eu começasse a dizer qualquer coisa:
– Chega. Não tente falar nada, Scorpius, pois eu sei o que você vai dizer. Vai dizer que você não se importa com o que eu penso sobre isso. E você está certo. Não deve se importar com o que eu penso, eu só estou irritado que você e sua mãe esconderam isso de mim. E você realmente foi um bom filho por nunca ouvir as coisas que falo sobre aqueles Weasley. Eu provavelmente já disse isso uma vez, mas se for preciso, estou dizendo de novo. Eu não criei você para torná-lo o que eu sou. Eu o criei porque quero que seja melhor do que eu. E você é. O que devo fazer é ficar satisfeito que a família dela sabe disso, e permite que vocês dois fiquem se agarrando por aí.
Eu nunca iria esquecer nenhuma daquelas palavras dele.
– Ótimo, pai – falei com a voz baixa, sentindo-me de um certo modo bastante revigorado. Eu não devia mesmo ter demorado tanto para contar aquilo a ele. – Então... – pigarreei – o pai de uma amiga minha faleceu e nós vamos passar uma semana com ela, em Los Angeles.
– Los Angeles?
– Só estou dizendo.
– Você vai passar uma semana em Los Angeles com seus amigos?
– E com a minha namorada.
– Sua mãe está sabendo disso?
– Não – respondi lentamente.
– Ótimo. Estamos empatados então.
– E só para o senhor não se preocupar, vamos ficar apenas na casa dela, não vamos nos misturar com trouxas nem nada.
– Claro que está mentindo para mim, mas vou fazer de conta que estou acreditando em você.
– É isso o que os melhores pais fazem – comentei.
– Eu me esforço – abriu o canto dos lábios, querendo esconder o fato de que queria sorrir.
Minhas malas já estavam prontas naquela sexta-feira. Estava planejando encontrar o endereço da casa de Rose no final da tarde, e quando verifiquei meu relógio, os ponteiros indicavam que eram cinco horas. Minha mãe estava com visita na mansão, pois ouvi a voz dela e de outra mulher. Mesmo assim, tive que descer já que precisava avisar e me despedir.
No entanto, quando vi que a visita era minha tia Dafne, hesitei em me aproximar e acabei ouvindo um soluço muito forte vindo dela. Observei minha mãe lhe entregar uma xícara de chá – ou calmante – porque Dafne estava muito desesperada com alguma coisa.
– Eu vi nos olhos dele, Astoria – dizia. – Eu vi que ele não quer mais olhar para minha cara. Ele está... muito decepcionado. Não triste, mas decepcionado.
– Você contou a verdade, você fez uma coisa certa. Não podia mesmo deixar o garoto ficar angustiado pormaistempo, principalmente agora que ele será... pai.
– Dimitre é tão jovem. E não merecia uma mãe como eu.
– Não diga isso.
– Mas é verdade. Ele nunca vai me perdoar por ter... por ter deixado a morte de Markus acontecer.
O quê?
Minha mãe não parecia abismada.
– Dafne, você realmentecontoua ele que não tinha outra escolha?
Ela tomou um grande gole de chá e fez que sim.
– Mas conhece seu sobrinho, não é? Sabe que ele gosta de tirar suas próprias conclusões.
– Ele vai observar que... que era preciso. Algum dia, talvez.
– Ele fugiu de mim, Astoria, e nem faço idéia de onde ele está. Ele acha que pode construir uma família agora, longe de mim e de Leon. Mas ele não pode, ele vai descobrir que não é fácil!
– Deixe-o que descubra sozinho então. De um jeito ou de outro, ele irá descobrir. Irá voltar a pedir sua ajuda.
– Não tenho tanta certeza agora.
– Você só está nervosa. Beba mais um pouco do chá.
– Não, obrigada, está horrível – disse com sua gentileza fria. – Você sempre foi péssima com chás, Astoria. Não sei nem porque ainda tenta.
Minha mãe pegou a xícara de volta.
– Não há de quê – pigarreou.
– De qualquer forma, eu preciso perguntar a Scorpius se ele sabe de alguma coisa. Ele está?
– Pois aproveite. Ele estava ouvindo, de uma forma não muito elegante, nosso último diálogo.
– Desculpe – falei depressa, aproximando-me. – Eu estava descendo as escadas...
Dafne levantou bruscamente do sofá e num sobressaltou ela agarrou meus ombros. Meio que me chacoalhou quando perguntou:
– Onde está meu filho? Você sabe de alguma coisa? Ele disse alguma coisa?
– A última vez que o vi foi em Hogwarts.
– O que diabos ele estava fazendo em Hogwarts?
– Visitando Amber Davis? Achei que soubesse, ele mesmo disse que a senhora deu a ele dinheiro para a viagem.
– Eu nunca dei a ele nenhum dinheiro. Eu nem sabia que ele engravidou uma garota se Astoria não tivesse me contado, eu nem sabia que ele não estava mais estudando se o diretor da Durmstrang não tivesse me mandado uma carta queixando-se da sua ausência nos últimos meses!
– Ele mentiu a Amber que você estava sabendo. Não sei se ele mentiu sobre o apartamento.
– Que apartamento? Diga-me, Scorpius!
– Eu não sei. Eu só sei que ele deu o endereço do apartamento para Amber.
– E onde essa garota está agora? Morando com ele?
– Eu não sei! Em uma cidade trouxa, onde abrigam mães solteiras e abandonadas. Eu realmente não sei. Não recebo nenhuma notícia deles desde o final das aulas.
Dafne encarou minha mãe, que também parecia aflita. Por fim, ela pegou sua bolsa no sofá e disse algo sobre “tenho que encontrá-lo”, antes de se dirigir até a porta de entrada e sair da mansão, deixando minha mãe e a mim num silêncio estranho ali na sala.
– Mãe? É verdade? Dafne é responsável pela morte do pai de Dimitre?
Ela suspirou e sentou-se novamente no sofá, colocando a mão no rosto, como se estivesse com dor de cabeça.
– É complicado, filho.
– O quanto é complicado?
– O máximo para Dimitre não entender. Nem você.
– A senhora não vai me contar, não é?
– Sente aqui – ela apalpou um lugar ao seu lado no sofá e ocupei o lugar, olhando para ela. – Sua tia e eu, você sabe, nunca fomos melhores irmãs uma com a outra. Mas agora ela está confiando em mim um segredo. Não é que eu não confie em você, eu apenas quero continuar tendo a confiança de Dafne. Ela não viria até aqui para tentar se acalmar, se certas coisas não tivessem acontecido. Mas não se preocupe... uma coisa eu posso dizer. Sobre Markus? Não foi um assassinato. Foi um sacrifício, e não apenas pela parte de Dafne.
Eu não ia insistir por mais informações, mas fiquei feliz que ela tivesse me tranqüilizado quanto a isso. Não havia assassinos em minha família. Eu confiava que minha mãe estivesse certa disso. Olhei para meus dedos e falei:
– Dimitre disse a Amber que não vai fugir como o pai dele fez.
– Ele disse?
– Parecia bastante decidido quando o vi. Talvez ele só esteja zangado com Dafne agora, mas provavelmente vai dar alguma notícia a ela logo.
– É o que eu espero. Aliás... – ela olhou para as minhas malas. – Onde o senhor pensa que está indo?
– Para a casa de Rose – eu disse. – Vou para Los Angeles. Achei que meu pai tivesse avisado a senhora.
– Ele não avisou.
– Provavelmente está fazendo vingança – girei os olhos.
– Ora, mas por quê?
– A senhora não contou a ele que estou namorando uma Weasley.
Ela franziu a testa e ia reclamar alguma coisa, mas parecia mais um peixe fora d’água. Quase dei risada.
– Ele não deve saber essas coisas da minha boca, deve? – perguntou.
– Pelo visto vocês dois não são de trocar informações sobre mim, ainda bem.
– Acho que não. Mas vamos começar a fazer isso de agora em diante! Vingança? Quantos anos ele tem,dez? Bem, de qualquer forma – levantou-se no mesmo instante que eu e me abraçou. – Divirta-se por lá.
– Valeu.
– E use camisinha, sou muito chata para ser avó.
Eu sorri e garanti que não haveria preocupações como essas. Carreguei minhas malas novamente, saindo em direção ao jardim e o portão perto da fonte desligada. Eu estava com intenção de aparatar, mas só era possível fazer isso assim que saísse dos perímetros da Mansão.
Caminhei por uma estrada de terra muito estreita, envoltas por arbustos e árvores. O lugar era em si escuro e ainda com o final da tarde, já parecia quase noite. Corujas começavam a piar. E eu não estava com medo, sério, mas provavelmente eu teria berrado de susto se a pessoa que me segurou não tivesse tampado a minha boca para me impedir disso.
Dimitre devia aprender a conversar com as pessoas de um jeito mais sutil, sinceramente. E não me jogar para trás de uma árvore como se estivesse me seqüestrando.
– Porra, o que está fazendo aqui? – perguntei quando me soltou.
– Achei que você iria berrar como uma garotinha.
– Sua mão estava tampando a minha boca. Se não eu teria realmente gritado como uma garotinha. De novo, o que está fazendo aqui?
– Eu preciso falar com você. É urgente.
– Por que você não foi me visitar antes?
– Minha mãe estava aqui.
– Desesperada, procurando por você enquantovocêestava aqui o tempotodo!
– Eu sei – ele apertou os olhos, como se estivesse arrependido de alguma coisa. Ou envergonhado. – Ela descobriu que vou ser pai, não descobriu?
– E o que eu tenho a ver com isso?
– Preciso de sua ajuda. Onde quer que você esteja indo, não pode ir mais.
– Uh, e por quê?
Ele parecia ofegante.
– Recebi uma mensagem da Amber ontem à noite. A coruja dela. – Ele agarrou meu colarinho. – Alguma coisa ruim aconteceu, eu sinto isso. Eu sinto que ela precisa de ajuda.
– Ela realmente precisa. E você também – arranquei os dedos dele da minha camisa.
– Não estou dizendo por causa do bebê. Na carta... ela apenas escreve um endereço. Um mensagem com as palavras “me ajude” escritas nela. Mas não sei como vou chegar até lá. Não sei nem que lugar é esse. Você é inteligente, você deve saber. Já ouviu falar desse lugar?
Dimitre tirou do bolso um pequeno papel rasgado e a letra de Amber mostrava um endereço completamente desconhecido para mim. Tive a impressão de que nem era do Reino Unido, mas não tirei as esperanças dele. Pois também tive a sensação de que havia alguém que saberia nos ajudar. E eu estava indo para a casa dela naquele instante.
– Nunca ouvi, mas sei quem pode ajudar. Só não reclame do caminho.
Ele estava sério quando disse:
– Uma coisa que aprendi na Durmstrang é a seguir regras. Só diga o que vamos fazer.
O primeiro passo foi agarrar o braço dele e ser submetido à desagradável sensação de aparatar.
Rose disse que o número da casa dela era 345, o que foi um alívio saber disso de cor porque quando caímos em uma rua vazia, com postes de luz acesas pelas calçadas, observei tantas casas que se eu tivesse que pedir informação, demoraria horas e horas. E se Amber estivesse tão desesperada a ponto de chamar por Dimitre através de uma pequena mensagem direta, não tínhamos muito tempo para ficar enrolando.
– Encontre a casa número 345 – pedi a ele.
– 345 – repetiu. Começamos a caminhar, olhando para os números das casas. – 342, 341...
– Achei – sorri dois minutos depois.
A casa, obviamente, era muito menor do que uma mansão, mas mesmo assim tinha um ambiente agradável. Havia anões de jardins e no meio da grama perfeitamente aparatada, delineava-se um caminho rápido até os degraus que levava para a varanda. Tive certeza que era a casa de Rose, porque havia uma placa perto da caixa de correio com as palavras: Residência dos Weasley. Fui o primeiro a atravessar o jardim e chegar à frente da porta. Dimitre ficou um pouco distraído com os anões, perguntando-se porque diabos eles estavam tão estáticos.
– São anões de argilas. Não são mágicos.
– Por que não me disse que estava me levando para a casa da sua namorada? – perguntou depois de ler a placa em voz alta.
– Não reclame do caminho.
– Tanto faz. Espero que saiba o que está fazendo.
– Foi você quem pediu minha ajuda.
– Sinto muito por querer passar bons tempos junto com meu primo preferido.
Eu o ignorei e bati na porta três vezes. Como ns primeiros segundos ninguém atendeu, Dimitre bateu mais dez vezes. Ele não teria parado se eu não tivesse socado o braço dele.
Torci para que o sr. Weasley não atendesse. E minha reza foi completamente atendida quando a porta se abriu, revelando uma mulher de cabelos castanhos escuros, presos em um laço frouxo. O rosto era educado e sutil, bondoso. Eu soube perfeitamente que eu estava à frente da mãe de Rose, porque a semelhança entre as duas, mesmo com a diferença de idade, era muito visível. O sorriso dela era muito parecido com o de Rose também.
Eu ia me apresentar, mas ela disse primeiro:
– Ora, Rose não me disse que você era tão pontual. Ela está saindo do banho agora...
– Eu espero – falei depressa. Rose disse para eu nunca insinuar a mãe dela que eu já a vi sem roupa. Nunca.
– Não aqui fora, eu acho – ela franziu a testa. – Podem entrar. – Nós dois passamos por ela e entramos na sala de estar. Havia fotografias e porta-retratos nas paredes e nas estantes. Era um lugar organizado e aconchegante, um ambiente muito familiar. Muito diferente da minha mansão. A sra. Weasley demorou o olhar em Dimitre, querendo entender. – E esse é...?
– Dimitre Greengrass – Dimitre se apresentou, apertando a mão dela rapidamente.
– Vai para Los Angeles também? Rose não me falou sobre você.
– Típico – ele riu. – Rose nunca fala. Especialmente porque não somos amigos. Eu não era muito legal com ela na escola.
– Huum – estava óbvio que ela não sabia o que dizer a Dimitre. Então em vez disso decidiu ser direta, indicando o sofá e um objeto que eu sabia ser a televisão, embora eu não tivesse entrado em contato com essas coisas trouxas durante a minha vida. Hugo Weasley estava esparramado no sofá que ficava em frente a televisão, olhando compenetrado para as imagens da tela, enquanto seus dedos apertavam severamente um tipo de controle nas mãos – Podem se sentar. Hugo, dê um espaço a eles. Vou dizer a Rose que vocês chegaram, está bem?
Sem olhar para nós, o garoto colocou as pernas sobre a cabeceira do sofá, realmente nos dando um espaço. Eu sentei-me ao seu lado, observando o controle da sua mão. Depois olhei para o que estava acontecendo nas imagens. Mortes, sangues e tiros para todos os lados.
– O que é isso? – perguntei.
– Video-game. Obviamente você nunca jogou.
– Não – concordei.
– É, não sabe o que é ter infância.
Ele apertou mais alguns botões rapidamente. Uma bomba explodiu no jogo. Hugo xingou.
– Desisto! Nunca consigo passar essa fase! Teddy conseguiu zerar o jogo cinco vezes, acredita? Ainda acho que ele confundiu o jogo com magia. É impossível sem trapacear. – Ele olhou para mim e ofereceu o controle. – Quer tentar? Não vai conseguir, mas... você está namorando minha irmã. Tem que ser um ninja para aguentar ela toda hora.
Parecia ser um desafio interessante. Peguei o controle e esperei até o jogo recomeçar. Enquanto isso, eu comentei:
– Sua irmã é legal.
– Espere até conhecer todas as manias irritantes que ela tem. Sabia que um dia ela pegou todas as toalhas de casa e as separou em cores? E ela ainda disse que só fez isso porque era divertido?
O jogo havia começado e eu estava tentando aprender a manusear o controle e entender como a coisa funcionava. Não parecia ser difícil se sua intenção era só atirar com a arma no inimigo. Enquanto isso, Hugo continuava falando de todas as manias de Rose. Ele era um tagarela, eu sabia, porque em Hogwarts, toda vez que você passava perto do grupo de amigos dele, era sempre ele que estava falando. Dimitre estava quieto sentado ao meu lado, um pouco impaciente com a demora. Mas teve um momento que o objetivo do jogo ficou tão interessante, que até Dimitre começou a me mandar fazer alguma coisa, mas era Hugo quem me dava indicações certas. Pareci ter feito algo espetacular porque Hugo gritou: “Como é que você fez isso?!” Mas não deu para prestar atenção depois, porque Rose desceu as escadas, com uma blusa de alça verde e calça jeans, os cabelos ruivos úmidos e soltos. Por que eu sentia essa coisa se mexer dentro de mim toda vez que a via?
Eu joguei o controle no colo de Hugo e me levantei.
– Eu achei que você ia demorar um pouco – ela sorriu e me beijou na frente da televisão.
– Ei, ei, saiam da frente – exclamou Hugo, fazendo gestos com a mão para nos espantar dali. Rose desenrolou o braço ao redor de mim, fechando a cara.
– Você ficou aí o dia inteiro – ela reclamou.
– É, mas papai não gosta de beijos aqui em casa, esqueceu?
Rose pegou minha mão e me afastou da sala. Longe o suficiente para perguntar:
– O que Dimitre está fazendo aqui?
– Essa é uma pergunta muito boa, Weasley – disse Dimitre se aproximando de nós dois. – Eu pedi ajuda ao meu primo e ele me trouxe aqui.
– Ajuda para o quê?
Pedi que Dimitre mostrasse a mensagem de Amber.
– Tem como saber onde esse lugar fica? – perguntou Dimitre, esperançoso. – Você é inteligente.
Rose analisou o endereço e suspirou.
– Eu nunca ouvi falar, mas... acho que podemos descobrir. Venham.
Nós seguimos ela pela escada, passando por sua mãe. Ela olhou estupefata enquanto dois garotos se dirigiam ao quarto de Rose. Era mesmo estranho, mas Rose explicou que nós apenas íamos fazer uma pesquisa. A sra. Weasley devia confiar mesmo em Rose para acreditar nessa verdade.
Quando entramos no quarto de Rose, a princípio eu achei que fosse uma biblioteca. A cama era a única coisa em comum que víamos em todos os quartos. As estantes de livros rodeavam todo o quarto, dando um ar bibliotecário para o aposento. Rose sentou em frente a uma máquina e eu sabia também que era um tipo de computador. Ela o ligou e começou a pressionar as teclas, escrevendo o endereço de Amber em uma linha branca da página.
– Pesquisa fácil. É só colocar no Google o endereço.
Deixamos ela fazer o que era preciso fazer. O importante seria receber uma resposta concreta. Enquanto ela pesquisava, Dimitre sentou ao seu lado, preocupado em entender algumas coisas. Eu fiquei observando as fotografias de quando ela era pequena. Ela usou aparelho nos dentes, mesmo assim nunca deixou de sorrir abertamente para as fotos. Tinha algumas, com seis anos, que ela estava sorrindo exageradamente. Sentei-me na sua cama e peguei um urso de pelúcia nas mãos.
– Ei, Rose, quem é esse?
Ela estava concentrada na pesquisa, mas quando olhou para mim e viu o que eu estava segurando, ela avançou com o braço na minha direção e arrancou o bicho de mim, como se quisesse escondê-lo. Ou protegê-lo. Foi difícil compreender.
– Opa – ela espreitou para a tela do computador, antes que eu começasse a zoar o fato de que ela tinha um ursinho de pelúcia.
– O quê? O que você descobriu? – Dimitre perguntou.
– Amber não está por perto. Aqui fala que é o endereço da Casa de Mães Adolescentes Solteiras.
– É em outro país? – perguntei.
Rose suspirou, soando muito surpresa e admirada.
– Seria muita coincidência se eu dissesse que esse endereço é de Los Angeles?
Nós nos entreolhamos. Dimitre não pareceu ter notado, mas uma coisa eu percebi naquele momento.
– Vamos ter que arranjar mais uma passagem para nossa incrível viagem, amor – Rose leu meus pensamentos. Ela olhou para Dimitre. – Isso sevocêquiser realmente tirar Amber de lá, Greengrass. E eu sugiro para sermos bem rápido, porque pelas fotos que eu estou vendo, a casa não parece ser um lugar muito aprimorado para alguém em uma gestação, principalmente alguém como Amber. Não me admira que ela esteja pedindo ajuda. Além disso, o local se encontra num dos bairros pobres da cidade. Como ela foi parar lá?!
Eu me aproximei da tela quando ela mostrou as fotos da casa. As imagens apenas mostravam a construção – que parecia um hotel quase caindo aos pedaços. Percebi na hora que aquele lugar era o tipo de lugar que Amber nunca visitaria, nunca moraria, nunca chegaria a ver nem sequer uma foto.
– Hanna quem deu a indicação do lugar – lembrei. – Agora tenho certeza de que nem ela sabia do que estava falando.
– Tem alguns comentários meio assustadores sobre o lugar. Vou ler um:Minha prima passou um tempo nesse lugar. As enfermeiras não ajudam e tem muito tiroteio no bairro e...
Rose preferiu parar de ler.
– Eu não tenho dinheiro para viajar – Dimitre contou. – Eu... quero dizer, só alguns galeões por um trabalho que fiz depois que saí da escola. Mas não sei se é o suficiente.
– Eu empresto – falei sem pensar. As fotos daquele lugar me deixaram preocupado. Não entendi por quê. Comecei a ter essa sensação de que talvez Dimitre estivesse certo. Talvez Amber estivesse sofrendo algum perigo lá. Porque se ela quisesse ter saído de lá... ela teria conseguido.
– Não vai sobrar nada e ainda vou ter que dever a você? É bom que a viagem valha à pena.
– É a mãe do seu filho, Dimitre – lembrou Rose baixinho. – Se a sua chance de ajudar é essa, não a perca assim.
– Rose tem razão – eu disse.
– Vocês vão me ajudar mesmo? Apesar de tudo o que fiz a vocês? Mesmo depois que fiz aquela montagem com a sua cara no corpo da goleira gostosa das Harpias, Weasley?
– Eu estava quase esquecendo isso – Rose suspirou, pacientemente.
– Mesmo eu tendo tirado sarro de vocês dois como Monitores? – ele se virou para mim. – Mesmo eu tendo engravidado a sua ex-namorada? Mesmo eu...
– Apesar de tudo, vamos ajudar – exclamou Rose antes que Dimitre começasse a nos lembrar das coisas que a gente quis muito esquecer por causa dele.
– Eu retiro tudo o que eu disse sobre vocês serem um casal idiota – ele falou. – Sério. Eu retiro tudo.
Eu dei um tapinha em suas costas, ironicamente. Rose olhou para o relógio da escrivaninha.
– Albus está chegando. Meu pai vai nos levar até o aeroporto. Iremos comprar uma rápida passagem para Dimitre, vou ligar a Natalie e avisar que já estamos indo. Está bem?
Nós assentimos.
E eu não sei como Rose conseguia tal façanha, mas qualquer planejamento que ela fazia, era realmente na ordem como ela dizia, sem imprevistos. Primeiro, Albus chegou com suas malas na casa de Rose, pronto para a viagem. Ficou bastante surpreso quando soube que Dimitre ia nos acompanhar, mas não interrogou muita coisa. O pai de Rose chegou do supermercado e, apesar de ter ficado muito estressado por ter vistotrêsgarotos na companhia da sua filha, ele mandou todo mundo entrar em seu carro. Chegamos ao aeroporto oito horas em ponto. Rose nos guiou para todos os cantos e eu não sabia que havia um lugar específico que convertia galeões por dinheiro trouxa, secretamente, se ela não tivesse nos levado até o tal bruxo. Depois de tudo isso, compramos uma passagem para Dimitre, que custou todo o seu dinheiro e mais uma metade do meu – mesmo assim, eu não sentiria falta. O sr. Weasley se despediu de nós, abraçou Rose e eu estava esperando algum sermão, mas ele apenas desejou que nós nos cuidássemos – e falou alguns números ou magias para caso tivéssemos alguma emergência. Por fim, enquanto esperávamos a chamada para o nosso vôo, Rose pegou um aparelho de sua bolsa e logo em seguida estava explicando a situação para Natalie, no outro lado da linha. Depois Albus quis falar um pouco com ela e quando desligaram, já podíamos entrar no avião.
Eu dormi durante o vôo e percebi que Rose ficou irritada com isso, porque eu acordei com um empurrão nada gentil no braço.
– Hum?
– Chegamos, e muito obrigada por ouvir minha história!
– Eu escutei ela! – menti com as melhores intenções.
Nós continuamos discutindo até o avião pousar e sairmos. Estávamos no Aeroporto Internacional de Los Angeles, um pouco perdidos e impressionados, com nossas malas em mãos e esperando encontrar uma garota morena e maluca no meio de tanta gente. Era mais lotado do que a estação King’s Cross no dia primeiro de setembro.
– É um pouco pequeno – comentou Albus, observando admirado. – Não é melhor ligar para Natalie? Não vai ser fácil encontrá-la.
Quando ele disse aquilo, um homem de terno preto e muito sofisticado estava se aproximando de nós. Ninguém ousou se mexer, mas Albus foi o primeiro a notar, cochichando:
– Alguém mais reparou que esse cara está vindo em nossa direção e ele tem uma arma no bolso esquerdo?
– Fiquem frios – Rose disse.
O homem era grandalhão e negro, segurando um aparelho muito semelhante a um celular, exceto que ao falar nele, colocava-o próximo a boca e não na orelha. Quando chegou, ele disse com uma voz grossa olhando para Rose:
– Rose Weasley?
– Sou eu – ela disse, dando um passo a frente. Muito legal. Eu, Dimitre e Albus parecemos muito patéticos, deixando que a única garota do grupo lidasse com o lutador ou quem quer que esse cara fosse.
– Acompanhem-me. A srta. Grace está esperando vocês na limusine.
Rose fez um gesto para que nós seguíssemos o homem.
– Você conhece esse cara? – perguntei.
– Só eu que ouvi que Natalie está nos esperando numa limusine? – Albus quis saber.
Quando saímos do Aeroporto e chegamos até o estacionamento, uma limusine preta estava estacionada na aérea espaçosa. Eu não iria acreditar que Natalia estaria lá dentro, se não tivéssemos visto a cabeça dela fora do teto solar do automóvel, segurando uma taça de vinho e apontando para a nossa direção, animada:
– Meus melhores amigos chegaram! Gostaram da limu? Demais, não? Entrem, gente, entrem! Morris, abra a porta para eles, fofo!
Eu e Albus sorrimos alegres para ela, mas quando olhei para Rose, vi que parecia séria à medida que nos aproximávamos da limusine. Eu soube o motivo quando entramos na limusine e Natalie abaixou a cabeça para nos cumprimentar com beijos no rosto. Ela demorou em Albus, beijando a boca dele. Ao fazer isso, derramou o vinho na calça de Dimitre, e tive plena certeza de que ela estava bêbada quando tentou limpar com a mão. Tivemos que afastá-la.
– Ela está bêbada – disse Rose para Morris.
– Está sendo difícil para ela desde que o sr. Grace morreu, senhorita.
– O senhor é o motorista da limusine?
– Sim.
– Eu não sei se ela... mencionou, mas precisamos visitar uma amiga nossa na Casa das Mães Adolescentes Solteiras antes. Vimos que este endereço é da cidade.
Ela entregou o papel para Morris, que suspirou ao ler o endereço do local.
– Sem condições.
– O quê?
– Não posso aparecer naquele bairro com uma limusine, ainda mais com a garota bêbada do jeito que está.
– Pode levá-la para a casa dela antes, então. Albus lhe faz companhia enquanto isso, não é? – perguntou Rose. – E se possível, nos leve com um carro menos... chamativo depois.
Natalie estava mordendo a orelha de Albus, rindo e sussurrando coisas bem pervertidas.
– Só temos carros chamativos – disse Morris – mas posso deixá-los numa esquina próxima. Terão que se aproximar da Casa a pé.
– É tão perigoso assim lá?
– Não temos boas notícias nos jornais sobre aquele bairro. O que diabos sua amiga estaria fazendo lá, afinal de contas?
– Ela está grávida – respondeu Dimitre, como se fosse muito óbvio. – Precisa da nossa ajuda.
– Boa sorte – ele desejou antes de fechar a porta. Quando tomou conta do volante, começou a dirigir. Enquanto passávamos pelas ruas desconhecidas, a limusine até que não chamava atenção. Natalie contava como a vida em Los Angeles era terrivelmente agitada, e que agora ela devia andar com um motorista-segurança – ela o chamava de Morris Fofo, que não parecia se importar com o apelido. Além disso, Natalie tinha decidido fazer um tour épico com a gente, por isso escolheu nos buscar com a limusine de seu falecido pai.
Estava escurecendo quando Morris virou uma esquina. Pela janela observei algumas pessoas andando pelas calçadas. Havia homens caídos ali também. O lugar definitivamente não tinha um ar muito legal.
– Esse é o bairro – contou Morris. – Hoje, por sorte, parece mais sossegado, porque a balada fechou. Teve briga que resultou em morte semana passada. – Assim que parou o carro, continuou: – Não posso avançar aqui, quem vai descer?
Dimitre não avisou nada, mas abriu a porta do carro e saiu. Ao vê-lo andar na direção do bairro escuro e medonho, foi minha vez de abrir a porta.
– Eu vou com você – disse Rose rapidamente. E cochichou: – Está com sua varinha?
– Sim.
– Ótimo. Vamos.
– Tem certeza? Eu não quero que se machuque.
– Vai logo, Scorpius.
Não dava para ganhar uma discussão com ela. Ela ficava reclamando que eu não era cavalheiro, mas toda vez que eu tentava soar como um, ela não tinha paciência para isso. Enfim, não era hora de reclamar do nosso relacionamento. Quando saímos, Natalie exclamou:
– Quero ir com vocês!
– Nós já voltamos, Nat – prometeu Rose. – Fique um pouco com Al. Ele sentiu a sua falta.
– Sei que sim – sorriu derretida. – Voltem logo! Amo vocês!
Rose e eu descíamos uma rua muito inclinada quando ouvimos Dimitre gritar o nome de Amber na direção da Casa. Nós corremos impedir que ele fizesse muito barulho em meio aquele silêncio cheio de expectativas perigosas – como constatava Morris.
– Você quer levar um tiro? – perguntei irritado.
– Foda-se. – Ele tomou fôlego, mas na primeira sílaba que soltou, a porta da casa se abriu, revelando uma mulher gorda com óculos de lentes muito profundas, que deixavam seus olhos minúsculos.
– São meia-noite – ela disse, nervosa. – Cale a boca que ouvimos você. Obviamente estão procurando Amber Davis. Ela está aqui. Não pisem na grama.
A grama estava completamente morta, mas não quisemos desrespeitar a voz autoritária da mulher, então nos aproximamos da porta como ela pediu.
Não era exatamente uma casa. Parecia mais como um hotel. Pobre, humilde, mas mesmo assim... organizado e limpo. Percebemos de cara que cada garota grávida tinha um quarto para dormir. A outra recepcionista atendeu a nós três com uma simpatia que não combinava com o ar da casa, com garotas grávidas andando para lá e para cá, gemendo de dor por contração, e gritando coisas uma para outra.O humor oscila na gravidez, contou a mulher gorda, explicando porque algumas garotas estavam tensas.
Quando dissemos quem queríamos ver, a recepcionista bonita olhou sua caderneta com atenção.
– Amber Davis? A inglesa? Claro que sim, ela está aqui.
– Ela está bem? – perguntou Dimitre de um jeito grosseiro. Isso não impediu a mulher de continuar sendo muito simpática.
– Ela pegou uma forte gripe nessa semana, mas estamos tomando conta dela. Vou acompanhá-los até o quarto. Ela nunca recebeu visitas até hoje.
A moça deu a volta no balcão, pegou uma chave do quarto 35 e pediu que a seguíssemos pelo corredor movimentado. Rose ficou ao meu lado.
– Parece que... não é tão ruim aqui. Pelo menos aqui dentro. Ou posso estar enganada.
Uma porta abriu de repente. Duas mulheres saíram empurrando na cadeira de roda uma garota de quinze anos com a barriga muito grande, gritando algo como “a bolsa estourou!”. Como se isso acontecesse todos os dias, a recepcionista ignorou e abriu o quarto 35. Ao entrar, exclamou animada para a garota que estava lá dentro:
– Olá, Amber!
Houve uma tosse.
– Você tem visitas, posso deixá-los entrar?
A voz dela estava um pouquinho rouca.
– Pode.
Entramos juntos. Amber estava com os cabelos loiros cortados até os ombros e a barriga dela estava bem maior do que a última vez que a vi em Hogwarts. Ela estava deitada em uma cama, assistindo a televisão. Quando ela virou os olhos verdes para nós, ficou muito surpresa.
– Rose? Scorpius? O que estão fazendo aqui também?
– Tínhamos planos em Los Angeles quando você mandou uma mensagem a Dimitre – contou Rose. – Coincidentemente.
– Vou deixá-los a sós – disse a recepcionista antes de sair do quarto.
– Achei que estivesse em perigo... – disse Dimitre, sentando no pé da cama dela. Amber tossiu algumas vezes, rouca. – A sua mensagem parecia desesperada.
– Eu estava testando você – ela murmurou. – Nunca pensei que descobriria que eu estava em outro país. Que teria esse esforço.
– Eu realmente pensei que precisasse de ajuda. – Dimitre não parecia bravo.
Ela se ajeitou na cama e sentou, pigarreando para limpar a voz. Mas ainda continuou rouca.
– E o que faz achar que eu estava mentindo? Ainda preciso.
– Vimos fotos desse lugar – contou Rose. – Achamos que você estava presa, ou que algo realmente ruim aconteceu.
– Esse é um lugar muito gentil. Por fora, parece terrível, e o bairro não é muito popular, mas... Hanna jurou para mim que eu iria ser bem tratada. Ela cumpriu a promessa, pelo visto.
– Então o que estamos fazendo aqui? – perguntou Dimitre. – Se você está sendo bem tratada... por que está me pedindo ajuda agora?
– Dimitre... eu não estou pensando apenas por mim. – Com essa fala, ela passou a mão no abdômen. – Essa garota tem tornozelos de aço. Não para de me chutar. Às vezes eu acho que é para me culpar pelo fato de eu ter ignorado sua ajuda esse tempo todo.
Dimitre só absorveu uma coisa.
– Garota? É uma garota? Você já sabe?
– Sim – ela disse baixinho e pela primeira vez em sua vida, lúcida, deixou Dimitre encostar nela. A mão dele apoiava em sua barriga.
– Por que ela não está chutando agora?
– Isso não acontece sempre. É... – sorriu para mim e para Rose. – Estou aprendendo bastante aqui. Mas... – hesitou, olhando para Dimitre, que tinha os olhos compenetrados na barriga como se, de algum modo, conseguisse enxergar o que havia lá dentro. – Mas aqui eu às vezes tenho que esperar as enfermeiras atender vinte garotas antes de mim. Às vezes elas até se esquecem de alguns quartos. Dão mais atenção as garotas que estão quase em trabalho de parto. Eu reconheço o esforço, e são tantas garotas. Mas eu estava acostumada a ser tratada como a única. Tentei chamar Hanna, mas a mãe dela não aceitou nada. A mãe dela é outra que me odeia. Mas...
– Vamos embora – disse Dimitre com a voz hipnotizada. – Eu te levo embora. Eu não quero voltar para minha casa com as mãos abanando. Tive que viajar com esses dois e, acredite, é entediante demais. Faça essa viagem valer à pena.
– Deve ser os hormônios – Amber tentou esconder uma lágrima, enquanto sorria com algo queDimitrefalou.
– E eu não vou tratar você como única... porque você vale por duas agora.
Amber ficou um pouco sem palavras depois dessa. Confesso que Dimitre me impressionou ao dizer aquilo, e Rose olhou para mim sorrindo. Ele nem reparou no efeito que causou ao dizer aquilo. Foi bem sensível para alguém como ele.
– Ok – ela disse. – Ok.
– Eu tento outro trabalho para pagar Scorpius... estou devendo para ele. Mas sei que posso conseguir. Teremos uma casa quando a garota nascer. Com piscinas. E ela vai ser tão fodidamente...
– Já sabemos qual vai ser a primeira palavrinha dela – comentou Rose, achando isso ironicamente fofo.
– Foi mal. Acho que estou empolgado. Com um medo muito fodido, mas... vai ser uma garota. Garotas não dão trabalho, dão?
– Se ela puxar para mim – disse Amber. – Vai dar muito trabalho.
– E se ela puxar para mim...
Os dois se entreolharam.
– Estamos completamente fodidos – Amber riu.
Num ato rápido, Dimitre inclinou-se para beijar a boca dela. Amber não se afastou, ainda porque Dimitre fez isso rapidamente, como se não quisesse ter tempo de levar uma rejeição. Amber pigarreou.
– Estou gripada.
Ele se levantou da cama.
– Vou chamar à recepcionista...
E saiu por um tempo.
Rose aproveitou e sentou-se ao lado de Amber.
– Posso?
Com um gesto, Amber deixou que Rose passasse a mão pela barriga dela.
– A gente aprende a conviver com os fatos sem entender porque diabos isso foi acontecer – contou Amber. – É como ser gay. E quando você fica sozinha, você acaba refletindo muita coisa.
– Você parece mais madura – comentou Rose.
– Nunca me senti tão criança, no entanto – contou. – Às vezes quero fazer adoção. Mas viram como Dimitre estava quando eu disse que era uma garota?
– Sim – eu respondi. – Se eu não o conhecesse, eu diria que elequerter essa filha.
– Você devia ir mesmo morar com ele – aconselhou Rose. – Dar uma chance a vocês dois... a vocês três agora. Um filho com pais que se odeiam só não é pior do que um filho sem pais. Na minha opinião.
– Acho que está certa.
– E se quiser... provavelmente Natalie vai deixar vocês passarem um tempo na casa dela por aqui, para aproveitar um pouco.
– Sério? Mesmo depois de todas as coisas que eu disse sobre vocês serem entediantes e chatos? Mesmo depois de esnobar vocês por tanto tempo?
– Sim, Amber, sim – falou Rose, pacientemente. – Apesar de tudo.
Dimitre voltou com a recepcionista.
– Querida, tem mesmo certeza de que quer sair? – perguntou a moça.
– Estou com o pai da minha filha aqui.
Ao ouvir aquilo, a mulher se virou para Dimitre e disso toda brava:
– Tem que prometer que vai cuidar dessa garota tão boa e gentil, porque ela merece. Não é a que mais dá trabalho, mas seja responsável pelas duas, está bem?
– Sim – Dimitre só falou. – Vamos, Amber.
Ela se levantou da cama. A caminho do balcão onde eles deveriam preencher várias fichas, comentei com Amber:
– Entãoaquivocê é vista como boa e gentil?
– Novo lugar, nova reputação – sorriu fracamente, antes de tossir.
E, quando saímos todos juntos da casa, tive a sensação de que as coisas estavam melhorando para o lado deles. Rose disse que Morris ainda estava nos esperando na esquina. Dimitre e Amber estavam à nossa frente, silenciosos. Rose segurou minha mão enquanto andávamos pela calçada.
– Nem parece que isso está acontecendo – comentou baixinho para mim. – Seu primo sendo o pai da filha da sua ex-namorada. É mesmo uma forte conspiração contra você, não acha? Além dela ter terminado com você porque ela estava querendo ficar com Hanna.
– Quer saber mesmo o que importa apesar de tudo isso? – eu perguntei. – Você. Acho que tudo vai me levar a amar você cada dia mais. Essa é a melhor conspiração que existe.
– Eu também te amo – sorriu, beijando meu rosto. – E agora que estamos em Los Angeles, e vamos ficar uma semana sozinhos com nossos amigos... O que pode dar errado agora?
A pergunta de Rose era retórica, mas no segundo seguinte ela recebeu uma resposta.
Amber estava atravessando a rua e no mesmo momento um carro se aproximava velozmente. Aconteceu em meros segundos, em instantes que os olhos não captaram. De repente, a coisa tinha acontecido. Dimitre tinha reflexos perfeitos por ser um grande duelista, mas sempre acreditei que ele tinha instintos para salvar alguém. Ao ver que o carro não teria como frear a tempo de não atingir Amber, Dimitre a empurrou para trás. Ela caiu de costas no chão da calçada, a salvo com o bebê de quatro meses na barriga. Mas não deu tempo para que Dimitre saísse da rua. Só ouvir Amber gritando. Eu até tentei tirar a varinha do bolso, mas foi muito mais rápido.
O empaque foi inevitável, e eu não fechei meus olhos nem por um minuto durante o acidente. Ação e reação. Tudo em câmera lenta.
A pior parte de ver meu primo sendo atingido por um carro era ver o filho da puta do motorista continuando a dirigir como se aquele automóvel não tivesse sofrido nenhum arranhão com o corpo de Dimitre, agora caído na rua, completamente inerte.
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