Born For This
12 Sway
Sway
Na segunda feira, depois do almoço, eu estava passando pelo corredor quando vi Albus e Rose conversando. Usualmente, eu iria me juntar à conversa, mas as coisas não andavam usuais. Por isso não me surpreendi muito no momento em que me aproximei e os dois pararam de conversar.
Rose foi a primeira a falar no silêncio estranho que nunca ocorreu entre nós antes. Mas falou para Albus:
– Acabei de ver Lily passando. A gente se fala mais tarde.
O quarto ano estava tendo aula de Poções ainda, por isso eu sabia que Lily não havia passado por ali. Rose não se afastou sem antes, é claro, esbarrar o ombro em mim propositalmente. Não falei nada. Eu estava bom em não falar nada, quando na verdade eu queria dizer muita coisa. E de que adiantava? Ela não queria ouvir.
Albus também não falou nada quando sobramos. E nesse meio tempo em que eu me lembrava do soco, os amigos dele chegaram agitados, falando sobre algo que não entendi. Aqueles não eram meus amigos. Eu deveria dizer que não estava me importando, porque tenho meu orgulho e tudo o mais, mas isso não era verdade. Desde que me tornei amigo de Albus e Rose, nunca havíamos nos afastado ou algo assim. Era ruim sair do costume. Esses incidentes nos deixam despreparados.
Por incrível que pareça, Natalie era a única entre nós que estava falando comigo. Ou ela não sabia por que Rose estava zangada comigo ou ela apenas não... ligava para o que eu havia feito. Não era nenhum dos dois.
– Odeio ver amigos separados – dizia nervosa. – Vocês ficam aí se ignorando. Deviam fazer alguma coisa para mudar isso, seus orgulhosos!
O problema não era esse. O problema era que eu realmente não sabia o que fazer. Porque eu realmente queria. Talvez eu devesse só esperar Rose amenizar sua mágoa sobre mim. Eu podia ser paciente e me privar de fazer qualquer burrice para não piorar a situação.
Mas descobri que esperar era a maior covardia quando os monitores tiveram que trabalhar para os enfeites da festa de Halloween. Eu havia me atrasado e cheguei à sala de enfeites por último. Os outros monitores terminaram seus trabalhos, de modo que só encontrei Rose e Andrew Smith por lá. Antes de revelar a minha presença, observei pela porta que Rose estava tentando alcançar alguma coisa em cima do armário, mas não conseguia, até que Andrew se ofereceu:
– Calma aí, eu te ajudo.
Ele nem precisou erguer os pés para pegar a caixa de papelão. Pareceu que o garoto me deu um tapa na cara. Eu considerava Andrew legal. Ele estava mais alto e confiante, algumas garotas começaram a reparar que ele existia. Mas de repente, assim, Andrew estava se aproveitando. Porque eu vi quando ele afastou ela para o lado, colocando a mão na sua cintura.
Rose sorriu, agradecida, quando Andrew lhe entregou a caixa.
– Valeu, Andy.
– De nada. Rose, eu estava pensando... se você... hum, você quer ir comigo a festa?
– Oh.
Não. De que adiantava agora? Eu não tinha direito de ficar com raiva disso. Mesmo assim, tive de ouvir o que ela iria dizer.
– Andrew, eu agradeço pelo convite. Obrigada mesmo, mas...
– Ah, já entendi, não era como se eu esperasse que você fosse aceitar...
– Nós vamos nos ver lá. – Rose apressou-se a dizer. Esse era um dos defeitos – ou a qualidade – de Rose. Ela não conseguia decepcionar ninguém, por isso tentava se explicar e negar um convite da forma mais educada que podia. Muitas vezes isso aumentava as esperanças dos garotos. – E podemos conversar por lá, não precisamos ir realmente juntos...
– Posso tentar convidar Lily, então. Quais as chances de eu levar um fora?
– Nenhuma – exclamou Rose, contente. Ou aliviada. – Pode ter certeza que ela iria adorar sair com você.
– É sério? Ela te falou isso?
– Não – Rose piscou. – Mas Lily nunca foi transparente mesmo. Ela só me conta com quem ela nunca sairia, e você não está na lista dela esse ano.
– Esse ano? – ele deu uma risada. – E você também tem uma lista?
– Andrew, por que a gente não termina isso aqui? – apontou para as caixas.
– Certo, boa idéia. Desculpe.
Eu saí de lá, me sentindo muito esquisito. Mais esquisito do que com ciúmes. Não me admiraria se Rose aceitasse o convite de Andrew, o que me admirou foi ela não ter aceitado. Isso me fez sentir muito pior em relação à merda que fiz, porque eu entendi que Rose nunca faria aquilo comigo, nem mesmo para se vingar.
Andrew era um cara muito melhor e mais educado do que eu, em relação a garotas. Tinha muitas coisas em comum com Rose e os dois sempre foram amigos, mas como Andrew foi esquisito sua vida toda, eu nunca senti que ele fosse uma ameaça. E eu sabia que alguma transformação louca aconteceu com ele durante o verão. Eu passava por perto de um grupo de garotas, às vezes eu ouvia comentários delas sobre Andrew, sobre ele ser carinhoso, ainda esquisito, mas agora de um jeito “fofo”. Os garotos achavam ele gay – e até o ano passado eu tinha minhas dúvidas, mas depois que vi ele e a prima de Rose na festa de Halloween praticamente lambendo a cara um do outro, foi meio difícil levar os comentários pejorativos a sério.
Não teve Jogo do Terror esse ano. Mas uma banda tocava ao vivo, agitando todo mundo. Os alunos e os professores estavam com suas fantasias idiotas e engraçadas. Minha fantasia era um tapa-olho. Alguns achavam que eu estava vestido de pirata, outros perguntaram se eu havia arrancado meu olho, mas eu só usei isso para não ter que ficar parecendo mais idiota, sem costume nenhum.
Fiquei esparramado na cadeira, bebendo suco de abóbora e observando o salão, durante, pelo menos, a festa toda. Andrew estava se dando melhor do que eu e eu dei uma risada amargurada a mim mesmo, quando Natalie e Albus se aproximaram da minha mesa. Os dois riram e se beijaram na minha frente.
Albus estava com uma fantasia muito semelhante às roupas que os caras da banda da noite usavam. Jurava que ele havia passado delineador nos olhos e penteado seu cabelo em um moicano espetado, usando uma argola pequena e falsa no nariz. Ele estava ridículo. Natalie parecia uma daquelas animadoras de torcidas. Mas... quando ela virava de costas, uma faca projetada sobre o tecido do uniforme fazia parecer que ela havia sido apunhalada. E sangrado muito. Foi uma das melhores fantasias da noite. Eles contavam que Albus era o cara que tinha enfiado a faca ali nas costas dela, porque ela era a líder de torcida vaca que tinha traído ele. A fantasia de Albus não ficava ridícula quando tinha um contexto.
Natalie cochichou alguma coisa no ouvido de Albus e ele olhou para mim. Ela se afastou para dançar sozinha, e não olhei Albus quando ele sentou-se a cadeira ao meu lado. Ofereceu-me um copo de cerveja amanteigada. Eu neguei.
– Escuta, cara, eu não devia ter te socado aquele dia – ele falou de repente.
– Eu não devia ter feito cagada com a Rose – respondi, observando ela perto da mesa das comidas. Rose estava olhando para os lados, para certificar-se de que ninguém tinha reparado que ela comeu dois pedaços inteiros de bolo com a mão. Passou a manga da camisa nos lábios sujos de chocolate e se sobressaltou quando vieram falar com ela. Até parecia que ela estava fazendo alguma coisa errada. Olhei para Albus: – Eu mereci aquilo.
– Sim – ele concordou. – Mas vai ficar se lamentando aí, com essa cara, e não fazer nada?
– Achei que fosse o último a querer que eu fizesse alguma coisa. Você e o pai dela.
Albus bufou e explicou impaciente:
– Eu não te soquei porque você esteve pegando Rose. Foi porque eu nãosuporto vê-la magoada, e você a deixou assim. Além disso, ela está devorando aqueles bolos agora. É bom que você faça alguma coisa.
Ele se levantou e voltou com Natalie. Algum tempo depois, eu acabei me levantando também. Fui até Rose, tendo esperanças de que ela me ouviria, mas reparei que ela estava conversando com a professora de Transfiguração. Parecia ser uma conversa séria sobre profissão, pois sua expressão era atenta às respostas dela. Não quis interrompê-la para dizer o que ela já sabia, o que eu já havia dito antes, e se isso não fez as coisas entre nós melhorarem, não ia mudar agora. Eu deveria aproveitar um momento mais propício para podermos falar sobre tal assunto. E o momento não foi durante a festa.
No final da aula de feitiços do dia seguinte, ela guardou o material por último. Eu fingi que estava empacotado de coisas para poder me enrolar também. O professor tinha passado um trabalho em dupla e acabamos caindo juntos. Não sei se era uma brincadeira do professor ou apenas sorte – para mim. Consegui dizer assim que ficamos sozinhos na sala:
– Eu faço.
Ela enfiava o braço na bolsa quando olhou para mim, o cabelo caindo sobre os olhos:
– O quê?
– O trabalho. Eu faço sozinho.
Ofereci fazer o trabalho sozinho, porque se Rose não queria nem olhar para a minha cara, eu duvidava que quisesse fazer algum trabalho junto.
Mas, para a minha surpresa, ela fechou o zíper da mochila, jogou sobre os ombros e disse:
– Duas horas, na biblioteca. É o único horário que eu tenho depois do almoço, porque tenho três aulas de Aritmancia a tarde.
– Tá – eu não fiz objeção. Ela saiu da sala e eu acrescentei quando ela já estava longe: – Vou adiantando então.
Mas duvidava que tivesse escutado.
Devon Harper, o novo capitão da Sonserina, me encontrou enquanto eu caminhava em direção ao salão principal para dar uma olhada nas propostas do trabalho enquanto almoçava.
– Ei, Malfoy, recado pra você. Mudamos o horário dos treinos, vê se aparece às duas e meia.
– Não posso, tenho que fazer um trabalho.
– Faz isso a noite.
Ele não parou para discussões, portanto não discuti. Mas o cara não me viu no treino, porque naquele horário eu já estava sentado numa mesa com Rose, enquanto começávamos a escrever. Ela verificava os livros e eu escrevia no pergaminho. Ofereci a pena para ela, mas retrucou:
– Sua letra é mais bonita.
Ficamos nisso pelo menos metade do trabalho. No momento que Rose estava com três livros abertos, girando as páginas deles quase ao mesmo tempo, eu fiquei um tempo sem escrever. Como eu não tinha outro trabalho a não ser esse, comecei a rabiscar um pergaminho em branco. Observei Rose a minha frente por um instante. Ela tinha os cabelos presos, como sempre, em um rabo-de-cavalo mal feito, mas natural, o que distinguia seus traços suaves. Ela estava com a testa franzida, os olhos rodando de um lado para o outro a medida que lia. Fez uma expressão aflita e murmurou: “não estou achando”. Não respondi, estava concentrado em acertar o traço dos lábios dela no papel.
– Veja esse livro aqu- O que está fazendo?
– Nada – amassei o pergaminho imediatamente, para ela nem chegar a ver que eu estava desenhando ela, o que era patético, mas não consegui me controlar. Joguei o papel na minha bolsa. Ela me olhou desconfiada, mas não insistiu. Apenas passou o livro gigante na minha direção e, juntos, continuamos a pesquisa em silêncio.
Alguns minutos depois, senti sua agitação quando ela começou a apalpar o pescoço, exclamando:
– Oh, não. Não... Meu colar. Perdi meu colar! – Procurou dentro da mochila, embaixo da mesa, e voltou ainda mais desesperada. – Devo ter deixado cair. Eu já estava com ela agora?
– Não – eu respondi. Ela me encarou como se eu não pudesse saber a resposta. Fui franco: – Eu teria reparado faz tempo se estivesse usando um colar. Estamos aqui há duas horas.
– Era da minha avó – lamentou irritada consigo mesma. – Deve ter caído antes. Preciso achá-lo agora.
– Por que não usa o feitiço accio?
Ela pegou a varinha sobre a mesa e acionou o feitiço. Nada ocorreu, nenhuma jóia veio ao nosso encontro. Rose passou a mão no rosto e começou a guardar as coisas na mochila.
– Terminamos o trabalho outro dia. Vou procurar o colar.
Eu assenti.
– Se quiser que eu ajude...
– O pingente é uma coruja. Os olhos dela são pequenas pérolas roxas.
– Acho que já a vi usando uma vez – lembrei que era o colar que usara em nosso primeiro encontro que nunca deu certo.
– Se achar, por favor...
– Eu aviso.
Ela se afastou depressa, realmente preocupada. Não que eu estivesse pensando em ficar o resto da tarde à toa olhando para o chão, acionando feitiços de procura para encontrar a jóia de Rose. Eu não estava pensando. Na verdade, eu fiz.
Trombei em Albus quando virei um corredor. Nós dois estávamos olhando para o chão.
– Procurando o colar de Rose? – perguntei.
– Não, minha figurinha da Lorena Palmer – respondeu. – Rose perdeu o colar?
– Ela está desesperada.
– E você acha que ajudá-la a procurar um colar vai fazer ela voltar a te pegar?
– Não – eu disse lentamente. – Estou fazendo isso porque ela está desesperada a procura dele.
– Pode ser franco comigo. – Ele deu um tapinha nas minhas costas. – A intenção é boa. Se encontrar a figurinha da Lorena Palmer...
– Vou jogá-la na privada.
– Faz isso e você acorda sem cabelo. E não duvide de quem tem contatos com Natalie Grace.
Ele se afastou e eu continuei procurando, sem sucesso, o colar de coruja de Rose. Desisti quando o sr. Filch perguntou se eu estava ficando louco, andando por aí olhando para o chão. No dia seguinte eu já tinha esquecido disso, quando, a caminho do salão principal, uma garota do quinto ano, Mila Mendez, – que eu sabia ter ficado comigo uma vez – sorriu:
– Olá, Scorpius.
Eu ia responder, mas com um sobressalto vi que ela usava um colar de coruja. Ela passou por mim, desfilando ao lado da amiga. Era tão bonita... mas tão problemática. Parei de andar imediatamente. Havia exatamente dois motivos para acreditar que aquele colar era o que Rose estava procurando, e não um exatamente igual.
Mila Mendez ficou comigo e depois nunca mais vi o meu relógio de pulso.
Mila Mendez sofria de cleptomania. Ou ela era realmente descarada. Difícil definir.
– Mila – exclamei, aproximando-me dela. Sorri o meu melhor sorriso, porque eu entendia como as coisas funcionavam para uma garota como ela. – Então. Eu estava pensando se você não gostaria, sei lá, de estudar comigo. Você vai prestar os N.O.M’s, posso te ajudar com algumas dicas.
Ela enrolava uma mecha do cabelo castanho no dedo indicador. Perguntei-me se aquele anel dourado era dela. Sorriu para mim.
– Ora, Scorpius, não estava pensando nisso hoje, mas parece uma boa idéia. A gente se vê por lá então.
– Beleza.
Tentei ignorar quando ela cochichou para amiga: “Será que ele quer ficar comigo de novo?” Porque não tinha nada a ver com isso.
Tanto que quando ela chegou à biblioteca e me puxou pela gravata atrás de uma estante, dizendo para não enrolarmos porque ela tinha que chegar a tempo para o treino de xadrez ainda, eu suspirei e não me movi, olhando para a testa dela enquanto afastava-a pelos pulsos.
– Querida, tire esse colar do seu pescoço, ele não é seu.
Ela me soltou como se eu tivesse virado uma abóbora, e envolveu o pingente com a palma da mão.
– Hum? Você não quer...
– Tire o colar. Eu sei que você tem um probleminha, até deixei passar quando você pegou o meu relógio, eu não gostava muito dele então não fiz questão de tê-lo de volta, mas esse colar pertence a Rose Weasley e você sabe disso.
– Está me acusando de roubo?
Passei a mão no seu cabelo e sorri.
– Estou.
– Achado não é roubado – ditou com um sorriso de lado, afastando-se lentamente de mim. Eu não podia deixar essa passar. Rose estava maluca por aquele colar. Encurralei Mila, com uma mão apoiada na estante, enquanto ela se encostava ali.
– Podemos fazer um acordo, se você tirar esse colar e me entregar.
– Depende, vou te ver pelado?
Franzi a testa. Comecei a reparar... será que eu só peguei menina atirada na minha vida antes de Rose? Aproveitando que ela estava distraída mordendo os lábios, arranquei o colar à força de seu pescoço, mesmo que tivesse quebrado o fecho. Podia ser concertado, pelo menos Rose o teria de volta. Sorri enquanto Mila olhava para mim estupefata.
– Não, mas você vai ver a cela da prisão se começar a pegar gosto em roubar as coisas das pessoas desse jeito, fofa.
– Hum, Scorpius Malfoy me dando lição de moral. – Antes que eu a afastasse de mim, ela se aproximou do meu ouvido: – Isso é uma coisa nova.
– Merda, Scorpius! – Era a voz de Rose. Alta, irritada, zangada, brava,decepcionada. Vi que ela estava há cinco metros de nós, olhando para mim como se quisesse me jogar uma maldição. Empurrei Mila, mas Rose saiu correndo e eu corri atrás dela. – Você só quer me fazer de estúpida?
– Rose, não é o que você... não é o que você está pensando!
Eu corri desesperado. Bati o osso do meu quadril numa das mesas, mas não me importei. Bruscamente, Rose se virou para mim e no meio da biblioteca, naquele silêncio estudantil, ela começou a me bater com sua bolsa. Tentei me proteger, mas ela estava muito, mas muito zangada.
– Você... é um... completo... – Não terminou.
– Rose-
Ela me empurrou quando tentei me aproximar para acalmá-la.
– Escuta...
– Fica longe de mim, Malfoy – mandou, com a voz falha. – Não adianta dizer nada. Você não perde tempo, não é? Eu vi agora. Esquece, acabou tudo. Tudomesmo.
– Não, Rose, me escuta. Não. Porra! – Bati o punho na estante de livros quando ela deu as costas para mim e foi embora pisando firme, sem querer entender o que estava acontecendo. Claro, depois de tudo o que ouviu de mim, ela nunca que iria duvidar das suas impressões. Olhei para o colar envolto pela minha mão, miseravelmente. Por que eu só fodia com tudo?
– Você está com uma cara péssima. – No dia seguinte, Amber Davis sentou ao meu lado no banco do jardim. – Parece que alguém andou fazendo merda por aqui.
Eu não falei nada.
– Vamos – ela me deu uma cotovelada no braço, para me animar. – Tem coisa pior acontecendo no mundo. Ladrões a solta por Hogsmeade. Mortes desconhecidas. Garotas se prostituindo. Invasões perigosas no Ministério. Não leu o Profeta Diário essa semana?
Não deixei de soltar uma risada, embora não fosse uma boa situação para isso.
– Você? Lendo oProfeta Diário?
– Às vezes. – Ela observou minhas mãos. Eu estava cutucando uma caixinha embrulhada para presente. – O que é isso?
– Um colar. É da Weasley.
– Oh. Você não está na festa de aniversário dela agora? Não, claro que não. Por que você vai dar um colar a ela se ela está puta com você?
– Porque o colar é dela e eu o concertei. Estava com Mila Mendez. Rose me viu conversando com ela e achou que eu estava dando em cima dela, e não tentando tirar o colar dela.
– Ainda não é pior do que ver alguém que você gosta transando na sua cama com outra pessoa. Acredite.
Lembrei dela e de Hanna. As duas andavam sempre juntas, mas se faziamalguma coisa juntas, era bem escondido. As pessoas comentavam muito sobre isso e pelo visto Amber não gostava dessa atenção.
– Como estão as coisas? – perguntei.
– Ótimas – sorriu. – Agora só falta gritarmos para todo mundo que nos amamos! – Depois notei que o sorriso era irônico e ela fez uma careta. – Por que a gente só fode com tudo?
– Deve ser porque não merecemos ficar com quem é bom demais para nós.
– Acho que tem razão – falou baixinho e pensativa. Ela olhou para mim um instante e notou: – Você gosta mesmo da Weasley, não? Dá pra notar. Você está estranho.
– É. – Não vi porque teria que esconder isso dela agora. – Quando eu estou com ela, eu não fico só pensando em uma coisa, eu não fico pensando em sexo toda hora. Penso em outras coisas também.
– Que fofo – comentou, rindo. – Nem parece o Scorpius com quem eu fiquei o ano passado. Não que isso seja ruim... Quando vai entregar o presente a ela?
– Vou fazer isso agora. – Levantei-me, disposto. – Eu sei que ela não quer olhar para mim agora, mas eu vou fazê-la me encarar. Eu não fiz nada do que ela estava pensando na biblioteca. E vou dizer isso a ela.
Amber me desejou boa sorte.
Entrei no castelo e fui até a festa que estava ocorrendo na Sala da Corvinal. Claro que não tinha que entregar convites, era apenas uma festa para quem quisesse prestigiar o aniversário de Rose. Entrei lá dentro e todos estavam rindo, divertindo-se. Havia uma roda ao redor de Rose, enquanto os convidados assistiam a ela abrindo os presentes. Quando me aproximei, ela estava abrindo um embrulho quadrado. Tirou de lá um livro e exclamou ao garoto ao seu lado:
– Como sabia que eu estava querendo esse livro, Andy? Obrigada!
Um negócio se embrulhou no meu peito quando ela abraçou Andy. O pessoal até fez um som de “huuuum” para zoar com a cara deles. Rose ralhou:
– Calem a boca. Não é nada disso que vocês estão pensando.
– É sim – acrescentou Andy em tom de brincadeira, levando, em seguida, um tapa no braço. Mas Rose continuou sorrindo.
Eu cutuquei os ombros de Natalie, que estava perto da porta. Ela sorriu para mim.
– Oi, Scorpius.
– Entrega pra Rose? – pedi, passando a minha caixinha.
– Oh, claro. Você não vai ficar? – viu que eu estava me afastando.
E ficar vendo Andrew Smith dando em cima da garota que supostamente deveria ser minha namorada se eu não fosse um idiota completo?
– Não. Eu tenho que...
– Ah, tá – Natalie entendeu. – Vou entregar a ela.
Eu agradeci e saí da Sala Comunal. Quando dei por mim, eu estava caminhando em Hogsmeade. Tomei algumas cervejas amanteigadas nos Três Vassouras. Estava noite quando saí de lá. Começo de novembro, o frio era insuportável. Empacotei-me em meus casacos e continuei a andar pela vila, já se esvaziando. Os postes de luz iluminavam, mas um deles fez um estalo e se apagou. Estava escuro quando a voz de Rose soou atrás de mim, assustando-me.
– Eu estava te procurando.
Olhei para ela. Estava usando um gorro na cabeça. A ponta do nariz dela estava corada pelo frio. Mesmo de longe, eu consegui notar. Consegui notar, também, que ela usava o colar de coruja.
– Oi – falei. – Achei que estivesse se divertindo com Andrew.
– Eu deveria estar me divertindo com ele, não acha? – Rose soou pensativa. – Mas, diferente de algumas pessoas, eu não consigo trair meus sentimentos.
– Rose... Você esteve entendendo tudo errado.
– E eu estou mesmo muito confusa, Scorpius. Eu não sei se você faz essas coisas porque é um canalha ou só porque não sente nada por mim.
– Não diga que eu não sinto nada por você – eu apontei meu dedo a ela, chateado. – Eu não suportei o gelo que você me deu nesse último mês. Eu mereci tudo. Eu mereci Andrew chamando sua atenção, eu mereci Albus me socando, mas eu não mereço ouvir você dizendo que eu não sinto nada por você!
– Então você é um canalha?
– Sou um idiota, isso sim. E eu reconheço meu erro na primeira vez. Você tinha a razão de ficar zangada. Mas Mila Mendez é só um desperdício de tempo para mim. Você não pegou o começo da história. Se ela não estivesse com o seu colar, eu nem ia me atrever a falar com ela de novo.
– Não percebeu que ela estava pronta para te agarrar lá mesmo?!
– Isso é o problema dela, não acha? Ela estava com o seu colar e a única coisa que eu estava pensando em fazer com ela era arrancá-lo do pescoço dela e entregar a você depois.
Rose calou-se. Por que isso estava tão difícil? Nós dois éramos tão simples quando ficávamos apenas nos beijando. Agora... tudo parecia envolto pelos sentimentos. Estávamos nos magoando. Eu poderia acabar com aquilo, para não ter a responsabilidade de magoá-la ainda mais. Mas devia estar na hora de crescer. Concertar as merdas feitas, já que não era possível voltar atrás.
– Tudo o que eu peço é que você me dê uma chance – falei vendo que ela cruzara os braços, olhando para o chão molhada pela chuva que ocorreu pela tarde. – Só uma, Rose. No tempo que ficamos juntos não deu para mostrar que eu... que eu gosto de você. Muito. De verdade. E que não suporto quando ficamos separados. Eu me acostumei a ter você ao meu lado desde que nos conhecemos. Ter você sorrindo com o meu sarcasmo, em ver você ralhando com as crianças no nosso dia de ronda. Eu me acostumei com essa sua covinha na bochecha quando você ri das coisas que eu falo. Não quero ficar sem isso por mais tempo. Eu sei que eu devia ter dito isso antes, mas eu só percebi agora. Você pode me perguntar sobre História da Magia que eu vou te responder. Mas se me perguntar por que sou tão idiota e obtuso, eu nunca vou achar resposta alguma. – Passei as mãos no cabelo, nervoso. – O que quero dizer é que eu... eu posso mudar isso, se você me der uma chance. Eu posso parar de ser idiota e obtuso.
Meu sangue estava fervendo quando terminei de dizer tudo aquilo. Nem acreditei que disse tanto, mas não me arrependi de nenhuma palavra. Eu estava sendo verdadeiro. Eu sentia tudo aquilo. Até um pouco mais, mas os detalhes eram difíceis de explicar naquele instante.
Olhei Rose mais uma vez, esperando alguma reação.
Ela deu um passo na minha direção, mas foi então que aconteceu.
Dois homens se revelaram atrás de uma construção. Pareciam vultos, estavam cobertos com casacos pretos. Nunca os vi pela região antes, mas lembrei sobre o que Amber disse quando leu o profeta diário. Ladrões em Hogsmeade. Quando um deles agarrou os braços de Rose, eu só consegui gritar para que eles a soltassem. Rose se debateu contra o homem, que ordenou para o outro assim que eu avancei contra eles:
– Pegue o outro garoto, ele vai atrapalhar! O que tem dentro dessa bolsa, garota?
– Scorpius! – Rose berrou. O cara arrancou a bolsa da mão dela depois de puxá-la com força.
Quando o cara empurrou Rose contra o chão, eu fiquei puto. Muito puto. O outro me segurava, impedindo de ajudar Rose. Fui um imprestável naquele momento, observando e me esperneando quando o ladrão apertou os dedos nos cabelos dela:
– Não tem dinheiro!? Você só carrega livros nessa bolsa? Bem, que pena.
Antes que ele pudesse agredi-la, eu gritei:
– Eu tenho dinheiro! Eu tenho coisa de valor comigo. Mas tire as mãos dela, seu vagabundo!
O homem tirou as mãos dela e me encarou, desconfiado. Ele sorriu.
– Vamos ver o que você tem aí. Solte ele, Karl – pediu para o homem que me segurava, depois de apontar a varinha na minha cabeça. – Se fugirem sem me dar alguma coisa, os dois vão se ferrar, entenderam?
Karl me soltou, sem antes arrancar a varinha do meu bolso e da bolsa de Rose.
– Segure a garota, Karl – pediu a ele. – Acho que eles são namorados. Não vamos deixá-los separados. Agora, garoto, mostre o que tem de valor.
– Bem – eu tive de pensar rápido. – Minha cueca custou uns cinco galeões.
O cara me bateu e ouvi Rose gritar de novo. Karl tampou a boca dela.
– Quero dinheiro! – o outro gritou para mim. – Você tem cara de ser riquinho, quanto vale esse anel? – Eu estava grogue pelo soco no rosto que não tive reação alguma quando ele arrancou o anel da minha família do meu dedão. – Opa, opa! Letra M de Malfoy? Você é um Malfoy? Oh, por que não disse antes? – ele agarrou meu casaco e me empurrou. – Eu iria te bater com mais... força.
Dizendo a palavra, ele conseguiu me derrubar no chão. Tentei revidar mas eu sempre fui um fracasso em briga. Ele me agrediu de novo e eu só consegui rosnar:
– Soltem ela.
– Vamos soltar sua namoradinha, claro, mas antes... – ele se aproximou de mim, afastando a varinha. – Eu não gosto muito do seu sobrenome. – De repente sua mão fez estalo contra meu rosto e senti meu lado esquerdo do rosto começar a arder. Ele apertou meu queixo com o dedo e me fez encará-lo. – O que mais tem de valor aí, Malfoyzinho? Gostei desse seu casaco, quanto custou?
Eu não soube como Rose fez aquilo, mas ela conseguiu se desvencilhar do tal de Karl, batendo nele. Karl ia agarrá-la de novo, mas o outro que ainda não sabíamos o nome, depois de vestir o meu casaco, tirou do bolso uma faca.
– Tudo bem, Karl, deixe-a ir. Mas ela deveria ver o que vamos fazer com o namorado dela. – A faca ficou a centímetros do meu pescoço. Fiquei com medo de morrer se eu chegasse a respirar. Situação irônica.
– Rose, vai embora – pedi quando ela ficou parada ali entre os dois ladrões. Eu estava trêmulo, mas mantive minha voz firme. – Eu resolvo isso. Está tudo sob-
– Experlliarmus!
Aconteceu rápido então não processei. Rose havia tirado outra varinha do bolso dela e apontou o feitiço contra o homem que me ameaçava com a faca. Ela foi muito rápida e habilidosa, conseguindo desarmá-lo. Atingiu Karl com outro feitiço estuporante, jogando-o para longe. Arrastei-me até o local onde minha varinha caiu, nos pés de Karl. Rose duelava com o homem. Eu o atingi com um feitiço que fez as pernas dele ficarem grudadas. Lembrei de quando Dimitre fez o mesmo com Rose no duelo deles no ano passado. Parecia um feitiço ridículo, mas era humilhante e genial. E o primeiro que veio a minha cabeça e que deu certo na hora. Rose terminou com um feitiço para deixá-lo inconsciente.
Rose correu até mim e me ajudou a levantar. Apoiei-me nela e tentamos correr. No caminho tropecei umas cinco vezes, mas Rose não me soltou em nenhum momento, e fiquei olhando para trás certificando-me de que não estávamos sendo seguidos. Mesmo que não tivesse ninguém atrás de nós, continuamos correndo.
– O cara não tinha arrancado sua varinha? Como conseguiu outra do nada? – perguntei.
– Era a varinha do Albus – ela disse ofegante. – Ele esqueceu na festa e eu ia entregar a ele depois... e então... o cara pegou a dele, e não a minha. Mas já recuperei as duas. Corra!
Eu não sei onde Rose estava nos levando, eu apenas confiei nela como nunca confiei em ninguém exceto em minha própria mãe. Ela nos levou até um bar vazio, abrindo a porta com força. Nós entramos e conseguimos respirar. Eu me joguei numa cadeira. Rose sentou ao meu lado, tirando o gorro. Uma mulher alta se aproximou de nós, oferecendo alguma bebida, mas Rose só pediu um pano úmido. Quando a mulher trouxe, Rose levou o pano até meu rosto, de um jeito tão delicado e suave que me fez sentir bem, despreparado, desacostumado.
Era simplesmente o contraste e meu corpo reagiu ao toque diferente, nada violento, apenas... suave. Gentil. Preocupado.
Eu fiquei olhando para ela, sem dizer nada.
– Você seria uma boa enfermeira – falei debilmente um tempo depois entre nosso silêncio. – Sabe, daquelas que faz o paciente se sentir melhor porque você está com os botões da blusa abertos...
Achei que ela ia me xingar, mas soltou uma risada. A covinha da sua bochecha apareceu e eu tive a curiosidade de beijá-la ali. E arrastar minha boca para os lábios dela.
Eu apertei minha mão sobre os dedos dela na mesa. Rose olhou para nossas mãos.
– Você foi muito corajoso – disse baixinho.
– Eu fiz o que deveria fazer. Esperar você dar o jeito em tudo. Só distraí eles por alguns minutos.
– Não foi bem assim. O anel era da sua família...
– O cara ia te machucar – murmurei.
– Mas ele machucou você – senti que ela estava me achando um maluco, mas estava gostando disso.
– Não me importo. – Olhei para ela, depois desviei o olhar para nossas mãos. – Você está bem, isso importa.
– Obrigada – sussurrou. – Pelo colar também.
– Então... você acredita em mim? Que Mila e eu não temos nada e que eu só dei um jeito de arrancar o colar dela?
– Scorpius, você não se mostrou confiável ultimamente.
– Eu sei – falei, abaixando o olhar. – Mas estou falando sério agora.
Ela apenas assentiu com a cabeça, suspirou e tirou a mão embaixo da minha, dizendo que precisava encontrar alguém por lá. Deixou-me sozinho a mesa por um instante e quando voltou... estava com a companhia do ex-professor de Trato das Criaturas Mágicas, Hagrid, o meio-gigante. Ele trabalhava na segurança de Hogwarts e disse que ia alegar aos aurores sobre a presença de ladrões na vila de Hogsmeade e que podiam invadir o castelo. Reportamos o nome de um deles e a aparência dos dois. Eu esperava que isso desse certo, porque eu nem sabia como iria contar ao meu pai que haviam roubado o anel da família, que ele me deu uma vez.
Logo Hagrid aceitou com muita boa vontade nos acompanhar até a entrada do castelo. A presença daquela figura alta era confiável, como se repelisse qualquer pessoa perigosa. Tirando o fato de que ele e Rose estavam falando das novas espécies de Mini Puffs, fiquei aliviado de ter voltado para o castelo na companhia de um tipo de guarda-costas.
Mas eu não me sentia inteiramente bem. Rose quem havia me salvado e se livrado daquilo, sozinha. Tentei salvá-la, mas eu não sabia resolver as coisas. Eu tentava do meu jeito, mas meu jeito sempre piorava as coisas.
– Bem, estão entregues – disse Hagrid, nos deixando no salão principal. – Fiquem longe de perigo, vocês dois, hein? E dê um abraço no Albus, não vejo o garotinho há um tempo.
– Pode deixar – disse Rose, rindo quando Hagrid se referiu a Albus como “garotinho”. – Obrigada, Hagrid. Nos vemos depois.
Ele deu um tapinha no ombro dela. Rose quase caiu. Mas retribuiu o sorriso do meio-gigante com simpatia. Hagrid foi embora e nos deixou sozinhos.
– Rose – comecei, mas ela me interrompeu como se soubesse o que eu ia dizer, para discutirmos o que deveria ter sido discutido há um tempo.
– Eu quero poder confiar em você quando estiver comigo, Scorpius. Não só quando você estiver por perto, mas longe também. Só porque não nos vemos nas férias, não quer dizer que o que sentimos desaparece. Não importa o que você fez, e esse não é o verdadeiro problema agora. É que pareceu que você tinha ignorado tudo, e isso me ofendeu mais do que me magoou.
– Não estou ignorando agora – percebi, e segurei seu rosto. Ela não se afastou quando fiz isso, então pude prosseguir. – Eu não quero cometer erros para conseguir enxergar o que não parecia óbvio antes. E foi isso o que aconteceu. O que eu quero de verdade é segurar a sua mão.
Ela me encarou, mordendo os lábios.
– Voltar a ficar com você e não me preocupar em esconder isso de ninguém – acrescentei. – Mas eu entendo se achar que não vai funcionar e...
– Não, Scorpius, eu não acho isso. Eu fiquei decepcionada justamente porque achei que com você daria certo, que seria diferente.
– Diferente como?
– Como um amigo, que sabe beijar muito bem. – Ela ergueu levemente o canto dos lábios, corando. Voltou a ficar séria para dizer: – Eu gosto de poder contar com você e eu não quero perder isso, não quero ter motivos para perder isso. Não me faça mais ter motivos, Scorpius – ela me olhou zangada e amenizou a expressão quando eu disse:
– Você não vai ter. – Não era uma garantia, era uma decisão. Dei mais um passo. A cada segundo eu voltava a senti-la mais próxima e alcançável. A sensação era boa, talvez uma das melhores que tive, e não precisava de nada espetacular, misterioso. Era uma sensação natural.
Hesitante, encostei meus lábios nos dela por um tempo, sentindo-os outra vez, só que com mais atenção e um tipo estranho de saudade. Ela olhou para mim e tive receio de que se afastasse. Eu não desejava isso, mas não impediria suas decisões. Tentei tudo o que pude. Ouvíamos os passos e as vozes das pessoas passando por nós. O único foco era o rosto de Rose próximo ao meu. Eu tentei um sorriso e, no fim, ela acabou correspondendo. Não somente ao sorriso, mas ao beijo. Sentia-me dolorido pelos socos que levei ao tentar protegê-la, mas com os lábios dela, os braços dela ali ao meu redor, dores eram só detalhes. O que prevaleceu foi o calor que ela me transmitiu, aceitando-me de volta. E havia uma nova perspectiva no modo como a gente se beijava agora. Pois assim que nos afastamos meio sem fôlego, não dissemos nada. Mas entrelaçamos nossos dedos, na frente de todos que estavam por lá.
E sabíamos que dependia de nós mesmos para não nos soltarmos. Não dependia de mais ninguém.
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