Born For This
14 Sex On Fire
Notas iniciais
Definitivamente passar o meu aniversário com a família do noivo da minha tia não estava nem nos meus planos. No casamento, meus pais estavam tão descaradamente entediados que eu acabei tendo o trabalho de causar a boa impressão entre nós.
Boa impressão. Isso seria até irônico se a família Gouldman não tivesse a impressão deles para ocultar a nossa. E eles causavam, acredite, eles causavammuita impressão. Assim que chegamos ao casarão onde a família morava na Irlanda – uma propriedade pouco menor que a dos meus avós – fomos atendidos por um elfo doméstico horroroso. Provavelmente um dos poucos que não haviam sido liberados desde a fundação F.A.L.E, depois da Grande Guerra. Ele não era nada educadinho e se chamava Encurralado. Eu me perguntei por que Encurralado nunca se revoltou contra a família, ou lutou pelos direitos de elfo. Mas acabei descobrindo o problema. Encurralado amava os Gouldman. Amava tanto que quando o sogro de Dafne subiu as escadas para nos cumprimentar, o coitado do elfo estava agarrado a sua perna esquerda, tamanha adoração que tinha por seu dono. O cara logo deu um chute nele e o espantou.
A princípio, a família havia nos hospedado em um quarto com três camas. Quando minha mãe viu que eram três camas de solteiro, ela ficou tão incrédula que exclamou, jogando as malas no chão:
– Por acaso eles pensam que não dormimos na mesma cama, Draco? E Scorpius não tem três anos para ter que dormir aqui do lado, tem?
– Querida, tudo bem. Scorpius vai sair – apontou para mim e ordenou: – Veja se Dimitre tem um lugar no quarto dele para você.
Olhei para minha mãe, achando que ela não ia deixar meu pai me enxotar desse jeito, mas o olhar suplicante dela só não me fez ficar constrangido porque eu já estava acostumado com aqueles dois sendo indiscreto quanto à vida sexual deles.
– Não precisam nem pedir – eu disse, abanando a cabeça. Mas apenas porque isso era um sinal de que eles estavam bem de novo um com o outro. Mamãe jogou o terno de gala empacotado na minha direção e me tirou de lá.
O quarto de Dimitre ficava bem longe do dos meus pais. Tive de andar e ultrapassar três corredores extensos, deparar-me com alguns fantasmas que vagavam por ali, sem rumo nem destino, para chegar até a porta de madeira que era o quarto dele.
Meu primo estava sentado na margem da cama quando entrei, de frente para a janela e de costas para mim. O cabelo dele havia crescido desde a última vez que o vi, estava cacheado e castanho claro novamente. Quando coloquei minhas malas sobre a outra cama, eu já deixei claro:
– Pode ficar sossegado, não vou fuçar nas suas maquiagens.
Dimitre não disse nada, nem se moveu. Eu franzi a testa.
– Não vai me xingar? Vamos ser colegas de quarto de novo. Tanto faz – eu não ia perder meu tempo chamando atenção. Apenas deixei minhas coisas ali. Dimitre estava muito estranho. Não diferente, apenas estranho.
Eu acreditava que era porque ele ia ter um novo padrasto e iria morar naquele casarão pelo menos até se formar na Durmstrang. E, em parte, eu estava certo, mas foi durante a cerimônia que o seu comportamento se tornou justificável.
Eu estava ao lado de meu pai enquanto assistíamos Dafne entrar com seu elegante vestido branco de noiva. Ela caminhava até o altar projetado no centro do jardim revestido por um toldo elegante, já que estava nevando fracamente. Seu sorriso era muito parecido com o de Dimitre, quando estava satisfeita com alguma coisa. Tinha tantos convidados ali presentes que fiquei impressionado, porque parecia que não iria vir ninguém. Nas cadeiras do outro lado do carpete, sobressaltei-me ao reconhecer a garota que estava ao lado de uma mulher elegante e de um homem velho. Era Amber Davis. Não entendi porque ela estaria ali. Parente dos Gouldman? Não acho impossível. Ela me viu quando eu estava olhando para ela. Não pareceu tão surpresa, apenas fez um acena sem entusiasmo para mim e voltou a prestar atenção no que o bruxo dizia.
Houve um tempo em silêncio, em que homenagearam a mãe falecida do noivo de Dafne, Leon. Naquele silêncio, ouvi mamãe cochichar a mim: “Cadê o Dimitre?”
Foi então que percebi sua ausência. Dimitre não estava na cerimônia. Avistei Dafne no altar. Os Gouldman com as cabeças baixas, e ela virando a sua de um lado para o outro, numa mistura de preocupação e raiva ao notar o que minha mãe também notara.
Depois da homenagem, Encurralado trouxe as alianças reluzidas sobre uma bela almofada de veludo. Antes de se afastar, o elfo abraçou as pernas de Leon, exclamando: “Parabéns, meu senhor, parabéns!” e só saiu porque Leon o chutou da mesma forma que o pai dele fez outra hora. Olhei ao redor, verificando se alguém tinha achado isso um absurdo, mas tinha gente chorando de alegria, então deduzi que não.
Meu pai bocejou na parte que Leon disse “eu aceito Dafne...”, enquanto minha mãe acariciava os cabelos da nuca dele, os dois muito distraídos e entediados. Faziam um ou dois comentários sobre o vestido de Dafne estar extremamente curto e davam risadinhas.
Eles só pararam quando uma voz gritou da entrada do jardim. Dafne estava para dizer “eu aceito”, mas Dimitre interrompeu, avançando contra o altar, entre as cadeiras, pisando firme sobre carpete com uma postura rígida:
– Assassino ordinário!
Como se já soubessem o que ia acontecer – Dimitre ia partir agressivamente para cima do noivo –, dois caras enormes levantaram-se das cadeiras como se fossem seguranças e agarraram os braços de Dimitre. Naquele momento eu descobri que Dimitre não andou malhando só para impressionar garotas.
Eu não estava entendendo porcaria nenhuma. Dimitre não estava bêbado – eu conhecia Dimitre bêbado – por isso não achei que ele estivesse blefando ao culpar Leon pelo assassinato do seu pai. Mas os outros acharam. Os “seguranças” tentaram tirá-lo dali a força, mas meu primo relutou até ser solto. Ajeitou o terno que usava bruscamente. Para minha surpresa, ele só apontou o dedo e disse:
– Esse homem matou meu pai. Vocês podem ficar aí sem fazer nada, mas devem saber que estão assistindo a um casamento de um assassino.
– Dimitre – foi Leon que interveio, aproximando-se de Dimitre com cautela. – Acalme-se. Podemos conversar sobre...
– Conversar? Foi você mesmo, não foi? Eu sabia que eu estava certo! Fez minha mãe me tirar de Hogwarts para estudar na Durmstrang! Quer mandar em nossas vidas!
– Dimitre, saia daqui – Dafne sibilou as palavras com a voz baixa, mas firme. – Não atrapalhe o melhor dia da minha vida com suas conclusões precipitadas!
– Conclusões precipitadas – crispou. – Eu não queria estar aqui também, acredite, mãe. Mas tenho pena de você. Realmente.
– Continuem o casamento – uma mulher gorda se levantou e encarou na direção de Dimitre. – O rapaz está se queixando por algo que não fará diferença agora. Seu pai era um grande desgraçado, garoto. Chama meu sobrinho de assassino, mas nem conhece o passado do próprio pai.
Dimitre ficou calado, o maxilar rígido.
– Dimitre, por favor – Leon pediu com calma. – Sua mãe é importante para mim. Eu entendo que esteja zangado, mas não sabe o que está dizendo. Eu não matei seu pai.
– E mesmo se tivesse você nos fez um grande favor, Leon – a mulher interveio. – Odiava aquele homem!
Jurava que Dimitre estava com lágrimas nos olhos. De raiva, mas também de desespero. Desespero por notar que ninguém da sua nova família, a não ser ele, se importava com o pai dele. Dimitre saiu. As pessoas voltaram aos seus lugares. O casamento, por incrível que pareça, continuou normalmente. No entanto, Dafne não estava mais sorrindo quando colocou o anel caro em seu dedo.
Era o que eu dizia sobre causar impressão. Para ficar ainda mais impressionante, depois que Dafne e Leon se tornaram marido e mulher, a festa no salão logo se agitou para os convidados. Os noivos e a família Gouldman estavam sentados em uma mesa extensa só para eles. Fizeram brindes, discursos, ignoraram qualquer acusação de Dimitre. E ele não deu as caras depois.
Durante a festa, encontrei Amber dançando sozinha e perguntei o que ela estava fazendo ali naquele casamento. Foi um erro grotesco me aproximar dela naquele momento da festa.
– O sobrinho do meu padrasto é primo de segundo grau do padrasto do seu primo – contou e deu uma risadinha, tomando o gole de whisky. A expressão dela indicava que aquele não era o primeiro gole. – E por falar no seu primo – eu achei que ela ia comentar da interrupção do casamento, mas só jogou os braços nos meus ombros e foi então que percebi que ela já estava bêbada: – quando foi que ele ficou tão gostoso, hein?
– O que aconteceu com “estou mais responsável esse ano”? – tirei os braços dela do meu ombro e apontei para o copo.
– Sabe – ela se aproximou do meu ouvido porque a música estava alta, e não devia ter entendido minha ironia porque de repente começou a dizer: – Minha mãe até hoje acha que somos namorados ainda! Alguém tem que atualizar aquela vadia!
Amber gargalhou. Ela tinha dentes brancos e bonitos, uma gargalhada gostosa de se ouvir, nada irritante. Mesmo bêbada, ela tinha esse negócio que fazia muita gente achá-la engraçada sem ela realmente ser engraçada.
Mesmo assim, eu não estava me sentindo bem ali a sua frente. Ou eram os saltos que ela estava usando ou eu havia encolhido. Amber estava mais magra e alta. Ela sempre foi alta, mas dessa vez ela me ultrapassava. Era como se não tivéssemos mais nada a ver. E não tínhamos mesmo.
– Por que a gente não vai lá pra cima como nos velhos tempos? – sugeriu. – Sinto falta de um garoto dizer que eu estou gostosa! Garotas nunca falam que a outra está gostosa... é isso o que eu detesto em Hanna! Ela nunca diz que estou gostosa...! Você dizia sempre, lembra?
Sorri para ela.
– Você sabe, não sabe? Cometer um erro duas vezes é burrice. E minha namorada gosta de caras espertos.
Eu ia dar as costas, mas então vi a expressão dela. Eu a ofendi.
– Amber, você está bêbada. Só está assim porque Hanna te deu um fora e você gosta dela.
– O que deu em você? – ela me encarou, inconformada, empurrando meu peito. – Sou a Amber Davis, esqueceu?
– Ei, calma.
– Vamos, Scorps... vai ser bem rápido, eu prometo.
Apertei os pulsos dela e a afastei de mim.
– Procure outro cara, tá legal?
– Ótimo – ela crispou, zangada e passando as mãos no cabelo daquele jeito desesperado, quando acontecia algo que não ia com seus planos.
Saí dali sem remorso algum. A festa estava agitada e Amber não era a única bêbada por lá. Primos e primas de Leon, que tinham a nossa idade, também ficavam fazendo brincadeiras estúpidas.
Eu só tomei alguns goles de whisky e enquanto enchia meu segundo copo, duas mãos seguraram minha gravata. Minha mãe estava dizendo:
– Finja que estamos falando de algo muito engraçado, enquanto eu finjo que estou te achando engraçado, fingindo ajeitar sua gravata que está torta. – O sorriso dela era forçado. A mãe de Amber passou por nós sem nos interromper. Mamãe suspirou aliviada e explicou: – Qual é o problema da sra. Davis, afinal de contas? Ela vem falar comigo como se fossemos organizar sua festa de casamento com a filha dela. Já está enchendo.
– Amber não conversa muito com a mãe dela.
– Então ainda acha que vocês estão juntos?
– É.
Ela abanou a cabeça.
– E eu sou a pessoa que tem que aturar isso, Scorpius? De qualquer forma, seu pai notou que você não está se divertindo. – Ela apontou para ele no outro canto do salão. Com a mão no bolso, meu pai observava festa e acendia um cigarro. – Ele está a ponto de oferecer um a você. Que cara é essa?
Agora que ela sabia sobre mim e Rose, eu confessei logo:
– Albus e Rose me convidaram para passar o Natal com eles.
– Oh. E você queria estar lá, eu suponho.
– Podia ser uma chance – comentei, dando de ombros.
Eu não soube o que minha mãe ia dizer, porque naquele instante meu pai se aproximou de nós, dando um suspiro pesado. Paramos de falar do assunto.
– Casamento. Ainda bem que eu só tive um. Vamos embora daqui – meu pai apelou pela gentileza no pedido. – Sei que é a festa da sua irmã, Astoria, mas...
– Mas eu e ela nunca nos demos bem mesmo – acrescentou, aprovando a idéia. – Podemos ir. Eu só vou me despedir e podemos pegar as malas lá em cima depois.
Antes de sair do salão eu dei uma olhada ao redor quando a sra. Davis perguntou onde estaria a filha dela. Amber não estava mais lá. Segui meus pais pela escadaria e subi, entrando pelo corredor oposto do quarto deles, já que eu havia deixado as malas no quarto do Dimitre.
E o que eu vi no próximo minuto foi uma das cenas mais desnecessárias da minha vida. Uma das cenas que eu nunca, nunca, nunca poderia pensar em ver, ou sequer saber que já aconteceu.
Um passo em direção a porta de madeira do quarto de Dimitre e ignorei os sons de algumas vozes ali perto. Havia fantasmas por todo o lado, por isso não suspeitei de nada. Não suspeitei que, se eu abrisse a porta daquele quarto, pegaria minha ex-namorada e meu primo transando.
Eu ficaria puto. E, a princípio, eu fiquei. Queria pegar minhas malas, mas tinha dois adolescentes transtornados fazendo sexo ali do lado. O cobertor cobria uma parte do corpo deles, e eu só via as costas nuas de Amber se levantando lascivamente, e ela realmente cavalgava em cima de Dimitre. Ela estava tipo: “Diga outra vez” e ele: “Você é fodidamente gostosa.”
Quando entrei, Dimitre a jogou para o lado. Achei muito sensível da sua parte ainda se cobrir com o cobertor. Amber me viu, mas parecia que ela não tinha me reconhecido. Estava completamente bêbada, mal conseguia abrir os olhos.
Peguei minhas malas, olhando para Dimitre. Eu não sabia que tipo de expressão eu tinha no rosto, mas meu primo me encarava de volta, como se não quisesse que eu visse aquilo. Ninguém disse nada. Houve um silêncio no qual Amber tentava voltar a beijar Dimitre e ficar em cima dele. Saí dali rapidamente, não querendo ter testemunhado aquilo.
Esforcei-me para não ficar me lembrando da cena toda hora, depois que fui embora. Não comentei com ninguém sobre isso. Eu nunca achei que pegaria os dois transando, por isso nunca achei que seria necessário enfatizar um detalhe antigo sobre Dimitre. Esse detalhe de que ele teve uma obsessão por Amber durante um tempo em Hogwarts. Pensei que ele já tivesse superado, porque nunca realmente encheu o saco enquanto ela e eu namorávamos. Amber, no entanto, nunca gostou dele. Tinha desprezo. Mas talvez ela não desprezasse Dimitre nas vezes que ele a chamou de gostosa. Na festa, eu pedi para ela arrumar outro cara. Não meu primo. Não que ela fosse se lembrar.
Bem, mas eu lembraria.
Os perímetros da nossa Mansão estavam cobertos de neve. Dezembro terminava e se colocássemos os pés fora de casa, provavelmente virariam gelos. Dafne saiu em Lua de Mel com seu novo marido logo depois do casamento e a coruja dela sempre fazia uma visita nas noites silenciosas, para nos enviar suas cartas e novidades. Tirando o fato de que Dimitre voltou para Durmstrang sem avisar ninguém, Dafne se constatava muito satisfeita e feliz.
Em meu quarto, eu estava testando alguns feitiços de levitação para passar o tempo, porque eu já podia usar magia fora da escola. Sobre minha cama, espalhavam-se alguns presentes de aniversário. Rose me deu um livro, desculpando-se por não ter conseguido encontrar nada que chegasse aos pés do presente que eu dei a ela. Mas não me importei, obviamente. O livro era realmente bom e interessante. Ela fez uma dedicatória, falando sobre como já previa nossas discussões sobre ele. Rose também constatou, na carta, que serviria de grande ajuda para as escolhas da carreira assim que nos formássemos em Hogwarts, pois eu ainda tinha dúvidas quanto a minha profissão. Era um livro que nos fazia abrir os olhos para o senso comum, dizia.
Cheguei a gostar tanto do livro que eu o lia até durante o jantar.
– Scorpius – chamou meu pai a minha frente. – É um livro comestível para colocar na mesa, por acaso? É tão interessante assim?
– É legal – dei de ombros, afastando o livro da mesa. – Então, o que temos de sobremesa?
Minha mãe ia dizer, mas meu pai interrompeu:
– Quem deu esse livro a você? Não o largou até agora.
– Hum... um amigo meu.
Vendo a descrença do meu pai, eu limpei a garganta e pensei: “Bem, foda-se.” Então confessei:
– Na verdade, foi minha namorada. Ela gosta de livros, então...
– Namorada? Não sabia que estava namorando de novo.
– Bem, o senhor nunca perguntou – eu olhei para o meu prato. Estava esperando que ele perguntasse quem era, e eu estava pensando em como iria responder, mas apenas assentiu compreendendo, sem dizer mais nada. Voltou a comer, deixando um buraco naquela conversa, como se parecesse que não devia ter terminado assim. Acho que ele não se importava com quem eu estava namorando. No dia seguinte, eu o ouvi dizer a minha mãe que não ia se preocupar com uma coisa que não ia durar muito. “Eu conheço ele, Astoria. É só outro rolo. No próximo feriado ele vai falar que está namorando outra, e outra, e assim por diante.”
Por um lado, estava indignado com a indiferença dele. Mas, por outro, eu sabia que talvez não fosse o momento certo para contar detalhes sobre minha namorada, qual era o sobrenome dela e essas coisas.
Voltei a Hogwarts depois do ano novo. Albus estava com o cabelo cortado, o que fazia parecer que ele tinha uma cabeça gigante. Eu ia zoar ele quando nos encontramos no Salão Principal, mas Albus estava com a expressão séria. Ele cruzou os braços e me olhou nos olhos, esperando que eu confessasse logo de uma vez que fiz alguma merda naqueles últimos dias. Como eu estava tranqüilo, apenas brinquei:
– Você é que fez merda. Nesse cabelo.
Ele passou a mão neles, como se quisesse escondê-los.
– Visual novo. Tanto faz... escute, você sabe que eu descubro, não sabe? Se foi engraçadinho com outra garota... eu descubro. Pode demorar, mas descubro.
Peguei o livro que Rose me deu e, ignorando Albus, aproximei-me dela na mesa da Corvinal. Rose levantou e estava com os cabelos soltos, do jeito que eu mais gostava. Eu sorri, apontando o livro.
– Eu li.
– E você gostou? – perguntou, cruzando os braços. Dei de ombros.
– Teve coisas aqui que eu discordei, mas dá pra dizer que gostei.
Ela me puxou para um beijo, dizendo e sorrindo:
– Não seria você se não discordasse de alguma coisa.
– Tem razão.
– Ok, pombos – Albus interveio quando fiquei abraçado à prima dele. – Vocês são lindinhos e tudo o mais, mas já estão começando a ficar proibidos para diabéticos.
– Mas você não é diabético, é, Potter? – Natalie se aproximava, carregando as malas. Ela sorriu para mim e para Rose. – Deixe os dois! O que há de errado em gostar de alguém e demonstrar isso em público?
Natalie também estava com visual novo. Mas não porque cortou alguma coisa, mas sim porque deixou crescer. Os cabelos negros estavam cumpridos e isso a deixava menos Natalie e mais... hum, garota. Só quando ela empurrou Albus para ele sair da frente e tirou Rose do meu abraço para ela abraçá-la, percebi que ela ainda estava a mesma Natalie de sempre.
Albus não pareceu se importar com o empurrão.
– Como foi lá em Los Angeles? – perguntou cautelosamente.
– É – Rose enfatizou, segurando-a pelos ombros. – Você não mandou cartas, estávamos preocupados.
– Eu não estava preocupado – fui sincero.
– Pois vocês deviam seguir o exemplo de Scorpius – ela disse, olhando para Rose e Albus. – Porque estou ótima. Não foi tão ruim como eu pensava que seria. Fiz aquele drama todo lá... Ah, esquece isso, pessoal. Teremos curso de aparatação nesse semestre!
A lembrança animou a todos nós. Sempre tivemos vontade de ter a licença para aparatar, mas não estávamos com idade suficiente para isso antes. Os cursos iam começar na semana que seguiria e, enquanto isso, nossa rotina escolar voltava aos poucos. Nos dias chatos e entediantes, eu tinha Rose para acabar com isso. A cada momento ela se sentia mais leve, mais relaxada, mais seguracomigo. Não apenas quando estávamos sozinhos nos beijando, mas também para as pessoas.
Eram momentos como aqueles que eu acreditava que não seria só um rolo. Ou, pelo menos, eu desejava que não fosse. Rose sentia cócegas quando eu beijava seu pescoço e ela soltava algumas risadinhas, mesclada a um suspiro preso contra a garganta. Chegava a soar como um gemido leve. Estávamos nos beijando em minha cama. Sim, apenas nos beijos, mesmo que estivéssemos deitados, ela embaixo de mim. Eu queria acostumá-la com esse calor, e eu devia aprender a me controlar. Eu adorava o jeito que ela me beijava de volta, o jeito que a mão dela se afogava nos meus cabelos lisos e o jeito como ela suspirava com os beijos no pescoço. Claro que eu esperava por mais, mas às vezes aquilo me parecia bom o bastante.
Eu estava beijando seu pescoço quando ela perguntou:
– Você contou aos seus pais?
Olhei para ela. Eu comecei a notar que quando Rose ficava nervosa ela tinha essa mania de fazer perguntas em que as respostas nunca estavam na minha cabeça.
Eu não soube o que responder. Dizer que meu pai não se interessou? Isso seria incrível para nós, mas eu comecei a notar que preferiria discussão à indiferença. Era como se ele tivesse ofendido o que eu sentia quando estava assim com Rose.
Preferi rebater.
– Os seus estão sabendo?
Ela riu, roçando o dedo em meu queixo distraidamente.
– Minha família é bem grande, você sabe, certo? Eu tenho primos ao redor dessa escola e eles não conseguem ficar de boca calada.
– Então você não precisou contar? Vou ser assassinado?
– Não – ela soou relaxada. Relaxada até demais. – Não, claro que não vai ser assassinado. Tudo bem que meu pai quase impediu que eu voltasse a Hogwarts, mas o que ele pode fazer? Me impedir de ficar com você? Me impedir de ser feliz com você? Minha mãe nunca deixaria ele me impedir de nada que pudesse me fazer bem.
– Parece que não tivemos problemas com nossas mães.
– Meu pai agiu da mesma forma que agiu quando namorei Scott. Ele é naturalmente assim. Eu achei que seria pior.
– Oh, vai ser pior – soei descontraído. – Quando eles quiserem me conhecer.
Achei que ela iria rir, imaginando o desastre que seria caso eu viesse a conversar com o próprio pai dela, mas Rose ficou meio séria de repente. Eu afastei-me quando ela precisou de espaço. Passou as mãos nos cabelos e sentou, dobrando os joelhos. Eu estava deitado ao seu lado, quando ela disse:
– Esse é o problema, Scorpius. Eles acham que não é sério.
– Que é só um rolo.
– É! – ela soou indignada. – Eles só não querem que coloquemos nossas famílias no meio disso tudo.
– É como se eles não se importassem.
– É!
– Com o que a gente sente um pelo outro.
– Exatamente. Isso meio que ofende, não?
Nunca tivemos tanta coisa em comum antes. Eu me sentei e virei o rosto dela para mim, capturando novamente seus lábios. Afastei-me só um pouco para dizer, sério e sincero:
– Então não vamos nos importar com eles também. É o mais justo, acho.
Ela assentiu e voltou a me beijar, puxando-me para ela com os dedos prensados em meu rosto. Parecíamos meio que revoltados e desesperados. Era como se quiséssemos um ao outro desde o primeiro ano e precisássemos recompensar o tempo perdido em um só beijo. Naquele beijo. Era, também, como se estivéssemos nos rebelando contra nossos próprios pais. A sensação era alucinante, era errada e certa, era excitante.
Sobre seu corpo, consegui entrar com os dedos dentro da sua saia, arrastando-os pelas suas coxas. Impressionante como eu não tinha nem reparado que ela esteve concentrada em abrir os botões da minha camisa enquanto isso. Sem quebrar o beijo, eu esperava que ninguém viesse bater a porta do quarto, para atrapalhar aquilo.
Não sei o que estava acontecendo entre a gente, mas parecia que nossos pensamentos estavam conectados, porque Rose perguntou baixinho e ofegante, os lábios vermelhos:
– Trancou a porta?
Olhei para ela e demorou um tempo até eu entender a pergunta. Decidi verificar, mesmo que achasse que o clima ia acabar se eu saísse de cima dela. Mas não acabou. Levantei-me da cama e me dirigi à porta, para ver se estava trancada. Quando fui voltar para a cama, Rose estava me observando. Eu tirei a camisa do meu corpo, lentamente. Provoquei:
– Então você acha que eu sou sexy.
– Eu nunca disse que acho você sexy – ela sorriu de um jeito suave.
– Mas você acha – ajoelhei-me na cama, jogando minha camisa nela. – Você está verificando se tem algum defeito nesse corpo.
– Você vai ficar aí, todo convencido, se eu admitir – ela jogou a camisa no chão como se fosse um pano.
– Não sou convencido. Sou sexy.
Ela nem se deu ao trabalho de me xingar de idiota, mesmo que estivesse pensando nisso, eu sei, então só deu uma risada abanando a cabeça antes de corresponder novamente ao meu beijo, mesmo eu sendo idiota.
A verdade era que eu também estava um pouco nervoso, e eu demonstrava isso fazendo piadinhas idiotas. Rose demonstrava de outra forma. Além de perguntas, quando ela tentou abrir o meu cinto da calça, notei que estava tendo dificuldade com a fivela.
– Consegue fazer poção polissuco mas não consegue abrir um cinto?
Ela me deu um tapa no braço em resposta, embora estivéssemos meio excitados com o calor. Ela era Rose Weasley, afinal.
O mais estranho e incrível de tudo era que, em vez de acabar com o clima, a situação me deixava mais desejoso e excitado. Porque ela abriu meu cinto, o que significava que...
A monitora, a garota que condenava os colegas por fazerem algo errado, inverteu a posição que estávamos e, ainda me beijando, ficou em cima de mim. Talvez estivéssemos nos agarrando muito durante os últimos dias e ela já estava se acostumando. Eu só adorei estar assim com ela.
Adentrei minha mão dentro da blusa dela, acariciando suas costas. O beijo ficou ainda mais quente. Rose foi tentar abrir o zíper da minha calça, e os dedos dela roçaram minha ereção. A princípio pareceu um acidente e achei que ela ia se afastar com o susto, mas depois ela realmente os pousou na região de um jeito intencional, meio que me deixando maluco.
Ela estava sentada em meu colo e nós ficamos nos encarando. Eu conhecia Rose o suficiente para saber que quando ela tinha certeza de uma coisa, ela tinha uma expressão decidida. Por isso não perguntei. Por isso eu a peguei em outro beijo forte, ajeitando-a em meu colo, de modo que, mesmo com roupas, sentimos nossas excitações.
Voltei a deitá-la na cama, com seu corpo embaixo do meu. Rose só se afastou com os lábios para me observar abrindo os botões da sua blusa, um por um. Novamente a vi de sutiã. E eu quis tirá-lo, muito. Tive esperança que, embora ela estivesse hesitante e nervosa beijando-me ardentemente, não me impedisse. Então arrisquei.
Arrisquei colocando a mão embaixo das suas costas. Em vez de me impedir, ela me ajudou, curvando o corpo. O barulho do fecho do sutiã se abrindo fez minha cueca ficar ainda mais apertada. Quando soltei a peça, revelando seus seios, tudo que me cobria acabou me irritando. Eu queria liberdade entre as minhas pernas o mais rápido possível.
Desci os lábios de seu queixo até seu peito. Apertei a língua em um de seus mamilos eriçados. Oh Merlin, ela estava excitada. Demonstrou isso com um gemido forte.
Sentei-me para ajudá-la a tirar a saia dela. Rose não era magra como as outras garotas preocupadas com aparência, ela tinha carne para apertar, para morder, para sentir de verdade. Aparentava-se firme, porém era frágil. Pele macia. Em outras palavras, eu estava hipnotizado. Ela era a garota mais bonita que eu conhecia, e eu fiquei com raiva de ter fechado os olhos para isso todos esses anos.
Devagar, tirei sua calcinha, arrastando-a fora de suas pernas. Não consegui mais agüentar. Tê-la nua foi um triunfo, mas percebi que o que me deixava prazeroso não era sua nudez em geral. Eu já havia visto garotas nuas em revistas, além de Amber e tudo o mais. Mas não Rose. Com o ar fracamente iluminado, eu podia ver detalhes aleatórios, como uma pequena pinta imperceptível que ela tinha pouco sobre as coxas. Detalhes que alguém só repararia se a despisse.
Voltei a beijá-la com força e ela suspirou contra a minha boca, descompassada. Senti a rigidez de seus seios apertados contra o meu peito quando me prendi nela. Meu pulmão não sustentava nenhum ar, enquanto Rose começava a abaixar minha cueca. Ela viu o quanto eu estava precisando de liberdade ali.
Senti-me fraco, simplesmente fraco, quando seus dedos apertaram a minha ereção outra vez, só que dessa vez foi dentro da cueca. Eram dedos nervosos, que não tinham idéia do que estavam fazendo, que nunca fizeram aquilo, mas que me davam prazer.
– Rose... – gemi. Ela me olhava, preocupada, mas não parou. Continuou me apertando, movendo a mão e me excitando a cada toque, a cada estimulação. Comecei a ofegar, sem tirar os olhos de Rose, e depois voltei a olhar para sua mão em meu membro. E de novo para ela. Era difícil acreditar, aquilo estava sendo perfeito. Voltamos a nos beijar e ela afastou a mão.
Foi o suficiente para que eu me direcionasse até a minha calça jogada ali do lado. A camisinha estava no bolso. Quando a vesti, eu estava a um centímetro de tirar qualquer espaço entre nós. Mas então lembrei que aquela era a primeira vez dela. Olhei para ela, respirando pesadamente.
– Se doer... – prometi com uma força de vontade sobrenatural que nem eu sabia que eu tinha – se eu machucar você... me dá um tapa que eu juro que paro.
Ela conseguiu rir, ofegante e ao mesmo tempo nervosa. Então revelou:
– Eu confio em você.
Voltou aos meus lábios e deduzi que isso foi uma permissão.
Eu nos cobri com o lençol. Tudo aconteceu ali embaixo. Quando a base do meu membro conseguiu um caminho apertado dentro dela, tive a obrigação de fazer aquilo ser bom para ela. Pelo menos o que se exigia numa primeira vez. A dor estava estancada na sua expressão. Ela cerrou os olhos com força e saí de dentro dela, quando gemeu. Eu estava respirando muito forte, e mesmo que não tivesse feito quase nenhum movimento, eu suava, transpirava, me grudava na pele dela.
Comecei a beijar seu pescoço, deliciando-me com seu gosto doce e salgado ao mesmo tempo. Ainda um tanto dolorida, ela não fez nada para me afastar. Tentei invadir de novo e não me impediu. Estimulei seu mamilo eriçado com o dedão, e apalpava o outro seio com minha outra mão. Rose enrolou os braços em mim.
– Continua... – mandou baixinho, quando hesitei dentro dela e encostei o rosto perto do seu ombro. Eu não estava inteiro ali dentro, ainda tinha muito espaço. Abri mais suas pernas, ela era tão apertada. Eu a penetrei inteiramente e ela mordeu meu ombro com força.
Dei outro impulso com o quadril. Dessa vez ela gemeu alto, como se tivesse sido pega de surpresa. Eu parei de me mover e ela meio que ordenou daquele seu jeito tipicamente impaciente, com a diferença que estava mais excitado:
– Agora eu não quero que você pare, Scorpius.
Eu sabia que estava doendo – dava para ler na sua expressão –, mas Rose começou a pegar a sincronia. E não parecia mais se reprimir como no começo. Eu movi mais vezes dentro dela, sem sair. Sons prazerosos começaram a de seus gemidos, quando me apertei ainda mais. Beijávamos, e eu me movia calmo e lentamente, sentindo que eu podia deslizar com mais facilidade, tão molhado nós estávamos, não apenas nossos sexos mas nossos corpos.
Eu voltei a olhar para ela. Mordia os lábios daquele jeito incrível. Eu investi ainda mais forte, mais rápido, adorando cada sensação que eu recebia em meu corpo. Ela gemia palavras incompreensíveis, eu me focava em seus olhos o tempo todo, embora eles estivessem cerrados. Voltava a beijá-la e depois voltava a encará-la. Queria ter certeza que tudo estava bem com ela, de que era o suficiente para ela. Era melhor ver a garota gostar de estar fazendo isso com você, do que você querer fazer aquilo só para gozar.
Ela apertou os dedos em minhas costas. Continuamos nos movendo, continuamente. Não paramos um minuto sequer e meu cabelo já estava molhado.
– Scorpius – gemeu Rose, de repente. Porra, como era bom ouvir aquela voz gemendo meu nome. Embora o rosto dela estivesse corado, a expressão era puro êxtase.
Afundei meu membro com força, fazendo os movimentos de vai e vem com meu quadril sem parar, aumentando o ritmo a cada gemido que ela dava. Ela estava apertando-me contra seu corpo em movimento. Jogou as pernas ao redor do meu quadril, um ato que me enlouqueceu de vez. Eu achei que eu ia cansar de ficar me movendo, mas isso me estimulou ainda mais. Foi impossível parar. Eu não quis parar.
Observei os lábios dela, de onde não paravam de sair gemidos. Foi o máximo que pude aguentar. Quando gozei, caí com o corpo sobre o seu, ofegando muito. Receei que ela estivesse decepcionada, não quis ter acabado tão rápido, mas foi impossível controlar.
Ao nos encararmos, Rose passou os dedos nos fios de cabelo grudados em minha testa. Ela não estava ofegando como eu, mas também não parecia em melhores condições para que conseguíssemos dizer alguma coisa. A vontade de falar era tanta que acabei não dizendo nada. Mas não me preocupei, afinal, percebi que uma das utilidades de fazer sexo com alguém que você ama é essa. Nada precisava ser dito, pois nossos corpos já estavam gritando coisas que era difícil colocar em palavras.
***
– Foi demais – eu sussurrei, quando voltei do banheiro e me deitei ao seu lado, vestindo apenas a cueca. Ela estava virada para mim, coberta pelo lençol, embora já tivesse colocado as roupas de baixo. E eu tivesse visto ela pelada há dois minutos. Mas nem fiz questão de achar estranho. Garotas são garotas.
– Ainda nem acredito que fiz isso com você.
– Está arrependida? – perguntei.
– Nenhum pouco. Estou sorrindo, não vê?
E ela realmente sorria. Eu gostava do sorriso dela. Segurei sua cintura, ficando mais perto dela.
– Fica aqui essa noite – sugeri.
– Eu não sei – Rose disse baixinho. – Albus pode me ver de manhã.
– Você pode dizer que, hum, você veio aqui para concertar o banheiro ou...
Ela riu alto.
– Albus só se faz de bobão, mas ele não é assim tão preocupante a ponto de acreditar nisso. Na próxima vez eu fico, quem sabe. Eu preciso voltar agora.
Afundei o lado do rosto no travesseiro, ficando de bruços.
– Então terá outras vezes.
– Claro. Só estamos começando... não é? – ela respondeu. Assenti, sem tirar os olhos dela ali ao meu lado.
Quando dei por mim, já tinha confessado:
– Eu meio que te amo, Rose.
Não sei se foi porque tínhamos acabado de transar, mas não me senti idiota dizendo aquilo. A reação dela foi dar um risinho. Incrédulo.
– Meio? – ergueu as sobrancelhas.
– Não quero te assustar dizendo que te amo mesmo.
– Não vai me assustar.
– Ótimo.
– Ótimo. – Depois de um tempinho me encarando, acrescentou: – Eu meio que te amo também.
– E nem está piscando – percebi.
– É que não estou mentindo.
– Ótimo. Também não estou mentindo.
– Ótimo.
Ela me deu um beijo longo e, depois, sussurrou:
– Preciso ir. Vejo você de manhã.
– Tchau – sorri e quando ela saiu, eu nunca me senti tão bem por nós dois.
Quem precisava de uma conversa mais longa do que essa?
***
Eu não vou dizer que acordei no dia seguinte assobiando. Mas eu estava feliz e satisfeito, sentindo-me perfeitamente bem para encarar qualquer coisa. Eu podia enfrentar o pai de Rose se fosse preciso, não ligaria. Eu podia enfrentar o meu pai. Eu sentia que podia fazer qualquer coisa. Eu estava preparado para qualquer coisa. Eu...
– Vocês totalmente transaram – Natalie exclamou com um sorriso indiscreto, quando eu e Rose chegamos na aula. Natalie estava sentada em uma perna de Albus, com um braço ao redor do ombro dele, enquanto a turma esperava o professor de Defesa Contra as Artes das Trevas aparecer. Ele sempre atrasava. Era o tempo que levava para Natalie conseguir deduzir porque eu e Rose ficávamos trocando olhares e sorrisinhos um para o outro.
Rose ficou literalmente rosa, mas o professor chegou bem na hora que ela ia se indignar e negar com todas as forças. O sr. Inaldo, cabeludo e barbudo, passou entre as carteiras de trio e sentou-se a sua mesa no fundo da sala.
– Trouxe as notas das avaliações. Srta. Grace, sente na sua mesa, obrigado. – Enquanto ele jogava os testes de cada um em nossa direção, contava: – A diretora mandou dizer que nessa semana vamos ter visitas. Bruxos e bruxas de qualquer profissão irão fazer palestras. Ano que vem vocês prestarão os N.I.E.M’s e não queremos suicídios de alunos porque estes não estavam preparados. Tome cuidado, srta. Davis, essa é a sua terceira nota ruim esse ano. Mais uma, terei que tirá-la da minha aula. E a sua mãe é uma das bruxas que vai dar palestra, ela não se orgulharia.
Com curiosidade, todos meio que estavam olhando para Amber. Ela não disse nada, só recebeu a prova e passou a mão na testa, parecendo nervosa no sentido de estressada.
Eu não tive oportunidade de perguntar o que diabos ela estava fazendo em cima de Dimitre, pelada, na festa de casamento da mãe dele. Ela nem olhou para minha cara desde que voltamos a Hogwarts. Faltou em todas as monitorias que devíamos fazer. Eu iria dizer que ela estava apenas com vergonha, mas essa não seria a Amber que eu conhecia. Devia haver algo mais ali, porque ela provavelmente nem se lembrava o que havia feito, muito menos o fato de que eu testemunhei o que ela tinha feito.
Amber não tinha vergonha das coisas que fazia. Só tinha vergonha de ser bissexual, de gostar de uma garota. Mas ela não tinha vergonha por ter bebido ou transado com algum cara. Ela só tinha vergonha de sentir alguma coisa por alguém, pelo visto.
Nossos colegas, principalmente as meninas, começaram a cochichar.
E foi então que ela perdeu a paciência.
– Que foi? – levantou-se bruscamente e parou em frente à carteira das amigas dela. Bem, talvez essas não fossem mais amigas. Stella, Fran e Kelly olharam sobressaltadas quando Amber bradou: – Vocês sempre são assim, não? Falam nas minhas costas. Por que não diz logo na cara, vagabundas? Tem medo de mim? Do que eu sou? Não acredito que pensei todo esse tempo que valeria a pena me reprimir por vocês três, mas se eu soubesse antes que amigas nãorejeitam as outras, eu teria feito vocês engolirem seus sapatos Gucci.
Ninguém estava entendendo nada, mas de repente a aula ficou muito interessante. Nem Inaldo atrapalhou.
– Hanna – Amber olhou para a garota sentada na carteira ao meu lado. Se eu não conhecesse Amber, diria que ela estava quase chorando. – Hanna, me desculpe. Eu sei que essas palavras são fodidas agora, mas... Olha, desculpe. Eu não me importo com o que as pessoas pensam. Eu só tive medo de ser rejeitada. Mas eu decidi que prefiro passar uma vida inteira rejeitada por garotascomo elas – apontou para o trio das ex-amigas – do que sendo ignorada por você.
– Srta. Davis – interveio Inaldo no silêncio que se seguiu na sala. – Por que não vai lavar o rosto? As duas... podem sair da minha aula, ok? Primeiro porque não é um set de gravação de novela...
– Não é uma brincadeira! – Amber revoltou-se quando algumas risadinhas soaram por ali. – É o que eu sinto, porra.
– Mesmo assim, não precisam discutir isso na minha sala.
De repente, algo estranho ocorreu. Andrew Smith se levantou e olhava diretamente para Amber. Eu pensei que ele iria se declarar para ela ou algo assim, mas Andrew só disse, meio rígido:
– Ela tem razão. Não é um drama. É o que a gente sente.
– Ah, faça-me o favor – reclamou Matt Stewart atrás de mim. – Vai dizer agora que também está no núcleo, seu boiola?
– Gente, vamos voltar aqui na aula – tentou chamar Inaldo, inutilmente.
– Eu combinei com Lily Potter de ficar comigo na festa de Halloween – confessou Andrew para a classe toda. – Para ocultar o que vocês falam de mim. Até tentei ficar com outras garotas, mas foi inútil.
– Andrew – Amber enxugou os olhos. Pela primeira vez ela olhava para Andrew como se... como se ele fosse... normal. Como se todo o desprezo que ela tinha por Andrew tivesse evacuado com o simples fato em comum entre eles: – Você é gay?
– Às vezes – ele disse, confuso, olhando para Matt Stewart. Aquele olhar bem significativo.
– O quê? – Matt avançou contra ele, irritado e com os punhos fechado, mas Inaldo o puxou pelo braço.
– Sente no seu lugar ou vou zerar o seu teste – mandou Inaldo, meio que rosnando.
– Mas ele disse que-
– Ele não disse nada. Dedução sua. Senta. – Matt não teve outra escolha. Ele também estava precisando de notas. – Sr. Smith e srta. Davis, sentem-se também. Depois vocês voltam a discutir e isso é assunto para Sociologia. Mas, como não temos matérias trouxas aqui... voltamos para Defesas contra as Artes das Trevas.
– É, e não Defesa contra as Artes dos Homofóbicos – retrucou Albus. Ele passou a odiar Matt Stewart, porque disseram que ele havia tirado a virgindade de sua irmã Lily. E porque Matt era um rival da Grifinória no Quadribol, que vivia zoando Albus por ele ser o único Sonserino da família dele.
– Ah, vai aproveitar e sair do armário também, Potter? – Matt apoiou-se na sua carteira para dizer, com um sorriso. – Ou você e o Malfoy pararam de se esconder a noite nas masmorras?
Eu não tive nenhuma reação, só fiquei olhando para a minha carteira. Eu sabia ignorar as pessoas. Claro que o fato de Albus e eu sermos amigos e andarmos sempre juntos rendiam vários comentários, mas para um filho de um ex-comensal da morte que ouvia comentários odiosos sobre minha família, rumores sobre eu e Albus sermos um casal chegavam a ser engraçados.
Pensei que Albus ia atacar Matt, mas só virou a cabeça e disse naquele seu tom sarcástico, sem se mover da cadeira:
– Oh, sim, paramos com isso. A Rose aqui trouxe a masculinidade de Scorpius de volta. Eu ainda não perdôo ela por isso.
– A sua masculinidade não voltou?
– Por que está tão preocupado com isso? Tá a fim de testar?
Todo mundo riu. Matt fez careta.
– Al, para de provocar – pediu Rose num sussurro.
– Que cara imbecil – Albus abanou a cabeça e voltou a olhar para frente.
– Certo! – exclamou Inaldo sem paciência. – Alguém mais aqui quer aproveitar e confessar seus problemas? Vamos, aproveite ou cale-se para sempre. Ótimo, deixe-me continuar dando aula então.
Finalmente Inaldo conseguiu parar com a discussão e voltar a dar aula. Quando a aula acabou, guardamos nossos materiais e peguei a mão de Rose para sairmos junto com o pessoal, em direção a próxima aula, que era de poções. No corredor, no meio do tumulto, Stewart esbarrou em nós e se aproximou de Andrew e Amber, que milagrosamente estavam caminhando juntos depois daquela aula reveladora. Stewart cutucou Andrew só para apontar o dedo em tom de ameaça, e se afastar com o grupo de amigos. Ele parecia dizer: “Vou te arrebentar antes que você possa dizer que sua cor preferida é rosa.”
– Não ligue para ele – disse Amber.
– Não ligo agora – respondeu Andrew, coçando a nuca.
– Não, sério. Não ligue mesmo para ele. O que ele diz ser grande, é muito pequeno. Nada extraordinário. Infelizmente, eu já vi. Ele fez questão de me mostrar no primeiro ano. Eu não acho que tenha crescido muito desde então, sabe.
– Obrigado por avisar – os dois sorriram.
Essa era outra cena que eu não imaginaria que Amber protagonizaria. De qualquer forma, quando passei por perto, qualquer traço de sorriso no rosto de Amber desapareceu. Será que ela achava que eu ia contar a todos o que ela havia feito com Dimitre?
Foi no momento que Hanna se aproximou, que eu descobri o verdadeiro problema.
– Amber... – Hanna disse, segurando o braço dela. – Não acredito que disse todas aquelas coisas, na frente das suas amigas. Na frente da classe inteira.
– Aquelas não são minhas amigas. Eu nem me importo com elas.
Rose me puxou para que deixássemos as duas sozinhas, mas no momento que dei as costas a elas, Hanna gritou: “Amber!” e foi reflexo. Viramos nossos calcanhares. Em um minuto Amber estava sorridente, segurando a mão de Hanna, mas no outro, quando fui entender porque Hanna tinha gritado, todo mundo viu Amber desmaiando no chão, no meio da movimentação do corredor.
Rose soltou minha mão e se agachou ao lado do corpo de Amber. Eu fiquei com medo de me aproximar. Estávamos em Hogwarts e coisas estranhas viviam acontecendo em Hogwarts. Fiquei com medo de que Amber não estivesse respirando. Lésbica ou não, tendo transado com Dimitre ou não, nada iria mudar o fato de que ela foi minha primeira namorada.
– O que houve? – perguntou Hanna desesperada. – De repente ela ficou verde e caiu! Eu não fiz nada, eu juro, eu juro!
– Não – Rose apoiou dois dedos na pulsação do pescoço de Amber – eu acho que... acho que ela só teve uma recaída. Está respirando. Ela desmaiou, óbvio, mas não parece ser envenenamento nem nada. Provavelmente não deve ter comido nada desde ontem.
– Você acha que ela é anoréxica? Amber come mais do que dois javalis juntos! E se ela tiver bebido poção em vez de suco de abóbora hoje de manhã? Os homofóbicos que existem nessa escola não são poucos! – Hanna estava gritando, mas porque ela estava assustada. Rose não se sentiu atingida pela grosseria, apenas assentiu, tentando acalmá-la. Aos poucos, alunos se aproximavam para ver o que estava acontecendo.
– Vou chamar um professor para levá-la a ala hospitalar – Rose se voluntariou. Ela olhou para mim. – Já volto.
Acreditei que Rose tivesse razão, sobre Amber estar respirando, por isso me aproximei e me agachei. Hanna tentava acordar Amber com um tapinha no rosto. No terceiro tapinha, Amber abriu os olhos, mas não completamente. Ela parecia enjoada. Parecia ter acabado de acordar com vontade de vomitar.
– Estou... sentindo essa tontura...
– Você vai ficar bem – Hanna segurou a mão dela outra vez.
– Não vou não. Desmaiei... que ridículo...
– Consegue levantar? – perguntei. Ela não me encarou de novo. Ela fingiu que não tinha me escutado. A vergonha de Dimitre era tão grande assim?
Hanna ajudou Amber a se levantar quando Rose reapareceu com o professor Longbottom. As pessoas deram espaço para eles.
– Você está bem? – perguntou Rose.
– Estou, obrigada, Weasley.
– Hum, de nada – respondeu ela meio surpresa. Amber nunca agradecia.
– Vamos, srta. Davis, consegue andar até a ala hospitalar? – perguntou o professor, tentando ajudar preocupado.
– Eu só desmaiei, não perdi minha perna – retrucou, segurando-se em Hanna. – Vai comigo? Estou com medo.
– Vou sim. Mas... Por que teria medo?
Não houve resposta. Os três se afastaram e desapareceram de vista.
– Ela vai ficar bem – disse Rose para mim, vendo minha expressão. Eu abanei a cabeça, ajeitando minha bolsa nos ombros.
– Sei que vai. Mas é estranho, não? Tudo isso já aconteceu, Andrew saiu do armário, e estamos só na segunda aula do dia – comentei, colocando um braço ao redor dela enquanto voltávamos a caminhar. – Por que tenho a impressão de que o dia vai ser longo?
Foi uma pergunta retórica. Passamos a manhã toda estudando, e os rumores sobre o que poderia estar ocorrendo com Amber aumentaram ainda mais. Depois que saímos do curso de aparatação, logo antes do almoço, Rose e eu sentamos no jardim. Ela abriu um livro, encostando a cabeça em meu peito, de modo que eu podia sentir o cheiro do seu cabelo. Lembrei da noite passada, e de como eu queria fazer aquilo de novo com ela, sentir o calor da pele nua dela e me aconchegar dentro dela como ninguém nunca fez.
– No que está pensando? – perguntou a mim.
– Em você ontem – fui sincero, enrolando seus cachos em meu dedo.
– É, eu também – foi mais sincera ainda, olhando para o lago a nossa frente. – Percebeu que Albus nem ligou quando Natalie percebeu isso?
– Com Natalie sentada no colo dele, Albus não liga nem se dissessem que Lorena Palmer está na escola.
– Tem razão – ela riu, fechando o livro. – Isso é bom, não acha? Estarmos em sintonia.
– Como assim?
– Você e eu. Albus e Natalie. Albus é seu melhor amigo. Natalie é a minha melhor amiga. Isso me assusta, na verdade. Porque... pense bem, e se acontecer alguma coisa?
– Alguma coisa como?
– Uma briga. E se nos separarmos?
Eu envolvi meus braços nela e sussurrei no seu ouvido, mesmo que ninguém estivesse por perto para escutar:
– Ontem eu lembro perfeitamente que você disse que só estamos começando. E quando você diz começar, você não quis dizer que vai acabar, quis?
– Não – ela respondeu lentamente.
– Então.
– Certo. O que você quis dizer com isso?
– Quis dizer que... vamos brigar. Muito. Muito mesmo, porque eu sou o Scorpius e você é a Rose. Mas separar? Não vejo isso acontecendo. Pelo mesmo motivo, entendeu?
– É... – ela roçou o dedo na minha mão. – Tenho que ficar parando com essa coisa de “e se” aquilo, “e se” isso.
Sorri maliciosamente, ainda no pé do seu ouvido.
– Você só tem que relaxar, Rosie.
Virei o rosto dela para perto do meu e a beijei. Ela empurrou minha mão quando tentei segurar um de seus seios, exclamando:
– Aqui não! – riu.
Eu mordi seus lábios, rindo e a puxando para mim quando tentou se afastar, indignada com a minha ousadia de fazer isso de manhã, no jardim onde todo mundo podia aparecer.
– Desculpe, vamos para o meu quarto então. Porque eu também lembro que ontem você disse que haveria outras vezes.
– Você realmente estava pensando sobre ontem à noite.
Quando eu disse: “Não vou esquecer tão fácil”, uma voz me chamou.
– Malfoy.
Nós nos afastamos depressa como se isso fosse ocultar os pensamentos que tínhamos naquele momento. Mas era apenas Hanna. Ela se aproximava. Rose e eu nos levantamos, porque Hanna disse:
– Amber está chamando você na ala hospitalar. Ela quer falar com você.
– Por quê?
– Não sei. Ela não diz qual é o problema. E tem um problema. E parece que você está envolvido nisso. – Hanna não estava feliz. Deu as costas e quando hesitei em acompanhá-la, ela se virou estressada. – Você vem ou não vem?
– Já, hum, estou indo.
– Eu te espero na sala comunal – disse Rose, beijando-me rapidamente antes de se afastar.
Alguns minutos depois, eu estava sentado numa cadeira ao lado da cama onde Amber deitava. Ela estava aparentemente bem. Queria falar comigo sozinha, então teve de deixar Hanna fora disso. Estávamos sozinhos no lugar. Amber não falou nada quando me aproximei dela, no entanto. Ela ficou me olhando como se tivesse medo de mim. Ou da minha reação quando confessasse o que a consumia, o motivo por ter me ignorado e evitado falar comigo todo aquele tempo.
– Eu estou grávida – falou, piscando várias vezes. Olhava para o lustre do teto. – A mulher acabou de fazer o exame. Deu positivo. Um mês.
Passei a mão nos cabelos, prendendo minha respiração. Amber? Amber Davis? Grávida. Quero dizer, grávida?
De repente quis consolá-la.
– Deve estar errado.
– Nunca falha, Scorpius. Sei disso. Eu só quero... entender. Eu sei que você... eu sei que você e a Weasley parecem incríveis juntos. Eu não quis... eu nãoquis atrapalhar isso. – As lágrimas dela, quando olhei, estavam caindo com força nas maçãs erguidas de seu rosto. Os olhos verdes, da mesma cor do lago da Mansão, estavam perdidos. – Me desculpe. A gente só quer ferrar com a gente, mas acaba ferrando todo mundo também. Não sei como evitar isso.
Só peguei uma parte do choro.
– Por que está se desculpando para mim?
– Porque se não estivéssemos bêbado na festa...
– Quem?
– Nós. Scorpius-
– Espere, Amber. – Eu me levantei, indignado. Minha cabeça estava virando, praticamente. – Você... não, você não pode achar que nós transamos. Eu não toquei em você na festa de casamento.
– Você também não lembra – ela abaixou a cabeça.
– Não, eu lembro. Eu lembro perfeitamente. Você não pode achar que você está grávida e que eu sou o pai! Isso é um... um absurdo. Não. Definitivamente. Eu não toquei em você. Eu estava sóbrio. Muito sóbrio. – Tentei me acalmar, então voltei a me sentar na cadeira. – Amber... escute, o que você... o que você lembra daquela noite?
– Eu lembro que disse a você sobre eu querer ser elogiada. E depois... não sei exatamente... Eu tenho certeza que transamos, Scorpius. Minha mãe disse que eu estava deitada no quarto em que você estava na mansão. Ela disse que você tinha ido embora depois que viu que eu travei.
– Eu fui embora por outro motivo – afirmei. – Mas Dimitre, o meu primo, ele também estava no quarto. O quarto, na verdade, era dele.
– De quem? – Amber pareceu ter ficado surda.
– De Dimitre. E eu vi, quando fui pegar as minhas malas. Eu vi que vocês...
– Não.
– Sim, escute.
– Não! – ela gritou de repente na minha direção. – Você está fazendo isso de propósito. Está acusando, você está tentando se safar, você está me enganando! Eu nunca, nunca, nunca na minha vida iria... iria deixar Dimitre Greengrass me foder!
– Foi o que eu pensei quando vi você em cima dele na cama, implorando para ele dizer o quanto você é gostosa. Mas veja como estamos agora.
Achei que Amber ia me dar um soco, porque ela levantou as mãos. No entanto, usou elas para cobrir o rosto e começar a chorar desesperadamente.
– Fodeu tudo. Tudo, tudo, tudo. – Cerrou os olhos com força, como se implorasse para as lembranças ficarem nítidas na sua cabeça. – Não, Scorpius, eu nunca faria isso... nem bêbada, nem tão desesperada...
– E eu nunca faria isso com Rose.
– Eu sei – ela engasgou enxugando os olhos com a manga da camisa. – Eu sei. Talvez eu só... talvez eu só... eu gosto tanto de você, Scorpius. Quero dizer, você é um cara legal. Você não ligou para o fato de eu ser lésbica, você não se gabou para os seus amigos quando fizemos sexo, você não liga para o que os outros pensam de mim e nem de você. Posso ser a vadia mais comentada dessa escola, e acabei de te dar um susto desses, mas você ainda está aqui ao meu lado. Rose Weasley, essa sim não sabe a sorte que tem. Pelo menos isso eu não vou foder.
– Geralmente as pessoas dizem o contrário sobre ela.
– É, ela é uma boa garota também. Uma coisa que nunca vou ser. – Ela bateu os punhos com força no colchão da cama. – Dimitre Greengrass? O que eu estava querendo provar a mim mesma?
– Você não estava querendo provar nada, você só queria gozar. É sempre assim.
– Hanna vai me odiar para sempre agora. Não tem explicação para o que eu fiz. Não tem volta, não tem como esconder.
– Veja pelo lado bom – incentivei. – Ninguém pode bater em mulher grávida. Ou vai preso.
– Mulher? – Amber deu uma risada sofrida, debochada de si mesmo. – A quem quer enganar? Não passo de uma criança. E sabe o que é pior do que fazer merda?
– Não.
– É não me lembrar de ter feito essa merda. É ter o meu ex-namorado dizendo que transei com o primo dele, porque eu só queria me sentir poderosa. Acho que você pode ir embora agora, se quiser. Você não tem que ficar aqui me ouvindo lamentar e é meio isso o que vou fazer pelos próximos dezoito anos.
– Usualmente eu diria uma coisa, Amber – levantei-me outra vez para ir embora dali, mas não consegui sem antes dizer: – Eu diria que todo esse problema que você vai enfrentar é consequência da merda que você não lembra ter feito. Eu diria que não me importo e que quero ficar o mais longe possível dessa história, porque quero que as coisas entre mim e Rose não fiquem ruins. Mas... eu já fiz minhas merdas também. E eu me lembro de tê-las feito, diferente de você. Eu não gostei de ter sido punido por isso. Então se eu ignorasse você... eu estaria sendo infiel aos meus princípios. O fato de você ter feito merda, não quer dizer que você é uma pessoa ruim. Não quer dizer que não mereça ter amigos ou alguém ao seu lado, que se importe com você. Você tem, pra caso precisar. Então... Dimitre está cursando último ano na Durmstrang, na Bulgária. O correio coruja por lá só funciona na sexta-feira. É a única forma que tenho de te ajudar agora.
– Está sugerindo que eu devo contar a Dimitre que estou grávida através de uma carta?
Suspirei.
– Sim.
– Obrigada. – Ela não soava irônica. Era como se Amber não soubesse o que fazer e eu tivesse lhe dado um primeiro passo para começar. Eu estava para dar meia-volta, mas ela me impediu para dizer: – Você conhece as pessoas, as fofocas... se houver rumores de que você é o pai...
– Não preciso de pessoas me dizendo o que eu faço ou não faço por aqui. Eu assumo as coisas que eu faço, quando eu realmente faço.
Ela ignorou a minha filosofia, porque nenhum de nós tinha entendido ela. Amber só disse:
– Estou acreditando em você, Scorpius. Você poderia ser o cara mais filho da puta que existe e poderia estar me fazendo acreditar que transei com Dimitre Greengrass para se safar dessa responsabilidade e culpa, mas como conheço a dona Astoria, sei que não é um filho da puta.
Não deixei de sorrir. Minha consciência nunca esteve tão limpa.
– Você é uma boa garota, Davis. Só não está tão responsável assim esse ano.
Saí de lá, querendo explicar tudo para Rose antes que qualquer rumor começasse.
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