Born For This

20 PARTE II. Emotion Sickness


Notas iniciais
Não se assustem!

BfT: Parte II

Capítulo 20
Emotion Sickness

Eu perdi meu distintivo de monitor naquele dia.

Monitores não entram na sala da diretora com o nariz sangrando, depois de uma briga com um aluno novo. E era assim que eu estava. Não olhei para a diretora. Eu poderia estar com o sangue fervendo dentro de mim, por causa da briga recente, mas eu não queria perder o distintivo. Mesmo assim, não era essa a desculpa para a minha falta de contato visual. A verdade é que eu queria evitar a decepção que a diretora estava sentindo de mim. Eu não sabia que eu me importava com isso até aquele momento.

O pior de tudo era que o cara com quem eu briguei estava sentado ao meu lado na sala. Eu o soquei e ele me socou, mas nenhum de nós se livrou um do outro depois disso. Era ele quem eu queria evitar totalmente. O quanto mais longe ele estivesse de mim, melhor seria para as articulações do meu punho, que provavelmente estava afetada depois do soco que eu dei no olho dele.

O nome dele é Roy alguma coisa. Algum sobrenome francês que eu não fiz questão de guardar na minha memória. Ele entrou em Hogwarts no começo do ano letivo, para fazer intercâmbio, e está no sétimo ano também. Mas eis a única coisa que você deve saber sobre ele: Roy alguma-coisa era um grande filho da puta francês.

Essa históriaécheia de filhos da puta em diversos níveis, e vocês sabem. Teve o professor Parrish, que tentou matar meu pai. Teve o pai de Dimitre que está afogado no túmulo sem ninguém entender quem o jogou lá dentro. E, claro, teve o desnecessário motorista trouxa que deixou Dimitre em coma ao atropelá-lo numa rua trouxa em Los Angeles. Até o próprio Dimitre foi um filho da puta nessa história, mas isso já passou.

A diretora McGonagall acha que meu comportamento agressivo teve a ver com o fato de que Dimitre não acordou do coma ainda, e eu estava extravagando minhas emoções tendo raiva de outras pessoas. Ela acha que eu estou tendo problemas com isso, embora eu não saiba como me expressar para confirmar se era verdade ou não. Mas não. Nada daquilo tinha a ver com o meu primo. Eu nem era tão chegado ao meu primo e uma ou duas vezes ao mês eu tinha notícias sobre ele. A coisa tinha a ver com o fato de que Roy alguma-coisa era um filho da puta. Só isso.

Mas eu não disse à diretora.

Eu não disse nada.

Só escutei ela dizendo que ia transferir meu cargo de monitor para outro rapaz da Sonserina. Eu apenas senti o gosto de sangue nos meus lábios quando ela confirmou o que eu temia. Mais tarde eu provaria o gosto da conseqüência. Naquele momento, eu só queria sair dali e deitar na minha cama. Minha cabeça explodia.

Depois de dois ou três minutos me xingando, finalmente ela alegou que não ia nos expulsar e permitiu que eu saísse da sala. O Roy continuou lá. Ele estava meio que sorrindo quando olhei de relance para ele. Um sorriso que despertara minha raiva e nos levara até ali. Aquele sorriso que ele usava quando via Rose Weasley, e por alguns segundos, sabia que podia tirá-la de mim. E, por alguns dias, ele realmente tirou.

Eu saí da sala mancando e segurando a gravata rasgada. Albus estava no corredor, encostado a parede. Ele descruzou os braços e olhou para mim.

– Ela não te expulsou, expulsou?

Joguei minha mochila nas costas e pedi para que ele me deixasse em paz. Albus era meu melhor amigo, senão o único, e sempre foi. Às vezes eu o considerava um irmão, tendo certeza de que ele já tinha família suficiente para não me dar esse título. Mas ele não tinha culpa alguma sobre o que estava acontecendo. E era por isso que eu queria que ele não ficasse muito perto naquele instante. Ele não merecia.

Continuei andando, sem pensar muito nas coisas. Eu estava subindo uma escada quando a voz dela soou atrás de mim, proferindo meu nome com uma forma hesitante.

– Scorpius...

Apertei minha gravata em minhas mãos e respirei fundo, antes de me virar para ela. Rose estava com uma cara péssima. Mas ela estava mais linda do que nunca. Meu coração doía.

– Eu vou dormir – falei. – Eu tive um dia ruim.

– Você não foi expulso – sussurrou para si mesma, como se tivesse ficado aliviada, e se aproximou. Mas eu dei um passo para trás.

– Não aja assim, Weasley. A culpa foi sua.

A reação dela foi ficar chocada com a minha acusação. Eu dei as costas novamente, mas ela gritou:

– Você já fez coisa pior e eu te perdoei!

– Uma vez! – gritei em resposta. – Aquela garota me chupou uma vez e eu nem lembro como foi! Não estávamos namorando e eu não sabia o que eu sentia por você! Mas você, Weasley, você provavelmente vai sentir a baba do seu Roy nas suas coxas pelo resto da sua vida, porque provavelmente ele transa muito melhor do que eu.

Ela me empurrou e continuou berrando:

– Não sabe o que está dizendo!

– Foda-se. Eu não me importo mais com a gente, eu estou fodidamente cansado da gente.

Os olhos dela ficaram miúdos e cheios de lágrimas, que ela tentou esconder. Mas não olhei muito tempo também. Rose voltou a gritar:

– A culpa foi sua também! Se a gente não tivesse brigado daquela forma, tudo-

– Não importa! Você fez aquilo porque você quis – eu berrei. Merlin sabia que eu não queria que nada disso estivesse acontecendo. Eu estava com tanta raiva por ela ter ficado com Roy que eu voltei e disse: – Sabe, Weasley, você é fácil quando os caras começam a pegar no seu pé. Eu preferia muito mais quando só eu te achava maravilhosa. Você tinha mais valor para mim.

Nada daquilo era verdade, mas parecia certo dizer naquele momento. Saí dali sem querer ouvir o que ela ia dizer. Não fui dormir. Quando entrei na sala Comunal da Sonserina, ouvi risadas conhecidas dentro do armário de vassouras. Risadas exageradas e felizes. Abri a porta daquele armário, onde eu sabia que eles se escondiam, e Alice e o irmão de Rose, Hugo, saíram dali tropeçando um no outro, sem parar de rir. Quando me viram, Alice se ajeitou e tentou esconder o cigarro atrás do corpo.

– Não estamos fazendo nada – defendeu-se. Eles apertaram as risadas fundidas com a fumaça da maconha no ar.

– Eu não sou mais monitor – respondi.

Os dois se entreolharam. Pareceram aliviados. Eu joguei a mochila no sofá e uma curiosidade me abateu de repente. Sem perceber, eu já tinha perguntado aqueles dois:

– Tem mais um desses?

As pessoas são completamente o oposto do que a gente imagina. Ou elas simplesmente mudam. Eu estava me acostumando com isso ultimamente.

***

EXPLICAÇÕES

Provavelmente é um chute no escuro, apenas uma ousadia, eu recomeçar a contar minha história com um acontecimento que, nesse momento, não faz nenhum sentido para ninguém. Mas não se preocupe, pois é de conhecimento humano que para tudo se tem um motivo. Ou pelo menos uma tentativa de explicação. Claro que eu não vou me apressar a contar em poucos parágrafos tudo o que me levou a perguntar “tem mais um desses?” para aqueles adolescentes de quinze anos.

Mas também não quis poupar esse suspense. Pulei dois meses essenciais, mas irei retomá-lo. O interessante são os acontecimentos, e será retratado da típica forma crônica, sem pulos ou voltas no tempo porque isso confunde até mesmo a mim. Então é melhor que nem fique ansioso, finja que, assim como eu há dois meses, você não sabe de nada sobre o que vai acontecer, não tem nem mesmo uma dica.

Talvez eu acabe não explicando nada, talvez minhas justificativas pareçam fajutas, fracas, quando chegarmos a essa parte que narrei há pouco. Mas não houve outro modo de crescer senão tendo que passar por aquilo. Nada mais que um drama adolescente. Caberá a você a julgar não só a mim, mas a todos os outros dessa narração. Eu ainda tenho que entender algumas coisas também. Mas é como meu pai sempre disse:

Enquanto você não entende, se contente.

***

DOIS MESES ANTES

Eu sempre odiei epílogos, prólogos e flashbacks. O que me interessava em livros era a narração constante, o momento em que os acontecimentos eram tratados, nem antes, nem depois. Mas nada era pior do que ter uma idéia básica do final de um romance, sem pedir por isso. E se você tem um amigo como Albus Potter você consegue exclusivamente. Ele sempre pergunta se a parte que eu estou é a parte que o pai do garoto morre, e eununcaestou na parte que o pai do garoto morre. Albus sempre foi um mestre em estragar surpresas, mesmo que genuinamente, sem ter noção disso.

Ele também era um mestre em interromper beijos. Por exemplo, ele sentou ao meu lado no banco do jardim enquanto eu e Rose nos beijávamos, com o braço dela ao redor do meu ombro e sentada em uma das minhas pernas. Ficou lá, observando a paisagem e as pessoas no jardim. Eu não me incomodava desde que ele não nos interrompesse. Mas eu sabia que, com a sua hiperatividade, ele não ia conseguir não dizer nada. E eu estava certo.

– Rose, você viu que seu irmão está saindo com Alice Gale? – perguntou.

Para a minha surpresa, Rose diminuiu a intensidade do beijo e se afastou com os lábios para responder:

– Conhece ela?

Havia um tom ciumento muito exagerado na voz de Rose. Notei isso de uma forma humorada. Desde o momento que ela descobriu que seu irmãozinho Hugo estava com uma garota, Rose praticamente se arrastou pelos corredores de Hogwarts para descobrir quem era essa sua primeira cunhada. E eu que achava que ela não iria perder tempo com coisas bobas no sétimo ano.

– Claro, ela é a garota mais gostosa do quinto ano – respondeu sem rodeios. – Estou orgulhoso do Hugo!

– Por que eu nunca reparei na existência dela antes?

– Alice é um pouco afastada. Provavelmente ela nunca recebeu detenção. E você só conhece os alunos que já levaram detenção.

Rose ia retrucar, mas acabou que até ela concordou que isso era verdade.

– Bem, se ela nunca levou detenção então deve ser uma boa pessoa – disse de uma forma ingênua.

– Você vai ter uma conversa muito séria com ela? – brinquei, acariciando sua coxa.

– Huuum, não. Hugo não enchia meu saco quando começamos a namorar. Eu não quero passar a ser insuportável. Enãose atreva a dizer que eu já sou chata e essas coisas.

– Eu não ia dizer! – protestei. – Mas ainda bem que avisou antes. Eu poderia dizer.

– Idiota.

Eu sorri e Albus anunciou:

– Temos treino de Quadribol agora, você vem ou vai ficar agarrando minha prima?

Eu não tinha escolha.

Rose ficou em pé quando eu peguei minha mochila. Nós nos despedimos, garantindo que nos veríamos na sala de Transfiguração para arrumar as coisas da festa de Halloween, como todo ano.

O Quadribol continuava a mesma coisa, exceto que o capitão do time, Foster, não tinha noção de escolha. Ele tirou o batedor William e, no lugar dele, colocou sua namorada do sexto ano, Gwen Kinney, que no alcance daquela semana terminou com ele. Foster ia expulsá-la já que estavam separados, mas com os pontos que ela marcou no primeiro jogo, o time deixou a garota ficar, mesmo a contragosto de Foster. Ela era excelente, filha do apanhador da Inglaterra. Tinha cabelos loiros e olhos claros. Se passaria melhor como modelo do que jogadora, mas se a vissem em campo logo se convenceriam de que ela sabia mesmo jogar Quadribol.

Fizemos alguns treinos para melhorar na habilidade com vôo. Foster nos separou em duplas e acabei tendo que jogar com Gwen. Ela não ficou muito feliz, fez até um muxoxo. Enquanto jogávamos a gole um para o outro, ela parecia cada vez mais insatisfeita. Quando errei o passe com o bastão, ela parou e se aproximou.

– Há quanto tempo você joga? – perguntou.

– Há quanto tempovocêjoga?

– Desde o dia em que nasci. Você está com o braço mole. Endureça mais a sua posição na vassoura. É por isso que não acerta nenhum aro. Faça um ângulo de cento e vinte graus entre o braço e o antebraço.

– Certo. Você quer que eu meça o ângulo da abertura do meu cotovelo durante o jogo?

– Está vendo o jeito que eu seguro? É muito mais prático. E você não ficará com dor no fim do treino.

Como ela sabia que eu sempre saía do treino com o braço doendo? Não perguntei.

– Não vejo diferença – retruquei.

– Você se acostumou errado. Vai ser difícil desacostumar, mas tente segurar dessa forma.

Odiando ser corrigido por uma garota no Quadribol, eu acabei imitando a forma como ela segurava o bastão com as duas mãos sem esperar grande diferença. Ela jogou a gole para mim e, surpreendentemente, consegui colocar mais força no modo como a rebati. Gwen sorriu. Não um sorriso: “Oba, você conseguiu”, mas sim um “eu estou certa, para variar.” Se ela percebeu que eu me incomodei com isso, não demonstrou. Continuou corrigindo todos os meus defeitos até eu me encher o saco e finalmente me alegrar ao acabar o treino. Enquanto Albus e eu saíamos do vestiário, Gwen me viu e comentou:

– O braço está doendo agora?

– Um pouco – eu respondi, orgulhoso. Na verdade não estava.

– Bem, ainda está segurando errado. Nos próximos treinos você melhora.

Ela saiu desfilando.

– É, não suporto ela – comentei.

– Mas ela é a melhor jogadora da Sonserina agora – disse Albus. – E, cara, querendo ou não, você jogou bem pra caramba hoje.

Se ele tivesse me elogiado quando eu jogava do meu jeito, eu ia ficar agradecido. Maldito orgulho.

– Lembra a primeira vez que a gente ficou aqui organizando todas essas coisas, no quinto ano? – Rose perguntou, enquanto esvaziávamos as caixas da festa de Halloween no meio da sala de Transfiguração. Eu estava recolhendo uma caixa no armário quando ouvi a pergunta. Eu sorri.

– Lembro. Eu não parava de reparar no seu decote – revelei.

– Meu...? Oh. Sério? Naquela época?

– Você é bonita, Weasley – eu disse e ela, mesmo depois de tanto tempo namorando, ficou corada. Eu achava doce e incrível. Ela mordeu os lábios e um instante depois perguntou:

– E o que mais você reparava? Sei lá, só por curiosidade.

– Na sua covinha. Bem aqui – aproximei-me dela e rocei meu dedão na sua bochecha. – Quando você sorri.

Ela sorriu e a covinha apareceu.

– No seu cabelo – coloquei uma mecha atrás da sua orelha. Ela olhava para mim. – Eu ainda reparo em tudo isso... na verdade.

Rose riu um pouco e sentou à mesa.

– Eu reparava em algumas coisas também. Sobre você – contou.

– Sobre mim? Aposto que está se referindo ao meu cabelo.

– E o jeito que você deixa a sua camisa um pouco aberta e a manga dobrada até o cotovelo – contou, enquanto eu me aproximava mais a sua frente. Apertei suas coxas, roçando as palmas quentes de minhas mãos pela extensão. Era cheia de sardinhas. Senti meu coração acelerado quando avancei e comecei a beijar o seu pescoço. Sussurrei.

– Sempre quis fazer isso com você.

– Você sempre faz isso comigo.

– Quero quebrar algumas regras com você – sorri. – Aqui.

– É a sala de Transfiguração.

– Está vazia e tem uma mesa.

– Isso seria completamente errado. Temos que ajeitar... oh – a voz dela tremulou quando apertei os dentes em seu ombro e fiz com que meu quadril ficasse entre suas pernas, arrastando sua saia.

– Só a gente vai saber, amor.

– Scorpius, não faz isso... uhm...

Desci o beijo até seu peito. Ela jogou a cabeça para trás, enquanto eu tirava sua gravata da Corvinal. Continuou dizendo não várias vezes, mas esse “não”soava tanto com um sim que não parei. Beijei sua boca com força, apertando a carne de seus lábios com os dentes. Ela acabou perdendo o controle e tirou minha blusa. Já estávamos suando quando os dedos dela roçaram minha calça, abrindo meu zíper. Advertiu-me da camisinha. Eu estava a ponto de tirar sua calcinha, quando ela me lembrou.

Eu não tinha nenhuma camisinha agora.

– Não precisa... – falei, beijando-a. Não iria conseguir parar naquele maldito momento. Ela segurou meu rosto, parando de me beijar.

– Eu não vou fazer sem camisinha. Você sabe disso – falou afastando-me. Ela se levantou e ajeitou a blusa e a saia.

– Estamos namorando há mais de um ano. Não vai ter problema se não usarmos.

– Mas você já transou com outras pessoas.

– Há muito tempo, Rose.

– E poções nunca são muito eficientes. Eu não quero correr nenhum risco. Não acredito que ia me fazer transar sem camisinha. – Ela parecia um pouco puta comigo agora.

– Eu não ia, mas... Eu fico excitado quando estamos sozinhos, eu não consigo me controlar. Eu quero isso toda hora com você.

– Não existe só sexo, Scorpius – ela abotoou a blusa, e o clima simplesmente desapareceu.

– A gente não transa há mais de uma semana. Você fica preocupada toda hora estudando e vai dormir mais cedo!

– Nossa! Isso deve estar matando você. Desculpe seeume preocupo em passar nos N.I.E.M’s.

– Não precisa se preocupar toda hora. Isso é neurótico, faltam muitos meses ainda.

– Você quer transar comigo na sala de Transfiguração. A diretora McGonagall dava aula aqui.Issoé preocupante.

– Eu me esqueci que você se preocupa no que a diretora McGonagall vai pensar se souber que íamos foder na mesa dela – falei sarcasticamente.

Ela fez uma expressão irritada e deu as costas para mim, para voltar a arrumar os enfeites. Um segundo depois, ela fechou a caixa com raiva e se virou para mim:

– Urgh! Você me irrita, sabia?

– Eu te irrito? Só porque eu disse a palavra “foder” e não “fazer amor”?

– Não, é porque você às vezes age como uma criança. Na verdade, há crianças que são mais maduras que você.

– E você acha que você não me irrita com essa sua mania de fazer tudo certo? Há velhas de cinquenta anos que são mais irresponsáveis que você.

Ela nem retrucou. Deu as costas para mim novamente, irritada, e foi embora, deixando-me ali com as caixas todas abertas. Com raiva, joguei tudo dentro e a guardei antes de sair de lá. Não acredito que não transamos apenas para ficarmos discutindo naquela noite chata sem ela.

A gente costumava ter esse tipo de briga e eu me arrependia de ter sido idiota e fazia um jeito de colocar as coisas nos eixos. Foi logo no dia seguinte, quando tivemos que arrumar as últimas coisas para a festa de Halloween. Tentei achar um jeito de dizer que eu não pensava em sexo toda hora e que eu errei ao achar que camisinha não era mais importante. Enfim, eu estava disposto a pedir desculpas, mas vê-la conversando com o gringo francês me deixou desanimado para tal coisa.

O gringo tinha um metro e oitenta de altura. Era uns dois centímetros mais alto do que eu, e com certeza os bíceps dele dava uns dois dos meus. Ele tinha esse sotaque idiota e estava sempre sorrindo para todo mundo, como se franceses fossem calorosos e adorassem todo mundo. Ele estava fazendo intercâmbio em Hogwarts porque acreditava que o mercado de trabalho no Ministério da Magia em Londres era melhor do que o de Paris. Não fazia muito sentindo. Na verdade, eu não entendia porque diabos ele estava ali.

Com passos discretos, fui me aproximando dos dois. Ouvi um pouco da conversa.

Fiquei desesperado porque o cara queria ser médico. E Rose estavaentusiasmadacom esse fato em comum que os dois tinham.

Eu pigarreei.

– Rose – chamei. Ela parou de falar e olhou para mim. – Queria conversar com você.

Ela se virou e esperou. Eu olhei para Roy, piscando.

– Como se falaem particularem Francês? – perguntei ao ar.

– Eu já est di saíd – ele disse, sorrindo para Rose. – Nos falemos mais tarde, este´ bem?

Quando ele saiu, Rose perguntou:

– O que foi, Scorpius?

– Eu errei. Ontem à noite fui um completo idiota. Eu só sinto falta daquelas noites.

– Você fez piada sobre eu ser responsável.

– Você me irritou com isso.

– Scorpius, tem algum problema? Isso nunca pareceu incomodá-lo dessa forma.

– Não. É que... Rose, não quero que a gente fique discutindo e no dia seguinte virando a cara um para o outro. Aquilo foi idiota, desnecessário.

– Você me decepcionou. Amber está grávida. Achei que você, mais do que ninguém, ia entender porque fico preocupada com essesdetalhesde usar camisinha.

– Algum problema, senhores? – a voz da professora soou atrás de nós. Embaraçada, Rose tossiu.

– Não, estamos só... hum, conversando.

– A festa é hoje à noite. Sem conversas. Mais trabalho.

– Sim, professora – dissemos juntos. Mas depois voltamos a conversar. Coloquei a mão no bolso.

– Roy parece um cara legal, hein? – Ela sentiu o cheiro de sarcasmo. E ciúmes. Por isso nem se deu ao trabalho de responder e me entregou uns objetos.

– Apenas me ajude com isso. Preciso subir para alcançar a parede.

Ela pegou uma cadeira e subiu. Eu estava embaixo, observando-a. Rose brincou:

– Tente não ficar olhando muito para a minha bunda.

Nós voltamos a sorrir um para o outro e eu garanti que ia perder na tentativa.

O Jogo do Terror voltou em Hogwarts, porque Albus meio que insistiu aos professores. Ia ser o nosso último ano no castelo e queríamos fechar o Halloween com chave de ouro. Antes do jogo, a festa teria música ao vivo e tudo o que sempre teve. Dançamos e ficamos rindo das fantasias das criancinhas a maior parte do tempo. Rose estava linda com um vestido branco e simples. Sua fantasia era fantasmagórica, mas eu sabia que fantasmas não tinham o toque quente que ela tinha. Ficamos dançando juntos, até que o francês Roy se aproximou, parecendo meio perdido.

– O que est acontecendo? O que é esse Jogo do Terror que todos estan falando? – ele perguntou a Rose.

Rose, por ser a monitora-chefe, tinha essa tarefinha de explicar as coisas de Hogwarts a Roy, o novato. Era como se ela fosse uma anfitriã ou algo assim. E Rose era uma ótima anfitriã, por isso parou de dançar e começou a explicar sobre o jogo muito entusiasmada. Tão entusiasmada que nem reparou que Roy estava reparando no decote dela. Eu saí de perto e me aproximei de Albus sentado no balcão das bebidas.

– Onde está a Natalie? – perguntei.

– Bêbada – apontou com a cabeça para Natalie, dançando loucamente na pista de dança. A música era lenta. – Ela está ficando assim em todas as festas ultimamente.

– Vocês estão bem?

– Ela não está. E às vezes acho que não é por causa da morte do pai dela não. Acho que ela quer terminar ou algo assim.

– Vocês sempre terminam e depois voltam.

– Fazemos isso de propósito. Ultimamente estamos tentando evitar que isso aconteça. Porque acho que é capaz da gente não voltar dessa vez.

– Não fica assim, cara, tem Jogo do Terror hoje. Era para você estar inspirado.

– Eu estou – ele cutucou o canudinho do copo. Tentei mudar de assunto.

– O que você acha do francês?

– Roy? Ele é legal – disse Albus dando de ombros. – Mas um pouco grudento demais quando quer se encaixar em algum grupo.

– Acho que ele está dando em cima de Rose – comentei. Albus olhou para trás e torceu o nariz ao vê-los conversando.

– Eles só estão conversando. Não comece a ficar neurótico por causa disso. Rose é assim com todo mundo. Adora conversar.

– Eu sei, eu sei. Mas o jeito que ele olha pra ela.

– Ninguém olha para ela do jeito que você olha pra ela, Scorpius. Sem chances de te vencer nessa.

Às vezes Albus falava coisas que ajudavam um pouco. Eu quis dizer algo para ele em relação à Natalie, mas eu também andei tendo a impressão de que eles não estavam mais tão agarrados como antes. Mesmo se eu tivesse o que dizer, Gwen Kinney sentou no balcão do barzinho e jogou os cabelos loiros para trás dos ombros ao meu lado, interrompendo nós dois.

– Eu não gosto desse Jogo do Terror. Acho muito fácil para o nosso nível sonserino. E não énenhumpouco assustador, não acham?

– Hum – dissemos sem interesse de papear com ela.

– Vocês estão bebendo? Não é muito bom para o Quadribol. O álcool interrompe o pensamento rápido na hora do jogo, e vocês podem ficar retardados.

Albus afastou o copo, como se acreditasse nisso. Gwen sorriu para ele.

– Aquela é a sua namorada, não é? Natalie. Ela está retardada agora. Alguém tem que tirá-la dali antes que o Jogo do Terror comece. Bêbados no escuro não são boas combinações.

– Obrigado pela dica, Gwen – Al disse sem saber mais o que dizer a tanta informação. Ela era muito pequena para ser tão falante.

– De nada. Vou voltar a dançar.

Ela saía sempre desfilando.

– Ela parece ser inteligente – disse Albus. – Mas provavelmente nem sabe do que está falando.

Olhei para o relógio, rindo um pouco.

– O jogo vai começar em dez minutos. Está pronto?

– Vamos nessa.

Até que Gwen tinha razão sobre o Jogo do Terror ter ficado fácil de repente. Os corredores ainda nos enganavam e o escuro era um obstáculo, mas quando encontrávamos alguns monstros pelo caminho, era fácil derrotá-los. Eu tinha a lógica de que o objeto escondido estava em lugares onde havia mais monstros. Então ao em vez de fugir deles esse ano, eu fui ao encontro deles.

Durante um caminho escuro, eu caminhava sozinho pois Albus e eu nos separarmos. Ouvia algumas risadas e, acreditando que fazia parte de algum desafio, segui o som dessas risadas. Parecia que algo muito engraçado estava acontecendo. Quanto mais eu chegava perto, menos pista eu tinha e comecei a acreditar que eram apenas alunos idiotas fazendo gracinhas.

Iluminei o caminho com a minha varinha e as risadas estavam mais perto, no meu lado esquerdo do ouvido. Quando virei, deparei-me com o armário de vassouras. Tinha gente lá dentro que não estavam participando do jogo. Eu acabei abrindo a porta – porque eu era um monitor e tinha esse direito.

Não vou dizer que o que eu vi não me deixou surpreso, porque me deixoumuitosurpreso. Hugo Weasley e a namorada dela, essa tal de Alice, estavam puxando um fumo. A fumaça envolvia todo o armário. Eles estavam entorpecidos, tanto que Alice perguntou:

– Acabou o jogo?

No momento que ela perguntou isso, as luzes começaram a se acender. Hugo se levantou e me encarou piscando, hesitante, parecia estar preocupado.

– Eu só estava experimentando o da Alice. Você vai contar a minha irmã, não vai?

– Escondem isso daí, porque se descobrirem que vocês usam droga na escola, vocês vão ser expulsos.

– Então você não vai dedurar?

– Não. Mas saiam logo daqui. Eu não vou contar a Rose – eu disse antes que Hugo repetisse o pedido. – Isso não é da minha conta.

– Valeu.

– Vamos – Alice pegou a mão de Hugo e, sorrindo, agradeceu a mim. – Você é legal, Malfoy.Vem, Hugo.

Ele saiu ainda preocupado que eu fosse contar sobre o segredinho sujo dele. Fiquei surpreso porque a educação de Hugo era a mesma a de Rose e o garoto estava indo para esse lado. Ela iria pirar se soubesse o que seuirmãozinhoestava fazendo com a nova namorada dele. Mas decidi que aquilo não era da minha conta e voltei para o salão principal, descobrir que a Sonserina havia ganhadode novoo Jogo do Terror. E não foi Albus dessa vez. As garotas da Sonserina estavam aplaudindo Gwen, que segurava o objeto– era uma pequena moeda – e fingia estar sentindo sono por ter sido muito fácil.

Rose cruzou os braços ao meu lado e fez um muxoxo.

– Esse jogo está ficando sem graça.

– Você fala isso porque a Corvinal nunca ganha. Não é um jogo de estratégia, Rose – respondi, provocando.

– É um jogo de pura sorte. O objeto que escolhe o vencedor, não o vencedor que o encontra.

– Essa é uma conclusão que foi tirada agora.

– Sim! A Sonserina está ganhando no placar das casas e você vai ficar se gabando por isso.

– Eu meio que não me importo muito com isso.

– Não?

– Não. Se a gente perdesse, mesmo assim, eu iria ficar com você hoje à noite. Eu me importo mais com isso. Quero dizer, amanhã é sábado, você não está com sono e podemos acordar tarde e...

Natalie estava se aproximando.

– Rose – a voz dela estava mole. – Estou passando mal.

– Também! Não parou de beber! – exclamou Rose, brava.

Um segundo depois, Natalie vomitou no chão. Nós nos afastamos rapidamente. Uma professora viu isso e se aproximou.

– Se afastem! Srta. Grace, não demos álcool para ninguém nessa festa!

Rose tirou do bolso interno do casaco de Natalie um vidro de vodka. Ao em vez de brigar ou dar detenção, a professora pediu que alguém a levasse para o dormitório. Albus se habilitou imediatamente, mas Natalie exclamou:

– Não! Não, ele não. Estou cansada de você, Potter! – ela começou a chorar. Rose a ajudou a prender o cabelo longo e preto dela. O rosto dela estava branco.

– O que eu fiz pra você dessa vez, Natalie? – Albus parecia sentido.

– Tudo – respondeu. – Esse é o problema! Cansei de você fazendo tudo por mim! Eu não estou morrendo, porra!

Rose me encarou, como se me pedisse desculpas por não poder ir ao meu dormitório naquela noite, porque Natalie precisaria dela naquele instante. Eu não reclamei, apenas assenti. As duas foram embora, com alguns alunos olhando curiosos.

Com isso, Albus e eu voltamos calados para as masmorras. Albus não falou boa noite ao se trancar no dormitório. Ele estava abalado.

Essa foi uma daquelas noites chatas e ruins.