Born For This
16 Conversation
O sr. Weasley conseguiu fazer todo mundo prestar atenção na palestra dele. Pelas reações dos meus colegas, o cara foi o mais divertido e dinâmico de todos os outros bruxos. Ele tinha um humor incurável, se pensar em tudo o que fez durante seu tempo como auror ao lado do pai de Albus e outras equipes conhecidas. Aproveitava uma oportunidade para tirar sarro de Albus, mas nada que ele não estivesse desacostumado, por isso entrava na brincadeira também. Percebi, no entanto, que o sr. Weasley estava evitando olhar para mim. Continuou educado e divertido com o resto da turma. Finalmente, quando ele encerrou a palestra, o professor Inaldo se aproximou.
– Obrigado, sr. Weasley – o professor apertou a mão de Weasley energeticamente. – Foi um prazer enorme recebê-lo de novo no castelo.
– Imagine. Os jovens de hoje precisam de inspiração, de exemplos e tudo o mais.
– Minha mãe que fala isso para ele – cochichou Rose no meu ouvido, girando os olhos, mas sorrindo. Final da palestra, nenhuma inquisição contra namorados. Ótimo. Quando nossos colegas começaram a se levantar, o sr. Weasley passou por mim como se eu fosse só um mosquito, e abraçou Rose. Foi um momento que eu me senti intruso, apenas observando os dois, sem saber o que fazer, dizer, agir. Mas continuei ao lado de Rose, olhando para ela que tinha o queixo apoiado no ombro do pai.
– Filha... Eu não mandei nenhuma carta te avisando sobre isso, porque queria que fosse surpresa. Sua mãe ficou morrendo de inveja, porque ela estava querendo fazer palestra também. Ela me deu até um papel para eu decorar e não ficar gaguejando, mas nem precisei. E aí, mandei bem?
Ele só a soltou depois de dizer tudo aquilo. Rose esteve segurando a risada e olhando para mim.
– Estava ótimo, papai – elogiou Rose. – O senhor fez todo mundo prestar atenção.
– Obrigado. Bem, vou ficar ainda para o almoço, conversamos mais tarde – a postura do sr. Weasley ficou mais rígida e mais séria. Ele olhou para mim, mas não disse nada a não ser isso: – Tenho que fazer a palestra para a turma do sétimo ano agora.
Quando saiu dali, Rose mordeu os lábios para mim.
– Se ele soubesse o que a gente fez... – comentou quando voltamos a andar.
– Ah, não – olhei inconformado para ela. – Você está arrependida?
– Não! Scorpius, não. E talvez seja esse o problema. Não me arrependi nenhum pouco, e meu pai está na escola. Oh meu Deus. – Ri de sua expressão.
– Rose, relaxa, você não vira vadia se só faz isso comigo.
Amber andava tão calada e distante que assustamos com a voz dela quando passou por nós dois sem parar para olhar:
– Ele tem razão.
Rose e eu nos entreolhamos quando ela já estava no fim do corredor, pedindo para que Hanna a esperasse. Não comentamos nada por um tempo, o assunto parecia cauteloso, mas então Rose suspirou e contou:
– Pouco depois que a gente se afastou ontem de manhã, eu fui para o banheiro feminino e encontrei Davis vomitando por lá. Eu tentei ajudá-la, mas ela não gosta de ser ajudada. E sabe o que foi mais estranho? De todas as preocupações e complicações, Davis só não queria que eu achasse que você teria feito isso. Ela contou a mim. Você nunca faria isso. Ela disse algo como “Scorpius carrega camisinha no bolso como se fosse uma varinha” e que “engravidar garotas bêbadas não é do feitio dele”.
Quando ela disse isso, dei um sorriso e verifiquei se eu ainda estava com uma no bolso.
– Nunca se sabe quando vai precisar usar. Mas então vocês duas conversaram?
– Ela estava mais preocupada com a privada. Por quanto tempo irão deixá-la ficar aqui mesmo grávida? Você disse que a mãe dela não quer um neto com o sangue do Markus e que não vai aceitá-la de volta. E se Dimitre achar que isso é só uma brincadeira e ignorar completamente essa responsabilidade? Quero dizer, nós o conhecíamos quando ele estudava aqui. Fico me perguntando se ele mudou.
Enquanto caminhávamos para a sala de Poções, as perguntas de Rose ficaram no ar, porque eu não soube responder. Mas tive impressão que o assunto ainda iria trazer surpresas.
Depois do treino de Quadribol naquela tarde, arrumei minhas coisas no vestiário. Albus parou ao meu lado, guardando seu uniforme.
– O que deu em você hoje? – ele perguntou.
– Ah, Potter, quando vai se conformar que eu sou um ótimo jogador?
– Aqueles pontos foram anormais! Você parecia inspirado. Você e Rose estão transando?
– Tirou essa conclusão só porque joguei bem hoje? – E não porque ela andava subindo para o meu dormitório quase a semana toda? Mas não acrescentei isso à pergunta.
– Olha, eu não sou um cara muito esperto em relação a quem faz sexo com quem. Porque eu não me importo. Mas... não vou precisar falar nada, certo? O pai da Rose está na escola. Ele veio te ameaçar, eu espero.
– Ainda não – disse sinceramente. – E quer saber? Ele pode vir me ameaçar quando quiser. Eu não estou fazendo mal a Rose, eu não estou desrespeitando ela e eu não sou um canalha.
– Como vai provar isso a ele?
– Eu não preciso provar nada. Se Rose sabe disso...
– Ei, está indo para o lado errado da coisa. Meu tio parece brincalhão, mas quando se trata de caras que acham Rose gostosa, ele não é nenhum pouco brincalhão. E eu sei que você acha Rose gostosa. Você olha para ela desse jeito esquisito que me dá vontade de te socar.
Fiquei muito agradecido que ele só tivesse a vontade. E que não demonstrasse isso de forma física.
– O pai dela nem olha para minha cara.
– É muita pressão para ele, sabe? A filha apaixonada pelo filho do inimigo dele. É muita pressão. Então, meu conselho é você ficar feliz que ele nem olha na sua cara.
Eu não disse a ele que aquilo me incomodava. Meu pai também já estava indiferente. Weasley estava me ignorando. Eles não queriam levar isso a sério? Bem, tanto faz. Era sério para mim e se eles não acreditavam nisso, os problemas eram deles.
Pelo menos era o jeito que eu pensava, até o fim daquela tarde.
Amber estava me esperando para fazermos rondas. Ela estava sentada no chão, observando as unhas. Quando me aproximei, começou a contar baixinho:
– McGonagall conversou comigo, sabe? Ela disse que garotas grávidas em Hogwarts... bem, isso não pode.
– Você vai sair da escola?
– Eu expliquei a situação. Eu expliquei que minha mãe não ia me aceitar de volta. Ela perguntou o que eu ia fazer com a criança, como eu ia cuidar dela depois que nascesse. Hanna me deu a idéia de... colocar para adoção. Há muitos pais que querem ter filhos. É egoísmo colocar uma criança no meu colo. Quero dizer, olhe para mim. Eu não combino com bebês. Hanna também conhece um lugar numa cidade trouxa, onde abrigam adolescentes grávidas e solteiras na gestação.
– Você vai para lá?
– Mês que vem, eu acho.
– Porra.
– Nem me fale de porra – Amber soou brava.
– Olha, Dimitre ainda não respondeu, não deu nem sinal de vida?
Ela fez que não.
– Não estou esperando isso, Scorpius.
– O cara perdeu um espermatozóide no seu útero e ele vai ter que vir buscar e sofrer as conseqüências por isso.
Amber sorriu.
– Está querendo me fazer sentir melhor? – ergueu uma sobrancelha.
– Eu não sou assim, você sabe.
– Sua namorada definitivamente é. Ela podia achar que você me engravidou, mas insistiu em dizer que tudo ia ficar bem, enquanto eu vomitava. Se fosse uma das minhas amigas, com certeza teria fugido de nojo. Minhas ex-amigas. De repente todo mundo começa a achar que gravidez é uma doença sexualmente transmissível e tenta sair de perto.
Pousei a mão em seu ombro, um contato nada sexual, apenas amigável. Um contato que eu nunca faria com ela se fosse há um ou dois anos. Algumas coisas mudaram. Eu não soube exatamente o que dizer, mas queria que ela soubesse que eu não era um covarde que saía de perto dos meus amigos. De algum modo, Amber pareceu me entender. Não tentei sair de perto.
– Obrigada – ela disse. – Você era a última pessoa que eu acharia que…
– Você era a última pessoa que eu pensei que veria transando com meu primo.
– A Weasley é a última pessoa. Ela definitivamente nunca vai ser uma vadia. Você não merece mais vadias na sua vida, Malfoy.
Exatamente no momento que ela disse isso, ouvimos vozes se aproximando do corredor. Era a voz do pai de Rose e de Rose. Os dois pareciam estar... discutindo. Esperei que eles aparecessem, mas notei que eles tinham parado de andar quando pude me encostar à parede, ao lado de Amber, e ouvir a conversa que os dois julgavam não estar sendo escutada por ninguém.
– Querida, eu não vim aqui para palpitar em sua vida amorosa.
– Mas aproveitando que você está aqui... – Rose adivinhou.
– Tem certeza, filha? Quero dizer, Scorpius Malfoy...
– Pai, por favor, não diga nada sobre ele. O senhor nunca o conheceu.
– Mas eu não gosto desse relacionamento e você sabe disso. E você insistiu.
– Insisti? Claro que insisti. É o que eu quero.
– Tem certeza?
– O senhor me conhece, pai. Eu só faço uma coisa quando tenho certeza do que quero.
– Algo que definitivamente você não herdou de mim.
– Dê a ele uma chance. Não faça nada drástico, pai.
– Eu fiz alguma coisa drástica? Você se atrasou para a minha palestra e veio agarrando a mão dele com o cabelo todo despenteado. Não era essa a Rose Weasley que eu deixei na estação Kings Cross há seis anos. Mesmo assim, não fiz nada drástico!
– Há seis anos, papai. Muitas coisas mudaram em seis anos!
– Não é um tempo muito grande para um pai, acredite. Estou perdendo seu crescimento. Só passo o tempo com você duas vezes ao ano. Sinto que não sou mais o único cara que faz parte da sua vida. Sinto que ele vai roubar sua atenção de mim agora. Na verdade, já está roubando.
Não era precisa vê-la para saber que ela estava sorrindo ao garantir ao sr. Weasley, com uma voz doce:
– Ninguém vai roubar minha atenção do senhor. Sempre será meu pai e o cara que me levava para pescar nas férias. Ainda vou querer pescar!
– Você gosta mesmo desse rapaz, não? Está aí, defendendo-o e querendo fazer com que eu me sinta bem. Vou ter uma conversa com esse rapaz.
– Vai se decepcionar, papai. Ele não é nada do que o senhor quer que ele seja.
– E onde ele fica? Chame-o para mim, está bem? Diga que estou esperando falar com ele perto do saguão de entrada. Preciso voltar para casa então peça para ele não se atrasar.
Depois de dizer aquilo com a voz rígida, ouvi os passos do sr. Weasley se afastando. Ia olhar para Amber, mas Amber já tinha sumido. Quando tive certeza de que o sr. Weasley já estava um pouco longe para me ver, revelei-me no corredor onde Rose estava. Beijei sua boca rapidamente e ela murmurou no meu ouvido, como se tivéssemos combinado tudo:
– Só não insinue que você já me viu pelada, pelo amor de Deus.
Apenas sorri, demonstrando-me tranqüilo, e me afastei na mesma direção do sr. Weasley logo no final do corredor. Com uma determinação que eu me obriguei a ter, ajeitei minha gravata da Sonserina e meu cabelo loiro que diziam ser parecido com o do meu pai. Eu estava olhando para a nuca do sr. Weasley. Os cabelos ruivos, como os da garota por quem me apaixonei. Isso soou patético, mas nada nunca foi menos patético.
– Sr. Weasley – chamei com uma voz que tive quase certeza que não era a minha. Quando ele parou e se virou para mim, fui imprevisível: – Eu quero falar com o senhor.
Não era exatamente isso o que quis dizer. Devo ter dado uma impressão superior e eu não tinha moral para ser superior com um dos bruxos mais importantes da estória. Quis ter falado outra coisa, mas aquela era a verdade. Talvez eu realmente quisesse conversar com ele mais do que ele comigo.
– Não comece elogiando minha palestra – mandou. Eu cheguei mais perto e finalmente nos encaramos. – Isso vai soar forçado demais.
– Não é o que pretendo.
– Ótimo. E o que pretende dizer a mim? Veio pedir permissão para namorar minha filha?
– Não, porque sei que não vai aceitar, mas não pretendo me afastar dela por isso. O senhor acha que ela não é digna de alguém que carrega o sobrenome que tenho. Ou o senhor apenas acha que eu não sou digno de quem carrega o seusobrenome.
– Não entendi nada do que disse – ele soou desentendido, bravo, ressentido. Eu havia dormido com sua filha, afinal de contas.
– A questão é que... o senhor acha que meu pai ainda é o Comensal da Morte que ele foi antigamente. E o senhor está tirando conclusões sobre mim através disso, o que não me parece justo. O senhor nem ao menos olha para a minha cara.
– Você me traz más lembranças. É a cara do seu pai.
– Eu não sou desprezível. Meu pai também não é. E eu não digo isso porque ele é o meu pai. Eu digo pois eu vejo isso. Fui ensinado a ver isso. Desde pequeno, minhamãe sempre me ensinou a verdade, ela nunca mentiu a mim só para eu achar que as coisas são perfeitas. Elas não são. Eu sei que minha família já fez muitas outras famílias sofrerem, mas o senhor realmente acredita que eles são orgulhosos disso? Minha avó teve que tomar antidepressivos. Meu avô foi preso para mostrar que estava arrependido.
– Garoto – o sr. Weasley me interrompeu. – Não é dizendo essas coisas da sua família que vai me deixar satisfeito sabendo que está com Rose.
– Eu não espero te deixar satisfeito. Só estou mostrando o que eu sou e eu não pretendo mentir ou fingir sobre isso. Apesar do que falam, eu tenho orgulho de ser um Malfoy. Não vou mudar isso só para ser bem visto pelo pai da minha namorada. Eu...
O sr. Weasley não parecia bravo.
– Eu entendi isso, Malfoy – respondeu. – Eu nunca vou gostar de você. Mas não porque você é o filho de um cara que foi meu inimigo. É porque você é o cara da boca que minha filha gosta de beijar.
Eu pisquei algumas vezes, com a postura ereta.
– Achei que isso tivesse a ver com o meu nome.
– Não, isso é só uma desculpa. A verdade é que isso tem a ver comigo, mais ninguém. Eu sou assim. Eu nunca vou aceitar você, nunca vou gostar de você, nunca vamos nos dar bem, entendeu? Eu tenho que conseguir me vingar se você magoá-la, e se nos déssemos bem, isso seria difícil. – Ele deu um passo na minha direção, com o rosto frio em seriedade quando apontou o dedo para o meu peito: – Então vê se não faz nenhuma merda com ela. Se não eu te faço ficar na merda. Você deve ter prestado atenção na minha palestra, ouviu as coisas que eu fiz. E eu tenho outra varinha reservada só para dar lição em garotos como você. Boa tarde.
Dizendo isso, o sr. Weasley não esperou por nenhuma palavra minha – ainda bem, porque eu estava sem palavras – e girou os calcanhares. Deu dois passos, mas voltou para dizer ainda mais bravo, só que, de algum modo, menos pessoal:
– E sinta-se ameaçado, Malfoy!
Fiquei parado onde eu estava, até ele desaparecer de vista. Falei tudo aquilo sobre minha família para ele, acreditando realmente que o problema era esse. Mas não. O problema era o sr. Weasley. Ele não queria abrir mão de sua filha para nenhum garoto.
Voltei e encontrei Rose encostada a parede, brincando com um feitiço. Ela me olhou preocupada quando me aproximei.
– E aí?
Olhei para o chão, ainda meio surpreso com a conversa que tive com seu pai. Não houve muito diálogo, mas foi revelador. As coisas que eu disse, a minha determinação para continuar com essa garota, sem me importar com nada do que iam dizer sobre isso.
– Não vamos ser os melhores amigos – eu contei. – Mas isso era esperado.
– O que ele disse a você?
– Engraçado. Se eu disser que amo você agora, não vai ser justo. Nada se compara ao que ao seu pai tem por você, Rose. Ele se preocupa bastante. Não disse que não podemos ficar juntos ou que vai nos impedir. Ele disse que me odeia, mas ele não disse para que eu ficasse longe de você. Às vezes o que a gente não fala significa muita coisa.
Ela enrolou os braços ao meu redor e me beijou com força, os lábios esticados em um sorriso. Foi um beijo que eu soube definir como apaixonado ou algo assim, mesmo que nem houvesse toque de língua nesse. Apertei a cintura dela, esperando aprofundar o beijo, mas ela me soltou:
– Agora eu tenho que dar um abraço no meu pai. Se não, você sabe, ele fica com ciúmes.
– Vai lá – soltei a mão dela. Ela sorriu antes de atravessar o corredor meio que correndo para conseguir alcançar o sr. Weasley.
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