Borboletas do Arco-Íris
39 Fluttershy - A Volta
Notas iniciais
...1 MÊS DEPOIS...
Sinto o vento bater forte contra meu corpo, enquanto os lábios macios de Rainbow me beijavam intensamente. Embora tivesse uma vaga consciência de onde estávamos, suas mãos que passeavam livremente sobre meu corpo me faziam não pensar em outra coisa senão nela. Aqueles dias haviam sido duros demais conosco.
Ela separa nossos lábios apenas para tirar minha blusa, antes de voltar a me beijar com a mesma intensidade. Sinto suas mãos em minhas costas, trabalhando para tirar meu sutiã. Embora estivesse com certa dificuldade, tamanho era seu desespero. Depois de muito custo, finalmente sinto o tecido afrouxar em meu corpo e ser retirado de meu corpo.
Sinto meus seios expostos, meus mamilos roçando em sua camisa de algodão azul, fazendo-me soltar pequenos gemidinhos de antecipação. Rainbow desce para meu pescoço, trabalhando nele de forma sensual, fazendo choques de prazer passear por todo o meu corpo.
O vento ainda batia veloz em nossos corpos, mas nada mais importava. Rainbow abre o zíper de minha calça e dá um passo para trás, para analisar seu trabalho. Imediatamente sinto frio, sinto-me exposta. Lá embaixo, no vale, tudo era colorido, como a mãe natureza planejou que fosse.
Não havia ninguém por perto, mas ainda sim eu sentia que a qualquer momento alguém chegaria e veria o que estávamos aprontando ali. Rainbow sorri para mim, maliciosa, fazendo os pelos de meu corpo eriçarem mais, se é que era possível. Seus olhos cor-de-rosa brilhavam para mim, me olhando com um amor puro e verdadeiro, o qual ninguém jamais me olhara.
De repente, um som de algo derrapando. Baixinho, que eu teria ignorado, não fosse o fato de que Rainbow tentava agarrar meu braço, e seu rosto mostrava desespero. Tento agarrar sua mão, mas estamos longe demais.
Onde estávamos com a cabeça? Fazer sexo na beira de um precipício? Que ideia mais ridícula...
E percebi isso tarde demais, quando sua mão escapa, centímetros da minha, e ela cai naquela imensidão colorida. Algo em minha mente diz que devo pular para resgata-la, e meu corpo se move involuntariamente. Eu pulo para busca-la, mesmo isso não adiantando nada no fim.
Pelo menos, se eu morresse, eu saberia que fui amada até o último segundo, e que eu morri com alguém que eu amo. Embora eu não tenha escolhido isso, eu sabia que nós, meros seres humanos, jamais escolhíamos nosso próprio destino. Ou nossa própria morte.
Ainda sentindo o vento passar rapidamente por meus cabelos e atingir-me com força, abro meus olhos. Vejo Rainbow, logo abaixo, gritando desesperada, e me olhando, com lágrimas nos olhos. Sinto um comichão em minhas costas, e imagino que se eu tivesse asas, nada disso estaria acontecendo. Eu não a perderia, muito menos morreria com essa queda.
Sinto um barulho de algo macio se abrindo contra o vento, e me esforço para olhar para trás. Há um par de asas brotando de minhas costas, com penas macias e amareladas. Penso então que morrerei louca, mas vejo a expressão maravilhada de Rainbow. Seria isso real?
Tento movimentar minhas asas e sinto-as batendo, mas não paro de cair. Olho para Rainbow, que agora também tem um par de asas, porém azuladas. Tento pegar impulso e parar a queda, enquanto Rainbow também o faz. Conseguimos diminuir a velocidade o suficiente para segurar nossas mãos, mas a queda não cessa.
Desesperadas, tentamos bater as asas, mas em vão. O chão se aproxima agora, um amontoado de terra vermelha batida, esperando por nossos corpos, preparando nossa morte. Temos asas, mas não voamos. Somos como aves inúteis que ainda não sabem enfrentar a vida. O chão está cada vez mais perto, e estamos prestes a bater.
Olho para Rainbow, que sorri terna, e seus lábios se movem, dizendo silenciosamente: Eu te amo. No último segundo, dou um pulo em minha cama.
Olho em volta, assustada. Estou em meu quarto, no escuro, e isso indica que tudo não passara de um sonho. Estou suando frio, e sinto minha intimidade melada. É um misto de sentimentos: medo, tristeza, excitação, ansiedade. Olho pela janela e vejo que o sol já começa a nascer no horizonte.
Levanto-me, ainda tremendo um pouco pelo susto. Uma sensação horrível toma conta de meu corpo, e meu coração ainda está disparado. Desço as escadas, dirigindo-me a cozinha e pegando um copo de água gelada para beber.
Olho no relógio em cima do balcão da cozinha, o qual mostrava também que dia era hoje. Suspiro aliviada. Finalmente, o grande dia.
Rainbow passara a última semana viajando com os pais pela Austrália. Meu coração estava apertado, ansioso pelo momento em que eu a veria novamente, e pudesse finalmente abraça-la e senti-la comigo. Aquela semana tinha sido uma tortura, embora eu falasse com ela o tempo todo pelo celular.
– Já acordada, filha? — ouço a voz de minha mãe e me viro.
– Sim, eu tive um pesadelo — digo.
– Oh, borboletinha, você está bem? — pergunta ela, seu cenho franzido em preocupação.
– Sim, nada demais. Na verdade, estou feliz. Rainbow volta hoje e...
– O QUÊ? — pergunta ela assustada, checando o relógio que eu checara a minutos atrás. — Meu deus! Por que não me avisou, Flutter? E agora?
– Qual o problema? — pergunto confusa.
– Ora essa! Estava planejando uma festa de boas-vindas pra ela. Não vá me dizer que você não pensou em nada disso?
– Mas mãe, ela só foi viajar por uma semana.
– E tem coisa melhor do que você chegar de viagem e se sentir amada? Até conversei com aquela sua amiga animadinha, Pinkie Pie...
– E ninguém me disse nada?
– Desculpe, achei que alguém houvesse dito — diz ela sinceramente culpada — Mas não achei que seria hoje, me esqueci completamente!
– Calma mãe, se a Pinkie estava te ajudando, tenho certeza que ela não esqueceu. E inclusive deve estar tudo pronto.
Neste momento, a campainha toca, a melodia inundando o ambiente.
– Eu atendo — digo, me dirigindo até a porta.
Assim que abro a porta, uma chuva de confetes cai sobre mim, e Pinkie sorri animada.
– É HOJE QUE ELA VOLTA! — diz ela pulando para dentro de minha casa.
– Não falei? — murmuro para mim mesma, fechando a porta e a seguindo.
Pinkie saltita até minha mãe, dando-lhe um beijo no rosto e em seguida saltita para se sentar em uma cadeira ao seu lado. Ela sobe e desce sua perna direita, rapidamente, mexendo-se freneticamente. Muita energia pra quem acaba de invadir a casa dos outros 6:00 da manhã.
– Eu já pensei em tudo! — ela pega um papel enorme e o estica sobre a mesa, começando a explicar os detalhes da festa para minha mãe.
– Não é muito cedo para já estarem planejando uma festa? — digo apontando para o relógio.
– Que nada, eu nem dormi para deixar tudo pronto — responde Pinkie.
Minha mãe assente, o orgulho brilhando em seus olhos. Ela presta a atenção em cada palavra que Pinkie diz, opinando aqui e acolá. A campainha toca novamente e eu vou atender.
– Desculpa o atraso querida — diz Rarity tirando os óculos de sol e guardando em sua bolsa. Ela me olha apavorada — Mas porque ainda está de pijama?
– Atraso para o quê? — pergunto confusa.
– Ora, como assim? — Apple surge atrás de Rarity — Você esqueceu?
– Estão falando da festa de boas-vindas da Rainbow? — pergunto, ligando os pontos.
– Lógico querida — diz Rarity como se fosse óbvio.
– Pois é, eu acabo de ficar sabendo disso, já que ninguém me comunicou. — digo emburrada.
– Achei que a Rarity tivesse dito — diz Apple confusa.
– Mas eu achei que sua mãe tivesse dito. — se defende Rarity.
– Ninguém me disse — digo revirando os olhos — Entrem.
...HORAS DEPOIS...
Mais tarde, Twilight e Sunset chegaram para nos ajudar. Estávamos apenas dando os toques finais na festa que, na minha opinião, estava luxuosa demais para uma pessoa que estava apenas chegando de viagem. Estava ajudando Pinkie a ajustar seu canhão de festa na melhor posição para quando Rainbow entrasse, quando uma tontura me assola.
– Flutter, você tá bem?
Não consigo formular uma frase, pois minha cabeça dói fortemente. Sinto minha visão escurecer lentamente, e vozes distantes falam em todos os lugares. Mais alto que as vozes, ouço o som de um carro derrapando no asfalto, buzinas e gritarias. Antes que pudesse entender de onde esses sons vêm, apago completamente.
...DEPOIS...
– Oh, ela está acordando. — ouço a voz da Rarity.
Abro lentamente os olhos, com muito esforço, pois minhas pálpebras parecem ser feitas de chumbo. Embora a visão embaçada, enxergo vários rostos me observando com curiosidade. Quando minha visão clareia, percebo que estou deitada em minha cama, e todas as minhas amigas me olham, sentadas em cadeiras em volta da minha cama. Todas estão preocupadas e com uma expressão culpada.
– Você tá bem, docinho? — pergunta Apple.
– Você nos deu um susto! — afirma Pinkie.
– Eu... Tô bem. Não sei, me deu uma tontura de repente... Mas estou bem — digo, embora minha cabeça esteja prestes a explodir.
– Ah, que bom. — diz Rarity, embora pareça sem graça.
– O que foi? — pergunto incerta — A Rainbow já chegou?
Todas desviam o olhar, envergonhadas demais para dizer algo.
– O que aconteceu? Cadê a Rainbow?
Olho no relógio. Já era tarde, passava das 20:30, o que significa que passei cerca de 2 ou 3 horas desmaiada. O que é estranho, já que Rainbow chegaria cerca de 18:30. Começo a me levantar, mas a tontura me assola.
– Cadê ela? — insisto.
Rarity me empurra suavemente de volta para a cama.
– Se acalma — adverte ela.
Me deito, mas continuo a olha-la em desespero.
– Mas o que aconteceu?
– Flutter... — diz Apple suavemente.
– A Rainbow... Hum... — tenta continuar Sunset, mas ela se detém.
– O que tem ela? O que aconteceu? — insisto.
– Ela se acidentou, Flutter — diz Rarity finalmente — No trânsito, vindo pra cá.
O chão se abre abaixo de meus pés, e parece que estou de volta a meu pesadelo. Parece que estou novamente caindo do precipício, sem jamais conseguir bater minhas asas e salvar o amor da minha vida.
– Talvez não seja tão grave — diz Twilight, mas sou incapaz de responder.
Só percebo que estou chorando, quando Rarity seca uma lágrima e Apple me oferece um copo d'água. Tento beber, mas os soluços me vêm com força e não consigo beber a água. Mil coisas se passam pela minha cabeça. E se eu a perder?
...NO DIA SEGUINTE...
Somente no dia seguinte que liberam a visita no hospital. Segundo o médico que a atendeu, Rainbow estava sem cinto e voou alguns metros de onde o carro bateu. Disse que por um milagre ela sobreviveu, porém a lesão na cabeça fora muito forte, e que provavelmente traria algumas sequelas. Parece que ela não ficou tão ruim, pois já estava acordada e pronta para receber visitas.
Os pais de Rainbow saíram praticamente ilesos, com poucos ferimentos, não tão graves quanto o dela. Estavam ali, no mesmo hospital que ela, abertos a visitação desde a noite anterior, porém tudo o que eu queria era ver Rainbow. Eu não teria estrutura para encarar ninguém que não fosse ela.
Eu acredito em Deus, porém não sou muito de frequentar igrejas, agora que vovó morreu. Antigamente costumava frequenta-las diariamente para acompanha-la, mas depois da sua missa de sétimo dia, não me lembro de ter ido a uma igreja novamente.
Porém, isso não me impedia de rezar com todas as minhas forças para Ele. Ele ou qualquer outra divindade acima de mim que pudesse proteger Rainbow, que pudesse fazer com que ela se recuperasse rapidamente e ainda pudesse ser a mesma Rainbow, sem nenhuma marca deste acidente tão trágico.
Eu estava horrível: Descabelada de tanto puxar os cabelos e bagunça-los, em uma tentativa de aplacar minha preocupação; com olheiras, da noite em claro; os olhos inchados, de tanto chorar e chorar; e a garganta dolorida, de tanto soltar soluços e gritos para acabar com minha frustração.
Os minutos em que estivera ali, na sala de espera, me trouxeram agonia como as semanas em que passei longe dela. E ali, quando a dor da saudade deveria ser substituída pela alegria de tê-la comigo, foi na verdade preenchida pela preocupação de não tê-la ao meu lado, livre e feliz como sempre fora.
– Senhorita Shy? — pergunta o médico dela, chamando minha atenção.
– Pois não?
– A senhorita Dash pode receber visitas agora.
Me levanto num supetão, assustando-o brevemente com minha pressa.
– Boa sorte querida — diz Rarity num tom baixo.
Assinto com a cabeça e sigo o médico hospital a dentro, andando em um labirinto branco, cheios de portas de quartos, mas nenhum o dela. Depois do que pareceu uma eternidade, ele finalmente parou em frente a uma porta, de número 203. Aquela porta branca parecia minha porta do paraíso, pois quando se abrisse, eu poderia abraça-la, e sentir que estava viva, ali, só para mim.
– Ela está em boas condições agora — afirma ele — Muito melhor do que qualquer um que sofresse uma lesão dessas. No momento, não conseguimos detectar nenhuma sequela, mas devemos ficar atentos. Qualquer problema aperte o número 1 do telefone no quarto, ele dá direto para a enfermeira.
Assinto com a cabeça. Ele se despede e se afasta. Respiro fundo, meu coração palpitando de ansiedade para vê-la e abraça-la. Giro a maçaneta e entro no quarto.
Rainbow estava deitada numa cama de hospital, seus cabelos coloridos espalhados sobre o travesseiro de fronha branca. Enrolada em sua cabeça, havia uma gaze com pequenos pontos vermelhos de seu sangue. Mesmo assim, pálida e com olheiras, o olhar curioso e cansado, o sorriso fraco, ela está linda. Tento segurar minhas lágrimas de emoção, pensando no que dizer. "Eu te amo"? "Senti tanto sua falta"? "Estive preocupada com você"? Ou um simples "Oi"?
Porém, antes que eu diga qualquer coisa, ela faz sua observação que quebra meu coração em mil pedacinhos que serão quase impossíveis de juntar:
– Você não é uma enfermeira. Quem é você?
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