Borboleta Negra

1 Capítulo único


Notas iniciais
Ficou meio comprido, mas não vi motivos para dividí-lo, então deixei como estava mesmo.



O mundo não é feito unicamente de rosas, assim como a vida também não é constituída unicamente de sorrisos. Esses lamentos que ecoam em minha mente, tamparam meus olhos, e já não me permitem ver as rosas através dos espinhos, ou os sorrisos, através das lágrimas.

Tão jovem, e ainda assim, já sem muitas esperanças que me restem. Por vezes, desisti de pensar sobre o meu futuro. Por vezes, achei que este talvez nem mesmo chegasse a existir. No entanto, prosseguindo, dia após noite, noites após dias, esperando que o amanhã me trouxesse a paz que procuro. Quão doces são as ilusões? O amanhã não trás nada, se não uma nova chance. E é de chances não aproveitadas que eu vivo estes dias.

. . .

Uma voz de criança tirou-me de meus devaneios. Tão doce, inocente. É assim que deveriam ser todas elas, eu penso, pois estes pequenos seres ainda têm um período tão curto de vida. São, em sua natureza, puros, até que a sociedade os corrompe. Tão simples, tão inevitável. Se olhar nos olhos de um adulto, por mais disfarçadas que sejam, aninham-se ali um jorro de mentiras, enxurrada de ilusões. As verdades? Quando não as corrompem, talvez as guardem em seus corações. Se procura a verdade em um olhar, procure então o coração
através dele.

Se, no entanto, olhar nos olhos de uma criança, o mais superficial que for, verá apenas o que é sincero. Mesmo que suas palavras o neguem, seu olhar não o negará. Talvez seja por isso que todas elas são assim, demasiado ingênuas. Seus olhos sinceros, suprimidos de verdade, não enxergam as mentiras do mundo. Se enxergam, não as sentem.

– Você viu?

– Vi o quê?

– Aquela borboleta negra?

– Acho que não.

– Pode me ajudar a procurar por ela?

– Talvez, se me prometer algo em troca.

– Qualquer coisa!

– Certo, então vamos procurar pela sua borboleta.

Levantei-me do banco no qual até então estava sentada. Já era o fim daquela tarde ensolarada, e todo o parque estava tingido de laranja. As nuvens cor de pêssego formavam figuras desconexas no céu, e uma leve brisa movimentava as folhas das árvores. Fixei meu olhar no garotinho ao meu lado. Devia ter por volta de seus sete anos. Um olhar determinado e um sorriso largo estavam fixados em seus rosto, como se nada e nem ninguém pudessem removê-los dali. Se eu pudesse ver através das pessoas, tenho certeza de que a alma dele seria uma das mais belas que já vi.

– Por que está atrás dessa borboleta?

– Minha mãe me disse uma vez, que quando alguém vê uma borboleta negra, é porque sua morte está próxima.

– Então para que gostaria de vê-la?

– Moça, você não entende? Eu quero prendê-la em algum lugar, longe de todos os que eu amo, para que eles nunca a vejam.

Ah como essas inocência e ingenuidade me ferem e me alegram,
simultaneamente. Um sentimento nobre para alguém tão novo. Algo que falta até mesmo àqueles que se dizem “maduros”. Enquanto bombas e armas são feitas aos milhares para dizimarem nações inteiras por motivos tão banais, um garotinho segue em busca de uma borboleta para proteger as vidas daqueles que ama. Se isso fosse mesmo verdade, se bastasse esconder uma simples borboleta para salvar a vida dessa gente, tenho minhas dúvidas se o faria. Essa humanidade vale mesmo o esforço?

– É esta aqui? – Perguntei ao ver um par de asas negras cintilantes
passar ao lado de minha cabeça.

– Onde?

– Bem ali. – Apontei quando ela já estava a uma certa distância.

– Sim! É aquela sim!

Um sorriso estendeu-se no rosto de ambos e começamos a correr em direção a ela. Ele erguia suas mãos para o alto, preparando-se para o momento em que iria tê-la ao alcance. Eu apenas corria, observando-o dar o melhor de si. Aquela “luta” era dele, não minha. As outras crianças que estavam em volta viram-nos correndo aparentemente sem rumo e, imagino se por diversão ou curiosidade, juntaram-se a nós.

A borboleta estava ao alcance de minhas mãos, se as estendesse, mas para aquele pequenino não seria fácil de pegar, e ele havia percebido isso. Correu sem hesitar se quer um segundo, e quando avistou um banco mais à frente, saltou para ele, percorreu toda a sua extensão, com o olhar fixo em seu objetivo, e finalmente pulou, mãos estendidas, olhar determinado, e aquele sorriso que não abandonava o seu semblante.

– Peguei! – Gritou com todo seu fôlego, ainda suspenso no ar. Não demorou muito, e eu o vi estendido no chão, com os joelhos ralados devido à queda. Corri para ajudá-lo a se levantar, seus machucados não haviam sido sérios.

– Você está bem? – Perguntei, limpando suas roupas que haviam se sujado de areia.

– Sim. Eu consegui! Veja. – Estendeu suas mãos para mim, em forma de concha, e só então pude perceber que, mesmo apesar da queda, ele não soltou aquela borboleta em momento algum. Olhei em volta, as outras crianças pareciam estar surpresas com a atitude daquele garoto, assim como eu também estava. Sorri para ele, e ele me retribuiu.

– E então, o que eu devo fazer em troca? – Perguntou com aquele olhar sincero de quem cumpre uma promessa.

Abaixei-me e fiquei de joelhos, para olhar diretamente em seus olhos. Limpei o resto da areia que também estava em seu cabelo e por fim falei.

– Aconteça o que acontecer, não permita que esse sorriso fuja de seu rosto um dia, está bem?

Ele me encarou sem entender o real significado daquelas palavras, mas assentiu e sorriu, uma última vez, antes de ir embora com sua borboleta negra entre as mãos. É um pouco melancólico, não é? A infância é um período tão curto da vida, e penso que, somente nela, pode-se sorrir sem culpa nenhuma. Sorrir pelo momento de agora, sem lembrar das lágrimas de ontem, ou mesmo das adversidades que o amanhã trará.

Se eu pudesse ser novamente ingênua dessa forma, como uma criança, certamente seria mais feliz. No entanto, uma felicidade que não pode enxergar mentiras, hora ou outra irá te ferir. Se eu pudesse voltar no tempo, eu percorreria o mundo inteiro em busca dessas borboletas negras. Eu juro que o faria, se isso impedisse o acaso de tirar todos os que eu amava de mim. Continuei andando por aquelas ruas empoeiradas, ouvindo buzinas de carros ao fundo, abafadas por meus devaneios. Não sei dizer ao certo quanto tempo passei apenas vagando, pois minha rotina é sempre esta, todos os dias, e meus olhos já não medem mais distâncias, assim como meus pés também não contam mais meus passos.

Quando estava próxima a um cruzamento, avistei algumas pessoas formando um semi-círculo em volta de algo. Imaginei que fosse algum acidente, como os inúmeros que acontecem todos os dias, muitas vezes por imprudência dessas pessoas egocêntricas. Me aproximei do local, apenas o suficiente para saber quem havia sido dessa vez. Alguém que faria falta, não para o mundo, mas para outras pessoas, que até o momento poderiam estar passeando por ai, cantando, se divertindo, chorando, ou mesmo lendo palavras de uma história qualquer. Não vou saber dizer. O que sei, é que naquele momento, certamente alguém iria pegar seu celular , discar rapidamente números e mais números, e espalhar aquela notícia o mais rápido possível.

Ela iria correr de boca em boca, iria machucar alguns ouvidos, até parar na pessoa em que, sem piedade alguma, ela atingiria em cheio. Então uma mãe, que até o momento poderia estar preparando o jantar para seu filho, iria se culpar pelo resto de sua vida por ter contado uma história boba de uma borboleta negra para ele, e tê-lo feito sair de casa naquela tarde, em busca dela. Mas não a culpem, assim como eu também não a culparei. Ela não poderia adivinhar que, justo hoje, haveria um motorista apressado para levar sua esposa prestes a dar a luz ao hospital, que iria, sem intenção alguma, dar um fim à vida de seu filho. Nunca prevemos o futuro afinal.

Abaixei a cabeça para seguir andando, deixando aquela multidão para trás, e toda a história por detrás dela. Novamente não vou poder contar-lhes o quanto andei. A única coisa que poderei dizer, é que não demorou muito para que eu visse dois feixes de luz avançando em minha direção, rapidamente. Acho que era um carro, não sei ao certo. Não lembro de muita coisa depois disso. Lembro apenas de ter minha cabeça girando, provavelmente pelo medo, antes de ser atingida e jogada à metros e metros de distância. A dor percorreu por todo o meu corpo, cada centímetro dele, e antes que meu coração parasse de bater, meus olhos puderam enxergar um pequeno rastro de algo se movendo. Um par de asas negras cintilantes batendo no ar.

Notas finais
Bem, é isso, apenas mais uma oneshot. Obrigada por terem lido.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!